EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO 2019

13 de fevereiro de 2019

Relato do treinamento avançado de bikepacking realizado na Terra do Fogo argentina e chilena em janeiro de 2019.
TEXTO: Guilherme Cavallari / FOTOS: Javier Cencig e Guilherme Cavallari

A verdade é que não me canso de viajar à Patagônia e à Terra do Fogo, esse nosso extremo sul da América do Sul, que invariavelmente me possibilita experiências inesquecíveis. Em cada viagem — que procuro fazer sempre de forma orgânica, usando minhas próprias pernas como motores —, descubro novos cenários ou, no mínimo, novas perspectivas para cenários já conhecidos. Feliz daquele que, como eu, encontra seu lugar no mundo.

Nessa temporada do verão austral, organizei um treinamento avançado de bikepacking para os alunos do CURSO DE BIKEPACKING, que ministro no REFÚGIO KALAPALO — a escola de aventura em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira, onde vivo e trabalho. Em 2019, a proposta era pedalar nossas mountain bikes de forma autossuficiente, independente e autônoma, carregando toda nossa alimentação, por 14 dias e cerca de 750 km, acampar selvagem e explorar a zona central da Ilha Grande da Terra do Fogo, onde estão localizadas grandes fazendas históricas e isoladas.

OS AVENTUREIROS

Guilherme, 56, fundador e diretor da KALAPALO EDITORA, autor de 18 livros sobre aventura, coautor de diversos filmes, instrutor de trekking e bikepacking, frequentador regular a Patagônia e da Terra do Fogo desde 2004, viciado sem cura em aventura como forma de autoconhecimento.

Javier, 43, nascido na Argentina (ninguém é perfeito), residente no Brasil desde os quatro anos de idade (o que prova que “pau que nasce torto pode endireitar”), fotógrafo, ator e mímico, videomaker, anarquista filosófico, antagonista profissional e entusiasta da bicicleta.

Sergio, 60, médico, professor universitário, ativista político, filósofo, presença regular nos cursos e expedições da KALAPALO EDITORA, figurinha carimbada duas vezes, frente e verso, e talvez o cara mais esquecido e desorganizado que conheço (sem nunca perder o bom humor).

INSPIRAR, PREPARAR, LARGAR

Quando fiz a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, de outubro de 2012 a março de 2013, pedalando 6.000 km em seis meses, viagem que gerou o premiado filme-documentário TRANSPATAGÔNIA, e o consagrado livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, cruzei a Ilha Grande da Terra do Fogo duas vezes, de norte a sul e de sul a norte por caminhos diferentes. Mas havia um trecho inédito pra mim, o que ficou engasgado na garganta como espinha de peixe.

A noroeste da cidadezinha argentina de Tolhuin aparece nos mapas uma série de misteriosas estradinhas de terra conectando estâncias isoladas. Um rosário de nomes atrativos: La Indiana, Rivadavia, Los Cerros, Miramonte, Rubi, El Rodeo, Despedida, La Retranca. Eu sabia que a região já foi uma das maiores produtoras de lã de carneiro do planeta e esperava encontrar enormes galpões de tosa, provavelmente abandonados, entre outras coisas. Entre sedes, minha expectativa era encontrar grandes espaços vazios. Por destino final, escolhi chegar ao Lago Blanco, no Chile, ou seguir mais ao sul por uma nova estrada de terra em construção pelo famoso Corpo de Engenheiros do Exército do Chile, que já havia construído, entre outras, a Carretera Austral. Essa estrada pretende chegar, um dia e sem pressa, à Baía Yendegaia, onde fiquei ilhado por 10 dias, durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, na companhia do selvagem Machuca, um cowboy chileno que matava cavalos a facada. Quem leu meu livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS com certeza vai lembrar… E no meio do caminho, eu poderia revisitar e apresentar a meus companheiros alguns tesouros que desenterrei na região. No caminho de volta, decidi explorar as margens do Canal Beagle, da histórica Estância Haberton a Ushuaia, trecho que eu já havia pedalado em 2005 e que, com certeza, havia mudado muito desde então. Assim ficou desenhado o roteiro.

Sergio já havia feito diversos cursos, treinamentos e expedições comigo, tanto de bikepacking quanto de trekking. Javier fez, na sequência, o CURSO DE BIKEPACKING e um TREINO DE BIKEPACKING preparatórios para essa expedição. Ambos estavam devidamente equipados a partir de minhas orientações, tinham o condicionamento físico necessário e possuíam o perfil psicológico para a empreitada. Por não ser uma proposta de turismo, essas expedições que realizo exigem que os participantes passem por um processo de preparação minucioso, que culmina com a exploração autossuficiente de uma determinada região ainda minimamente selvagem. O processo, aliás, é na minha opinião o objetivo final. Aprender técnicas, ganhar experiência, adquirir equipamento devem ser apenas instrumentos para alcançar o que considero a verdadeira meta: desenvolvimento pessoal. Temos todos um potencial físico e psicológico que necessita ser avaliado e explorado, essa é minha filosofia.

Nos encontramos, na data marcada, na cidade argentina de Ushuaia, onde fizemos compras de mantimentos para duas semanas de acampamentos. As boas lojas de aventura da cidade nos garantiram ofertas do pouco que faltava em nossos kits de equipamento. Bikes montadas e lubrificadas, bolsas cheias, mochilas nas costas e partimos para a pedalada com o característico friozinho na barriga. Não importa quantas vezes eu repita esse processo, medos e inseguranças sempre existirão. Se existe certeza, não é aventura.

Na lista das minhas dúvidas pessoais estavam: meu joelho esquerdo, que eu não sabia se aguentaria o percurso; o sistema minimalista das bolsas de bikepacking, que eu não sabia se atenderia as demandas de peso e volume para duas semanas de autossuficiência; a configuração da minha bicicleta, de 1×11 marchas (um volante na frente e onze marchas atrás), sem suspensão e com garfo de carbono, com pneus de largura 3.0, com dínamo gerador de energia elétrica no cubo dianteiro e se os parrudos aros 27.5 com 40 mm de largura que poderiam ser pesados demais. Somado a isso, eu questionava também até onde meus companheiros chegariam sem deixarem de sorrir (chorando a gente chega muito mais longe, com certeza, mas nem todo mundo está disposto a chorar nas férias); que surpresas o roteiro guardava para nós, quantos quilômetros, por exemplo, seríamos obrigados a empurrar ou até carregar as bicicletas pelo percurso proposto; que agruras o clima tinha mancomunado contra nós, já que a Terra do Fogo é famosa pelo frio úmido mesmo no verão, chuva constante e ventos fortes. Enfim, as dúvidas sobre nossa capacidade pessoal e enquanto grupo, além dos infinitos testes de novas tecnologias que são o cerne de qualquer expedição de respeito. Sem essas incertezas, aventuras tendem a se transformar em simples viagens de turismo.

OS PRIMEIROS DIAS

O primeiro dia de pedal, que coincidiu com o primeiro dia do ano de 2019, nos levou pelo asfalto da Ruta 3 de Ushuaia até o Paso Garibaldi (450 m), onde um novo mirante em ferro e concreto assobiava desvairado ao vento foguino. Um frio da porra que só piorava com a garoa que caía! Cheguei antes dos meus companheiros e congelei esperando por eles, tentando em vão me abrigar atrás de pilastras, muretas, pedras ou da minha diminuta mochila. Nem se vestisse toda a roupa que possuía conseguiria ficar confortável ali!

Na sequência, descemos uma trilha íngreme de terra, cortada por erosão e pedras soltas, até as margens do Lago Escondido, onde eu sabia que poderíamos acampar ao lado de cabanas abandonadas de um hotel falido anos atrás. Uma família que fazia piquenique no local informou que as cabanas estavam agora abertas e podiam ser usadas como abrigo para pernoite. Uma surpresa inesperada! Sem o menor pudor, escolhemos a maior de todas as casinhas de madeira, a última da esquerda olhando para o lago, que nos acolheu carinhosamente mesmo faltando vidro na maioria das janelas. Não havia tanta sujeira quanto era de se esperar, caso a situação fosse, por exemplo, no Brasil. Nossa primeira noite foi marcada pela beleza estonteante do lago, riscado pelo vento, pelas montanhas rudes e o frio constante que não nos deixava esquecer que estávamos perto do fim do mundo.

O dia seguinte nos levou, ainda pelo asfalto, até a cidade de Tolhuin, às margens do grande Lago Fagnano, chamado de Lago Kami pelos extintos índios locais. Fomos direto para a Padaria La Unión, onde o proprietário, Emilio, mantém um quarto com três camas no depósito de mantimentos, aberto e gratuito a todos os ciclistas que perambulam pela Terra do Fogo. Essa tradição remonta já faz muitos anos, como comprovam os inúmeros grafites e assinaturas nas paredes do dormitório. Procurei e não encontrei a minha assinatura, quando passei por ali durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA. Esse segundo dia foi relativamente curto, o que nos possibilitou desfrutar das delícias da boa padaria, limpar e lubrificar as correntes das bikes e consertar câmaras furadas que foram se acumulando ao longo desses dois primeiros dias.

No terceiro dia, finalmente, deixamos o asfalto e entramos numa larga estrada de terra, com algum movimento de veículos, em direção ao Lago Yehuin. Eu já havia visitado esse lago em 2005, quando fiz uma travessia em trekking selvagem e exploratório de ali até Ushuaia em companhia de guias argentinos. Essa aventura está publicada na matéria USHUAIA AVENTURA, disponível aqui no site e numa matéria de capa da extinta revista AVENTURA & AÇÃO, da qual fui editor. No caminho, visitamos um grande hotel abandonado às margens do Lago Yehuin, onde paramos para almoçar nossas castanhas e frutas secas. Sair do asfalto é sempre um alívio para mim, o marco inicial de uma aventura de verdade.

