Pode acreditar, o coronavírus não veio de Marte num asteroide, nem nasceu num laboratório chinês (eles são mais competentes que isso, não deixariam o vírus escapar e se espalhar por seu próprio país, a China não é o Brasil), ou num laboratório nos Estados Unidos (a teoria da conspiração oposta, muito popular na China, sustentada até por um congressista norte-americano em discurso antiimperialista no congresso estadunidense). Isso os cientistas já concluíram.
Não entendo a dificuldade em aceitar que o coronavírus sempre existiu. Ele só é ‘novo’ porque só agora tivemos o primeiro contato com ele. Esse vírus viveu feliz da vida dentro de seu hospedeiro por milhões de anos, até aparecer o ser humano pra entrar de bico na festa.
Os cientistas estimam que cerca de 150 a 200 espécies de plantas, insetos, aves e mamíferos são extintos a cada 24 horas atualmente no planeta. Cada um deles leva consigo bilhões de anos de história genética não investigada, desconhecida de nós. Quem sabe quantas curas para o câncer, por exemplo, já não foram perdidas para sempre? Quantas matérias primas naturais que poderiam substituir o plástico?
Por que essas espécies estão sendo extintas?
Porque nossa fome por recursos naturais e por espaço no planeta é insaciável. A regra básica do capitalismo é que a economia do mundo tem que crescer, no mínimo, alguns pontos percentuais a mais do que o crescimento da população. Só que a população humana não para de crescer, enquanto os recursos naturais não crescem, eles são finitos, existem no mesmo volume e na mesma quantidade desde o Big Bang. Nós humanos, no entanto, ocupamos mais e mais área, aumentamos nossa população desenfreadamente, consumimos biomas e espalhamos ao vento seus habitantes, sendo que alguns deles não deveriam estar no ar que respiramos.
Agora que o coronavírus bateu na nossa porta, que tal a gente se perguntar porque nós tiramos ele de sua casa? Que tal a gente se perguntar o que estamos fazendo de errado? O que poderíamos mudar para evitar novas catástrofes como essa? Isso não é seria produtivo do que inventar teorias de conspiração sem sentido para eximir nossa responsabilidade enquanto sociedade?
Quarentena voluntária e solidária não é férias, então estou aqui pensando essas coisas com o tempo livre que tenho nas mãos…
Posso parecer reducionista, mas aposto todas as minhas fichas na vida simples como solução, não só para a crise do coronavírus, mas para o aquecimento global, a desigualdade socioeconômica, a fome e a injustiça. Vida simples, pra mim, é a panaceia.
O problema é que ‘vida simples’ é uma das coisas mais complicadas que conheço. O que é simplicidade? Comer apenas arroz e feijão? Viver num cubículo mal iluminado e mal ventilado? Se vestir apenas com trapos? Mendigar?
Com certeza, sim, para todas as perguntas anteriores. Os monges e ermitões espirituais, não importa de que denominação religiosidade, são o maior exemplo de abnegação, restrição voluntária e compromisso consciente com a coletividade que existe na fauna humana. Precisamos, sem dúvida alguma, de muito mais monges hoje. Mas essa é a solução para toda a humanidade? Acho que não.
O que é vida simples então?
Pra tentar responder, só posso oferecer meu testemunho pessoal, as escolhas que fiz para simplificar a minha vida. Não acredito que isso seja uma fórmula, uma receita a ser seguida por todos.
