texto: Guilherme Cavallari
foto abertura: Guilherme Cavallari (Expedição Trans-Inca, 2022)
Meu celular está quebrado. Sofri uma queda de bicicleta com o aparelho no bolso da bermuda, caí bem devagar, de lado, em cima de uma pedra, bem em cima do telefone. Quebrou a tela. Consegui consertar, troquei a peça defeituosa e o eletrônico voltou a funcionar, só que agora ele abre e fecha aplicativos, digita textos, tudo sozinho. É como se meu celular estivesse possuído.
Se eu tivesse dinheiro sobrando, compraria outro.
Minha situação é a mesma de todo mundo. Não que todos tenham celulares descontrolados, aparelhos vivos que trabalham por conta própria. Até onde sei, ainda não surgiu uma pandemia de eletrônicos independentes por aí. Mas quase todo mundo trocaria de celular, de carro, de casa, de roupa, se pudesse. Pra quem não passa fome, limitações econômicas são basicamente limitações de consumo.
Por vivermos numa democracia, somos afetados de tempos em tempos por mudanças de governo. Ainda bem. Novos governos representam novos ares, novas esperanças, novas visões de mundo. Mas todo novo governo promete a mesma coisa: melhorar a economia. Nem nos países mais ricos a promessa muda. Mesmo lá no Primeiro Mundo existe a esperança de melhoras econômicas. O que mostra que quando se fala em consumo, o céu é o limite. Literalmente.
Mesmo quando perco uma eleição, quando o candidato que apoiei não ganha, torço para que a vida melhore para todos. Infelizmente, hoje em dia não posso dizer que isso seja uma regra universal. Mas agora estou feliz além da conta porque meu candidato venceu as eleições. Desejo a ele um bom governo.
Pensando nisso, comecei a questionar o que seria um bom governo… Mais empregos, com certeza. Os milhões de desempregados precisam trabalhar pra sobreviver e merecem dignidade. Desemprego é um problema em praticamente todas as economias do mundo. Melhoria na oferta de tratamentos de saúde e maior qualidade na educação também são pautas fundamentais. Segurança é um ponto importante, embora eu acredite que isso está muito relacionado a emprego, saúde e educação. Justiça não poderia ficar de fora. A lista é grande e um tema que não poderia ser esquecido é ecologia.
Mais empregos, mais saúde, mais educação, mais segurança e mais justiça custam dinheiro. A geração de novos postos de trabalho implica em criação de novos empreendimentos ou aumento dos empreendimentos já existentes. Crescimento econômico é sinônimo de crescimento de consumo. Essa relação é direta. Então como resolver a questão ecológica?
O mundo precisa reduzir o consumo. Precisamos queimar menos combustíveis fósseis ou parar de vez de queimar esses dinossauros líquidos e sólidos. Precisamos parar de usar plásticos e borrachas sintéticas, parar de despejar gases destrutivos na atmosfera, parar de produzir tanto lixo, parar de envenenar a terra e as águas. Coisas que não combinam com economias pulsantes e pujantes. Ou já esquecemos que a Europa despeja grande parte de seu lixo na África?
Qual a solução?
Todos sabemos a resposta. Nada agradável. Se quisermos salvar o planeta e salvar a nós mesmos, teremos que viver nossas vidas de forma diferente. Em vez de concentrar energia em fazer as economias crescerem, temos que pensar em como diminuir as economias. Produzir menos, consumir menos. Muito menos! Priorizar o transporte público no lugar de produzir mais carros de passeio, criar novas matizes energéticas independentes dos combustíveis fósseis, blá, blá, blá.
O mais importante, na verdade, é algo bem mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais complicado. Precisamos pensar uma sociedade mais comunitária, mais solidária, menos individualista, menos competitiva, menos consumista. Em vez de celulares, precisamos de mais rodas de música, de teatro, de dança. Mais festas e menos trabalho. Mais acampamentos na natureza, por exemplo. Exatamente aquilo que nós, aventureiros e amantes da aventura, apreciamos.
Lembrei de uma passagem história importante, quando o filósofo ambientalista escocês, residente nos Estados Unidos, John Muir, foi acampar em Yosemite com o então presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt — o mesmo que explorou o Rio da Dúvida com o nosso Marechal Rondon. Os dois passaram duas noites, se não me engano, sozinhos no topo das montanhas. A conversa entre eles nunca foi tornada pública, mas o tema era a criação ou não do Parque Nacional de Yosemite. Os Estados Unidos tinham na época apenas um parque nacional — Yellowstone — e Muir defendia que deveriam ter muitos mais. Os economistas, os empresários, os capitalistas em geral pregavam que era preciso explorar as riquezas naturais disponíveis para o bem geral da economia, mesmo em lugares especialmente bonitos como Yosemite. A economia em primeiro lugar. Muir pensava diferente.
“Milhares de pessoas cansadas, nervosas e excessivamente civilizadas”, escreveu John Muir então, “começam a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa. Que a natureza selvagem é uma necessidade. Que parques e reservas são úteis não apenas como fontes de madeira e de água para irrigação, mas fontes de vida”.
Graças à forte influência de John Muir, Yosemite virou parque nacional, assim como diversas outras áreas nos Estados Unidos. Não coincidentemente, Theodore Roosevelt foi o presidente que mais decretou a instalação de parques nacionais no país. Num exemplo raro de sensibilidade, esse chefe de Estado se conectou com valores maiores do que aqueles diretamente relacionados à economia. Como isso foi possível? Roosevelt era contemporâneo de Muir e Roosevelt era um homem da aventura. Ele caçava, pescava, subia montanhas, acampava ao ar livre e remava por rios — como fez na nossa Amazônia ao lado de Rondon.
John Muir escreveu livros, produziu artigos, deu palestras, fez discursos, fundou clubes. Ele foi intelectualmente ativo em seu tempo e propagou ideias e soluções distintas daquelas que ocupavam a cabeça de todos: a simples riqueza material. Muir tornou evidente uma discussão filosófica que chegou até a presidência da República de seu país: O que queremos enquanto sociedade? Prosperidade ou felicidade?
Meu ponto aqui é simples: se quisermos salvar a Amazônia, salvar o clima, salvar o planeta, temos que nos divertir na natureza. Temos que viver experiências de felicidade nas matas, nos campos, nas montanhas, nos rios, nas praias e no mar. Temos que nos sentir em casa na natureza.
Ninguém destrói a própria casa.
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