Esse terceiro dia nos apresentou a uma situação que depois virou característica de toda a viagem. Estávamos preparados para acampar selvagem todas as noites. Eu sabia que as duas primeiras noites seriam mais suaves, não esperava dormir no chão de um chalé abandonado no Lago Escondido logo na primeira noite, mas as camas e o banho quente da Padaria La Unión definitivamente estavam nos meus planos. Procurávamos um local de acampamento para a terceira noite e paramos para fotografar um grande galpão de tosa de ovelhas na beira da estrada, fora de uso há tempos. Uma pequena raposa cruzou caminhando displicentemente o pasto enquanto visitávamos a construção. Precisávamos de água para cozinhar o jantar, preparar o café da manhã e reabastecer nossos sistemas de hidratação para o dia seguinte, assim decidimos seguir viagem até encontrar um lugar apropriado. Quilômetros adiante, chegamos à sede da Estância Rivadavia. A proprietária, uma senhora simpática de talvez 70 anos, acompanhada da neta adolescente residente em Buenos Aires, nos ofereceu água e permitiu que acampássemos na propriedade, perto de um galpão pequeno de trabalho. Era a famosa hospitalidade sulina posta em prática. Montamos nossas barracas a lado de montes de lenha cortada, no caminho de vaqueiros e seus cavalos ariscos. Uma experiência inesperada que, sem que nós soubéssemos então, se repetiria ainda muitas vezes.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Essas estâncias são gigantescas. Algumas têm até 80.000 hectares de área, mas a maioria tem em torno de 40.000 ou 50.000 hectares e hoje criam um punhado de gado de corte e cavalos de trabalho. No passado, elas foram terras públicas concedidas, gratuitamente ou a preços módicos, a pioneiros europeus que chegaram à região vindos da costa do Oceano Atlântico ou dos canais chilenos, e que logo passaram a produzir boa parte da lã consumida no mundo. Ainda nas primeiras décadas do século XX, os índios onas habitavam essas planícies e viviam da caça de guanacos. Com a chegada do europeu colonizador e suas ovelhas, o conflito entre as culturas foi inevitável. O índio, caçador, viu na ovelha, que ele chamou de “guanaco branco”, uma presa muito mais fácil do que o selvagem guanaco saltador e tratou de incluí-lo no menu. O homem branco, com sua noção de propriedade alienígena ao índio, rotulou a caça não autorizada de ovelhas como “roubo” e passou a tratar o índio como “bandido”. A vida para esses colonos pioneiros não era fácil. O Estado, tanto o argentino quanto o chileno, deu suporte ao colonizador e, no caso da Argentina, declarou guerra ao índio em toda a Patagônia movendo batalhões para caçá-lo e relocalizá-lo, embora na maior parte das vezes o resultado foi confronto armado e extermínio. No Chile, a Igreja Católica, com seus missionários salesianos situados em Punta Arenas, criou um reformatório, ou campo de concentração, numa ilha afastada, onde tribos inteiras foram isoladas para morrer aos poucos de varíola, catapora, gripe e pneumonia. As fotos desses internatos mostram os valentes índios uniformizados, obedientes, enfileirados e vazios por dentro. O resultado final foi a total dizimação da etnia ona na Terra do Fogo enquanto cultura e raça, com os poucos sobrevivente sendo abocanhados como indigentes pelas margens do sistema. Depois da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento de novas tecnologias de tecido e a descoberta dos fios sintéticos, a lã perdeu muito de seu valor e criar ovelhas deixou de ser um negócio lucrativo. De lá pra cá, as grandes estâncias trocaram várias vezes de mãos, cada novo proprietário pagando cada vez menos pela mesma porção de terra e perdendo na mesma sequência o interesse por qualquer tipo de produção. Hoje, esses latifúndios minguam respirando aos soluços ares de um passado de opulência. Grandes sedes, verdadeiras vilas de vaqueiros, com capelas e às vezes até escolas, abandonadas e esperando o tempo se desfazer lentamente das estruturas. Onde antigamente vivam centenas de pessoas, agora vivem meia dúzia quando muito. Ainda se criam ovelhas, gado e cavalos, mas em escala mínima. O índio não é mais uma ameaça, mas os cachorros domésticos abandonados por seus donos se tornaram selvagens e se juntaram em alcateias que causam danos extremos aos rebanhos. Animais chamados localmente de perros baguales e que atacam inclusive aos seres humanos. Esse “processo de selvagização”, que considero bastante pertinente, diz muito sobre a personalidade intrínseca da região. A Terra do Fogo ainda é um limite do alcance da mão civilizatória e talvez siga sempre sendo.

A SEQUÊNCIA DOS DIAS

Nos quatro primeiros dias, o clima estava do nosso lado. Não choveu, o vento se manteve comportado e o sol era muitas vezes filtrado por nuvens. Tudo diferente do quadro negro que eu havia pintado aos meus companheiros ainda no Brasil. A Terra do Fogo se mostrava mansa pela primeira vez para mim. Porém, no quarto dia de pedal a natureza falou mais alto. Chuva e vento gelados nos obrigaram — ou melhor, nos aconselharam — a pedir abrigo no galpão de uma estância depois de apenas 36 quilômetros pedalados.

De um lado da estrada estava o galpão e do outro a pequena casa do administrador. Estávamos na Estância Los Cerros. Entrei primeiro no galpão para ver se ele oferecia condições de pernoite. A estrutura de madeira era impressionante, com treliças e cruzetas de sustentação no teto, era digna de uma catedral. Currais de inverno e de trabalho de tosa entrecortavam o espaço do chão formando um labirinto. Pilhas de pasto seco e de couros de ovelhas jaziam amontoados pelos cantos. O corpo de uma raposa definhava no piso de madeira, provavelmente fruto de uma caçada bem-sucedida. Cruzei a rua e bati na porta do administrador, um chileno rechonchudo e de poucas palavras, que nos deu água e permitiu, sem pensar muito, que dormíssemos no galpão. Ninguém recusa abrigo onde o vento faz a curva. Montamos nosso acampamento protegidos do vento, da chuva e do frio. O telhado de telhas metálicas estalava, gemia e rugia de acordo com a batuta do clima. Aquela era mais uma autêntica experiência foguina que não estava no programa.