Tento me alimentar exclusivamente de alimentos orgânicos e regionais, produzidos próximo de onde vivo. Admiro muito os veganos, que considero ‘monges alimentares’, só que não vejo essa alternativa como ambientalmente sustentável. Vivo numa fazenda onde galinhas vivem soltas, vacas vivem livres e abelhas trabalham sem serem importunadas. Não existe sofrimento animal algum se consumo um ovo, um litro de leite ou um pote de mel. É uma troca. Galinhas e vacas são alimentadas por nós, humanos, e as abelhas usufruem da natureza que mantemos intocada. Optei por não consumir soja em represália à destruição ambiental que essa monocultura provoca no Brasil, especialmente no cerrado e a na floresta amazônica. Os veganos deveriam fazer o mesmo. Deveriam incluir a preocupação com o sofrimento humano em sua luta pelos animais, afinal nós também somos animais. A soja é um dos maiores vetores de sofrimento para a humanidade, desalojada para dar lugar ao cultivo, envenenada pelos agrotóxicos utilizados na produção, desempregada pela indústria motorizada do agronegócio. Soja não é produzida par alimentar gente, não abastece a mesa dos brasileiros.
Sou adepto do consumo consciente, consumo próximo do zero pra tudo o que é supérfluo. O problema é definir ‘supérfluo’. Se um artigo tem o rótulo simbólico de ‘luxo’, entra imediatamente para minha lista de ‘lixo’. É o que eu chamo de ‘lixo ideológico’. Marcas que fazem os olhos da burguesia alienada brilhar, como Mercedes, Ferrari, Rolex, Louis Vuitton, Chanel, Hermés, Dior, etc., têm para mim o estigma da destruição do tecido social. Símbolos da pior ganância e prepotência da humanidade.
Mas não estou livre de fetiches. Só os monges conseguem isso.
Por ser aventureiro profissional, prestigio os melhores equipamentos, as melhores barracas, mochilas, bicicletas, calçados específicos, roupas técnicas, eletrônicos e afins. Já gastei muito dinheiro com essas coisas. Hoje, por conta do pouco de prestígio e credibilidade que consegui — depois de ter escrito e publicado 18 livros, coproduzido vários filmes, ministrado aulas a centenas de pessoas —, sou apoiado por marcas de renome que mantém meu arsenal repleto do bom e do melhor. Vivo constantemente um debate interno comigo mesmo por isso. Sei que poderia continuar fazendo tudo o que faço com menos, no entanto acabo consumindo (mesmo sem pagar) mais produtos do que o essencial. Um dilema que toda pessoa consciente vive.
Saí da cidade grande, de São Paulo, para vir morar em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira, onde moro numa casa alugada. Não precisei trabalhar décadas no mercado financeiro para virar ‘fazendeiro’, não sou herdeiro tampouco. Aluguei uma bela casa com espaço suficiente para morar e trabalhar nela. Montei com minha companheira de vida e de aventura, Adriana Braga, o amor da minha vida, uma escola de aventura onde ministro cursos de trekking e bikepacking, entre outros. Fiz essa opção, abrindo mão dos óbvios confortos da metrópole, por compromisso com aquilo que acredito: vida simples em contato com a natureza.
Enfim, apenas meu exemplo pessoal.
Sei que não cheguei ainda a lugar algum, que estou apenas numa longa jornada de aprendizado e experiências. Mas vejo o coronavírus também como um desafio moral, para aqueles preocupados com a moral, para aqueles preocupados em tornarem-se seres humanos melhores e não apenas pessoas de sucesso. É certeza que teremos uma crise de saúde, talvez uma das maiores de nossa história. É muito provável que tenhamos também um colapso econômico. É possível que nosso governo federal continue politizando o problema, colocando ideologias acima da população e tente, finalmente, um golpe de Estado para se manter indefinidamente no poder. Poder, afinal, é a única pauta desse governo, desde sempre. Cabe então a nós, cidadãos, através de exemplos, estabelecermos na prática o país e o mundo que queremos para nós e nossas crianças.
Simples assim.
Que texto ! Compartilho das mesmas idéias, apesar de não conseguir colocar em prática algumas delas (ainda !)
Admiro demais seu trabalho e a forma como enxerga a vida e o mundo atual,
Forte abraço e keep walking !!
Olá Guilherme
Excelente texto, acompanho de longe sua trajetória, a busca da vida simples é o que pode reverter o processo destrutivo que estamos impondo ao planeta.
Obrigado