texto: Guilherme Cavallari
foto na abertura: Guilherme Cavallari (Expedição Trans-Inca, 2022)
Com a eleição de Lula, a pior parte do pesadelo acabou, mas a noite segue escura.
Depois de quatro anos de mais uma experiência autoritária, o Brasil elegeu novamente um presidente democrata. Durante quatro anos tivemos ministros da saúde, no meio de uma pandemia, sem compromisso com a medicina ou a ciência. A opinião pessoal do presidente da República sobre vacinação e isolamento sanitário pesou mais do que pesquisas científicas e pareceres médicos. Um desastre anunciado que resultou, até agora, em quase 700 mil mortes. A grande maioria facilmente evitada.
Durante quatro anos tivemos a secretaria nacional da igualdade racial dirigida por um negro racista, alguém que relativizou os horrores da escravidão chamando a dor da chibata de “vitimismo dos negros”. Tivemos a cultura diminuída de ministério a secretaria e entregue a uma atriz alienada, deslumbrada, cafona e de talento duvidoso, pregadora da cultura da caserna. O ministro do meio ambiente defendeu o direito de madeireiros ilegais, garimpeiros invasores de terras indígenas e criadores de gado. O procurador-geral foi rebaixado à função de guarda-costas do presidente. Os vários ministros da educação eram todos contra as escolas, o conhecimento e os professores, investiram cada vez menos no setor e difundiram a absurda ideia de aplicativos de celular no lugar das salas de aulas. O ministro da comunicação pilotou uma fábrica clandestina de fake news.
A lista de destruição e corrupção é quase infinita. Destruição de instituições e corrupção de valores.
Pra minha surpresa, o país ficou dividido. Surpresa porque considero óbvias certas funções de determinadas instituições. Eu talvez seja ingênuo, mas acreditava que a justiça era cega e que o governo trabalhava pelo bem do povo. Acreditava que eventuais erros eram frutos de tentativas bem-intencionadas. Crenças implodidas a partir de 2016, quando a justiça se prestou ao serviço de partidos políticos incompetentes e de maus perdedores. Arrasada em 2018, com a prisão, sem provas, do candidato à frente nas pesquisas eleitorais pra presidente. O problema é que deixar de acreditar nas boas intenções da justiça e do governo gera um tipo de ansiedade insuportável, algo que corrói a razão. Ninguém pula pra dentro desse buraco escuro impunemente.
Política não é futebol.
Escrevi essa máxima em diversas ocasiões, desde textos sensatos a comentários inflamados. Não defendo obtusamente um candidato ou um partido. Defendo um ideal, uma ideia de país alinhado com minhas verdades e minha ótica de vida. O Brasil que quero — mais humano, mais solidário, mais igualitário, mais responsável — só existe nos planos de governo de partidos de esquerda. E apenas o PT, entre todos os partidos de esquerda, tem condições políticas de entregar esse pacote. Simples assim.
Em seu discurso de vitória, o recém-eleito e ainda não empossado presidente Luiz Inacio Lula da Silva deixou claras suas prioridades. Promessas de esperança. Mas qualquer discurso que não replicasse as desgastadas palavras de ódio, de perseguição, as ameaças, a exclusão e a imposição de desejos individuais sobre o coletivo, proferidas desde o púlpito presidencial nos últimos quatro anos, já seria um alívio. Um grande alívio! Nosso cansaço ja beirava o limite da sanidade.
Lula falou sobre cultura, sobre educação, sobre saúde, sobre economia. Sua fala trazia o resgate de compromissos absolutos, de desejos universais, de aspirações de todos os brasileiros e brasileiras, de toda a humanidade. Quem não quer educação gratuita de qualidade pra todos? Quem não quer emprego justo, bem remunerado e estável? Quem não quer um sistema de amparo social que dê um mínimo de dignidade a todos? Não são essas as funções do Estado? Não é pra isso que aceitamos pagar impostos? Não é esse o contrato social que cada cidadão firma com o país?
Mas de tudo o que Lula disse, uma frase ficou na minha cabeça:
“Quando uma criança indígena morre assassinada pela ganância dos predadores do meio ambiente, uma parte da humanidade morre junto com ela.”
Foi quando não contive as lágrimas. Foi quando um turbilhão de emoções explodiu dentro de mim. Vergonha, medo, culpa, esperança, orgulho, coragem, raiva, determinação. Emoções genuínas e facilmente identificadas como efeitos de causas conhecidas.
Vergonha de pertencer a uma sociedade gananciosa, superficial, consumista, irresponsável e escrava do conforto. Medo de termos chegado ao fim da linha enquanto civilização. Culpa por não ter feito mais, não ter me esforçado mais, não ter lutado mais para que minha comunidade pudesse ser diferente. Esperança de que um novo dia trará uma nova luz e novas possibilidades. Orgulho de ter ajudado a eleger um político mais comprometido com valores humanos do que com cifras monetárias. Coragem de perseguir meus ideais com vigor e fidelidade a mim mesmo. Raiva pelos amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos que simplesmente se negam a levantar a cabeça do buraco. Determinação de fazer amanhã mais do que fiz até hoje…
Quando morre uma criança indígena, a humanidade morre junto. Eu acredito nisso como acredito que o dia vem depois da noite. Com a criança indígena morre a sabedoria ancestral, morre milênios de convívio harmonioso com o meio ambiente, morre a possibilidade de outras formas de viver. Morre um pedaço do potencial humano. Se a criança indígena morre envenenada por mercúrio, despejado nos rios por garimpeiros invasores das terras de seu povo, a tragédia é infinitamente maior. Sua morte, resultado da ganância, expõe nosso vil projeto de sociedade predatória, destrutiva, corrosiva e excludente. Escancara nossa indiferença e nosso egocentrismo. Uma sociedade que vitima hoje a criança indígena vai vitimar amanhã todas as crianças, todos os idosos, todos os homens e mulheres que forem considerados dispensáveis no projeto unilateral de progresso irresponsável e imediatista.