O dia seguinte, livre de chuva, também foi curto. Quando chegamos na grande Estância Rubi encontramos três ciclistas europeus, dois homens e uma mulher, que vinham no sentido oposto ao nosso. O casal do grupo estava terminando uma longa cicloviagem desde o Alasca. Trocamos informações sobre o percurso adiante e minha intuição se confirmou: os próximos 20 quilômetros seriam os mais difíceis do trajeto até o Chile. Logo adiante, entramos na área urbana da Estância Rubi e fomos pedir água ao administrador. Sem falar muito, ele nos guiou até uma grande casa de tábuas onde antigamente ficava a cozinha da fazenda. Ele abriu a porta para um salão, onde havia um velho fogão a lenha fora de uso e uma lareira decrépita, fez algum comentário monossilábico sobre cuidados com o fogo e nos desejou buen descanso. Apesar de abandonada, a casa e o ambiente ainda guardavam a energia do passado, do tempo em que dezenas de vaqueiros e ovelheiros se reuniam ali para comer, dividir o mate, tomar uns tragos e falar da vida dura no campo ou do que fariam quando voltassem para a cidade. Nada muito diferente do discurso de ciclistas de aventura.

Poucas máximas na aventura são tão verdadeiras quanto aquela que diz: “quanto pior, melhor”. O trecho da Estância Rubi até uma porteira trancada, que tivemos que pular, e o entroncamento com uma estrada bem conservada foi dos mais difíceis e também dos mais bonitos. O caminho passou de estrada para estradinha, trilha, caminho de cavalo e trechos de pasto no meio do bosque. Num breve momento de desatenção, Sergio caiu numa descida e ralou o joelho. Nada grave. Não fosse as eventuais marcas dos pneus dos europeus que nos precederam, o caminho parecia completamente fora de uso. Numa longa descida, já na via principal, avistamos uma estância que mais parecia uma vila e decidimos parar. Era a Estância Despedida. Batemos na casa da proprietária, uma argentina de talvez 70 anos, de cabelos brancos e rosto muito bonito, que nos perguntou se “procurávamos pouso”. Respondemos que podíamos acampar. Ela retrucou que “não há necessidade, temos uma cabana”, e nos guiou até uma minúscula construção com mezanino onde, segundo ela, antes criavam quatro carneiros machos de reprodução. “Restaurado agora como cabana de hóspedes”. No segundo piso havia três colchões nos esperando. “E se quiserem usar o banheiro, temos um chuveiro com água quente na lavanderia de casa, é só bater na porta e usar!”

Numa conversa posterior com essa proprietária, ela nos apontou montanhas no horizonte longínquo e disse: “Estão vendo aquele morro mais pontudo? Pois ali está o limite da estância.” Do outro lado, os limites estavam além do horizonte visível. Ela quis também nos dar uma breve aula de história, dizendo que os índios locais haviam desaparecido porque “matavam-se uns aos outros por conta de comida e de mulheres, ao contrário do que dizem os historiadores, que afirmam, sem provas, que foram mortos pelos brancos”. Mordi a língua e, por respeito à generosidade dela, não quis entrar nos detalhes de relatos, cartas, livros, fotos e até filmes feitos sobre a matança dos povos originais locais. Em tempos de mídia social cada um acredita no que quer.

METADE DO CAMINHO: CHILE

Pra completar o pacote de hospitalidade, a proprietária da Estância Despedida ainda nos vendeu, bem barato, duas dúzias de ovos caipira cozidos. Um reforço luxuoso para nossa merenda de trilha. Deixamos a fazenda em direção à fronteira internacional, onde uma passagem habilitada que eu já havia usado durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA nos possibilitaria entrar no Chile. Quem assistiu ao documentário TRANSPATAGÔNIA deve se lembrar do trecho em que eu cruzo um rio pela água, levando meu bike trailer nos braços… E do trecho em que falo do Paso Bellavista enquanto cozinho sopa instantânea…

Confesso que fiquei um pouco desapontado ao chegar à fronteira e constatar que agora havia uma ponte sobre o Rio Bellavista. Meu lado sadomasoquista estava excitado imaginando nós três carregando as bicicletas, pesadas de carga, com a água gelada batendo em nossos umbigos…

Assim que entramos em território chileno tudo ficou mais verde, a natureza estava bem mais preservada e imediatamente começou a chover. Definitivamente, a chuva muda tudo. Mesmo com roupas técnicas impermeáveis e respiráveis, chuva constante a temperatura de 10˚C causa estragos. Fios d’água encontram entrada em costuras, pequenos furos, junções de peças de roupa e terminam por molhar, pra começar, os dedos das mãos e os dedos dos pés. O resultado é desconforto térmico imediato.

Pedalamos até Pampa Guanaco, onde fica o destacamento policial da região e fomos pedir ajuda aos Carabineros. Queríamos água potável para tentar chegar até o Lago Blanco, onde pretendíamos acampar, mas um furo num dos pneus do Sergio esvaziou também nosso moral. Um sargento se compadeceu de nosso estado e permitiu que montássemos acampamento num curral fora de uso do outro lado da rua. Montamos as barracas na estrebaria forrada de esterco, mas debaixo de um teto e protegidos da chuva, que parou de cair no exato momento que terminei de erguer minha barraca. É sempre assim.

Na manhã seguinte, ensolarada, de ar limpo e gelado, pedalamos por um lindo bosque até as margens do Lago Blanco. Eu não conhecia esse caminho e fiquei maravilhado com a beleza geral. Por outro lado, sentia também um pouco de frustração. Já havíamos decidido não estender a viagem até mais ao sul, em direção ao Rio Azopardo e deságue do Lago Fagnano na Enseada do Almirantazgo, para explorarmos a nova estrada em direção à Baía Yendegaia. Depois de tantas expedições, acabei me acostumando com as frustrações e elas já não deixam sequelas. Fico satisfeito com o esforço empregado, seja ele qual for, sempre que percebo que não houve corpo-mole. O compromisso deve ser sempre com o esforço e nunca com o sucesso, mesmo porque, usando a montanha como metáfora, escalador que morre na descida não conquistou o cume. Nós tínhamos ainda um longo caminho de volta, com um bom trecho da margem argentina do Canal Beagle para explorar. Nessas viagens de aventura, gosto de sair de casa e dar o máximo de mim, medir as distâncias com minhas pernas, mas gosto também de voltar pra casa inteiro.

