2008, junho – revista VIDA SIMPLES

1 de junho de 2008

Viagem com emoção

TEXTO Debora Sanches
FOTOS Iara Venanzi

Aventura, suor e energia:viajar de bicicleta é uma opção perfeita para quem busca um contato mais íntimo com cenários e paisagens 

Viajar de bicicleta soa como um desafio difícil de ser vencido. Principalmente quando se pensa em usar a força das próprias pernas para percorrer quilômetros de estrada, carregar bagagem e ainda subir e descer ladeiras. Parece mais complicado, especialmente no Brasil, quando se sabe dos perigos do asfalto. Mas, com o surgimento da mountain bike (em inglês, bicicleta de montanha) nos anos 1990, os ciclistas desbravaram inúmeros caminhos de terra, distantes do tráfego intenso, de norte a sul do país. A superação física é uma das conquistas nessa jornada. Mas são três as maiores recompensas dos apaixonados pela magrela: a sensação de liberdade, o encontro inusitado com o outro e o contato íntimo com as paisagens e seus aromas, climas e cores. “É uma dimensão de espaço e tempo em que não se lida com a seqüência cronológica dos fatos, e sim com a descoberta de significados ao longo do caminho”, diz o psicólogo Alberto de Oliveira Carvalho, de São Paulo. O segredo para a viagem dar certo é se planejar. Fazer exercícios, pensar no roteiro e saber a hora de parar são quesitos básicos para uma boa pedalada.

Por onde começar

Definir um destino não se limita a escolher a paisagem. É preciso se certificar de que há caminhos seguros, longe das auto-estradas, de fácil acesso e sem tantos obstáculos. Por meio dos sites de cicloturismo é possível encontrar sugestões de lugares e contatos de grupos que organizam roteiros e acompanham os ciclistas durante a viagem, garantindo locais para dormir e comer. O melhor é pesquisar muito e conversar com pessoas que já passaram pela experiência de viajar de bike. Para quem não quer nem se preocupar com a bagagem, vale a pena procurar agências especializadas que oferecem um pacote completo, com carro de apoio para carregar as malas.
As poucas agências de viagens adaptadas à cultura da bicicleta sinalizam crescimento no nicho. Na Auroraeco, de São Paulo, cujos roteiros de bicicleta foram implantados em 2002, a procura aumentou 45% de 2006 a 2007. Hoje, além de roteiros do sul da Bahia às serras gaúchas, ela oferece viagens para América Latina, França e Itália. “Somos procurados por quem tem o hábito de pedalar e quer introduzir parceiros e filhos na prática, mas quer poupá-los de ter que carregar peso e dormir em albergues”, diz o consultor Guilherme Padilha.
O cicloturismo é tradição desde o século passado na Europa, onde as primeiras viagens pela França foram feitas em velocípedes de três rodas. Lá surgiu a palavra cicloturismo e foi criada, em 1923, uma das maiores organizações de ciclistas do mundo, a Federação Francesa de Cicloturismo, hoje com 120 mil membros – em 1930, eram 9 mil. Mais antigo ainda, o Cyclists´Touring Club, do Reino Unido, tem 130 anos e 60 mil integrantes. “A bicicleta é o segundo meio de transporte dos europeus, que têm guias de trilhas e asfalto que passam por países inteiros, como a Suíça e a Alemanha”, diz o paulistano Guilherme Cavallari, responsável por mapear 3 mil quilômetros de rotas nos arredores da capital paulista e escrever uma coleção de Guia de Trilhas nos arredores de São Paulo.

Para onde ir

Ao se informar sobre o destino da viagem, é importante checar como estará o clima da região (para evitar dias de chuva e sol em excesso), onde dormir e comer. No Brasil, algumas rotas já são conhecidas por ter belos cenários, hospedagem e caminhos acessíveis à bicicleta. Regiões da Chapada Diamantina, na Bahia, e a dos Veadeiros, em Goiás, têm sido alvo de viagens por ter superfícies planas e pouco acidentadas. No Vale Europeu, em Santa Catarina, há pousadas por todo o caminho. (Veja quadro com lugares para fazer cicloturismo.)
Ousado, o artista plástico Rafael Limaverde, de Fortaleza, encarou logo de primeira uma pedalada de dois anos pelo Brasil e mais 16 países da América Latina, mesmo sem ter prática. Mas foi cuidadoso nos preparativos. “Passei dois anos me informando sobre ciclotursimo”, conta. A inspiração veio do livro No Guidão da Liberdade, em que o advogado Antônio Olinto conta como o sonho de pedalar pela Europa virou uma volta ao mundo. Um dos principais aprendizados de Rafael foi poder mudar de caminho, mesmo tendo uma rota pré-definida.
O porto-alegrense César Pires de Almeida, designer gráfico, e a estudante Ana Fukui tinham apenas um esboço de roteiro quando partiram de São Paulo para a Ásia. “Sabíamos que passaríamos por Bangcoc, na Tailândia, Vietnã e Camboja. Durante a própria viagem, planejamos para onde pedalar e em quanto tempo”, conta Ana. Com a ajuda de mapas e de moradores locais, o casal encontrou caminhos alternativos ao longo das montanhas do Vietnã e, na China, seguiu ruas escondidas e históricas, com cerca de 2 mil anos.

