TERRA DO FOGO, TERRA DE TRUTAS
Quando a esquadra de Fernão de Magalhães “descobriu” o canal que levaria seu nome — as populações humanas autóctones já faziam amplo uso do braço de mar havia milênios — foram recebidos por incontáveis fogueiras na margem sul das águas. Daí no nome “Terra do Fogo”. Mas a Ilha Grande da Terra do Fogo, que compreende mais ou menos a primeira metade da costa austral do estreito, também poderia ter sido chamada de Terra de Águas. Não faltam rios e depois da introdução da espécie pelos europeus, não faltam trutas.
Depois da vila de Camerón, onde fizemos uma longa parada para o almoço num mercadinho bem construído e bem abastecido, seguimos em direção ao Rio Grande, um dos paraísos mundiais da pesca esportiva com mosca. Camerón não havia mudado muito desde minha única visita, em dezembro de 2012, mas o humilde mercadinho que havia então, onde só consegui comprar Miojo e atum em lata, deu lugar a um supermercado pequeno que servia até café espresso. Argumento inegável, pelo menos para mim, para afirmar que nem sempre o progresso é totalmente ruim.
Aproveitei essa parada de mais de duas horas para tentar desentupir o fogareiro multicombustível que uso em expedições. Com a ajuda de um argentino, que viajava com a esposa num micro-motorhome instalado numa caminhonete, que me emprestou palha de aço e WD-40, deixei o equipamento brilhando. Pena que não resolveu o entupimento…
Olhando em retrospectiva, tenho tido muito problema com fogareiros ultimamente. Na EXPEDIÇÃO TRANS-INCA, que gerou meu mais recente livro: TRANS-INCA: SEM AR E SEM PONCHO NOS ANDES (Kalapalo Editora, 2020), fiquei sem fogareiro logo no começo da longa travessia de cinco meses e quase 4.000 km de extensão, de Quito a Cusco. O equipamento pegou fogo onde não deveria queimar e ficou inutilizado no primeiro acampamento que fiz. Na volta ao Brasil, comprei um fogareiro outro, da mesma marca e do mesmo modelo que o antigo, mas o fantasma ou o karma do velho companheiro parece que encarnou no novo.
Essas “falhas” podem ser interpretadas como falta de preparo ou de organização por quem tem pouca vivência de expedições. A verdade é que a aventura de verdade começa quando surgem imprevistos, quando a programação precisa ser revista, quando o improviso e a flexibilidade precisam assumir o controle. Se tudo acontecer exatamente como previsto e antecipado — o que é praticamente impossível em aventuras de verdade — pode ser que você esteja na Disney.
LAGO BLANCO
Pedalamos quase 72 km no terceiro dia, com 832 m de subidas acumuladas e 603 de descidas. Chegamos na região de Russfin, também chamada de Munizaga em alguns mapas, uma fazenda de gado (era de ovelhas em 2012) onde se está construindo uma estrada pavimentada de conexão com o Paso San Sebastián. Enormes caminhões e tratores levantavam colunas de poeira, que eram esticadas e esgarçadas por ventos fortes. Gigantescas pilhas de troncos cortados indicavam que os bosques locais pagavam o preço do progresso. Mais uma confirmação de que a conta do progresso nos moldes do capitalismo sempre cai no colo da natureza, invariavelmente.
Pedimos ao administrador pra acampar, “em algum lugar discreto que não atrapalhe”, fiz questão de frisar. A resposta, evasiva, foi: “preciso pedir autorização para o patrão”. Depois de meia hora de espera, porque o patrão havia atolado seu carro nos lamaçais de algum lago, o capataz permitiu que esperássemos protegidos do sol e do vento numa casa usada por operários. Como o patrão nunca apareceu, acabamos dormindo nas camas ou colchões proletários. Outro funcionário, nosso vizinho de parede, ofereceu seu quarto para que pudéssemos cozinhar, já que nosso fogareiro seguia entupido. Um fogão a lenha aquecia também a água do chuveiro e meus companheiros pediram para tomar banho. “Claro, sem problemas, fiquem à vontade!”. Torci novamente o nariz. Não tomei banho porque não precisava, ninguém morre ou fica doente sem banho por três ou mais dias. Quanto mais apego mantemos com as comodidades urbanas mais limitada fica nossa experiência na aventura… Cada um tem seu tempo.
