UMA PEDRA NO CAMINHO, DUAS NA MOCHILA

16 de dezembro de 2018

Uma das regras de ouro do mínimo impacto ambiental é não tirar nada da natureza, apenas fotos. Acredito tanto nessa orientação que ensino a todos meus alunos de trekking, mountain bike, cicloturismo ou bikepacking aqui no REFÚGIO KALAPALO. Mas como os cursos que ministro acontecem na minha casa, em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira, e os alunos dividem a residência comigo e minha esposa, Adriana, acabo desacreditado.

Em minha defesa, declaro que nem sabonete uso em rios, lagos e cachoeiras quando estou acampando, pra não poluir nada. Xampu eu nem levo na mochila. Quando escovo os dentes, na hora de enxaguar a boca, faço questão de pulverizar a água como se minha boca fosse um vaporizador, pra espalhar e minimizar o impacto. Depois de fazer no “número dois” num buraco que cavo com pelo menos 25 centímetros de profundidade, não enterro o papel higiênico para não retardar a absorção das fezes pelas bactérias presentes na terra. Trago todo e qualquer lixo de volta para a civilização comigo e cuido até pra não pisar ou pedalar por cima de vegetação ou insetos sempre que posso.

Mas, não sei o que acontece, não resisto a pedras!

Quando visitei o Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena, pela primeira vez, em 2004, levei um grupo de mais cinco brasileiros pra fazer o Circuito Paine completo comigo. Éramos todos marinheiros de primeira viagem na região, então o trekking de 11 dias foi exploratório pra todo mundo. Para sair do “caminho da roça”, eu e mais dois dos mais aventureiros da turma fomos explorar o Valle del Silencio — um anfiteatro árido composto de rochas empilhadas que fica atrás das torres. O lugar é, teoricamente, proibido a turistas comuns, como nós, por ser área reservada a escaladores. Quando chegamos ao Acampamento Japonês um escalador chileno veio logo informar que não podíamos ficar ali, muito menos acampar, como era nossa intenção. Expliquei a ele que eu escalava também e que estava realizando um sonho antigo de visitar aquelas paredes de granito. Tudo verdade. Ele se comoveu com minha sinceridade e liberou nosso pernoite. Na manhã seguinte, acompanhamos o grupo de três montanhistas até o pé de uma das torres e aproveitamos para explorar o magnífico vale. Antes de partir, encontrei uma lasca de pedregulho claro que se assemelhava muito a uma das torres e trouxe o souvenir comigo pra casa.

Anos mais tarde, quando visitei pela primeira vez El Chaltén, na Patagônia argentina, e cheguei caminhando até o mirante do Cerro Torre, novamente não resisti à tentação. Nesse caso, eu estava novamente com a Adriana e mapeava as trilhas locais para um de meus guias impressos. Entrei, sozinho, numa área restrita onde anos antes o cineasta alemão Werner Herzog construiu uma cabana de madeira e plástico para as filmagens de Cerro Torre: Um Grito de Pedra. Na volta, no Acampamento D’Agostini, encontrei um grande granito cinza com uma faixa branca, uma pedra de vários quilos que mais parecia uma peça de cerâmica, que trouxa pra casa como uma espécie de memento. 

Em outras andanças, quando passei dez dias ilhado na Baía Yendegaia, na Terra do Fogo chilena, durante a expedição TRANSPATAGÔNIA, encontrei uma lasca de pedra preta e vitrificada numa velha pilha de conchas de ostras que foi usada por índios locais para raspar pelo do couro de lobos marinhos. A ferramenta da Idade da Pedra podia tem cem ou mil anos de idade. Atravessando um rio na Reserva Nacional Cerro Castillo, na Patagônia chilena, pisei numa pedra muito redonda, enfiei o braço na água gelada e ganhei um pedra de boleadeira, também usada por índios e gauchos, de idade indefinida. Caminhando e acampando ao longo do Estreito de Magalhães recolhi conchas e caracóis, já que não podia trazer as orcas que nadavam a 30 metros de mim. 

Essa coleção, que durante os cursos em casa me causa algum constrangimento, pedras vulcânicas que geólogos não conseguem explicar, uma vértebra de baleia da Baía Windhond, na Ilha Navarino, na Terra do Fogo chilena e ponto mais austral que já fui na vida, uma galhada de veado-vermelho das Highlands da Escócia e até uma caveira de castor também da Ilha Navarino.

 

Considero esses objetos naturais como troféus. Chamá-los de “lembrancinhas” seria uma injustiça pelo diminutivo. Cada vez que olho para essas pedras e ossos volto no tempo e no espaço e consigo reviver o momento exato em que cada um deles passou a fazer parte da minha vida. Na verdade, mais do que representar momentos importantes para mim, eles são um truque mnemônico que me permitem recordar mais do que imagens e sons, recordo sensações e sentimentos. Relembro, inclusive, quem eu era naquele instante. 

Sei que, conceitualmente, estou errado. Não procuro, não peço e não dou desculpas. Algumas falhas acabam por compor nossa personalidade, então tudo o que podemos fazer é aprender a conviver bem com elas. Não imagino que um dia irá faltar pedras ou ossos nos lugares de onde meus troféus vieram, mas sei que essa atitude de colecionador — de acumulador — do ser humano é virótica. Ela faz parte de tudo aquilo que meu estilo de vida luta contra: a ganância, o individualismo, a desconexão, o egocentrismo. Confesso. Sou culpado. Tento compensar com um pouco mais de consciência e sinceridade. 

Tem gente que faz selfies, eu coleciono memórias e pedras… Ou seriam memórias petrificadas?

Os comentários estão desativados.


MARCAS QUE APÓIAM NOSSOS PROJETOS: