Qual a função da poesia? Esse é, para mim, o tema do filme PATERSON, de 2016, do cineasta estadunidense Jim Jarmush, muito celebrado por sua produção DOWN BY LAW (lançado no Brasil como DAUMBAILÓ) de 1986. O roteiro simples mostra o cotidiano aparentemente sem graça da vida do motorista de ônibus da pacata e soporífera cidade de Paterson, no estado de Nova Jersey, nos EUA. Uma semana de uma rotina de acordar cedo, antes do despertador tocar, trabalhar e voltar para casa.
Mas a vida de PATERSON — que é o título do filme, nome da cidade e do protagonista — gira em torno da poesia. O potencialmente tedioso caminho de casa para o trabalho e de volta para casa é iluminado pelo sol de diferentes formas, todas dignas de atenção. Encontros fortuitos durante o dia assumem contornos sutis de conexão com sonhos ou absorvem a total atenção do protagonista. Certo diálogos corriqueiros, banais, fazem lembrar outro filme que discorre sobre as pequenas coisas da vida: ASAS DO DESEJO, do alemão Wim Wenders, quando dois anjos comparam notas do dia a dia dos mortais, encantados com coisas insignificantes para nós.
Em PATERSON, o dia começa e termina para Paterson em poesia, que ele anota cuidadosamente num caderno. Poesia crua, como pedaços da vida colecionados em folhas. Sob esse filtro poético tudo é único e importante. Até que, acidentalmente, a poesia é desfeita e a realidade, que não mudou um átomo, perde de repente seu encanto e brilho. Um curto momento no filme em que o cenário que não se alterou parece outro porque o olhar do protagonista está velado.
Qual então a função da poesia? Ou a arte, para colocar em termos mais genéricos? Seria ela fundamental? Real? Indispensável?
O filme faz pensar nos muitos momentos de nossas vidas em que o senso poético (como chamá-lo de outra forma?) emprestou aos acontecimentos peso, volume, profundidade e nuances de produção de cinema. Já outros momentos, marcantes e únicos (como, alías, todo momento é), foram armazenados no confuso depósito na memória e esquecidos.
Incluir a poesia nas minhas aventuras foi fundamental para que pudesse me aprofundar na atividade. Isso se deu, principalmente, através de uma visão mais atenta e uma narrativa mais detalhada nos meus livros. Destinos deixaram de ser fins para tornarem-se meios. Imprevistos, acidentes e obstáculos ganharam importância de grandes oportunidades. Encontros e desencontros com outras pessoas ou comigo mesmo viraram protagonistas nas histórias. A inclusão do maior número possível de elementos psicológicos, de sensações, percepções e sentimentos, algo típico da boa poesia, fez com que tanto a aventura quanto a literatura que produzo depois ocupassem não apenas o meu tempo, mas ocupassem principalmente espaço fixo não apenas na minha mente, mas também na minha alma.
Esse filme me causou grande arrebatamento, exatamente por questões colocadas de forma tão pertinente em suas palavras … Ao descortinar seu olhar para o ordinário dos dias Paterson nos oferece uma poesia possível através de um humano disposto a buscar em sua sensibilidade conexões possíveis entre olhar, sentir, perceber, pertencer, absorver e ressignificar… Uma obra com espaço pra gente colocar junto da personagem que nos guia essa beleza que são as reinvenções do cotidiano…
Esse filme é necessário assistir pelo menos uma vez por ano. A sensibilidade que esse filme transmite é muito importante pra gente poder atravessar esses tempos tão difíceis…