No dia seguinte, chegamos a Pampa Guanaco, onde existe uma pista de pouso de terra, uma minúscula comunidade e uma delegacia dos Carabineros de Chile — a polícia militar federal chilena. Pedalamos por uma vasta região que eu lembrava ser mais arborizada. Enfrentamos forte vento contra e nosso avanço foi muito lento. Chegamos bem cansados e fizemos uma longa pausa de almoço na varanda coberta de uma igreja construída de tábuas. Alguns de nós — inclusive eu — chegaram a cochilar deitados no chão.
Fiquei preocupado. Estávamos apenas no quarto dia de pedal, de um total estimado em quinze. Os piores trechos, de serras, longas distâncias e potencial vento contra ainda estavam por vir. Era preciso pensar na expedição toda e não apenas no próximo passo. Pensei e propus ao grupo mudar a programação. Sugeri não acampar no Lago Blanco. Expliquei que seriam 13 km de vendaval na cara, que faríamos em talvez duas longas horas, que eu julgava desnecessárias. “Temos que pensar na expedição toda”, lembrei a todos. “Não adianta ficar preso ao programa e arriscar lesão ou exaustão”.
Decidimos juntos que pularíamos o Lago Blanco e seguiríamos em direção a Caleta María. Senti um compreensível clima de frustração no ar. Cada um dos meus companheiros havia se empenhado bastante para chegar ali aonde estávamos. As expectativas eram grandes. Qualquer mudança no roteiro com subtração de localidade soava como fracasso. Alguém disse: “É uma pena não conhecer o Lago Blanco, não acredito que vou voltar a esse lugar no futuro”.
Saí pedalando na frente do grupo com esse comentário ecoando na cabeça. Eu nunca havia estado em Caleta María, o único lugar desconhecido para mim no roteiro, e se tivéssemos que abortar esse destino eu ficaria com certeza extremamente frustrado. Caleta María já tinha escapado de mim duas vezes: na EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA e na EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO 2019. Pedalei talvez 1 km e alguém me alertou que estávamos indo na direção errada, que deveríamos ter virado à esquerda na bifurcação logo que começamos a pedalar. Nós seguíamos rumo ao Lago Blanco.
Pode ter sido um ato falho — mecanismo explicado pela psicologia para justificar algo que lembramos, falamos ou fazemos movidos não pelo consciente, mas pelo inconsciente — ou apenas incompetência de navegação minha. Sei lá. Instintivamente, joguei para o grupo a proposta: “Já que estamos aqui, que tal seguirmos adiante? Vamos para o Lago Blanco então?”. Ninguém disse não. O clima no grupo mudou imediatamente.
Pedalamos 65 km nesse dia, com 461 m de subidas acumuladas e 577 m de descidas. O vento contra só atrapalhou no quilômetro final. O trecho era todo cortando bosques, ladeado por densa mata verde. Mesmo com o ruído dos pneus mordendo a terra era possível ouvir muitos pássaros. Gostei em especial das sombras dos galhos projetadas na estrada, que pareciam delicadas e intrincadas rendas. Lugar bonito e totalmente diferente do que havíamos visto até então. O Lago Blanco só perde em área para o Lago Fagnano, nas proximidades de Ushuaia, também no nosso roteiro. Acampamos numa beira de mata, protegidos do vento, vizinho a um casebre cheio de sucata que eu não lembrava ter visto na visita anterior, em 2019. O fogareiro também comemorou a vitória e resolveu funcionar, embora meio engasgado. Nem sei se o Lago Blanco é assim tão bonito, mas foi bastante celebrado por nós.
ALTOS E BAIXOS
Paramos no posto dos Carabineros de Chile para informar nosso destino — Caleta María —, e garimpar informações adicionais. “Vocês vão enfrentar duas serras íngremes e longas no caminho, com um vale protegido do vento onde está o Lago Deseado”, informou o jovem policial que cortava a grama na frente da delegacia, usando uma ruidosa roçadeira a gasolina. O outro cabarinero, oficial responsável pelo posto, havia sido transferido recentemente da região de Santiago para Pampa Guanaco. Ele não parecia animado: “Só aceitei vir para cá por conta do adicional de salário. Tenho dois filhos na faculdade e as despesas estão muito altas”. No lugar dele eu estaria em êxtase.
Pedalamos 75 km, com 983 m de subidas acumuladas e 899 m de descidas, nesse quinto dia de expedição. A serra íngreme no final da jornada exigiu muito esforço físico e cheguei ao local de acampamento, no Lodge Lago Deseado, esgotado.
A partir de Pampa Guanaco, todo o trajeto foi novidade para mim. Desde janeiro de 2013, quando tentei pela primeira vez visitar Caleta María, o destino passou a povoar minha imaginação. Tentei novamente chegar lá em 2019, sem sucesso. Recentemente, um livro havia chegado às minhas mãos que renovou o desejo de conhecer esse fim de caminho, aumentando as expectativas e a ansiedade. Fiquei fascinado com a história de Rockwell Kent (1882-1971), um famoso desenhista e pintor estadunidense, que em 1922 havia “encalhado” na baía vizinha a Caleta María, para depois caminhar de lá até Ushuaia, na Argentina, na companhia do marinheiro que viajava com ele num minúsculo veleiro desde Punta Arenas. O livro VIAJANDO AL SUR DESDE EL ESTRECHO DE MAGALLANES, que narrava em detalhes bem-humorados e com lindas ilustrações do artista toda a travessia, havia sido traduzido para o espanhol recentemente e uma das editoras da obra era minha vizinha, dona da única livraria numa cidadezinha ao lado da minha. Coincidências que me deixam em dúvida se coincidências realmente existem.
A realidade mostrava seus dentes para mim. Eu não havia conseguido treinar como deveria ou gostaria no semestre anterior às expedições austrais. Tive que mudar de casas às pressas, entre outras desculpas esfarrapadas. Meu corpo pedia descanso, mas o cronograma da expedição não permitia. O começo desse trecho foi todo plano, com vento em diagonal, ora contra, ora a favor, sem grandes atrativos visuais num padrão de descampados do lado esquerdo e mata do lado direito. A exceção foi uma linda casa antiga e abandonada que indicava a sede da histórica Estancia Vicuña, onde paramos para fotos.
Meus companheiros pareciam aclimatados e bem-dispostos, aparentemente em melhor forma física que eu. Alguns detalhes chamavam minha atenção, confirmando que as coisas fluíam bem… Marcos escrevia todos os dias um diário numa caderneta que ele ganhou de mim, numa promoção de venda de livros, cuja capa era uma réplica do meu livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS… Alexandre foi ao banheiro uma tarde no meio do nada, num pasto aberto, completamente indiferente ao local ou a quem passasse por ali, atendendo naturalmente a um chamado da natureza, como deve acontecer… Quase sempre quando eu ultrapassava a Mabê numa subida, quando ela começava a empurrar a bike, ouvia ela cantarolar uma canção. Ela vivia cantando sozinha… Embora Daniel gostasse muito de falar e parecia sempre puxar conversa com quem estivesse por perto na trilha, ele ao mesmo tempo entendia quando o silêncio era importante para os outros, como eu, por exemplo, num sinal claro de esforço coletivo… Detalhes que interpreto como sinais de “boa sintonia”, tanto dos indivíduos com o entorno, quanto dos indivíduos entre si. Bons sinais.
Depois da longa subida veio a rápida descida. Com o corpo molhado de suor, numa temperatura em torno de 12˚C, isso significou passar frio. Muito frio. Ao chegarmos ao Lago Deseado tudo o que queria era montar a barraca, vestir roupas secas, tomar um litro de chá quente e dormir! Paramos em frente ao Lodge Lago Deseado, um conjunto de chalés chiques de frente para a água, onde hóspedes eram paparicados com todos os luxos possíveis. O estabelecimento estava fechado, embora saísse fumaça de uma das casas de funcionários. Gritei e chamei, mas ninguém atendeu. Os Carabineros nos haviam alertado para não beber, em hipótese nenhuma, água do lado ou dos rios. “Tudo contaminado com excesso de minerais”, segundo eles. Nós não tínhamos água suficiente nem para matar nossa sede.
Mendigamos água aos poucos veículos que passaram, inclusive um motorhome de uma família de chilenos. Não demorou e tínhamos 10 litros de água potável. Montamos as barracas numa área privada, de propriedade do Lodge, onde o terreno era menos pedregoso do que na beira da estrada. Assim que as barracas estavam prontas apareceu um sujeito mal-humorado, pisando duro, para nos intimar: “Vocês não estão vendo a placa de propriedade privada? Aqui não pode acampar!”.
Esse tipo de tratamento não é comum na Patagônia, onde o padrão é o acolhimento e a boa vontade. Pedi que ele nos deixasse descansar ali por uma noite. “Durmam na beira da estrada, que é terreno público,” foi a resposta. O cara estava na casa de onde saía a fumaça da chaminé quando chegamos e simplesmente ignorou nossos chamados. Eu nunca tinha visto isso antes na Patagônia.
Desmontamos as barracas e remontamos no acostamento da estrada de terra. Informei aos companheiros que estava cansado demais, sem condições de cozinhar, especialmente com o fogareiro quebrado. Sugeri que cada um comesse uma lata de atum e um punhado de chocolate e fôssemos dormir. É isso que costumo fazer nas longas expedições solo, quando estou exausto.
A ideia não foi bem aceita.
O apego ou o hábito, que se disfarça em necessidade, fala alto nessas circunstâncias. Demora a cair a ficha de que o corpo humano é capaz de passar muito tempo dormindo pouco e comendo mal, sem grandes prejuízos para a saúde. Nossos antepassados caçadores e coletores nos deixaram um legado de meio milhão de anos, sendo modesto, de resiliência, força e resistência. Fico feliz quando tenho a oportunidade de honrar esse legado. Mas cada um tem seu tempo.
Um carro luxuoso, um SUV preto bem grande, parou na frente do Lodge e um casal desembarcou. Pela postura calculei, acertadamente, que o senhor grisalho era dono do hotel. Meus companheiros foram até ele pedir permissão para preparar o jantar na cozinha do hotel. Tudo o que precisávamos era água quente. A cozinheira, Carolina, que nós havíamos conhecido minutos antes, quando ela saiu da mata suada e carregando bastões de caminhada, ajudou sem titubear. O sujeito mal-encarado sumiu de cena, talvez constrangido. Fui servido com jantar quente de Miojo com atum sem precisar ter lutado com o fogareiro. Gostei do trabalho de equipe.
No final, a cozinheira Carolina confirmou o que os pescadores e demais turistas que nos deram água potável já haviam dito: a água do Lago Deseado e dos rios que o alimentam era segura pra beber. A alga Didymo (Didymosphenia geminata), que havia nos preocupado também no Lago Blanco, era inofensiva à saúde.
Não dá pra acreditar em tudo o que os Carabineros dizem.
ENFIM, CALETA MARÍA
O dia seguinte começou com outra longa subida, seguido de outra rápida descida, também gelada. Pedalamos apenas 46 km, com 810 m de subidas acumuladas e 978 m de descidas.
