AVENTURA NÃO COMBINA COM VIOLÊNCIA

28 de março de 2019

Reflexão sobre posturas de medo e de coragem na aventura, suas expressões e como isso influencia nossa visão de mundo.
TEXTO: Guilherme Cavallari

É impressão minha ou as pessoas que se dizem “aventureiras”, que divulgam amor pela natureza e pela vida ao ar livre, começaram de repente a se vestir de roupas camufladas e publicar fotos de armas de fogo em suas redes sociais? Alguém mais já reparou isso? 

Nada contra roupa camuflada para quem é observador de pássaros, para fotógrafos de fauna selvagem, biólogos em estudo de campo tentando passar desapercebidos e afins. Mas quem, como eu, faz trekking, mountain bike, montanhismo, canoagem e outros esportes de aventura não quer “sumir” na natureza. Eu não quero surpreender uma onça, urso ou javali vestido de mato porque as consequências dessa surpresa podem não ser saudáveis para mim. Não quero virar paisagem depois de um acidente, muito pelo contrário, quero que meu corpo ferido e incapaz de movimento fique visível de longe para facilitar um possível resgate. Mas esses argumentos lógicos dizem respeito apenas a questões técnicas de segurança na aventura, porque definitivamente roupa camuflada não é eficiente nesses quesitos. Mas nesse artigo quero falar de algo mais complexo, mais profundo e mais determinante. 

Não sou místico. Não tenho pé no ocultismo, muito pelo contrário, acho que sou lógico é prático até demais. O máximo que consigo sentir e aceitar daquilo que outros chamam de “força invisível” vem de experiências que realmente vivi em contato com a natureza, muitas das quais tentei descrever em meus livros. Lembro, como se fosse hoje, de momentos ocorridos muitos anos atrás, quando venci um determinado medo num ambiente de trilha não por me opor ou tentar vencer a natureza, mas por me sentir parte integral dela. Desarmado, consegui ir muito mais longe.

Vou tentar explicar melhor.

Quando eu fazia, por exemplo, a travessia do Parque Patagônia, durante a Expedição Transpatagônia, descrita no livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, senti muito medo e insegurança. Era um temor estranho, não diretamente relacionado com a realidade e mais conectado com minha estrutura psicológica e emocional. Relembrando quem leu o livro e explicando a quem ainda não leu, eu estava sozinho, era começo de primavera, em outubro, havia ainda muita neve na região, as montanhas estavam brancas e a trilha não era popular ou demarcada. Em outras palavras, a navegação seria um grande desafio, dificultada ainda mais pelas condições climáticas e características do terreno. Pegadas de pumas decoravam a neve e o barro da trilha. Lutei muito comigo mesmo para não desistir logo no começo, para não aceitar os argumentos da voz interna que gritava na minha cabeça que aquilo tudo era ameaçador demais! Você não estava preparado!

Durante a travessia da Cape Wrath Trail, nas Highlands da Escócia, considerada “a trilha mais difícil da Grã-Bretanha”, vivi uma dinâmica semelhante. Fiz esse roteiro semisselvagem de 450 km de extensão sozinho e fora de temporada, no fim do outono. Durante 23 dias não encontrei mais ninguém na trilha. O clima de final de outubro e começo de novembro estava no limite do suportável sem roupas pesadas de inverno, o terreno constantemente encharcado elevava o nível de desconforto para a fronteira do meu bem-estar. A solidão externa, no entanto, não refletia a barulheira interna que minha mente produzia, por razões que tentei explicar no livro HIGHLANDS, POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS. Enfim, havia mais razões para eu desistir e voltar para o aconchego e a sensação de segurança do meu lar do que para seguir adiante. Novamente, foi preciso me despir, me desarmar e aceitar minhas limitações e fragilidades para completar o percurso. O inverso de vestir roupa de batalha, camuflada, ou portar um rifle. 

Eu poderia listar dúzias de outros exemplos, mas esses dois já devem bastar.

Nos dois livros citados, eu discuto o medo e minhas reações diante dele. Aliás, discuto o medo todo o tempo comigo mesmo, mesmo quando não estou em aventura. Na natureza, identifiquei o medo como um distanciamento, uma divisão, que considero artificial, entre nós e o resto do mundo natural. Acho estranho, por exemplo, que pessoas que vivem em grandes centros urbanos, notoriamente perigosos, conseguem se sentir mais seguras em ruas, lotadas de outros seres humanos, do que sozinhas no mato. Plantas, insetos e possíveis animais conseguem parecer mais ameaçadores do que desconhecidos potencialmente armados e mal intencionados à nossa volta. Muito estranho.