Passamos algumas horas no Lago Blanco desfrutando da paisagem, fazendo fotos e comendo nosso lanche de trilha. Não havia mais ninguém além de nós. As montanhas nevadas na margem oposta, distante, pareciam inacessíveis e virgens, como numa terra de sonhos. Natureza forte o suficiente para silenciar a mente.

Começamos o caminho de volta e nos empolgamos, talvez revigorados pela majestade do Lago Blanco, talvez incentivados pela possibilidade de banho quente, colchões para dormir e mais ovos cozidos. Passamos a fronteira e seguimos adiante, sempre adiante, relutantes em parar e, quando percebemos, já estávamos de volta à Estância Despedida. Percorremos 79 km quase sem parar, completando o dia mais longo de toda a viagem. A atração do conforto na cabana de hóspedes serviu de incentivo e extraiu o máximo de nós, embora isso fuja completamente do protocolo que sigo e acredito. No entanto, buscar o conforto pelo simples prazer do conforto nunca é a melhor política, é investir no atalho da preguiça e do mínimo esforço, o que abre portas para tudo aquilo que nossa sociedade produz de pior, como consumismo, individualismo, arrivismo, egocentrismo e afins. Quando chegamos à Estância Despedida e não encontramos ninguém na sede, a frustração foi imediata em todos nós. A fantasia do conforto foi destroçada pela dureza da realidade de acampar, que parecia ainda mais dura. A absurda ideia de um merecido prêmio depois do esforço ficou em frangalhos. Passamos muitos minutos atônitos, até que saímos, meio conformados, à procura de um canto abrigado do vento para erguer nossas barracas. Nesse exato instante, o casal proprietário da fazenda chegou de carro e nos acolheu novamente. Banho, colchões e ovos cozidos voltaram à mente, dessa vez como realidades palpáveis, não como troféus imaginados. Uma alegria redobrada pela surpresa, como deve ser.

O CAMINHO DE VOLTA

O dia seguinte, de 71 km pedalados, nos levou da Estância Despedida até a histórica Estância Viamonte. Quem leu o clássico livro EL ÚLTIMO CONFIN DE LA TIERRA, do pioneiro Lucas Bridges, resenhado por mim no meu site e citado em meu livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, sabe do que estou falando. Depois de fundar a primeira fazenda de ovelhas da Terra do Fogo, a Estância Haberton, às margens do Canal Beagle do lado argentino, Lucas Bridges abriu uma estrada, com a ajuda dos extintos índios onas, até próximo de onde está hoje a cidade argentina de Rio Grande, para fundar a Estância Viamonte. Mas antes de terminar o dia, tivermos algumas surpresas…

Dias antes, enquanto cruzávamos o interior da Ilha Grande da Terra do Fogo, com seus quilômetros sem fim de cercas de arame cortando o horizonte, vi o esqueleto de um guanaco ainda preso pela perna traseira ao arame mais alto de uma cerca. Parei a bicicleta e fui constatar o que minha intuição percebeu num relance. O bicho morrera com a perna presa ao tentar saltar, sem sucesso, a infinita cerca. O evento me pareceu raro, até que cruzei com um guanaco ainda vivo se debatendo com a cerca, a perna traseira presa no fio mais alto. Larguei a bike no chão e fui na direção do bicho. Sergio, que vinha logo atrás de mim, largou também a bike e me acompanhou perguntando: “vamos soltar o bicho?”. “Sim!”, respondi. “Pega seu alicate dobrável e corta o arame. Eu vou filmar!” e liguei a câmera. Dei ainda instruções para que Sergio não ficasse muito próximo do guanaco, que poderia mordê-lo no desespero. Enquanto Sergio começava a cortar o arame, Javier chegou e começou a fotografar o trabalho. De repente, TÓIN!, o arame foi cortado e o guanaco saiu correndo para a liberdade.

Minutos mais tarde, meu caminho na estrada foi interrompido por um mar de carneiros recém-tosados. O enorme grupo caminhava lentamente corpo a corpo, como um bloco único, ocupando toda a pista e os espaços de acostamento em barranco, antes das cercas de arame dos dois lados da rua. Larguei a bike e me pus a filmar. Sergio e Javier vinham mais atrás e também pararam para apreciar o deslocamento animal. No fim de tudo vinha um ovelheiro num quadriciclo e cinco ou seis cães pastores, que davam conta de todo o rebanho. Uma cena típica da Terra do Fogo, cada vez mais rara hoje em dia.

Na Estância Viamonte fomos recepcionados pelo proprietário, Sr. Adrian Goodall, sobrinho-bisneto de Lucas Bridges. Falador e cheio de energia, apesar da idade, ele nos levou até uma cabana usada para acolher viajantes, a maioria em bicicleta. A casinha de tábuas e de dois cômodos tinha um quarto com uma cama-beliche e uma sala com um velho fogão de ferro a lenha. Adrian nos contou histórias dos primeiros visitantes aventureiros, logo depois da Segunda Guerra Mundial, gente que chegou em bicicleta no tempo em que bicicletas não tinham marchas e o freio era contrapedal. Falou de dois irmãos que deixaram as bikes na fazenda e chegaram a pé a Ushuaia, que na época era o lugar era apenas uma vila de pescadores sem acesso por terra. Escrevi meu nome no livro de visitantes como quem assina um documento histórico, como quem entra pra história com um canetaço.

