VISCONDE DE MAUÁ

11 de agosto de 2009

Estou fazendo o mapeamento da terceria etapa do Guia de Trilhas cicloMANTIQUEIRA, próximo livro da KALAPALO EDITORA, com previsão de lançamento para outubro.

Para quem ainda não sabe, a cicloMANTIQUEIRA é uma invenção minha na qual venho trabalhando desde 2001. Vou mapear toda a extensão da Serra da Mantiqueira para mountain bike, de Extrema a Ibitipoca, ida e volta por caminhos diferentes, só por estradas de terra de pouco trânsito de carros e eventuais singletracks de conexão… Esse será o maior roteiro de mountain bike do Brasil e um dos maiores do mundo.

O desenho da cicloMANTIQUEIRA é uma corrente de quatro elos e eu já mapeei o primeiro e o segundo elos… Extrema – Joanópolis – Monte Verde – São Bento do Sapucaí – Brazópolis – Itajubá – Delfim Moreira – Marmelópolis – Passa Quato – Itamonte – Virgínia – Maria da Fé – Itajubá – Campos do Jordão – Sapucaí Mirim – São Francisco Xavier – Joanópolis – Extrema.

O terceiro elo é… Itamonte – Visconde de Mauá (Maringá) – Bocaina de Minas – Aiuruoca – Alagoa – Itamonte.

Deixei o carro em Itamonte, debaixo de uma árvore na pousada onde dormi antes de começar o pedal. De mochila nas costas (veja meu CHECKLIST completo alguns posts abaixo), saí sozinho sem saber exatamente o que encontraria pelo caminho. Não há estradas que conectem a zona rural de Itamonte com Visconde de Mauá sem fazer uma baita volta chegando quase em Alagoa, mais ao norte… Consegui muita informação dos bikers de Itamonte, mas nenhuma companhia para o pedal. Depois entendi porque…

De Itamonte até aqui foram 92 quilômetros de distância, 3.150 metros acumulados de subida e 2.850 m acumulados descidos. Uma maratona alpina! Tive que empurrar a bike por um singletrack de quase seis quilômetros que conecta o bairro da Colina com Vargem Grande, terminando em frente à Pousada dos Lobos. Decisão difícil, mas era isso ou aumentar o percurso uns 20 quilômetros.

Não consegui vencer toda essa distância em um dia. Dormi à beira do Rio Aiuruoca, na Pousada Fragária, ao som de uma cachoeira em um chalé com lareira… Sacrifícios do trabalho! Ontem pedalei da Fragária (via Campo Redondo, Santo Antônio e Mirantão) até aqui. Muita serra pelo caminho e vistas de cartão postal da Cachoeira da Fragária, das Prateleiras do Itatiaia, das Agulhas Negras, da Pedra do Couto… Amanhã espero ver a Pedra Selada.

Em Mirantão tentei comprar um sanduiche de queijo quente em quatro estabelecimentos abertos sem sucesso. Gatorade? Nem pensar, a coisa mais próxima era Fanta laranja. Mas em todo bar que entrei vi pinga, muita pinga, cigarros e cerveja à vontade. Depois de comer um sanduiche de queijjo frio, quase entrei numa confusão com um bêbado de 1,90 de altura que queria saber quanto custava minha bike. Momentos antes ela havia desrespeitado uma mulher no bar/mercearia na minha frente. Não respondi o valor – um pouco por pudor e um pouco para definir limites, afinal bêbado inconveniente não respeita fronteiras e o próximo passo poderia ser subir na minha bike… O cara insistiu mais umas três vezes, a última bem agressivo: “Eu quero saber quanto custa essa bicicleta!”. Olhei fixo para ele e respondi: “Não te interessa o valor da bike.” Ele ficou puto com a resposta e começou a me xingar. Não reagi, além de olhar fundo nos olhos dele sem piscar por longos segundos. Ele me xingou mais um pouco, já dando alguns passos para trás e acabou indo embora resmungando, sem maiores consequências.

Todo o incidente foi testemunhado por um cadela viralata muito carinhosa e por um tipo trôpego, cambaleante, maltrapilho e de olhos azuis muito claros. Reparei que ele usava sapatos estranhos, confortáveis, nitidamente importados mas em estado terminal. Depois que o bêbado se foi, esse tipo pediu três pães ao atendente do bar com um forte sotaque alemão. Não aguentei a curiosidade e perguntei de onde ele vinha. Holanda. O que fazia naquele interior. Vivo aqui há vinte e cinco anos. Por que? Mulher, sabe como funciona a cabeça de homem e quando a gente é jovem é ainda pior…

Antes de sair, incerto sobre as pernas, pitando um cigarro artesanal que ele demorou muito para enrolar, ele disse olhando para o chão: “Desculpa o meu amigo, ele é muito ignorrrante”.

Não soube como responder a tanta gentileza e educação, mas o contraste entre os dois sujeitos me deixou embaraçado, um pouco envergonhado pela minha reação – pronto para socar o bêbado se fosse preciso. A não-violência do holandês de olhos azul-piscina me desarmou completamente. Do bêbado não se podia esperar outra reação a não ser a ignorância e a violência, mas ele conseguiu despertar a violência também em mim…

Segui viagem na paranóia. Pedalei com medo de ser atropelado por trás pelo maluco embriagado. Pedalei esperto, olhando para trás e planejando minha fuga se fosse necessário.

Dez quilômetros depois acho que entendi a lição: podemos limitar a expansão da violência com uma atitude de não-violência. O holandês me desarmou com sua atitude, então eu também poderia ter desarmado o bêbado se minha atitude fosse de paz.

Hoje descanso em Maringá, bairro de Visconde de Mauá onde estão as pousadas e restaurantes. Aproveito para tirar dúvidas sobre o próximo percurso e fazer alguns contatos. Mas a verdade é que estou meio cansadão, quero relaxar e dar tempo para meu corpo se recuperar. Escrevo de um cybercafé do lado mineiro do bairro e já sinto o delicioso cheiro do meu próximo expresso. Acho que vou mandar um brownie junto!

O quarto elo da cicloMANTIQUEIRA deverá conectar… Aiuruoca – Andrelândia – Santana do Garambeu – Conceição do Ibitipoca – Sousa do Rio Grande – Liberdade – Aiuruoca. Se alguém conhecer a região e quiser dar dicas ou até me acompanhar no pedal, será muito bem-vindo!

Uma resposta para “VISCONDE DE MAUÁ”

  1. ADRI disse:

    QUE LEGAL GUI! E EU MEIO BEBINHA DE VINHO AUSTRALIANO LENDO SEU POST DE BEBINHOS, ADOREI…SAUDADES AMORZÃO! BJ,EU.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


MARCAS QUE APÓIAM NOSSOS PROJETOS: