Meu trabalho como autor, editor e publisher de livros iniciou em 1999, quando comecei a produzir meu primeiro livro. Passei então os próximos 13 anos produzindo 16 livros contendo trilhas mapeadas para mountain bike, cicloturismo e trekking, além de manuais técnicos para essas atividades. A partir de 2012, mudei de curso e passei a produzir literatura de aventura. Meu primeiro projeto do gênero foi o livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, lançado em 2015, já em sua segunda edição depois de mais de 3.000 exemplares vendidos. A obra narra uma travessia solo, em bicicleta, de
6.000 km de extensão, em seis meses de duração, por toda a extensão norte-sul, ida e volta, da Patagônia e da Terra do Fogo, no Chile e na Argentina. Meu segundo projeto foi o livro HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS, lançado em 2017, que narra a travessia a pé, solitária, das Highlands da Escócia de sul a norte. Em 2019, lancei a terceira obra do gênero, TRANSMONGÓLIA: GENGIS KHAN NA GARRAFA DE VODCA, que conta a aventura de ter cruzado a Mongólia sozinho e de bicicleta. Foram 3.633 km em 78 dias, acampando selvagem por 58 noites e percorrendo, de forma autossuficie
nte, a maior extensão do país. Esses três livros também narram a história dos lugares e das culturas visitadas por mim. Nesse trabalho de pesquisa histórica e cultural, dedico muito tempo (e dinheiro) adquirindo e lendo centenas de livros que mais tarde irão compor a bibliografia de referência. Costumo dizer que meus projetos são compostos de três fases distintas, três aventuras: a primeira puramente literária, de pesquisa e acúmulo de conhecimento e informações; a segunda em campo, quando a aventura física realmente acontece e é imprevisível; e finalmente a terceira, quando passo meses, às vezes mais de um ano, revivendo toda a aventura física, relembrando e pesquisando novamente a literatura de base, para poder enfim escrever a obra, que é 100% verídica e real. Nessa postagem, apresento os melhores livros que li sobre meu próximo projeto de aventura literária. Pretendo percorrer, sozinho e de bicicleta, a extensão do coração do Império Inca, de Quito, capital do Equador, até Sucre, no altiplano da Bolívia. Vou cruzar, portanto, em estimados 5.500 km, mais da metade do Equador, todo o Peru e mais ou menos metade da Bolívia. Estimo a aventura em seis meses de duração. Seguem minhas indicações literárias, na sequência em que foram lidos…
[highlight color=”eg.yellow, black”]MINHA BIBLIOTECA INCA[/highlight]
[highlight color=”eg. yellow, black”]LONELY PLANET: EQUADOR & THE GALÁPAGOS ISLANDS[/highlight] Os guias de viagem da editora Lonely Planet são bastante completos, de linguagem divertida e objetiva. Gosto em particular dos capítulos sobre a história, geografia e cultura locais, que funcionam como um resumo abrangente, embora superficial, do que um viajante precisa saber para aproveitar melhor seu tempo no local visitado. Esses guias não são minhas únicas fontes de informação, mas ajudam a organizar as ideias. Uso bastante os capítulos sobre as cidades que visitarei em minhas expedições, pra saber o que poder esperar delas. Também acho importante as passagens sobre estado de estradas, facilidade de transporte público, acesso a hospitais e afins. Os pequenos mapas de traçados urbanos são bem úteis. Em alguns casos os guias oferecem também bibliografia para estender a pesquisa, o que no meu caso é importante. Já pensei até em levar esses guias comigo nas expedições, mas peso e volume impedem essa ação. Existem versões digitais dos guias da Lonely Planet, mas no final acabo contando mesmo com as informações gerais que guardo na memória e naquilo que descubro ao longo do caminho. Uso esses guias em toda preparação de expedição que faço. Prefiro os guias em inglês porque são, em geral, na língua original em que foram escritos e publicados.
