UM TAPA NA CARA DO OSCAR

28 de março de 2022

Will Smith deu na cara de Chris Rock na frente do mundo todo, literalmente. Teve gente que riu, aplaudiu ou se revoltou. Parte do show, certo? Ou será que não? Mas, afinal, que importância isso tem?

Esse episódio hollywoodiano me fez lembrar de uma briga de rua da qual participei, a contragosto, quando morava em Eilat, Israel, no final da década de 1980. Era domingo, único dia de folga da labuta proletária de imigrantes ilegais, como era meu caso. Eu trabalhava como mão de obra não especializada. Peão de obra, coveiro, leão de chácara, carregador de móveis, lava-pratos. Qualquer coisa que pagasse perto do mínimo por hora de serviço. Pra economizar, dormia no pátio descoberto de um albergue de mochileiros. Nunca chove no deserto do Negev.

Era domingo, como disse, e estávamos numa praça cheia de bares e lanchonetes e gente desocupada como nós, matando o pouco tempo livre que tínhamos. Coisa de jovens. Éramos quatro ou cinco, todos brasileiros, relaxados e talvez alegres demais, embriagados pelo dia de folga e talvez um pouco de arak com Fanta laranja. Um colega gaúcho pegou um tubo de ketchup e espirrou o líquido em todos nós. Algumas gotas respingaram num colombiano de poucos sorrisos, único outro cliente no local.

O cara ficou puto, disse uma ladainha de impropérios em espanhol e saiu prometendo que voltaria. E voltou. Com uma dúzia de outros colombianos e alguns ingleses, todos bem bêbados ou doidos de sei lá o quê. Era a turma barra pesada da pequena cidade, famosa por brigas e quebra-quebras semanais.

Um colombiano, com quem eu já tinha tomado café no albergue onde vivia — café que eu fiz e ofereci a ele — se aproximou de mim a passos rápidos. Na verdade ele praticamente correu. Pensei, do topo da minha inocência, que ele queira conversar e tentar esclarecer o mal entendido. Quando eu me preparava para dizer “hola”, o cara deu um soco no meu rosto e um chute entre minhas pernas.

Não senti absolutamente nada.

Não sei se o cara era fraco, se os golpes não acertaram lugares importantes, ou se eu estava entorpecido de falafel. Fato é que não senti nada e isso deixou meu agressor bastante constrangido. Ele se afastou caminhando para trás por alguns metros, girou nos calcanhares e fugiu correndo.

Um inglês completamente bêbado acertou um soco no nariz do menor em nosso grupo, subiu numa mesa de madeira e fez uma rápida coreografia de kung-fu, obviamente imitando Bruce Lee, com gritinhos agudos e tudo. O astro sino-americano era muito popular então. Não consegui me conter e soltei uma gargalhada. Por mais que aquilo fosse uma briga de rua entre latino americanos violentos, a cena era tão patética que ficou cômica.

O colombiano ofendido ficou a muitos metros de distância, pronto pra correr de volta ao bar de onde seus amigos vieram, gritando abusos com o dedo em riste. Sem entender direito minha própria atitude, gritei de volta que éramos todos civilizados e que aquela não era uma atitude de gente decente. Até hoje sinto vergonha dessa minha reação.

O incidente terminou com o brasileiro responsável pelo conflito internacional do ketchup se engalfinhando com o colombiano que havia me agredido numa briga de puxar cabelos e tentar morder. Eles talvez achassem que aquilo era algum tipo de jiu-jitsu, mas estava mais pra briga de meninas no recreio da escola. Virei as costas e deixei que os dois arrancassem o escalpo um do outro com as unhas.

Alguns dias depois, numa conversa com um argentino mais velho, que estava na estrada havia muitos anos, contei o ocorrido em detalhes. Sua opinião ficou gravada na minha memória:

— Há momentos em que um homem precisa brigar por aquilo que ele acredita.

Não era o que eu esperava ouvir.