Quando avistei o mar do Seno Almirantazgo, cujo ponto final é Caleta María, senti o calor da alegria esquentar pés e mãos enrijecidos pelo frio de apenas 10˚C. Nós havíamos passado pelo lado chileno do grande Lago Fagnano e acompanhado toda a extensão, de cerca de 10 km, do Rio Azopardo. Topônimos que habitaram minha imaginação por anos. O lugar era ainda mais bonito do que eu imaginava. O estreito e longo braço de mar, como um corredor, tinha o lado mais visível para nós, sua margem norte, ladeado por volumosas e íngremes montanhas cobertas de vegetação e neve. Esse era o Parque Natural Karukinka, a maior área de preservação ambiental particular do Chile, de propriedade da Wildlife Conservation Society (WCS), com 2.720 km2 de superfície. Caleta María era um feliz encontro de rio volumoso, mar enclausurado, bosques, montanhas e pampas. Achados arqueológicos indicam que ali se encontravam várias etnias da Terra do Fogo para trocas culturais e espirituais. Um lugar mágico.
Ficamos hospedados numa casa pertencente à Estancia Caleta María. Minha alegria era dupla — pela chegada, enfim, a esse destino tão desejado; pelo também muito desejado dia de descanso. Nós passaríamos duas noites em Caleta María, com direito a refeições preparadas pelo caseiro do local, o simpático Miguel, banho quente, sinal de internet e camas confortáveis. Tomei o merecido primeiro banho da expedição.
Uma família de pinguins-rei habitava o banco de areia na foz do Rio Fontaine, que desaguava logo em frente do nosso chalé. Águias sobrevoavam os alto os picos do Parque Karukinka. Enormes trutas salmonadas (que não vi) frequentavam o desemboque do Fontaine. Guanacos e baleias (que também não vi) eram comuns nesse canto da Terra do Fogo. Não era à toa que três das quatro etnias autóctones da região — selk’man, yaganes e alakalufes — se visitavam mutuamente ali. Para os selk’man, ou onas, karukinka era como eles chamavam sua terra de origem, seu lugar de pertencimento.
Havia um jovem casal de argentinos de Ushuaia hospedados na sede da Estancia Caleta María, a casa onde fazíamos as refeições e onde havia sinal de WiFi. O homem era pescador e trouxe da desembocadura do Fontaine uma gorda truta de uns 4 kg, que ele e a companheira cozinharam com arroz e ofereceram aos brasileiros famintos. Comemos todos em volta da grande mesa, acompanhados de Miguel, com os picos verdes e brancos do Parque Karukinka emoldurados nas panorâmicas janelas. Eu havia chegado até ali de bicicleta, como sempre havia sonhado, acompanhado de parceiros bem-humorados e confiáveis. Eu estava cansado, mas me sentia vivo e saudável. A refeição foi perfeita em muitos níveis. Cada garfada de truta entrava no meu organismo como exatamente aquilo que eu mais precisava. Depois de duas noites bem dormidas, fiquei pronto pra qualquer coisa.
Consegui que Miguel nos emprestasse um fogareiro novo e nos vendesse um botijão pequeno de acampamento. Eu devolveria o fogareiro em Punta Arenas. O problema das refeições quentes estava resolvido.
Choveu praticamente todo o dia em que estivemos em Caleta María. Pra nossa sorte, esse foi o único dia de chuva constante durante toda nossa travessia! Definitivamente, o clima não era nosso inimigo
CUIDADO COM A HIPOTERMIA!
Saímos de Caleta María com ameaça de chuva e relativo frio, em torno de 8˚C. Decidimos subir e descer as duas serras e acampar onde desse depois de vencidos os dois acidentes geográficos. Foi o dia mais árduo de toda a expedição. Foi também o dia mais tenso.
Escalamos a primeira serra com alguma chuva fina e muito frio no topo. Chovei mais na descida do lado oposto. Esse é um drama comum em bikepacking — chegar molhado de suor num cume gelado pra depois despencar montanha abaixo e morrer de frio. Não tem muito o que fazer, a não ser subir a serra pouco agalhado, pra evitar suar excessivamente, mesmo que isso implique em sentir um pouco de desconforto térmico. Uma vez no topo, é só vestir a jaqueta impermeável, que também é um corta-vento, descer rápido pra sair da zona de exposição. Mais fácil aconselhar do que fazer.
