A PROPOSTA
Há muitos anos eu ministro um curso de Mountain Bike e Cicloturismo de final de semana, ensino mecânica de emergência, navegação, primeiros socorros, técnicas de pilotagem e dou um monte de dicas de cicloturismo. Sempre quis realizar esse curso em ritmo de viagem, em clima de expedição, levar um pequeno grupo de aventureiros interessados e bem dispostos, adequadamente equipados e fisicamente ativos, para uma experiência de uma semana por lugares que conheço e que sei são especiais.
Assim nasceu a ideia da EXPEDIÇÃO/CURSO DE MOUNTAIN BIKE E CICLOTURISMO, que finalmente consegui realizar em Julho de 2013.
O ROTEIRO
Escolhi um trecho do meu livro GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA, que apresenta um roteiro de 1.168 km de extensão por toda a extensão da Serra da Mantiqueira, de Extrema a Ibitipoca, ida e volta por caminhos alternativos diferentes. O percurso completo tem 30 dias de duração, mas o livro permite que aventureiros em bicicleta transitem por praticamente qualquer cidade da Mantiqueira com bastante liberdade.
O trecho escolhido foi Campos do Jordão – Itajubá – Delfim Moreira – Marmelópolis – Passa Quatro – Itamonte – Maringá (Visconde de Mauá). Total de 257,65 quilômetros conectando três estados: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
OS AVENTUREIROS
Alexandre Cavalheiro Liba, 38, arquiteto; Marcelo Fortuna Manginelli, 33, empresário; Guilherme Martucci Pinheiro, 23, estudante e Juliana Fernandes Vieira, 36, contadora – toparam o desafio. Todos preencheram uma extensa ficha de inscrição e fizeram uma entrevista comigo antes de se inscrever. Eu precisava saber se tinham a bike apropriada, condicionamento físico mínimo obrigatório e, principalmente, a disponibilidade psicológica necessária.
Todos tinham bicicletas de montanha em perfeito estado e alguma experiência em estradas de terra. Todos eram fisicamente ativos sem serem atletas. Todos se mostraram abertos a qualquer “dureza” que o terreno apresentasse. A única mulher do grupo não teria regalias ou privilégios.
PRMEIRO DIA, PRIMEIRA NOITE
No sábado, 13 de Julho, por volta das 15h, já estávamos todos em Campos do Jordão procurando uma hospedagem econômica perto do Mercado Municipal, em Abernéssia. Tarefa difícil na temporada de inverno em Campos do Jordão, a capital do frio e do luxo paulista. Juliana torceu o tornozelo direito atravessando a rua e chegou a duvidar se conseguiria começar a viagem.
Dormimos todos juntos em um quarto coletivo, com uma cama de casal e três de solteiro, no Campos do Jordão Hostel. Nossas bikes ficaram estacionadas na varanda sem proteção da fachada do prédio. Sorteamos quem dormiria em cada cama e esse passou a ser o método de divisão de leitos até o fim da viagem. No quarto desmontamos todas as mochilas e incentivei a todos que deixassem tudo o que fosse supérfluo para trás. Usei minha própria mochila como exemplo.
Depois de muito gelo no tornozelo e uma faixa elástica de compressão comprada de última hora na farmácia, Juliana teve certeza que conseguiria pedalar no dia seguinte.
O INÍCIO
Antes de começarmos a pedalar, passamos duas horas ajustando nossas bicicletas. Todos aprenderam um pouco de bike fit, encontraram a altura correta de selins e guidões, calibraram pneus e suspensões, etc.
Pedalamos de Campos do Jordão até Itajubá descendo a Serra da Vila Maria, logo depois de passarmos pela Represa de São Bernardo. Foi um trecho de quase 60 km sendo pelo menos 10 km de ladeira abaixo. Passamos não muito distante da Pedra do Baú, marco natural da região. Foi um dia de adaptação. Fora eu, nenhum dos aventureiros tinha pedalado com mochilas nas costas. As mochilas pesavam de 8,8 kg a 10,3 kg (a minha, mais pesada por conta de livros, mapas e kit de primeiros socorros) contando com a água e o lanche de trilha do dia.
Como no GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA o trecho mapeado é de Itajubá a Campos do Jordão e nós seguíamos no sentido invertido, tivemos algumas dúvidas no trajeto, mas nada que um pouco de bom senso e navegação básica não pudessem resolver.
Chegamos a Itajubá no fim do dia, o céu ameaçando chuva, e conseguimos nos hospedar em um velho hotel na praça central da cidade, próximo aos calçadões. Jantamos na mesma praça grandes pratos de comida caseira. Pedalar dá fome.