Gustavo — acho que esse era o nome do argentino — era um tipo sábio. Alguns anos mais velho que eu, fumante de cachimbo — o que sempre empresta ares de sapiência —, ele parecia estar sempre no controle da situação, sempre um passo adiante do destino. Enquanto nós trabalhávamos duro de segunda a sábado, economizávamos dinheiro em dólares e fazíamos nossas farras dominicais regadas com a moderação da falta de verba; ele trabalhava ainda mais duro, só bebia vinho tinto, dormia bem com a namorada brasileira num bangalô de tábuas rústicas à beira-mar e estudava a Bíblia aos domingos, mesmo não sendo religioso.

— Israel é o lugar para estudar a Bíblia — ele justificava.

Aquilo fez tanto sentido pra mim que investi alguns finais de semana na prática também, mas sem a mesma disciplina do portenho.

Atores famosos, como Will Smith, tendem a acumular na visão coletiva que se forma deles aspectos de personagens por eles representados. O público passa a enxergar o artista como uma colagem de interpretações, encobrindo assim a verdadeira personalidade do indivíduo. Por outro lado, quanto mais versátil for o ator ou atriz, mais fácil fica justificar qualquer atitude na vida real. Certos astros parecem inclusive não ter personalidade própria, aparentam ser folhas em branco ou espelhos, desesperados por um reflexo que os identifiquem. Desses qualquer ação será considerada normal.

O fato é que, de certa forma, somos todos atores.

Hoje em dia, no mundo virtual das redes sociais, acabamos interpretando papéis em nossas páginas pessoais ou nas dinâmicas profissionais. Muitos bancam um sucesso que não existe, uma prosperidade de faz-de-conta, uma felicidade mantida a doses cavalares de antidepressivos. Até que algo faz transbordar as gotas que vinham se acumulando.

Will Smith agiu de forma impulsiva e violenta. Isso é inaceitável sob o ponto de vista da civilização. Chris Rock foi desrespeitoso, insensível e agiu como um narcisista míope capaz de tudo para fazer rir. Algo também inaceitável. Sua piada sobre a falta de cabelo de Jada Pinkett Smith, esposa de Will Smith e vítima de uma doença que causa calvície, foi talvez a última gota no copo do marido. Crueldade respondida com truculência. Duplo erro. Como resolver o incidente? Diálogo, desculpas, autocrítica, terapia individual ou catarse coletiva. Ou, talvez, apenas uma bofetada.

Há momentos em que um homem precisa brigar por aquilo que ele acredita, foi a frase que imediatamente me veio à mente. Mas eu não acredito nisso. Eu não consigo agir assim.

Na briga de rua em Eilat, não encontrei em mim o impulso agressivo para responder à violência que sofri. Mais tarde, repassando a cena na minha cabeça por anos, fantasiei todo tipo de reação digna de Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger ou Clint Eastwood. Sinto que não respondi à altura. Sinto que meus argumentos pacíficos não encontraram terreno fértil para brotar. A agressão falou sozinha e reinou absoluta, o que para muitos é o mesmo que sucesso. Por outro lado, sei que sofreria gravemente de remorsos se tivesse machucado alguém por conta de algumas gotas de ketchup. Um impasse impossível de vencer. Às vezes, chego a invejar quem consegue simplificar a vida e resolver questões complexas com um simples tabefe, embora não veja isso como realmente possível.

Meu maior incômodo, no entanto, não foi a cena de violência e descontrole, exibida mundialmente com tradução simultânea em dezenas de línguas. Incomoda mais que um gesto tão banal seja o assunto mais comentado do mundo por dias. Uma indústria que se sustenta através da violência explícita não devia se sentir ofendida quando a ficção invade a realidade, mesmo que seja numa noite de gala e com todos usando black tie. Etiquetas, no plural, não são a mesma coisa que a etiqueta, no singular, de valor bem distinto. Vale lembrar que James Bond faz muito pior, de forma impecável e com a bênção da rainha. 

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