[highlight color=”eg. yellow, black”]LONELY PLANET: PERU[/highlight] Os guias de viagem da editora Lonely Planet são bastante completos, de linguagem divertida e objetiva. Gosto em particular dos capítulos sobre a história, geografia e cultura locais, que funcionam como um resumo abrangente, embora superficial, do que um viajante precisa saber para aproveitar melhor seu tempo no local visitado. Esses guias não são minhas únicas fontes de informação, mas ajudam a organizar as ideias. Uso bastante os capítulos sobre as cidades que visitarei em minhas expedições, pra saber o que poder esperar delas. Também acho importante as passagens sobre estado de estradas, facilidade de transporte público, acesso a hospitais e afins. Os pequenos mapas de traçados urbanos são bem úteis. Em alguns casos os guias oferecem também bibliografia para estender a pesquisa, o que no meu caso é importante. Já pensei até em levar esses guias comigo nas expedições, mas peso e volume impedem essa ação. Existem versões digitais dos guias da Lonely Planet, mas no final acabo contando mesmo com as informações gerais que guardo na memória e naquilo que descubro ao longo do caminho. Uso esses guias em toda preparação de expedição que faço. Prefiro os guias em inglês porque são, em geral, na língua original em que foram escritos e publicados.
[highlight color=”eg. yellow, black”]LONELY PLANET: BOLIVIA[/highlight] Os guias de viagem da editora Lonely Planet são bastante completos, de linguagem divertida e objetiva. Gosto em particular dos capítulos sobre a história, geografia e cultura locais, que funcionam como um resumo abrangente, embora superficial, do que um viajante precisa saber para aproveitar melhor seu tempo no local visitado. Esses guias não são minhas únicas fontes de informação, mas ajudam a organizar as ideias. Uso bastante os capítulos sobre as cidades que visitarei em minhas expedições, pra saber o que poder esperar delas. Também acho importante as passagens sobre estado de estradas, facilidade de transporte público, acesso a hospitais e afins. Os pequenos mapas de traçados urbanos são bem úteis. Em alguns casos os guias oferecem também bibliografia para estender a pesquisa, o que no meu caso é importante. Já pensei até em levar esses guias comigo nas expedições, mas peso e volume impedem essa ação. Existem versões digitais dos guias da Lonely Planet, mas no final acabo contando mesmo com as informações gerais que guardo na memória e naquilo que descubro ao longo do caminho. Uso esses guias em toda preparação de expedição que faço. Prefiro os guias em inglês porque são, em geral, na língua original em que foram escritos e publicados.
[highlight color=”eg. yellow, black”]LONELY PLANET: TREKKING IN PERU[/highlight] Os guias de viagem da editora Lonely Planet são bastante completos, de linguagem divertida e objetiva. Gosto em particular dos capítulos sobre a história, geografia e cultura locais, que funcionam como um resumo abrangente, embora superficial, do que um viajante precisa saber para aproveitar melhor seu tempo no local visitado. Esses guias não são minhas únicas fontes de informação, mas ajudam a organizar as ideias. Uso bastante os capítulos sobre as cidades que visitarei em minhas expedições, pra saber o que poder esperar delas. Também acho importante as passagens sobre estado de estradas, facilidade de transporte público, acesso a hospitais e afins. Os pequenos mapas de traçados urbanos são bem úteis. Em alguns casos os guias oferecem também bibliografia para estender a pesquisa, o que no meu caso é importante. Já pensei até em levar esses guias comigo nas expedições, mas peso e volume impedem essa ação. Existem versões digitais dos guias da Lonely Planet, mas no final acabo contando mesmo com as informações gerais que guardo na memória e naquilo que descubro ao longo do caminho. Uso esses guias em toda preparação de expedição que faço. Prefiro os guias em inglês porque são, em geral, na língua original em que foram escritos e publicados. Essa edição especial, de trekking, traz ainda o mapeamento completo de roteiros de caminhadas em contato com a natureza.