O que levar

Dependendo do tempo e viagem e da infra-estrutura local, as necessidades do viajante mudam. Por isso, é preciso moderar no peso da bagagem. Se há lugar para dormir e comer, em uma viagem de até 15 dias é recomendado não ultrapassar a média de 10 quilos (se for acampar, o peso pode chegar a 25 quilos). Leve o essencial, incluindo produtos de higiene pessoal, garrafa dágua, barras de cereal, kit de primeiros socorros e de ferramentas, mapa e guia, e o vestuário próprio de ciclistas (capacete, óculos que protejam contra os raios solares, bermuda acolchoada, camiseta de tecido sintético, luvas e tênis).
Em sua primeira cicloviagem, Ana e César optaram pelo improviso, com pouca informação e muita bagagem. Em 15 dias, a caminho da Argentina, cada um levou 20 quilos. “Hoje, levaríamos 10. Carregar comida enlatada e em excesso é uma bobagem se não for para viagens a lugares remotos. Roupa demais também”, diz Ana. Afinal, tais produtos podem ser comprados em qualquer povoado e, quanto à roupa, bastam poucas peças, confortáveis e práticas.
Há duas maneiras de transportar a bagagem. Mais comum, o alforje (espécie de bolsa encaixada na frente ou atrás da bicicleta) já é comercializado e bastante usado no Brasil. Mas há quem opte pelo trailer preso à traseira da bicicleta. A escolha depende do tipo de viagem. “Se você for acampar e seguir por estradas de terra tortuosas, o trailer é mais recomendado, já que o alforje dificulta a dirigibilidade”, diz o autor de guias de viagem Guilherme Cavallari. Ainda inexistente por aqui, o aparato é mais usado por norte-americanos e europeus (mas pode ser comprado pela internet). A grande vantagem das viagens feitas por agências, especialmente para quem tem mais idade, é ter o carro de apoio para levar as malas e dar assistência.

Como chegar

O ponto de partida para iniciar a pedalada nem sempre é a cidade onde você mora. Normalmente, a magrela precisa ser levada até o lugar de origem do roteiro, com diferentes exigências entre as empresas de transporte. Para voar, algumas companhias cobram uma taxa de cerca de 100 reais por bicicleta, sendo que a maioria cobra apenas pelo excesso de peso (há no mercado bolsas acolchoadas próprias para embalar a bike desmontada). Sem regulamentação para esse tipo de transporte, as empresas rodoviárias cobram taxas variáveis. “Não precisei pagar na maioria das vezes, mas algumas empresas implicam se a bicicleta não estiver embalada”, diz o advogado Jorge Blanquer Rodrigues, de São Paulo.
Há 13 anos, Jorge leva a bicicleta para os lugares onde pretende passear. “Na minha primeira viagem, segui a estrada da Graciosa, na serra do Mar, que liga Curitiba a Paranaguá, e voltei de trem. Paguei uma taxa para guardar a bicicleta num vagão de carga, resolvi tudo na hora de comprar a passagem no guichê”, afirma. Mas o melhor é sempre se informar com antecedência. E se for levar a bicicleta no carro, o ideal é transportá-la no rack, um suporte preso em cima ou na traseira do veículo.

