RONDON: UMA BIOGRAFIA, livro de Larry Rohter

5 de outubro de 2021

RONDON – UMA BIOGRAFIA

A morte do marechal Rondon, em 19 de janeiro de 1958, foi uma comoção nacional. O “soldado da paz”, como era chamado pela mídia na época, teve obituários e homenagens escritas por políticos, artistas, militares e personalidades de todos os escalões sociais. Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “Pranto Geral dos Índios”, lamentando a passagem do sertanista a partir do ponto de vista de um índio. Manuel Bandeira chamou Rondon de “uma das glórias mais puras do Brasil”. O antropólogo Darcy Ribeiro, discípulo de Rondon, que definiu seu mestre como “a mais rica, a mais coerente, a mais energética e a mais generosa personalidade jamais criada pelo povo brasileiro”. O então presidente da Repúblico, Juscelino Kubitscheck, decretou três dias de luto oficial.

Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958) viveu uma vida agitada, conturbada, aventureira e heroica. Sua origem humilde — filho único de uma índia bororo e um branco de origem portuguesa, nascido no interior do Mato Grosso quando o estado figurava apenas como território brasileiro no papel, sem a menor presença do Estado dentro de seus limites —, não limitou sua projeção nacional e internacional. Rondon entrou cedo para as Forças Armadas, tornando-se cadete e depois engenheiro do exército, mudou-se para o Rio do Janeiro, capital do país então, e logo passou a lutar por seus ideais de republicano e abolicionista.

O futuro marechal conviveu intimamente com todos os primeiros 21 presidentes do Brasil, com alguns de forma cortês a amigável, com outros — como no caso do ditador Getúlio Vargas — como franco antagonista. Depois de participar ativamente no golpe militar que derrubou a monarquia e instituiu a república, Rondon esteve presente em todos os grandes eventos da história nacional até o momento de sua morte. Seu nome e seu prestígio como cientista, explorador, indianista, humanista, pacifista, patriota e homem público foi usado de forma despudorada por quem quer que estivesse no topo do poder. Rondon, concorreu várias vezes ao Prêmio Nobel da Paz, indicado na primeira corrida por ninguém menos que o físico Albert Einstein.

Minha primeira lembrança do marechal vem do Projeto Rondon, uma ação governamental, popular na minha infância e juventude, que levava jovens estudantes universitários de classe média e ricos a conviverem de perto com o Brasil profundo. Um choque de realidade que mudou a visão de muitos amigos meus que participaram do projeto. Mas isso foi durante a ditadura militar de 1964 a 1985, quando a imagem do pacifista e do humanista Rondon foi transformada na imagem do “patriota” Rondon, preocupado unicamente com a soberania nacional, a integração do nosso território, o desenvolvimento econômico e a incorporação dos povos originários ao esforço progressista nacional — talvez o maior abuso que o nome marechal tenha sofrido ao longo de sua larga história. 

“Morrer, se preciso for, matar nunca!”, era o lema de Rondon enquanto desbravava o serão brasileiro. À frente dos trabalhos de instalação da linha telegráfica que uniu os atuais estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Acre e Amazônia aos sistema de comunicação nacional, o futuro marechal teve primeiro contato com diversas tribos indígenas. Graças à sua origem, também índia, e sua enorme capacidade intelectual, Rondon tornou-se fluente em diversas línguas nativas, o que facilitou esses primeiros contatos. Mesmo sendo atacado e ferido pelo menos duas vezes por flechas de nativos, ele nunca revidou o ataque e nunca permitiu que seus subalternos entrassem em conflito armado com os indígenas. Segundo a lógica de Rondon, ainda bastante incômoda às forças políticas e econômicas dominantes, os índios eram os verdadeiros donos das terras e o homem branco o invasor agressivo. Qualquer ação violente por parte dos povos originários era pura autodefesa.

RONDON: UMA BIOGRAFIA, do autor estadunidense Larry Rohter, é um livro há muito esperado. O marechal Rondon precisava de uma biografia isenta, sólida, vertical e profunda, que resgatasse sua história e filosofia para o Brasil e para o mundo. Segundo o próprio Rohter, Rondon está no mesmo nível, como explorador, de nomes consagrados como Richard Francis Burton, T. E. Lawrence, Ernest Shackleton ou Robert Falcon Scott. Mas Rondon, um mestiço brasileiro, não atendia aos requisitos raciais necessários para entrar para o panteão dos imortais da Royal Geographical Society de Londres, da National Geographic de Washington ou do Explorer’s Club de Nova Iorque.

Nossa jovem democracia, ainda frágil e incerta, precisa muito de ícones de valores inabaláveis como foi o marechal Rondon. Seus princípios de respeito às culturas originárias, seu compromisso com a preservação ambiental, sua idoneidade, sua imparcialidade política e seu pacifismo são exemplos sempre necessários. Rondon é uma bússola que, embora esquecida e difamada, segue a orientar o rumo certo para um Brasil mais justo, mais harmonioso, mais equânime e mais diverso. 

Um livro essencial para quem gosta de aventura, de história, de antropologia ou simplesmente quer conhecer melhor as dinâmicas que regem o Brasil e o mundo.

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