[highlight color=”eg. yellow, black”]TURN RIGHT AT MACHU PICCHU[/highlight] Em 2011, completou-se um século do “descobrimento” de Machu Picchu pelo explorador norte-americano Hiram Bingham III. A data não poderia passar em branco sem que alguém refizesse os passos do explorador em um livro. As aspas na palavra descobrimento são essenciais e extensamente debatidas por todo o livro. Hoje em dia já existe consenso no mundo acadêmico da arqueologia e da história, concordando que Bingham não “descobriu” a cidade inca de Machu Picchu porque “ela nunca esteve desaparecida ou perdida”. Da mesma forma que o Brasil não foi “descoberto” por Cabral ou a América por Colombo. O descobrimento, nesses casos todos, tem um teor colonialista muito forte e não costuma ser bem aceito pelos povos descobertos. O próprio Bingham, em seus livros, descreve sem pudores que quando chegou em Machu Picchu, em 24 de julho de 1911, a cidadela estava totalmente tomada por vegetação, mas que algumas ruínas eram usadas por fazendeiros locais para criação de porcos e plantação de milho. Havia inclusive uma pichação no muro do Templo das Três Janelas, assinada e datada “Lizarraga 1902”. Um antigo fazendeiro local queria entrar para história antes de Bingham. Longe de perder o mérito por seus feitos, Bingham é sem dúvida alguma o grande responsável pelo “sucesso” de Machu Picchu (com uma forte ajuda de Gilbert Grosvenor, presidente da National Geographic Society de 1920 a 1954 e editor-mentor da famosa revista da sociedade). Se hoje você e eu sonhamos em um dia visitar essas ruínas, devemos isso à construção do mito do explorador romântico, destemido e intrépido, construído em torno da figura de Bingham e da “cidade perdida dos Incas”. O autor de TURN RIGHT AT MACHU PICCHU, Mark Adams, foi também editor de outra famosa revista do segmento aventura, a norte-americana Outside. Extremamente competente, sem ser genial, Mark Adams costura de forma harmônica e divertida sua história pessoal com as histórias de Bingham e Machu Picchu. Apesar de haver trabalhado vários anos no segmento aventura, ele nunca havia feito trekking ou acampamentos selvagens antes de produzir esse livro – que o obrigou a retraçar os passos de Hiram Bingham quase cem anos depois, montanha acima, pé ante pé. Sem ser um aventureiro, Adams produziu um excelente relato de aventura. Instrutivo e bem escrito, profissional e divertido, muito bem embasado em pesquisa e costurando muito bem passado e presente, o livro é um excelente exemplo de literatura de aventura escrito por um não-aventureiro assumido. Adams tira sarro de si mesmo todo o tempo e jura que só volta aos Andes “de helicóptero”. Atento ao mundo à sua volta, especialmente durante as várias viagens que fez ao Peru, ele realça diversos personagens locais, clássicos desse tipo de literatura, como “o guia explorador nos moldes do Crocodile Dandy”, “o cozinheiro tagarela de expedição”, “o incansável carregador andino mascador de folhas de coca”, “o pesquisador amador mais versado que os acadêmicos”, “o nativo culto e poliglota, instruído, inteligente e quase educado demais para um nativo”, entre outros. As deslumbrantes e impiedosas paisagens andinas também são destaques no livro, deixando qualquer leitor com coceiras de pegar um avião e aterrissar no Peru.
