TRUMBO: A LISTA NEGRA (FILME)

17 de março de 2021

texto de Guilherme Cavallari

TRUMBO: LISTA NEGRA, filme de 2015 dirigido por Jay Roach (famoso pela sequência cômica “Austin Powers”), me fez refletir sobre as eleições presidenciais de 2018 no Brasil. O longa-metragem narra o obscuro episódio da história recente dos Estados Unidos, de 1950 a 1960 mais ou menos, no auge da Guerra Fria, quando a indústria cinematográfica baniu de suas fileiras todo e qualquer trabalhador que fosse comunista ou simpatizante do regime. Isso sem que houvesse lei que tornasse o comunismo ilegal no país.

O protagonista, Dalton Trumbo, interpretado por Bryan Cranston, era o principal roteirista de Hollywood na época. Ex-membro do Partido Comunista dos Estados Unidos, assim como dezenas de milhares de outras pessoas, Trumbo se vê de repente envolto numa complexa e irracional trama de perseguição ideológica. Preso por desacato à autoridade, ao sair da cadeia ele passa uma década escrevendo na clandestinidade, sob constante ameaças e perseguido implacavelmente.

Apesar de inconstitucional, a campanha anticomunista nos Estados Unidos da época de Trumbo era facilmente explicada pela Guerra Fria. O expansionismo soviético fazia frente ao imperialismo norte-americano e incomodava. Já no Brasil do século XXI, o anticomunismo é apenas anacrônico e grotesco. Fiquei chocado, em 2018, diante de palavras de ordem como “nossa bandeira jamais será vermelha!”. Era o velho slogan “Brasil: ame-o ou deixei-o” repaginado para “Vai pra Cuba!” ou “Vai pra Venezuela!”. Uma infeliz viagem no tempo. Impossível contra-argumentar com lógica nesses casos. Nada funciona contra o gargarejo ensurdecedor da massa ignóbil.

O filme mostra personagens reais, atores famosos como John Wayne e Ronald Reagan, agindo como trogloditas desmiolados e paranoides míopes. Kirk Douglas salva a classe. A produção é impecável, os diálogos inteligentes e ácidos, a fotografia lembra clássicos da Sessão da Tarde e o espectador é facilmente transportado para dentro da trama. Mas o que mais me tocou foi como o tema é atual no Brasil de 2021.

Mesmo durante nossa última ditadura militar, ser comunista nunca foi um crime por si só. Sempre houve, como ainda há hoje, a hipocrisia de uma falso estado de direito. Comunistas e socialistas precisavam ser acusados de terrorismo, traição à Pátria, assalto ou assassinato para serem sumariamente processados, julgados e condenados, quando não eram simplesmente executados. Isso quando, paradoxalmente, foram os próprios militares empoleirados no governo que traíram de fato a nação e seu juramento à bandeira ao derrubarem à força um presidente democraticamente eleito.

O discurso anticomunista no Brasil dos anos 1960 era um reflexo do cenário geopolítico mundial, uma reação violenta ao avanço do comunismo soviético. Atualmente, o mesmo discurso vela uma agenda verde-oliva óbvia demais para camuflar. Os militares temem a revogação da Lei da Anistia. Temem se verem sentados no banco dos réus acusados de sequestro, tortura, estupro, assassinato e ocultação de cadáveres. Crimes inegáveis e injustificáveis. Temem ver a credibilidade das Forças Armadas desmascarada pela verdade histórica. Mas temem, mais que tudo, perderem os privilégios acumulados de forma imoral como aposentadoria precoce, gordas pensões, escolas e hospitais dedicados à classe, justiça diferenciada e complacente, a possibilidade de fazer política partidária nos bastidores e uma independência que só se mantém através do terror. Na mesma onda, empresários gananciosos e sem escrúpulos usam o mesmo discurso anticomunista para pregar o evangelho neoliberal de extinção dos direitos dos trabalhadores, desmonte total dos sindicatos, privatização de bens públicos de primeira necessidade e a entrega do país ao capital estrangeiro.

TRUMBO: LISTA NEGRA é um bom filme, mas dá gastura. Mostra que os Estados Unidos das décadas de 1950 e 1960, quando ainda havia racismo constitucional no país e a perseguição ideológica era política pública, era mais progressista que o Brasil de 2021. Nosso atraso é medido em séculos, não em décadas.

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Uma resposta para “TRUMBO: A LISTA NEGRA (FILME)”

  1. João Arlas disse:

    Primeira vez que acesso o site.
    Que surpresa
    Lucidez na noite escura que estamos.

    Parabéns e obrigado!

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