MONGÓLIA, NINHOS DE PASSARINHOS E A VIDA NA MONTANHA

29 de outubro de 2018

MONGÓLIA, NINHOS DE PASSARINHOS E A VIDA NA MONTANHA

O verão se aproxima. Os dias ficam mais e mais quentes, mas as noites continuam frescas aqui na montanha, a 1.580 m de altitude, onde vivo na Serra da Mantiqueira. À noite, os vidros das grandes janelas da sala ficam lotados de mariposas e outros insetos, alvoroçados com a luz dos abajures. De vez em quando um deles consegue entrar por alguma fresta secreta e voa inquieto de uma lâmpada para outra e, à vezes, para a tela da televisão quando estamos assistindo a algum filme. Mas não são todas as noites que ligamos a TV. Não é raro passarmos horas conversando, Adriana e eu, bebericando vinho tinto em frente à lareira acesa ou os dois imersos em seus respectivos livros.

SCOTT Scale 710 Plus customizada, montada com peças SHIMANO e equipada com bolsas de bikepacking ORTLIEB

Outro dia, quando fui até a lavanderia para pegar minha roupa de ciclismo, que fica pendurada num varal acima da cama da nossa cachorrinha, Frida Kahlo Kalapalo, descobri algo estranho acontecendo dentro da minha mochila de hidratação… Há dias eu vinha percebendo que alguns zip-ties — aquelas abraçadeiras de plástico flexível vulgarmente (e cruelmente) chamados de “engasga-gato” — no chão. Eu também percebi que os vidros que uso para organizar os zip-ties de diferentes tamanhos estavam ficando vazios. Imaginei que Frida, ainda com seis meses, estava subindo na bancada de ferramentas e roubando as abraçadeiras para mascar. Mas não fazia sentido porque não havia mais nada no chão. Fui pegar a mochila de hidratação que uso muito raramente e dentro havia um monte de zip-ties e vários gravetos fininhos, junto com muitos preguinhos e parafusos pequenos. Esvaziei a mochila e todos os zip-ties sumidos estavam lá. Fiquei uns segundos flutuando no mistério até que a ficha caiu… Um passarinho estava fazendo ninho na mochila e usando o que tinha à disposição para sua construção. Com o coração partido, fechei a janela que sempre ficou aberta para arejar a lavanderia, esvaziei a mochila e reorganizei as abraçadeiras. A mochila perdeu sua poesia e voltou a ser apenas uma mochila.

DIREÇÃO MONGÓLIA

Estou treinado regularmente agora, depois de meses tratando uma lesão no joelho esquerdo. Menisco gasto. La vecchiaia é bruta, como dizia meu avô. Mas exercícios diários de fortalecimento e alongamento específico estão ajudando, com o auxílio de um suplemento alimentar: condroitina e glucosamina. Justo eu, que não gosto de tomar nem vitamina C. Mas tenho que treinar porque em junho de ano que vem, daqui a oito meses, vou para a Mongólia pedalar cerca de 4.000 km em três meses. Vou cruzar o país de oeste para leste sozinho e autossuficiente, dependendo dos nômades para me reabastecer, evitando o pouco asfalto que existe no país e vou tentar cruzar um pedaço do Deserto de Gobi. Esse é meu próximo projeto de aventura, que pretendo transformar num livro e talvez num filme-documentário. Expedição Mongólia Bikepacking 2019, foi como batizei a roubada.

Abaixo, apresento alguns itens de equipamento que selecionei para essa minha próxima grande aventura:

KIT DE AVENTURA: PEQUENOS ITENS ESSENCIAIS

FOTO 1) O alicate dobrável LEATHERMAN SKELETOOL CX me acompanha a anos, muitos anos. Acho fundamental levar um alicate dobrável. Boa parte das minhas explorações acontecem de mountain bike e um alicate é imprescindível para consertar a bike. Mas também uso esse alicate, por exemplo, como pegador de panela quente e como pinça para retirar espinhos. Ou seja, mesmo em trekking ele é muito útil. Ele também tem uma lâmina muito afiada de 7 cm, que acho mais que suficiente. De todos os muitos alicates dobráveis que já tive, esse é o mais leve. Esse modelo, em específico, ganhou vários prêmios de design, ou seja, mais um motivo para a escolha… FOTO 2) O apito NITECORE NWS10 é minúsculo e emite 120 decibéis de som agudo e nítido. Excelente para chamar atenção em emergências. Feito de titânio, seu peso é quase imperceptível. A cordinha não vem com ele…FOTO 3) A pazinha de latrina THE DEUCE #3 pesa apenas 27,6 g e praticamente não tem volume, já que é apenas uma folha de alumínio anodizado, cortado e dobrado. Ela é ultrarresistente e não dobra sob pressão, dá pra fazer alavanca à vontade. O cabo pode ser usado para “cortar” a terra a ser cavada. Escolhi esse item pelo volume reduzido, assim ela desdaparece na minha mochila ou numa das bolsas da bike.  