[highlight color=”eg. yellow, black”]OS INCAS NO BRASIL[/highlight] Nas escolas nos ensinam que o Brasil foi descoberto pelos portugueses e que, ao chegarem aqui, os lusitanos só encontraram praias, mato e índios seminus. Dá até para imaginar que os portugueses se divertiram muito nesse descobrimento. A aparente ausência de narrativas dos povos originários dá a impressão que nossa história começa com a chegada do europeu à América do Sul. Errado! Por mais que nossos indígenas não tenham construído cidades, pirâmides, templos, eles tinham suas crenças, lendas, heróis, filosofia e religião. Sempre me pareceu estranho que países como o México, Peru e Guatemala tivessem pirâmides e uma rica história pré-colonial, enquanto o Brasil parecia só haver tucanos. Mais ainda, me incomodava os avanços de descobertas arqueológicas na América do Norte, provando que, por exemplo, os vikings e antigos irlandeses visitaram lugares onde hoje está o Canadá e os Estados Unidos séculos antes dos navegadores espanhóis que “descobriram a América”. O Brasil, com sua costa gigantesca e área territorial continental é grande demais para ter passado despercebido por outros povos antigos. E não passou. PEABIRU: OS INCAS NO BRASIL, do premiadíssimo escritor Luiz Galdino, mudou completamente minha visão do Brasil pré-Cabral. A obra demonstra, com uma riqueza fenomenal de detalhes, referências, citações, erudição, conteúdo literário e estilo, uma possibilidade quase incontestável: os Incas dominaram boa parte da América do Sul e estiveram no Brasil muito antes dos portugueses. Em sua passagem, deixaram como legado, entre outras coisas, uma rede de estradas conectando diversos pontos do nosso litoral à capital inca, Cuzco, no Peru. Peabiru é o nome dessa rede de estradas, muito utilizadas pelos descobridores e exploradores no começo do Brasil. O descaso das autoridades, somada ao desinteresse dos estudiosos e à desinformação generalizada da população, resultaram na destruição, depredação e roubo de diversas mostras e provas da passagem inca pelo Brasil. Mas nem tudo está perdido. Luiz Galdino, com essa obra, abre nossos olhos para o que ainda resta e, principalmente, para a questão da nossa história anterior à chegada de Pedro Álvares Cabral. Depois de ler esse livro nossa visão do Brasil pré-colônia nunca mais será a mesma.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE INCAS: EMPIRE OF BLOOD AND GOLD[/highlight] Um livro de bolso, muito bem ilustrado, todo colorido e impresso em bom papel couche. O título faz parte de uma coleção editada pela prestigiosa e popular Thames and Hudson, uma das maiores editores do mundo, criadora de uma infinidade de best-sellers. Esse pequeno livro foi bastante útil para entender, de forma ampla e geral, sem sem superficial, a história dos incas. De linguagem enciclopédica, com uma infinidade de ilustrações em cores mostrando peças arqueológicas, obras de arte, mapas antigos e afins, o livro foi escrito por uma especialista renomada no tema. A bibliografia ajuda muito a quem quiser, como eu, aprofundar a pesquisa. Uma obra simples de referência, bem escrita e bem produzida, que auxilia muito na organização das ideias e das informações. Fiquei contente de ter lido esse livrinho em primeiro lugar, a partir dele as informações mais detalhadas que eu for colhendo de outros títulos não vai soar inédita ou totalmente desconhecida.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE INCAS OF PEDRO DE CIEZA DE LEÓN[/highlight] O conquistador espanhol Pedro de Cieza de León (aprox. 1520-1554) foi para a América do Sul aos 13 anos de idade, maravilhado com o tesouro inca exibido pela família Pizarro na Espanha após o sequestro e assassinato do rei do Peru, o Inca Atahualpa. Cieza de León permaneceu dezesseis anos entre Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, percorrendo toda a extensão do coração do já então extinto Império Inca. Dos inúmeros relatos e crônicas deixados por espanhóis, a imensa obra de Cieza de León tem grande destaque pela sensibilidade e poder de observação do autor. Embora jovem, o conquistador tinha alguma erudição, obviamente não era analfabeto como o governador-geral do território inca recém-conquistado, o marquês Francisco Pizarro (aprox. 