Como se preparar

Não precisa ser esportista para viajar de bicicleta, mas é importante praticar há pelo menos dois meses alguma atividade física duas vezes por semana para manter a forma e sentir mais conforto nos percursos. Caminhadas, natação e ioga estão entre algumas das atividades preferidas dos cicloturistas. Pedalar por rotas curtas pelo menos um mês antes da viagem também é indicado. “Dá para estabelecer a meta de começar com 5 quilômetros por dia e aumentar aos poucos até 30 quilômetros, que é a média das viagens”, explica Jorge, acostumado a pedalar nos fins de semana. Esses cuidados ajudam a perceber o corpo e a ter mais experiência para lidar com imprevistos. Durante toda a pedalada, é importante beber muita água e levar barras de cereais.
Aprender a adequar os movimentos aos da bicicleta também incita as percepções do clima, a familiaridade com as depressões no solo, o encontro com os moradores dos lugares por onde você passa que têm sempre algo a ensinar. No fundo, as pedaladas exercitam o desapego e a abertura para o outro, ensinam a seguir com o próprio esforço, por caminhos desconhecidos e, acima de tudo, a traçar o próprio destino.

Livros:
Coleção Guia de Trilhas Enciclopédia, Guilherme Cavallari, Kalapalo.
No Guidão da Liberdade, Antônio Olinto, Juruá

Internet:
Informações sobre viagens, livros, roteiros e equipamentos de viagem na magrela em:www.revistavidasimples.com.br

OS DEZ ROTEIROS NACIONAIS E INTENACIONAIS MAIS BACANAS NAS REGIÕES MAIS FAMOSAS PARA VIAGEM DE BICICLETA

VALE EUROPEU
Santa Catarina: Inclui nove municípios, a partir de Timbó. É uma região de mata atlântica, com concentração de riachos e cachoeiras. Mais de 300 setas indicam o caminho e as pousadas. É possível pedalar cerca de 50 quilômetros por dia, com leves subidas. A viagem dura cerca de sete dias.

ESTRADA REAL
Minas Gerais: passa por entre as cidades históricas mineiras. Inclui trechos de estradas de terra e trilhas abertas em meio a vales e montanhas, com inclinações e vilarejos. Há hotéis com comida mineira. A pedalada dura cerca de quatro dias, percorrendo-se 22 quilômetros diários, em estradas secundárias. Para subidas íngremes e travessia de rodovias, segue-se a pé.

CHAPADA DIAMANTINA
Bahia: conta com cenários de cachoeiras e trechos levemente acidentados, com subidas e descidas em estradas de terra. Há hotéis em belas cidades no caminho, como Lençóis, e comida caseira. Dá para pedalar, em média 27 quilômetros por dia, em três dias, num projeto de 80 quilômetros. Há travessia de rio e caminhos que só se percorre a pé.

LAGAMAR
São Paulo e Paraná: cenário com pequenas comunidades, sem ruas ou carros, para pedalar à beira-mar, na areia dura da praia e atravessar inúmeras ilhas. Nos alagados, pescadores locais dão carona nas canoas a remos. Área plana, de 300 quilômetros, permite pedalar cerca de 20 quilômetros diários, em oito dias.

CARRETERA AUSTRAL
Chile: famoso entre cicloturistas do mundo inteiro. Tem paisagens com lagos, montanhas e muita neve. No percurso, há inúmeras vilas com cerca de 150 habitantes e campings e albergues para comer e dormir. A viagem pode durar, em média 17 dias. Ao todo são 780 quilômetros, com uma média de 50 quilômetros por dia.

PATAGÔNIA
Argentina: paisagem de lagos e cumes nevados da cordilheira dos Andes. O bosque doa Arrayanes, no Parque Nacional, e a região do lago Espejo são bons lugares para pedalar e provar a cerveja patagônica. Há boa oferta de hotéis e a viagem dura cerca de uma semana, com 160 quilômetros pedalados.

TOSCANA
Itália: com tradição no ciclismo, oferece o cenário da Europa medieval e seus castelos, além de vinhedos, colinas e oliveiras centenárias. Tem uma ótima gastronomia e hotéis de charme. Inclui percursos montanhosos. São 200 quilômetros percorridos – em média, 40 quilômetros por dia, em cinco dias.

VALE DO LOIRE
França: região dos antigos reinos burgueses, conta também com pequenas vinícolas e produtores de queijos onde é possível fazer degustação. Tem boa disponibilidade de hotéis. Região fácil de pedalar, com pequenas inclinações. Permite andar cerca de 45 quilômetros por dia, em cinco dias, em um percurso de 200 quilômetros.

MARGENS DO DANÚBIO
Alemanha e Áustria: berço da música erudita. Oferece um cenário de florestas, vales rochosos e montanhas de granito. Há disponibilidade de hotéis e restaurantes. O trajeto de 320 quilômetros é praticamente plano e pode ser percorrido em sete dias. A região conta com ciclovias.

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