ITAJUBÁ – DELFIM MOREIRA
Dia de pedalar pelo leito de velhas ferrovias desativadas. O percurso de quase 31 km não assustou, mas a serrinha que chega ao bairro rural de Barreirinho fez suar. A cidadezinha de Delfim Moreira nos guardava uma agradável surpresa – a Pousada La Luna, de propriedade de um casal de publicitários paulistanos do bairro do Butantã que cansaram da cidade grande. Uma bandeira hasteada no topo da casa, especialmente construída para ser uma pousada, indica a lua do dia. Chegamos na mudança da Lua Nova para a Lua Crescente.
Depois que todos tomaram banho, fizemos uma aula de mecânica de emergência na garagem da pousada. Todo mundo aprendeu a consertar câmara de ar furada ou rasgada, pneu rasgado e a trocar pastilhas ou sapatas de freio. Quando íamos começar a aprender a consertar corrente de bicicleta partida o dia terminou. Jantamos fetuccini artesanal e pizza caseira na grande e confortável cozinha de aparência rural. Sentados à mesa, o grupo decidiu por não dormir em Marmelópolis na noite seguinte. Pedalaríamos direto até Passa Quatro para ganharmos um dia, que nos serviria de “coringa” em caso de necessidade. Uma decisão que depois se mostrou muito sensata.
DELFIM MOREIRA– PASSA QUATRO
Boa parte do trecho entre Delfim Moreira e Marmelópolis está em asfaltamento. O percurso sobe e desce uma longa serra não muito íngreme. Fizemos pausa de almoço em frente à igreja matriz de Marmelópolis com céu azul quase sem nuvens.
De Marmelópolis a Passa Quatro o caminho é extremamente bonito com vistas espetaculares do Pico dos Marins, Pico do Itaguaré e da Serra Fina – lugares tradicionais de trekking, inclusive mapeados nos meus livros GUIA DE TRILHAS TREKKING (VOL. 1) e GUIA DE TRILHAS TREKKING (VOL. 2). O caminho é cercado de vegetação densa e em alguns pontos havia lamaçais como pequenos rios.
Chegamos à simpática e turística Passa Quatro no meio da tarde depois de termos pedalado 54 quilômetros com quase 10 km de descida íngreme e rápida. Fomos direto para a Hotel Pousada São Rafael, do meu amigo César, para uma banho de piscina, sauna e camas confortáveis. Jantamos comida italiana de primeira na melhor cantina da cidade.
PASSA QUATRO – ITAMONTE
O dia mais curto de pedal, com apenas 21 km praticamente todo no plano. No caminho fizemos exercícios de técnicas de pilotagem. Uma vez instalados no Hotel Fazenda Recanto dos Lagos, do casal Don Miguel e Nanci, fizemos a segunda parte do treinamento de mecânica de emergência. Todos aprenderam a abrir e fechar correntes de bicicleta, alinhar rodas tortas.
Meus companheiros estavam visivelmente ansiosos para o dia seguinte, batizado de “o dia do paredão”. Nada a ver com aquela cretinice de Big Brother Brasil, era apenas o dia que subiríamos de 900 a 1.900 metros de altitude de uma tacada só, por uma serra de 16 quilômetros de subida sem intervalo.
Esse é o dia mais difícil de todo o GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA, que tínhamos programado fazer em duas etapas, dormindo na Pousada Fragária.
ITAMONTE – POUSADA FRAGÁRIA
Começamos a pedalar às 8h30. O grupo estava mais calado que o normal, todo mundo compenetrado. Quase não ouvi brincadeiras ou gracinhas.
Cada um no seu ritmo, subimos a montanha até a entrada do temível singletrack que passa perto da Pedra do Picu. Não dá para pedalar esse trecho de quase 5 km no meio da mata fechada. O caminho de cavalos é lotado de degraus, obstáculos naturais, erosões profundas. É difícil passar caminhando, imagine empurrando uma bicicleta!
Quando saímos do outro lado do singletrack, em frente à Pousada dos Lobos, tínhamos a opção de parar ali ou seguir por mais 8 km de descida até a Pousada Fragária. O grupo, cansado, votou por seguir caminho um pouco mais. Menos de um quilômetro depois o movimento central do Alexandre quebrou. Ele teve que empurrar em todas as subidas até chegarmos à pousada.
Ficamos hospedados em chalés de madeira com lareiras à beira do Rio Aiuruoca. Um farto e delicioso jantar caseiro nos esperava. O grupo estava exausto apesar de termos pedalado apenas 30 km. Eram 17h quando finalmente entramos na pousada. Havia sido um dia longo e estafante. No jantar decidimos por usar o dia que ganhamos no trecho de Delfim Moreira a Passa Quatro para pernoitar na vila de Santo Antonio, dividindo os 63 km até Maringá em duas etapas.