Minha esposa, Adriana, é professora de yoga e de meditação. Ela estuda e ensina técnicas de mindfulness e faz trekking comigo. Nós já passamos alguns apertos juntos, tomando chuva torrencial em temperaturas pouco acima do zero, momentaneamente perdidos em trilhas sem marcação, caminhando entre dúzias de serpentes na Mata Atlântica. Nesses momentos, ela repete silenciosamente o Mantra da Não-Violência para ela mesma: Ahimsa Pratichãyam Tat Samnidhan Vairatiagah

Traduzida, a sentença em sânscrito que dizer: “Quando se está firmemente estabelecido em não-violência (ahimsa), todos os seres à nossa volta cessam de sentir hostilidade”. Essa orientação faz parte dos Yoga Sutras atribuídos ao mestre Patanjali, responsável pela difusão do yoga no mundo segundo a tradição indiana. Ahimsa é, inclusive, um dos quatro preceitos básicos do budismo. 

Do jeito dela, fazendo uso do conhecimento e das técnicas que ela detém, Adriana descobriu que, para ela, proferir esse mantra produz calma e serenidade. Mais que isso, a mensagem subliminar do mantra produz também integração com o meio. Declamando o texto mentalmente e concentrando em sua mensagem, ela consegue chamar a atenção dela mesma para a origem da sensação de medo e insegurança que o momento produziu. Se ela abraça ahimsa — uma atitude de não-violência, de não-conflito, de não-distanciamento —, ela se desarma, sai da defensiva, derruba a barreira que o medo e a insegurança levantaram entre ela e o mundo. 

Do meu jeito, sem declamar mantra algum, acabo fazendo algo muito parecido. Primeiro, assumo um compromisso comigo mesmo de não me deixar curvar diante do medo e da insegurança. Não cedo terreno. Estou com medo, mas vou seguir adiante com muita atenção, é o que digo a mim mesmo. Segundo, aceito que nada na natureza ao meu redor — a ausência de trilha, a possibilidade de haver pumas, o clima desconfortável, a proximidade da noite, a beira do penhasco, etc. —, absolutamente nada é ameaçador por si próprio. A ameaça é uma sensação que só existe dentro de mim. Medo e insegurança moram apenas dentro de mim. Terceiro, enfrento meus fantasmas de frente, dou nomes a eles. Qual é meu maior medo? Morrer? Me machucar? Sofrer dor? Fracassar? Um a um, vou analisando as chances reais desses temores se concretizarem e, paralelamente, enumero o que posso fazer para evitá-los. Parece mágica, mas o medo vai minguando e definhando e muitas vezes vai embora. Por que? Porque o medo, nesses casos, é sempre desproporcional à realidade. Ele é sempre um exagero. Confrontado com dados reais, ele perde o sentido. 

Então, volto ao começo do texto… Realmente, muitas pessoas que se dizem “aventureiras”, que divulgam amor pela natureza e pela vida ao ar livre, começaram de repente a se vestir de roupas camufladas e publicar fotos de armas de fogo em suas redes sociais. Eu constato esse fato todos os dias. Infelizmente, essas pessoas não parecem entender que armados e vestidos de soldados decretamos também guerra à natureza e guerra a nós mesmos. Entramos num modo de ação beligerante. Estabelecemos, com essa atitude hostil, um limite bem definido nos separando do meio natural, de tudo e de todos, inclusive de nós mesmos. Isso é o chamado “modo de sobrevivência”, onde só o essencial funciona, onde toda e qualquer sutileza é desprezada. Assim, fechamos as portas a qualquer tipo de integração e intercâmbio. Entramos numa dieta de pão e água. Em roupas camufladas e rifle nas mãos — seja de verdade ou arma de tinta, seja na vida real ou em videogame —, abraçamos não apenas nosso medo e nossa insegurança mas também nossa descrença na possibilidade de harmonia e paz. Essas armaduras psicológicas, que armas e roupas de guerra nos emprestam, nada mais são do que a aceitação do nosso fracasso, a aceitação da nossa fraqueza profunda e da nossa incapacidade de crescermos para além das nossas roupas e dos nossos objetos. 