No dia seguinte, chegamos novamente à Padaria La Unión e fomos espertos para garantir nossas camas no dormitório… Fomos direto ao quarto no depósito, que encontramos desocupado, e deixamos nossas tralhas nas camas. Em seguida, fomos até a padaria para perguntar se podíamos dormir lá no depósito. Outro grupo de três ciclistas já estava na padaria e procuravam acomodações também, mas por serem novatos no esquema, preferiram comer empanadas e tomar café antes. Nada como conhecer o caminho das pedras!

A noite seguinte, passamos novamente instalados na cabana abandonada às margens do Lago Escondido. Nesse dia, Sergio deixou seu capacete numa mureta da estrada enquanto esperávamos a chegada de Javier. Dali em diante, a piada que se repetia era perguntar a ele: “Sergio, cadê seu capacete?”, ou ainda lembrá-lo: “Sergio, vê se não esquece o capacete, hein!”. E como ele já havia perdido o cartão de crédito, ainda em Ushuaia, o complemento óbvio quando Javier perguntava onde estava o capacete, era eu responder: “Está junto do Visa!”. Bobagens que ajudavam a passar o tempo.

UM LONGO ATALHO

A caminho de Ushuaia, sofri no Paso Garibaldi (450 m), que estava ainda mais gelado, ventoso e chuvoso. Na descida, o vento somado à chuva fina e persistente e ao frio de 5˚C causou princípio de congelamento das pontas dos meus dedos das mãos. Eles ficaram esbranquiçados e inchados e perdi talvez metade da sensibilidade neles por 3 ou 4 dias. Depois a pele descascou como acontece em queimaduras. Alguns quilômetros adiante, saímos do asfalto da Ruta 3 para pegar um atalho rústico até nosso destino final e término da expedição de bikepacking pela Terra do Fogo. Essa estrada de terra, chamada de Ruta J, nos levou debaixo de um pouco de chuva e por cima de alguma lama, até a histórica Estância Haberton. O caminho era bonito, atravessando bosques de lengas (Nothofabus pumilio, grandes e altas árvores retilíneas, típicas da Patagônia e da Terra do Fogo), parcialmente habitado por casas de veraneio e sítios isolados. No começo da estrada, um posto avançado da polícia vistoriou nossos passaportes e anotou nossas identidades por segurança.

Chegamos à Estância Haberton, que cobra ingresso, e fomos direto para a salão de chá e museu. Bolos doces, café e chá quente eram atrativos irrecusáveis depois do frio que passamos no Paso Garibaldi e do chuvisco durante nossa rápida parada para o almoço das tradicionais frutas secas e castanhas. Quem, como eu, leu o já mencionado livro de Lucas Bridges — cuja versão em inglês do título ÉL ÚLTIMO CONFÍN DE LA TIERRA foi recentemente relançada: THE UTTERMOST PLACE IN THE EARTH —, entenderá quando digo que entrei em Haberton como quem pisa solo sagrado. Esse livro foi um dos grandes responsáveis pelo encantamento que vivo até hoje com o extremo sul. Objetos antigos variados, de uso diário da estância, decoravam o ambiente acolhedor e aquecido por um fogão a lenha. Aproveitei a ocasião e fiz o tour das casas, com destaque para o galpão de tosa de ovelhas, transformado em museu. Tudo muito turístico, é verdade, mas não menos real ou histórico. Conversei brevemente com o irmão de Adrian Goodall, Tommy, que se mostrou afável porém menos solícito. Não havia lugar onde três ciclistas pudessem acampar na fazenda, mas havia um camping selvagem à beira de um rio a poucos quilômetros de distância.

No dia seguinte, tomamos rumo oeste em direção a Ushuaia margeando o Canal Beagle. Eu não lembrava de quase nada desse percurso, que fiz num longo dia de mountain bike em 2005, quatorze anos atrás. Passamos novamente pela entrada de Haberton e seguimos até a vila de Puerto Almanza, que fica exatamente do outro lado do mar em relação a Puerto Williams, na Ilha Navarino, em território chileno. Eu e Sergio faríamos, dali a pouco mais de uma semana e com três outros brasileiros, nove dias de trekking pelas montanhas conhecidas como Dentes de Navarino. Foi interessante poder observar os picos e vales profundos à distância, antevendo dificuldades e prazeres futuros.

Puerto Almanza é uma pequena coleção de casinhas simples, vários restaurantes oferecendo produtos do mar, um posto policial e um destacamento da Marinha da Argentina. No controle policial da Ruta J fomos instruídos a pedir autorização aos militares para cruzar a grande extensão de terra de propriedade das Forças Armadas, que incluía Puerto Remolinos, onde pretendíamos pernoitar. Um marinheiro gorducho atendeu à porta com cara de sono, de camiseta, shorts e meias. Expliquei que pretendíamos cruzar a zona militar até Ushuaia. “OK”, foi sua resposta. “Vocês nos autorizam?”, perguntei. “Claro”, e fechou a porta sem mais delongas. Mais informal e menos burocrático, impossível.

Velhos canhões que pareciam brinquedos apontavam seus canos contra o Chile. Do outro lado do canal, eu já conhecia a contraparte chilena: canhões bem maiores e mais agressivos, mas igualmente velhos e obsoletos. Resquícios de uma animosidade que quase gerou conflitos armados várias vezes ao longo da história. Paramos perto de um desses canhões para comer algo deitados na grama, aquecidos pelo sol. Cochilamos um pouco para reabastecer as energias. O prognóstico era de vento contra, que sobra regularmente vindo do oeste no Canal Beagle, até o fim da aventura.