O dia de descanso fez toda a diferença pra mim. Eu estava revigorado e subi a montanha como se pedalasse uma bike elétrica. Não fiz fotos ou filmes no topo, nada de selfies. Despenquei o morro pra sair do frio e esperei meus companheiros numa área de bosque protegido do vento. Um a um, todos chegaram molhados e gelados.
Seguimos viagem de volta ao Lodge Lago Deseado rezando pra encontrarmos um lugar seco, fora da chuva, onde pudéssemos recuperar o calor corporal. Novamente, chamei e gritei e pedi por ajuda no hotel. Fui recebido pelo tal gerente mal-humorado, que parecia ainda mais mal-humorado. “O que vocês querem?”, ele perguntou abrindo a porta de sua habitação só para mostrar a cara. “Sair da chuva e do frio, se possível,” expliquei. “Vocês não são hóspedes,” ele respondeu. “Então só quem paga recebe gentiliza aqui?”, confrontei o sujeito, contendo a vontade de dizer o que eu realmente pensava sobre ele. “Exatamente,” ele respondeu sem pensar e imediatamente se arrependeu do que disse. Depois de uns segundos de silencia, ele disse: “Vá até a cozinha coletiva e procure a Carolina,” e bateu a porta na minha cara.
Carolina nos recebeu como hóspedes pagantes, ferveu água para nosso chá e nos ofereceu biscoitos. Passamos mais de uma hora na cozinha e refeitório de funcionários, nos secando e aquecendo os ossos. Boa música pop chilena tocava alto no rádio enquanto ela produzia pães.
Refeitos, nos sentamos nos selins para a segunda serra e a busca de um local de acampamento. Ainda chovia quando começamos a pedalar. A subida começou quase que imediatamente. Íngreme, sinuosa, de tirar o fôlego tanto pela beleza da paisagem quanto pela alta frequência cardíaca. Não parei, concentrei na respiração, no movimento cadenciado das pernas, atento para evitar quaisquer tensões musculares desnecessárias. Um misto de relaxamento e foco.
Ultrapassei todos os companheiros na subida e perto do topo dei o recado: “Não fiquem muito tempo no cume expostos ao frio, desçam o quanto antes!”. Mas acho que a paisagem era bonita demais e o pessoal quis aproveitar. Compreensível. Desci o mais rápido que consegui, os dedos das mãos duros de frio. Os dedos dos pés insensíveis mesmo usando botas. Por estar chovendo, escalei a serra vestindo calça e jaqueta impermeáveis. Suei um monte e acabei enxarcando a camiseta e a bermuda. Receita certa para hipotermia na descida.
Parei num local mais baixo e bem abrigado para reagrupar. Esperei cerca de 15 minutos até que Alexandre e Daniel chegaram. Depois de uns 5 minutos juntos, eu disse a eles que seguissem descendo: “Procurem rápido um local para acampar, todo mundo vai chegar morrendo de frio”.
Mais 10 ou 15 minutos e o Marcos chegou. Perguntei se ele havia visto Mabê. “Ela está bem pra trás”. Indiquei que ele também seguisse descendo e montasse logo o acampamento. A essa altura eu já estava tremendo de frio. Peguei o piso extra da barraca, de um material sintético resistente à água e ao fogo — Tyvek — e me enrolei nele por baixo da jaqueta impermeável. Qualquer coisa para reter o calor que eu produzia e que não era suficiente. Não aguentei esperar parado e passei a caminhar rápido e depois trotar. Trinta passos numa direção e 30 passos de volta, enquanto esperava a Mabê chegar. Comecei a ficar preocupado. Um acidente naquelas condições — uma queda, pneu furado, corrente quebrada —, com o corpo molhado de chuva e de suor, na chuva fina a menos de 10˚C, vestindo roupas leves de pedalar, exposto ao vento da descida imóvel no selim, expõe qualquer um à hipotermia. As mãos perdem sensibilidade e qualquer atividade se torna um sacrifício enorme. Em minutos está desenhado o drama que pode facilmente virar tragédia.