1471-1541). Algumas observações de Cieza de León foram muito avançadas para a época, como sua análise das ruínas de Tihuanaco, no Lago Titicaca do lado boliviano, e sua conclusão de que elas não pertenciam à cultura inca e sim a uma civilização muito anterior. Uma abordagem arqueológica que não se podia esperar de um soldado mercenário a serviço do eventual saque de outra raça. Seu talento narrativo logo fez com que Cieza de León fosse incumbido pelas autoridades espanholas no Peru de viajar, pesquisar, coletar informações e transcrevê-las nos vários livros escritos pelo soldado historiador. Ele viajou por todos os cantos do antigo Império Inca, entrevistou anciãos sobreviventes do massacre espanhol, falou com o que restava da realeza inca, analisou sítios arqueológicos e anotou seus achados e impressões de forma bastante imparcial. Talvez até imparcial demais, já que a maior parte dos seus trabalhos acabou esquecida nos porões de palácios espanhóis como obras desconfortáveis demais para ganhar o olhar público. Ao longo dos séculos os livros de Cieza de León, inéditos, foram descaradamente plagiados por outros escritores e historiadores, entre eles o famoso Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616), talvez o mais famoso cronista do confronto entre espanhóis e incas. Não existe tradução para o português desse título, mas existem obras sobre Pedro de Cieza de León em nossa língua.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE CONQUEST OF THE INCAS[/highlight] John Hemming é um renomado historiador, antropólogo, explorador e autor britânico nascido em 1935 na cidade canadense de Vancouver. THE CONQUEST OF THE INCAS foi seu primeiro livro, publicado em 1970. A obra imediatamente tornou-se referência na história da conquista espanhola do império inca. Antes desse trabalho a obra mais importante sobre o tema era a do norte-americano William Hickling Prescott (1796-1859), com seus trabalhos sobre a história da conquista espanhola do México e do Peru. Hemming demorou seis anos para escrever esse livro, leu mais de mil obras e documentos, visitou a Espanha e o Peru. Seu estilo de narrativa é envolvente, realça o que há de mais interessante em cada assunto abordado. O livro indica centenas de obras de referência em notas e comentários, além de oferecer muitos mapas e fotos em preto e branco para enriquecer o texto. Em diversos momentos, o autor apresenta argumentos e contra-argumentos sem se colocar de um lado ou de outro, sempre comprometido com o fato histórico. Uma questão importante para mim nessa leitura foi o esclarecimento parcial sobre a questão ética da conquista e da colonização. Um tema impossível de ser completamente concluído sem revisionismo histórico. Hemming examina o tema sobre vários ângulos, inclusive sobre a moral cristã do século XVI, além do culto inca do século XX. Apesar de toda morte e destruição causada pela conquista e pela decorrente colonização espanhola, fica aparente a influência da natureza individual humana em cada ação. Havia conquistadores mais ou menos conscientes do sofrimento nativo, assim como havia clérigos melhor ou pior intencionados. O confronto entre duas civilizações antagônicas em muitos aspectos permeia toda a obra e causa uma sensação dolorosa de inevitabilidade no leitor. Mas isso também se dá pelo fato histórico já transcorrido. Foi importante, para mim, ter lido THE CONQUEST OF THE INCAS depois de já ter lido a edição resumida, em inglês, da vasta obra do conquistador espanhol Pedro de Cieza de León (aprox. 1520-1554), editada pelo historiador norte-americano Victor Wolfgang von Hagen na obra THE INCAS. Esses dois livros dificilmente serão superados em termos de abrangência e precisão em qualquer pesquisa sobre a história da invasão europeia dos Andes. Não existe tradução para o português desse título.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE BRIDGE OF SAN LUIS REY[/highlight] Ao ler THE CONQUEST OF THE INCAS, de John Hemming, fui surpreendido por uma rápida menção à essa obra — THE BRIDGE OF SAN LUIS REY — do norte-americano Thorton Wilder. O livro foi publicado em 1927 e ganhou o Prêmio Pulitzer de literatura de 1928. O nome do autor era familiar, mas eu não havia lido qualquer coisa dele antes. Imediatamente anotei a indicação e, depois de rápida pesquisa, decidi lê-la também. Mais tarde descobri que a história já havia sido adaptada para o cinema três vezes, sendo a última, em 2004, com um elenco de estrelas: Kathy Bates, Robert De Niro, Gabriel Byrne, F. Murray Abraham, Harvey Keitel e Geraldine Chaplien, entre outros. O livro é uma obra-prima. Logo na primeira página a trama