Antes de dormir Alexandre e eu abrimos o movimento central de sua bike e montamos de novo sem um dos rolamentos, completamente destruído. Seu pedivela estava comprometido. Sugeri que ele pegasse carona em um carro até Maringá, mas ele não aceitou. Disse que chegaria ao final da viagem nem que fosse empurrando a bicicleta.
POUSADA FRAGÁRIA – SANTO ANTONIO
Trecho de 34 km com duas subidas íngremes. Vales profundos decoram a paisagem. A vista da Cachoeira da Fragária compensou todos os esforços. O movimento central do Alexandre aguentou bem o percurso, para minha total surpresa. Quem teve coragem tomou banho de rio no caminho, com água gelada das nascentes nas montanhas.
Conseguimos hospedagem na Pousada da Beth e do Dirceu, na minúscula Santo Antonio que estava em dia de vacinação dos cachorros contra raiva. Por todo lado havia vira-latas sendo levados por seus dons amarrados a pedaços de corda e barbante. À tarde fizemos um treinamento de procedimentos de emergência e primeiros socorros. Jantamos farta e saborosa cozinha mineira no Restaurante da Cida.
SANTO ANTONIO – MARINGÁ
Dia curto de apenas 27 km e uma subida apenas, de cerca de 2 km de extensão. A vista do Pico da Pedra Selada coroou o percurso. Cada um seguiu no seu ritmo, já se sentindo um pouco vitorioso por estarmos tão perto de completar nossa programação e, ao mesmo tempo, um pouco tristes pelo fim da aventura.
Fomos nos reunir novamente já no centrinho lotado de turistas de Maringá, no Rio de Janeiro. Depois de dias na roça, ver uma multidão à nossa volta parecia estranho. Apesar da alta temporada, conseguimos vagas na Pousada Boticabeira, todos juntos em um único quarto grande.
Fizemos um almoço tarde de despedida e comemoração comendo feijão tropeiro – muito apropriado já que cruzamos boa parte da Serra da Mantiqueira à moda antiga, não em lombo de mulas, mas em selins de bicicletas. Somos todos tropeiros modernos.
AVALIAÇÃO FINAL
Alexandre, Marcelo, Guilherme e Juliana, vocês estão todos de parabéns! Fiquei muito impressionado com a alegria, o bom humor de vocês. Logo no primeiro dia já percebi que vocês formavam um grupo de valentes e minha intuição não foi frustrada. Não faltou solidariedade, companheirismo e determinação. Quando alguém me pergunta o que eu procuro em companheiros de aventura, eu nunca digo “força”, “coragem”, “técnica” ou “foco”. Essas coisas são importantes, mas não são essenciais. Para mim, fundamental é disposição. Isso nos faz dizer “sim” a qualquer desafio. Vocês se mostraram companheiros ideais para aventuras e eu só posso agradecer à oportunidade que vocês me deram de compartilhar com vocês essa experiência.
Marcelo, você já fez o CURSO DE TREKKING comigo, agora fez essa EXPEDIÇÃO/CURSO DE MOUNTAIN BIKE E CICLOTURISMO, você foi quem mais fez perguntas durante toda a viagem. Seu interesse em aprender é invejável. Espero, enquanto instrutor, estar à altura da sua sede de conhecimento.
Guilherme, sua alegria é contagiante. Você às vezes se dizia o “elo fraco do grupo”, mas espero que tenha a noção do quanto evoluiu e progrediu enquanto ciclista durante essa viagem. Mesmo com o tornozelo lesionado antes da viagem, você não desistiu e, com dor e desconforto, fez tudo com um baita sorriso no rosto. Sua alegria deu um tom ao grupo. Valeu!
Juliana, ser a única mulher em um grupo de cuecas, carregar o mesmo peso que todo mundo, acompanhar esses barbados morro acima a e morro abaixo, já diz muito a seu respeito. Mountain bike é um esporte masculino, dizem as más línguas, mas sua presença prova o contrário. É preciso ser mulher com “M” maiúsculo para fazer o que você fez. Se a viagem foi difícil para nós, para você ela foi épica. Fico muito orgulhoso de ter compartilhado esse momento ao seu lado. Obrigado!
Alexandre, fiquei muito comovido com seu depoimento no nosso almoço de encerramento. Você passou por momentos pessoais difíceis nos últimos meses, com morte na família e separação, mas sua força é impressionante. Fique sabendo que eu provavelmente teria desistido se estivesse no seu lugar, se meu movimento central tivesse explodido como o seu. Você não titubeou e terminou a viagem em cima da bicicleta, como havia prometido. Que esse seu gesto de coragem e determinação fique como exemplo de todo esse grupo de valentes com quem tive o privilégio de pedalar por uma semana na Mantiqueira.
Obrigado a todos! A aventura continua.














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