Mas o problema de verdade está quando voltamos da trilha, penduramos a fantasia de soldado no guarda-roupa e guardamos a pistola no criado-mudo ao lado da cama. Sim, porque quem precisou de arma pra sair no mato vai precisar de arma pra dormir, pode ter certeza. Afinal, nossos medos não tiram férias. Vestidos de civis, de volta ao cotidiano, cumprindo nossas obrigações profissionais e de família, trazemos nossos medos e inseguranças como grandes cães de estimação em coleiras curtas, bem pertinho de nós. Tememos a tudo e a todos, temos medo das nossas próprias sombras e sentimos pavor das sombras dos outros. Daí em diante, é só ladeira abaixo. Escolhemos viver em fortalezas em vez de casas, sonhamos com jipes militares blindados e coletes salva-vidas de última geração, colecionamos armas, chamamos o exercício recreativo da violência de hobby, relativizamos a violência como se algumas formas de sua expressão fossem aceitáveis, viramos escravos da nossa paranoia. 

Meus conselhos para não cair nessa cilada? Minhas dicas para quem quiser investir em coragem, ousadia, desprendimento? Algo que nos prepare de verdade para os desafios da vida? Troque a arma por uma bicicleta! Pare de brincar de guerra nos campinhos de paintball e vá escalar em rocha! Dispense a roupa camuflada e os coturnos militares e comece a correr em montanhas! Desligue o videogame de batalha e se ligue na natureza. Entenda que aventura e expressões de violência não combinam. Os fortes de verdade não se fantasiam de guerreiros, não querem e não precisam ser admirados por sua capacidade de violência, não desejam ser temidos por sua estupidez. 

4 respostas para “AVENTURA NÃO COMBINA COM VIOLÊNCIA”

  1. Mauro Cunha disse:

    Excelente texto! Iluminou um pouco mais minha trilha onde após 30 anos de armas procuro a aventura e contanto saudável com a natureza. Sem esperar constantemente que um nazista salte de traz de uma árvore.

  2. Eduardo Guilhon disse:

    Parabéns pelo artigo, muito bem escrito e fundamentado. Venho tentando seguir esse mantra de não-violencia, mas ainda me sinto muito inseguro. Vivendo o dia-a-dia de uma grande e caótica cidade como o Rio de Janeiro, é muito dificil pra mim não levar as paranóias da cidade para a natureza. Mesmo num trekking isolado ou em um acampamento selvagem, meu maior temor continua sendo o bicho-homem. Mas entendo e venho me esforçando para seguir o caminho da harmonia e não hostilidade…..

    Sobre as roupas camufladas e etc, eu já tenho opnião contrária… Sem contar as roupas pesadas, inadequadas e arcaicas das fardas militares e roupas chinesas de baixa qualidade; procuro montar minha vestimenta técnica e equipamentos para atividades outdoor em tons neutros, naturais, sem cores berrantes, e até mesmo em padrões de camuflagem. Acredito que dessa forma “agrido” menos o ambiente e me integro mais com ele… No caso de uma emergencia onde seja necessário ser visto, um simples cobertor de emergencia supriria a necessidade de chamar atenção e ser visto.

  3. Ian Igor Reis Dias disse:

    Poxa que bacana o tema e a luz que você traz para ele. A questão da cidade é fundamental, a vivência que ela nos dá é a de controle total, temos a confiança ( ou ilusão rs) de que na vida urbana sempre teremos alguém para nos salvar de algum, ou qualquer situação que ali aconteça parece estar sob controle, já que a cidade lhe presta serviços. Na natureza não é assim, é você e sua sensibilidade ao meio, sua leitura pelos sentidos…experiência. A paciência e o planejamento são as melhores ”armas” para mitigar ao máximo os riscos, penso que daí posso surgir essas figuras, totalmente desconexas do ritmo natural das coisas…é um caminho de aprendizagem que talvez nunca termine, que bom! Confesso que o medo quando começa a se manifestar é algo avassalador, já senti isso e já desisti por ele, mas agora sei que os desafios do externo dependem muito de como eu me relaciono com as minhas emoções. Depois de ler o artigo me senti mais em casa rs. Acho que tô me saindo bem nas tarefas, só preciso de algumas avaliações mesmo haha. Abraços!

  4. Saulo Silvério disse:

    Obrigado Guilherme. É realmente epidêmico dentre os que produzem conteúdo de aventura, essa paixão totalitária. Cheios de entranhas, vazios de espírito. Me questiono quanto falta para surgir o primeiro “rêviu” de trator camuflado para trilha. Grande abraço.

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