FOTO 4) Essa cuia de silicone da GUYOT DESIGNS, facilmente encontrada na Amazon USA, e um SPORK (mistura em inglês de “spoon”, colher, e “fork”, garfo) da marca LIGHT MY FIRE, também disponível na Amazon gringa, formam minha dupla de alimentação. Uma vez comprimida, a cuia praticamente desaparece, além de ser bem leve também. Já quebrei colheres de plástico em expedição, por isso optei, anos atrás, por um talher único e versátil em titânio. O titânio, aliás, é o “ouro do aventureiro” — nem jóia faz meus olhos brilharem tanto, rss. Uma coisa que não gosto é SPORK que tem garfo e colher juntos, do mesmo lado do talher, isso faz a colher ficar menor e caber menos comida… FOTO 5) Faço fogo sem frescura. Já usei isqueiros sofisticados, que eu sempre esquecia de recarregar; já usei pederneiras que chamuscaram minha roupa e minhas mãos; já carreguei fósforos importados que acendem até debaixo d’água e que nunca usei (nem consegui encontrar nas minhas tralhas pra fazer uma foto, de tão “importantes” que eles são pra mim, rs); e acabei fechando com isqueiros baratos e pequenos e caixas de fósforos protegidas por saquinhos de plástico. Uso normalmente um isqueiro pequeno no dia a dia de acampamento, os grandes quebram e enferrujam antes de acabar o fluído. Levo também pelo menos uma caixa de fósforo, com a tampa da caixa desmontada dentro de um saquinho com fecho (tipo zip-lock), porque a lixa da caixinha é ideal para riscar e acender os fósforos…FOTO 6) Essa mini espátula chamada COMPACT SCRAPER (“raspador compacto”, em inglês) da marca norte-americana GSI OUTDOORS, limpa pratos e panelas quase sem precisar de água. Confesso que ainda não testei, mas pela lógica simples sei que vai funcionar. Terminada a refeição no acampamento, é só usar a espátula para raspar a comida dos utensílios. Depois um pedaço pequeno de papel higiênico termina o serviço, se necessário. Mas dá pra improvisar sua própria espátula compacta cortando o cabo de espátulas de cozinha facilmente encontradas em supermercados. O importante é que a ponta, ou uma das pontas, seja flexível para não riscar e danificar panelas e afins, como acontece com esse item de equipamento. 

FOTO 7) Óculos esportivos fazem parte do “trio de segurança” na bicicleta, ao lado do capacete e das luvas de ciclismo. Óculos para aventura têm que ser inquebráveis, leves, com proteção UV e anatômicos para o rosto do usuário. Isso quer dizer que um modelo bom para um cara narigudo, como eu, pode não servir para outra pessoa, na nariz batatinha. Sempre levo uma caixa de proteção para meus óculos em expedições, se eles não estão no meu nariz, vão para a caixa de proteção, que pode ser rígida (recomendo) ou flexível (para aventureiros mais cuidadosos que eu). Gosto de modelos com hastes flexíveis para que os óculos não fiquem soltos no meu rosto, nem apertados demais. Também acho importante as cordinhas para pendurar no pescocço quando vou fotografar, filmar, ler mapas e afins. Essa história de colocar na cabeça, como tiara, não rola. Já perdi óculos assim. Uso, desde 2006, óculos esportivos da marca francesa JULBO, que tem representante no Brasil. Sou fã do modelo EXPLORER 2.0 (na foto)…FOTO 8) O cobertor de emergência é um plástico laminado de alumínio, que reflete o calor pelo corpo evitando assim a hipotermia. Tem gente que pensa que esse item é uma espécie de “acessório de saco se dormir”, algo que compensa a ineficiência do equipamento disponível. Não é! O coberto de emergência só deve ser usado em última instância, pra evitar hipotermia mesmo. Todo aventureiro deveria ter esse item em seu kit. Levo sempre comigo também um pedaço de cordim (corda fina de escalada), de 5 mm de espessura, com cerca de 10 m de comprimento. Com ele, faço varal, amarro a barraca em vendaval, conserto mochila e bota estourada, penduro mochila em árvore, etc. Outro item interessante é um termômetro pequeno. Esse não é um item essencial, mas é legal saber a temperatura ambiente, inclusive pra avaliar a qualidade do kit de aventura, decidir de o saco se dormir ou a jaqueta estão adequado ao clima e afins… FOTO 9) Muitas vezes é preciso transportar água na aventura. Água para cozinhar e continuar viagem no dia seguinte. Nem sempre é possível armar barraca ao lado de água, seja rio ou lago, e não é raro termos que coletar água num lugar e levá-la para outro por muitos quilômetros. Esses reservatórios flexíveis, chamados de DROMEDARY BAG, da renomada marca norte-americana MSR (MOUNTAIN SAFETY RESEARCH) são sempre minha primeira escolha. Uso essas bolsas de Cordura (tecido ultrarresistente) e plastificada por dentro há quase duas décadas. A bolsa menor tem capacidade para 2 litros, a intermediária, que uso com mais frequência, leva 4 litros e na maior, que ainda não usei, cabe 10 litros. Uma delas estava comigo na expedição que gerou o livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e nas expedições e que gerou o filme-documentário TRANSPATAGÔNIA, que ficou 18 meses em cartaz no Netflix e agora está disponível no Google Play e no ITunes (quem assistiu vai lembrar da cena em que “roubei” a água do santo). Obviamente, vou levar todas elas comigo na expedição MONGÓLIA BIKEPACKING 2019, principalmente no trecho que pretendo cruzar o Deserto de Gobi. 

 

Mais itens de equipamento num próximo post. 

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