O explorador, escritor, professor universitário, aviador e político conservador estadunidense Hiram Bingham III (1875-1956) ficou mundialmente famoso como o “descobridor” de Machu Picchu — o mais famoso sítio arqueológico do Peru, eleito uma das “sete maravilhas do mundo moderno”.
Acabei de completar uma travessia de Quito, capital da República do Equador, a Cusco, antiga capital inca no atual Peru, sozinho de bicicleta. Foi uma viagem de cinco meses e um dia de duração, com 84 dias na bicicleta, 3.994 km percorridos, sendo 3.644 km pedalados, com mais de 83.000 m acumulados de subidas e quase 79.000 m de descidas. Como fiz em projetos anteriores, escrevo agora um relato literário da aventura com muita pesquisa histórica e cultural. Hiram Bingham III não poderia ficar de fora da narrativa.
O livro PORTRAIT OF AN EXPLORER: HIRAM BINGHAM, DISCOVERER OF MACHU PICCHU é a biografia mais famosa e melhor conceituada de Bingham. Fiquei em dúvida se seria isenta já que foi escrita por um de seus sete filhos, Alfred Mitchell Bingham. Comecei a leitura com mais atenção do que de costume, buscando sinais de bajulação e desmedido entusiasmo. A leitura foi uma grata surpresa nesse e em outros sentidos.
Alfred M. Bingham, terceiro filho do explorador, continuou o trabalho de outro irmão, historiador, que começou a escrever a biografia do pai famoso e não chegou a terminar. Aluno da Yale University, onde o pai foi professor, Alfred teve total acesso aos vastos arquivos do pai, quando Hiram foi diretor das três expedições ao Peru financiadas pela instituição de ensino, as duas últimas apoiadas também pela revista National Geographic.
Minucioso e objetivo, o autor da biografia descreve a vida do pai desde muito antes de seu nascimento. Neto e filho de evangelizadores, de missionários cristãos dos Estados Unidos enviados às ilhas do Pacífico para catequizar os nativos, Hiram Bingham III nasceu no Havaí. Hiram, neto, passou por escolas cristãs como seus antepassados e pensou seriamente em tornar-se pastor também. Mas, segundo seu filho Alfred, suas ambições eram grandes demais para uma vida abnegada de pregação religiosa.
Hiram Bingham III se casou com Alfreda Mitchell, herdeira do fundador da famosa joalheria Tiffany’s, de Nova Iorque. Segundo seu biógrafo, o amor era verdadeiro, embora bastante inflamado pelas promessas de fortuna da poderosa família. O pai de Alfreda era contra o casamento, por ver em Hiram apenas um filho de missionário pobre sem eira nem beira. Já a mãe preferiu tomar o partido da filha, criada em berço de ouro por tutores e babás em mansões em diversos estados dos Estados Unidos.
Os filhos vieram ininterruptamente, com exceção de um bebê morto logo depois de nascer, mantendo Alfreda sempre em casa cuidando da prole. Hiram investiu na carreira universitária, mas vivia da polpuda mesada paga pelos sogros, que desejavam manter o padrão de vida a que filha estava acostumada. Na Yale University Hiram nunca foi bem acolhido pelos colegas professores, incomodados com seu estilo de vida de ostentação, com mansões e até um automóvel com chofer, bancados pelo dinheiro proveniente da Tiffany’s. A trilha de explorador aconteceu quase ao acaso.
Hiram Bingham III fez duas longas expedições, pouco exploratórias, visitando a Colômbia e a Venezuela em 1906 e 1907, e cruzando a América do Sul de leste a oeste em 1908 e 1909. Nessa segunda viagem ele visitou Cusco pela primeira vez e entendeu que havia muito o que ser explorado, em termos de ruínas incas, na região.
A famosa expedição de 1911, a Yale Peruvian Expedition, que resultou no “descobrimento” de Machu Picchu, é narrada no livro de forma detalhada e sistemática, ocupando boa parte da obra. Em resumo, Hiram ouviu do reitor da Universidade de Cusco sobre a existência de importantes ruínas incas na montanha Huayna Pichu. Esse mesmo reitor passou o contato de um peruano, criador de gado, que havia estado nas ruínas e que poderia acompanhar o explorador gringo ao local. Esse ruralista, por sua vez, indicou a Hiram um morador local que também conhecia as ruínas. Seguindo essas indicações, Hiram Bingham III subiu até Machu Picchu, onde duas ou três famílias de camponeses humildes haviam limpado parte das ruínas pra plantas milho e batatas nos terraços construídos pelos incas.
Quando Hiram visitou Machu Picchu pela primeira vez, havia um grafite numa das paredes incaicas com o nome e a data da visitação feita pelo ruralista que ele havia conhecido. Mais tarde, anos mais tarde, Hiram descobriu também menção de Machu Picchu em relatos de conquistadores espanhóis, que sabiam da existência da cidadela inca, chamada apenas de “Pichu”.
Duas outras expedições levaram Hiram Bingham III ao Peru, a Machu Picchu brevemente, resultando também em outras “descobertas”, algumas até de maior importância histórica e arqueológica que Machu Picchu. Hoje é mais comum dizer que Hiram Bingham III foi o “descobridor científico” de Machu Picchu, já que da famosa cidadela nunca esteve, de fato, perdida para o mundo.
A biografia segue narrando a mudança profissional na vida de Hiram, que foi piloto de avião, na verdade coordenador de áreas de instrução de voo, na França durante a Segunda Guerra Mundial e depois político. Hiram foi vice-governador, governador e senador no estado de Connecticut pelo Partido Republicano. Ele acabou se divorciando de Alfreda e casou-se com sua amante, depois que ela se divorciou do marido, também político. Antes do divórcio, Hiram Bingham III conseguiu que a primeira esposa passasse para seu nome as ações que ela havia herdado da Tiffany’s, alegando que assim ela evitaria pagar impostos. Depois da separação do casal, Alfreda solicitou que Hiram devolvesse as ações e ele se recusou.
Alfred M. Bingham me surpreendeu no livro. Primeiro, eu esperava um trabalho de amor filial, de louvor à imagem do pai herói. Ao longo do livro, passei a esperar avalanches de rancor ressentimento, afinal o pai Hiram Bingham III foi ausente da vida da família todo o tempo, sempre correndo atrás de seus sonhos de grandeza. Por final, entendi a grandeza da obra como esforço de isenção e compaixão. Embora negligenciado, o filho Alfred M. Bingham entende que o pai, o aventureiro e político, era apenas fiel a seus princípios e anseios. Em nenhum momento o autor desmerece o legado do pai. Mesmo quando Hiram Bingham III investe em criar uma mitologia irreal em torno de Machu Picchu, seu maior feito, tentando vender a cidadela como o “berço dos incas” ou como “sua última capital” — coisas que Machu Picchu nunca foi.
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