PATERSON – FILME DE JIM JARMUSH (2016)

3 de maio de 2021

Qual a função da poesia? Esse é, para mim, o tema do filme PATERSON, de 2016, do cineasta estadunidense Jim Jarmush, muito celebrado por sua produção  DOWN BY LAW (lançado no Brasil como DAUMBAILÓ) de 1986. O roteiro simples mostra o cotidiano aparentemente sem graça da vida do motorista de ônibus da pacata e soporífera cidade de Paterson, no estado de Nova Jersey, nos EUA.  Uma semana de uma rotina de acordar cedo, antes do despertador tocar, trabalhar e voltar para casa.

Mas a vida de PATERSON — que é o título do filme, nome da cidade e do protagonista — gira em torno da poesia. O potencialmente tedioso caminho de casa para o trabalho e de volta para casa é iluminado pelo sol de diferentes formas, todas dignas de atenção. Encontros fortuitos durante o dia assumem contornos sutis de conexão com sonhos ou absorvem a total atenção do protagonista. Certo diálogos corriqueiros, banais, fazem lembrar outro filme que discorre sobre as pequenas coisas da vida: ASAS DO DESEJO, do alemão Wim Wenders, quando dois anjos comparam notas do dia a dia dos mortais, encantados com coisas insignificantes para nós. 

Em PATERSON, o dia começa e termina para Paterson em poesia, que ele anota cuidadosamente num caderno. Poesia crua, como pedaços da vida colecionados em folhas. Sob esse filtro poético tudo é único e importante. Até que, acidentalmente, a poesia é desfeita e a realidade, que não mudou um átomo, perde de repente seu encanto e brilho. Um curto momento no filme em que o cenário que não se alterou parece outro porque o olhar do protagonista está velado. 

Qual então a função da poesia? Ou a arte, para colocar em termos mais genéricos? Seria ela fundamental? Real? Indispensável? 

O filme faz pensar nos muitos momentos de nossas vidas em que o senso poético (como chamá-lo de outra forma?) emprestou aos acontecimentos peso, volume, profundidade e nuances de produção de cinema. Já outros momentos, marcantes e únicos (como, alías, todo momento é), foram armazenados no confuso depósito na memória e esquecidos. 

Incluir a poesia nas minhas aventuras foi fundamental para que pudesse me aprofundar na atividade. Isso se deu, principalmente, através de uma visão mais atenta e uma narrativa mais detalhada nos meus livros. Destinos deixaram de ser fins para tornarem-se meios. Imprevistos, acidentes e obstáculos ganharam importância de grandes oportunidades. Encontros e desencontros com outras pessoas ou comigo mesmo viraram protagonistas nas histórias. A inclusão do maior número possível de elementos psicológicos, de sensações, percepções e sentimentos, algo típico da boa poesia, fez com que tanto a aventura quanto a literatura que produzo depois ocupassem não apenas o meu tempo, mas ocupassem principalmente espaço fixo não apenas na minha mente, mas também na minha alma.

2 respostas para “PATERSON – FILME DE JIM JARMUSH (2016)”

  1. Lea Moraes disse:

    Esse filme me causou grande arrebatamento, exatamente por questões colocadas de forma tão pertinente em suas palavras … Ao descortinar seu olhar para o ordinário dos dias Paterson nos oferece uma poesia possível através de um humano disposto a buscar em sua sensibilidade conexões possíveis entre olhar, sentir, perceber, pertencer, absorver e ressignificar… Uma obra com espaço pra gente colocar junto da personagem que nos guia essa beleza que são as reinvenções do cotidiano…

  2. RENATO SANTIAGO BUENO disse:

    Esse filme é necessário assistir pelo menos uma vez por ano. A sensibilidade que esse filme transmite é muito importante pra gente poder atravessar esses tempos tão difíceis…

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