Devo ter esperado a Mabê por mais 15 minutos. Ela chegou sorridente e cantarolando alguma canção. “Desculpa a demora, esse é meu ritmo”, foi seu comentário. “Não se preocupe, o importante é chegar bem”.
Fiquei um pouco decepcionado quando chegamos na baixada e o resto do grupo ainda procurava um local pra acampar, sendo que havíamos passado por vários. Meus companheiros estavam presos a detalhes de conforto como um barracão onde trocar de roupa, um local pra fazer uma fogueira pra secar a roupa, água potável por perto, terreno plano e afins. Hipotermia é assunto sério, deixando qualquer outra questão como insignificante.
Pedalamos 68 km nesse dia, com 1.492 m de subidas acumuladas e 1.240 m de descidas.
Montamos acampamento num bosque, na estrada para veículos de uma propriedade privada onde, em breve, haverá uma casa. Uma vez despidos das roupas molhadas o frio que sentíamos desapareceu. Com o fogareiro novo fizemos uma farta refeição quente de purê instantâneo de batatas e jurel (cavala). Um prato calórico e reconfortante.
ADEUS CHILE, BEM-VINDOS À ARGENTINA
Descobrimos que havia uma mercearia, um minúsculo mercadinho, em Pampa Guanaco. No caminho de ida a Caleta María o comércio estava fechado, na volta estaria aberto segundo os Carabineros. Essa novidade, embora não 100% confiável, mudava toda a logística da nossa travessia. Se pudéssemos reabastecer em Pampa Guanaco não precisaríamos parar na cidade de Rio Grande, na Argentina, nem carregar tanto peso até Caleta María.
Alexandre e Daniel fizeram o imenso favor de pedalar cerca de 6 km a mais e passar no mercado, metade do percurso com forte vento contra. Nós tínhamos comida suficiente pra chegar até Rio Grande, mas qualquer reforço seria bem-vindo.
Passamos pelos trâmites alfandegários chilenos e argentinos com o mínimo de espera. Fico impressionado em como a personalidade coletiva de uma nação transparece nas dinâmicas de fronteira. Os chilenos são excessivamente formais e superburocráticos (único país que conheço que inclui uma folhinha de papel impressa, da polícia de investigação (PDI), em plena era digital). Os argentinos são informais além da conta, não passam segurança. Sempre que entro no Brasil sinto como se todo viajante, inclusive eu, fosse visto como um potencial traficante. Todos criminosos, até que se prove o contrário. O Brasil das fronteiras é muito desconfiado, beirando o agressivo.
O lado argentino da Terra do Fogo é mais árido, com menos bosques, mais difícil de se abastecer de água. Quem leu meu livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS CICLISTAS e assistiu ao premiado documentário TRANSPATAGÔNIA, vai lembrar de quando tive que “pedir emprestado” água para um santo local — Gauchito Gil —, quando a sede bateu no pampa argentino. A alternativa de transportar litros de água na bike desde o Chile pode parecer funcional, mas não é eficiente. O custo energético de carregar o peso extra não costuma compensar.
Pedalamos 73 km, com 442 m de subidas acumuladas e 851 m de descidas, até avistarmos o Rio de la Turba, localmente também chamado de Rio Menendez, onde pedimos pra acampar na Estancia Aurelia. Montamos as barracas dentro e em torno de um barracão de chapas, sem teto, de chão de terra e grama. Três gordos porcos curiosos e dois filhotes carinhosos de cachorro nos fizeram companhia.
No dia seguinte, pedalamos mais 66 km, com 533 m de subidas acumuladas e 655 de descidas, até chegar à cidade argentina de Rio Grande.
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