Logo depois da última residência de Puerto Almanza uma imponente porteira de ferro trancada com corrente e cadeado alardeava o início da zona militar restrita. Uma grande placa admoestava os intrusos contra a invasão. Javier, por ser argentino de nascimento, ficou intimidado. Sergio e eu pulamos pro outro lado sem a menor cerimônia.

Chegamos sem percalços a uma baía protegida, com um grande terreno plano entre o mar e o vale escarpado com montanhas densas de florestas. Essa fazenda, Estância Remolinos, foi fundada em 1899 pelos Lawrence, a segunda família de colonizadores, depois dos Bridges, a povoar a região. As terras foram desapropriadas pelo governo argentino e cedidas à Marinha em 1948. Algumas das construções erguidas pelos Lawrence ainda permaneciam em pé, casas sólidas de madeira revestida com chapas onduladas de metal, típicas de toda a Patagônia e da Terra do Fogo por serem resistentes, oferecerem bom isolamento térmico e não exigirem grandes manutenções. O casco enferrujado de um grande navio de carga, o vapor Sarmiento, encalhado ali desde abril de 1922, decorava a baía como um monumento. Mais tarde, no pôr do sol, o casco se incendiou de luz e proporcionou belas fotos.

Explorei a casa maior e entendi que estava apta para servir como abrigo por uma noite. Camas de metal sem colchões, características dos militares, ofereceriam uma boa oportunidade de dormirmos longe de chão empoeirado e possivelmente contaminado com o temível hantavírus, transmitido através da inalação de esporos presentes nas fezes e urina dos ratos. Como chegamos relativamente cedo e o pôr do sol só acontece em janeiro nessas latitudes perto das 11h da noite, pudemos explorar o entorno, fazer fotos e cuidar de nosso equipamento sem pressa.

Chegara, finalmente, o último dia de deslocamento até Ushuaia e fim da nossa jornada. Motivo para comemorar e também lamentar, como invariavelmente acontece nas boas expedições. Aquele seria nosso décimo-quarto dia de viagem e de pedal, sem nenhum dia de descanso. O cansaço físico era inegável, mas o corpo também já havia se adaptado ao esforço cotidiano e não reclamava mais. Com o fim da viagem viria a rotina normal da vida, que conhecíamos muito bem e não nos guardava grandes surpresas. Em expedição, todo dia começa repleto de possibilidades, tanto de sucesso quanto de fracasso, tudo sem limites. Uma riqueza de horizontes raro de se viver nos dias de hoje, no conforto e proteção das grandes cidades. A proximidade do fim da aventura, onde cada dia era único e incomparável, antecipava o doce gosto da vitória e do descanso, mas também trazia um certo azedume à boca, adiantando também a monotonia de sequências de dias indistinguíveis pela frente. O dilema de todo aventureiro.

Esse último dia, no entanto, nos reservou uma grande surpresa. A larga estrada de terra da zona militar terminou num farol, perto de falésias íngremes, que nos obrigou a pedalar por singletracks (caminhos estreitos, em geral trilhas de animais) ou empurrar a bike pelas pedras das praias. Nossa velocidade de deslocamento caiu vertiginosamente, ameaçando nos obrigar a mais um acampamento antes do final da viagem. Em seguida, ao chegarmos à Estância Rio Encajonado, depois de cruzarmos pela água o mesmo rio, descobrimos que a trilha até a zona urbana de Ushuaia não era apropriada a bicicletas. Tivemos que empurrar nossas bikes por quatro horas sem parar, driblando arbustos de galhos ásperos e ressequidos, infinitos espinhos de calafate, colecionando arranhões, abrasões e impropérios ao longo do caminho. Uma prova de fogo para o fim da empreitada. Mas acho que a promessa de banho quente, comida de verdade servida em pratos de verdade, camas com lençóis e travesseiros, formavam um prêmio imaginário incapaz de ser vencido. Cheguei a cogitar mais uma noite de acampamento, que para mim seria, no mínimo, motivo para economizar dinheiro e acabar com as provisões que carregávamos, mas Javier já estava procurando sinal de celular. Sinal claro de mudança de conexão.

Chegamos a Ushuaia surrados, sujos, mais magros do que quando havíamos partido e livres também do peso da expectativa. Missão cumprida com louvor.

CONSIDERAÇÕES (PESSOAIS) FINAIS

Essas expedições que organizo e lidero têm como propósito motivar, inspirar e instruir, por isso são chamadas de “expedições didáticas”. Acredito que o ambiente e a dinâmica de expedições compreende elementos fundamentais para o desenvolvimento pessoal de todos nós. A exploração de nosso potencial físico e psicológico é um desses elementos, a obrigação da simplicidade é outro, mas existem também fatores sociais, como senso coletivo, respeito às características individuais de cada participante e atenção ao outro. Fatores que se contrapõem de forma precisa à tendência individualista, egocêntrica, consumista e imediatista dos tempos modernos. Para mim, expedições ensinam muito mais do que habilidades e técnicas de aventura. Ensinam humanidade.

