AVENTURA
O Trilheiro
Guilherme Cavallari leva a vida numa bike e lança guia dos melhores passeios
Assim que vêem uma bicicleta sair da garagem, os labradores “Clara” e “Pluto” abanam o rabo, correm para o portão e se aboletam no porta-malas do Land Rover. Vai começar mais uma jornada de aventuras na vida de Guilherme Cavallari, 38 anos, ciclista, professor de inglês e dono dos cachorros. A dedicação às bikes é antiga. Cavallari já fez entregas sobre duas rodas em Londres e Berlim. Pedalava 100 quilômetros por dia e até participou de uma corrida só para mensageiros. Hoje, em vez de andar em grandes cidades, prefere trilhas de terra, mais tranqüilas. Ele reuniu os roteiros dos melhores passeios que fez nos cinco anos, sempre na companhia de “Clara” e “Pluto”, em um guia que acaba de ser lançado. São 25 percursos, em quinze destinos perto da capital (a maioria fica a menos de 100 quilômetros). Há trajetos acidentados, na Cantareira e em Alphaville, e outros mais leves, na Serra do Mar, Aldeia da Serra e Paraibuna (veja no quadro o roteiro de Nazaré Paulista). O menor tem 4 quilômetros. Os maiores são verdadeiras provas de resistência, com mais de 80 quilômetros. “Servem tanto para pais que queiram pedalar com as crianças como para mountain bikers experientes”, diz Cavallari, que nos últimos anos ganhou cerca de 130.000 reais com patrocínios para suas aventuras e descobertas de trilhas.
É claro que ele se encaixa no time dos viciados em bicicleta: pedala de duas a três horas por dia. Nos finais de semana, fica ainda mais tempo no selim. E, quando está envolvido em alguma expedição, perde os limites. Certa vez, participou de uma competição de doze horas, dando voltas em um circuito cheio de degraus, com 6 quilômetros. Resultado: dezoito voltas, quatro tombos, joelhos, canelas e cotovelo ralados, um dedo machucado, tonturas, enjôos. Para Cavallari, os obstáculos não eram difíceis. O problema foi correr à noite, com a lanterna quebrada. Ele achou tudo uma delícia e acrescentou esse trajeto em seu guia. “Foi um dos mais divertidos e gostosos que já corri”, conta. Fica no Centro Municipal de Campismo (Cemucam), na altura do quilômetro 25 da Raposo Tavares, e é considerado de dificuldade média.
O mais novo desafio do trilheiro é ir de bicicleta até Teresópolis, no Rio de Janeiro, pelo percurso mais longo. São cerca de 900 quilômetros, a partir de São Paulo, quase o dobro do caminho convencional, passando ao largo das grandes rodovias e com paradas nas cidadezinhas do caminho. Saiu no dia 1°, montado em sua Tandem, bicicleta dupla que divide com um alpinista, companheiro de viagem. A bagagem vai num carrinho preso atrás da bike. Nos períodos de descanso, se se pode chamar assim, os dois pretendem fazer escaladas, rafting, rapel, canyonig e bóia-cross. Já deu para notar que Cavallari é um caso especial de paixão pela aventura. Mas ciclistas e férias ou de fim de semana também podem seguir a maioria de seus roteiros. Ele indica, basicamente, lugares tranqüilos e silenciosos, em que se pode apreciar a natureza, tomar banho de cachoeira, nadar em represas e curtir um belo piquenique campestre.
Cavallari chega a esses lugares dirigindo um jipe superequipado – rack para quatro bikes, duas caixas de ferramentas, pneus extras –, com sapatilhas especiais que encaixam nos pedais, luvas, bermuda de Lycra e outros apetrechos. Mesmo sem tanto aparatos, o passeio acontece numa boa. As trilhas podem ser alcançadas com carro 1.0. Indispensáveis mesmo são roupas confortáveis, tênis, garrafinhas dágua, protetor solar, repelente e capacete. Além de saber trocar uma câmara de pneu, ajustar os freios e limpar a corrente.
Pedaladas com a turma
Alguns sites que organizam passeios em grupo:
O www.bikemagazine.com.br oferece um roteiro de 37 quilômetros por Nazaré Paulista no dia 21 de outubro e outro de 30 quilômetros por Campinas e Jaguariúna no dia 11 de novembro, 50 reais, incluindo almoço. (19) 3233.1107
O www.sampabikers.com.br promove pedaladas noturnas todas as quartas. Para participar, é preciso comprar uma camiseta (10 reais). Nos fins de semana, há excursões de um ou dois dias. (11) 5183.9477
No www.vianatura.com.br, ciclistas poderão combinar passeios e trocar informações sobre as trilhas do guia.
Como consegui vencer 18 quilômetros
Lúcia Monteiro
A trilha de Nazaré Paulista, que circula a represa do Rio Atibainha, um dos passeios sugeridos por Guilherme Cavallari, é ideal para quem gosta de pedalar mas não chega ser um ás das magrelas. Como boa parte do trajeto é plana, dá até para olhar a paisagem, com Jet-skis, caiaques, lanchas e pescadores nas margens. Há, também, alguns downhills, ou descidas íngremes, em que a bicicleta ganha velocidade e o piloto sente um friozinho na barriga. O fotógrafo Leo Feltran e eu saímos invictos dessas ladeiras. Mais difícil foi atravessar os uphills, ou seja, as subidonas, Quando se está cansado, elas parecem intermináveis. Os últimos quilômetros custam a passar e o trecho de asfalto, de cerca de 1 quilômetro, é mais monótono. Meu único acidente foi um tombo. Quis continuar correndo, apesar das poças dágua e do barro em uma parte da trilha. Não me machuquei, mas minha bermuda ficou encharcada de lama. O visual continuou o máximo – ora mata fechada e trilha estreita, ora casinhas perdidas. A visão da cachoeira dá ânimo na metade do trajeto. No final, só me arrependi de uma coisa: não ter levado um repelente. O esquecimento me custou onze picadas de borrachudo.
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