A eleição de Lula não resolve os problemas, apenas estanca a hemorragia. Lula é a tala no osso quebrado, a bandagem na ferida aberta. Qualquer chance de cura passa por cuidados intensivos. É preciso jogar luz onde há escuridão, é preciso limpar a sujeira, é preciso sinceridade com o paciente, é preciso ministrar remédios e tratamentos sérios que nem sempre são confortáveis. É preciso o compromisso indissolúvel com a saúde e nada mais. Por saúde entendo a ausência da doença, da dor e do sofrimento. Nenhum espirro pode ser relevado. Essa é a função do Estado. Por isso gosto tanto quando Lula diz: “não quero governar, quero cuidar”. Acredito no poder dos cuidadores.
Nessa primeira noite depois da vitória da democracia, fui dormir pensando na criança indígena que morre. Acordei pensando na criança indígena que nasce.
No maravilhoso livro Midnight’s Children, do indiano Salman Rushdie — Os Filhos da Meia-Noite, em tradução para o português — crianças nascidas à meia-noite de 15 de agosto de 1947, dia da independência da Índia, tinham superpoderes. Os filhos da liberdade, da independência, podiam mais do que qualquer outro ser humano. Uma alegoria fácil demais de entender.
Acordei, nessa manhã enevoada, chuvosa e fria de ressaca emocional, tão cansado quanto quando fui dormir. Era o cansaço acumulado de quatro anos de desesperança, de raiva, de decepções, de frustrações. Lembrei do livro de Rushdie e tive a certeza, ilógica e impalpável, de que à meia-noite do dia de nossa mais recente liberdade havia nascido crianças indígenas com superpoderes capazes de promover nossa cura enquanto sociedade. A cura de nossas chagas abertas a cinco séculos. Por que não? Faz todo o sentido.
À meia-noite do dia 30 de outubro, na noite passada, pode ter nascido nas profundezas verdes da floresta amazônica a alma iluminada que unirá o Brasil originário com o Brasil do futuro. A criança que enxergará o mundo natural com suas córneas ancestrais e saberá explicá-lo ao resto do mundo com a mais avançada tecnologia. A criança de muitas línguas, de muitos saberes. O elo que cessará esse divórcio insustentável entre a sociedade dos seres humanos e o meio ambiente natural. A aliança tão necessária entre a natureza humana e a natureza do planeta. O fim de uma divisão artificial e sem sentido. O congelamento dos ponteiros do relógio do fim do mundo.
Como saber se essas crianças nasceram de fato na floresta preservada nessa meia-noite abençoada? Vamos arriscar não crer nessa possiblidade? Vamos dobrar a aposta na descrença? O risco vale a pena?
Ou vamos manter a floresta em pé, intacta e virginal, como possível berço da esperança? Como a chance do milagre da reconciliação que tanto desejamos, que tanto precisamos? Como a fé no potencial sempre surpreendente da humanidade?
Já acendi minha vela.
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Parabéns pela visão lúcida. A mãe Terra seguirá firme, indelével! Costumo comparar cidades à metástases. E quando sobrevoo florestas, desertos ou oceanos percebo tecidos ainda “saudáveis”… A praga humana terá seu momento de glória, seu piscar de olhos entre duas eternidades. Aos “olhos do Cosmos”, e à severidade do tempo, em uma relatividade muito breve, seremos apenas poeira de estrela, energia, luz, ou ligações de carbono, como prefira chamar. Até lá, que perpetuemos em defesa de nossas crianças e o que nos resta de nossa condição humana. Abraços.
Belo texto, compartilho com você, a alegria pelo resultado da eleição de ontem, este alívio após 6 anos de desgoverno!! Bora sonhar um pouco com estas crianças e seus superpoderes
Lindo texto Cavallari! Sem dúvidas compartilho aqui a alegria e o alívio que sinto com o resultado das eleições, ou seja, a vitória pela democracia.
Sonhando com as crianças nascidas na madrugada do dia 30, e torcendo que venham com superpoderes para proteger o meio ambiente – o planeta 🌎 precisa muito delas.
Este texto é lindo e comovente. E nos dá a esperança que se nós não conseguirmos salvar nossas florestas, os povos originários a salvarão, como sempre tem feito. O texto me trouxe as imagens do Sebastião Salgado sobre a Amazônia, a beleza da natureza e a esperança em dias melhores regados pela democracia.
Querido, que lindo texto. Embarquei no teu olhar. Uma escrita que emociona do começo ao fim. Quanta vontade de avançar, de reconciliar com a natureza. O risco vale a pena. Grande abraço.