Olhando em retrospectiva, vejo com orgulho o resumo do processo evolutivo de meus companheiros e meu também ao longo dessa vivência. Javier nunca tinha feito uma viagem de bicicleta na vida, fez o CURSO DE BIKEPACKING comigo no REFÚGIO KALAPALO, fez uma cicloviagem preparatória de três dias como treinamento em bikepacking comigo na Serra da Mantiqueira, recebeu e acolheu com atenção as orientações para montar seu kit de equipamento e coroou todo o processo com essa expedição autossuficiente de 14 dias pela Terra do Fogo. Num prazo de apenas quatro meses, ele saiu da inexperiência total para um tipo de vivência que poucas pessoas têm. Hoje, acredito que ele está bem perto de estar pronto para fazer explorações solo por lugares remotos com autonomia, segurança e desenvoltura.

Sergio, cujo estilo de preparação e aprendizado difere muito do meu, mostrou nessa viagem um avanço incrível. Disperso por natureza, ele compensa toda dispersão com empenho, coragem, determinação e bom-humor. Esses traços positivos de sua personalidade chegam a me causar inveja. Nessa expedição, assisti com atenção à sua labuta diária para dominar ou aprimorar técnicas de mecânica de emergência, de acampamento selvagem, de navegação, de uso de GPS, etc. Multifuncional ao seu modo, ele às vezes me pegava desprevenido ao perguntar sobre um determinado tema enquanto eu discorria sobre outro completamente diferente. Isso às vezes causava uma reação de impaciência em mim, mas possibilitou também que eu refletisse sobre a própria paciência e formas de melhorar minha didática. A coragem desse companheiro, que se atira em experiências de aventura com a mesma despretensão com que ele se banha em água fria todos os dias (se havia água disponível, ele não perdeu um dia de banho sequer na viagem), engana quem o observa, faz parecer que ele às vezes está mais bem preparado do que realmente está. Demorei um pouco a entender isso e depois passei a admirá-lo ainda mais justamente por isso.

A meu respeito, digo que continuo no meu caminho de autoconhecimento de sempre, na minha “trilha espiritual” — no sentido de conexão com algo maior do que eu mesmo, que prefiro não nomear ou classificar —, frequentando a mesma “igreja” em que coloquei minha fé décadas atrás: a natureza. Sei que não existe separação entre a natureza exterior — presente de forma pura em qualquer lugar do planeta não reformado pelo homem e presente também dentro de cada ser vivo, inclusive nós humanos —, e minha natureza interior. Em viagens de aventura busco novos horizontes fora de mim e também dentro de mim. Por acreditar nisso, construí minha vida profissional em torno dessa crença para que, no trabalho, eu não perca tempo precioso de desenvolvimento pessoal.

Porque, como disse o filósofo e pai do preservacionismo John Muir (1838-1914): “Todo mundo precisa de beleza tanto quanto pão, lugares para brincar e para orar, onde a natureza possa curar e fortalecer tanto o corpo quando a alma”.

CONSIDERAÇÕES (TÉCNICAS) FINAIS

Do ponto de vista técnico, essa expedição respondeu a algumas questões importantes… 1) Pneus sem câmara (tubeless, em inglês) e sem gambiarras ou adaptações, com aros apropriados para a tecnologia, funcionam infinitamente melhor do que pneus com câmaras. Javier ouviu meu conselho (que eu mesmo não ouvi) e usou pneus com aros tubeless e não teve problemas com furos. Sergio levou pneus já usados (o contrário da minha recomendação), com câmaras e, pra piorar, com câmaras já remendadas, e teve mais de dez ou doze furos. Eu tive dois ou três. 2) As bolsas de bikepacking, que oferecem menor volume de carga que os tradicionais alforjes, funcionaram infinitamente melhor para uma expedição autossuficiente de duas semanas por terrenos off-road do que os alforjes funcionariam. Acho, inclusive, que com estudo e esforço, conseguiríamos autonomia para até três semanas, ou 21 dias, com o mesmo kit. Um conjunto de bolsas impermeável ou até estanque (que pode ser submergido), como esse da marca alemã ORTLIEB que usamos, faz muita diferença.

3) Minhas rodas superdimensionadas funcionarm superbem e foram aprovadas com nota 10. 4) Apesar do inegável conforto e da privacidade que três barracas oferecem, acho que numa expedição mais profissional e ousada, usar apenas uma barraca para os três componentes seria bem mais eficiente. 5) Falando de eficiência, é inegável que qualquer expedição funciona melhor se todos os participantes dividem de forma democrática as responsabilidades e funções que a empreitada exige. Mas esse é o grande dilema do meu trabalho: sou o organizador das expedições e seu instrutor, embora preferisse ser apenas mais um integrante. Funciono melhor como soldado e não como sargento ou general. Sei que quem me procura para essas vivências busca aprender com minha maior experiência, o que implica que tenho que demonstrar e eventualmente delegar. Mas, justamente por falta de experiência, os participantes acabam por se apoiar na eficiência daquele que faz melhor porque faz há mais tempo. A sobrecarga de trabalho e responsabilidade é inevitável e faz parte do contrato. Meu desejo é que meus alunos evoluam a ponto de um dia deixarem de ser alunos e passarem a ser parceiros igualitários, funcionando ao meu lado e não atrás de mim. Uma equação complicada de alcançar por diversas razões, inclusive a econômica, já que cobro por meus serviços.

Nessa expedição não chegamos até o Rio Azopardo e nem cogitamos chegar até a Baía Yendegaia, que sonho alcançar um dia por terra. Projeto, quem sabe, para uma futura expedição à Terra do Fogo. Inclusive já está agendada a próxima aventura de bike no extremo sul… BIKEPACKING PATAGÔNIA MULTIESPORTE, já incluída no site! 

Para participar de atividades futuras, consulte nossa AGENDA

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