é desvendada, mas isso em nada prejudica a leitura. No dia 20 de julho de 1714, uma sexta-feira, uma famosa ponte de sisal e madeira construída pelos incas na estrada entre Lima e Cuzco, no Peru, rompeu e levou à morte cinco viajantes. O fato não é verídico, é invenção do autor. Thorton Wilder usou dois personagens históricos, a atriz e o vice-rei, e decidiu elaborar a partir daí para criar todo o resto, inclusive o personagem fictício do narrador — o frade franciscano italiano, que investiga por seis anos as biografias das vítimas a fim de provar, cientificamente, segundo o padre, que as mortes não foram acidente, que a própria vida não é uma sequência de acidentes, que tudo é parte de um plano divino. O texto é hipnótico. Os personagens são um pouco burlescos, dignos de dramas do começo do século XVIII em Lima, onde e época em que toda a história se desenvolve, mas nem por isso menos realistas. O dia a dia da capital peruana de séculos atrás ganha vida nas páginas, ganha cheiros, texturas e cores. A discussão filosófica sobre a existência ou não de destino divino perde importância diante da riqueza das relações humanas, das dúvidas existenciais, das vocações e dos compromissos de vida. Alguns dos personagens certamente ficaram na minha memória por muito tempo, espero que para sempre, como pessoas de verdade presas numa obra de ficção. Para quem ler a obra, minha maior identificação pessoal foi com o Capitão Alvarado, por razões óbvias. O exemplar que possuo, publicado pela editora Grosset & Dunlap, de Nova Iorque, é de capa dura e tem uma sobrecapa de papel (dust jacket, em inglês) muito interessante. Na quarta capa há um aviso sobre reciclagem de papel como esforço de guerra, já que essa edição foi lançada no meio da Segunda Guerra Mundial. Não existe tradução para o português desse título.
[highlight color=”eg. yellow, black”]KON-TIKI MAN: AN ILUSTRATED BIOGRAPHY OF THOR HEYERDAHL[/highlight] O explorador, antropólogo e escritor Thor Heyerdahl (1914-2002) é um nome comum entre os amantes da aventura e da arqueologia. Nascido na Noruega, ele ficou mundialmente famoso ao cruzar o oceano Pacífico, em 1947, da costa do Peru até a Polinésia Francesa, numa balsa de toras. Depois disso, ele cruzou o oceano Atlântico duas vezes, da costa do Marrocos até o Caribe, em barcos feitos de feixes de junco amarrados. Não satisfeito, ele ainda usou o mesmo tipo de embarcação para navegar pelo oceano Índico, do sul do Iraque até Djibouti, pequeno país vizinho à Etiópia, circundando a Península Arábica. Heyedahl tentou comprovar, com suas expedições em barcos artesanais e pré-históricos, que os oceanos não eram obstáculos às primeiras civilizações e que havia muito mais intercâmbio entre os continentes do que as ciências humanas admitem. Suas controversas proposições incluem que as pirâmides da América Central e da América do Sul eram heranças diretas de pirâmides da Mesopotâmia e do Egito. Mas as “coincidências” não se resumem à arquitetura e são impressionantes. Provando na própria pele a possibilidade de cruzar os maiores oceanos com barcos de engenharia pré-histórica, ele desbarata o principal argumento dos “isolacionistas”, que afirmaram que os oceanos eram intransponíveis antes da Era de Descobertas e Conquistas européia. Esses cientistas pregam que civilizações surgiram em distintos lugares do planeta de forma simultânea e espontânea, sem contato umas com as outras. Herydahl discorda e tenta provar com exemplos práticos seu discurso. Esse livro é muito bem ilustrado com fotos coloridas e mapas, trechos extraídos dos muitos livros escritos por Heyedahl, todos best-sellers, além da narrativa entusiasmada e clara do produtor e diretor de documentários britânico Christopher Ralling, autor da obra. Bem impresso em papel couchê, esse livro é uma aquisição obrigatória aos amantes da história de Thor Heyerdahl. Fácil de ler, instrutivo e didático, dá pra entender bem a linha cronológica e a linha de pensamento do grande explorador moderno em barcos de papel.
[highlight color=”eg. yellow, black”]LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA[/highlight] Lançado em 1971, esse livro do jornalista uruguaio Eduardo Galleano (1940-2015) rapidamente se tornou um Bíblia da esquerda latino-americana, o que não faz total justiça à obra. Galleano queria que o livro fosse um trabalho acadêmico de análise econômica da América Latina, mas segundo o próprio autor, ele não tinha o conhecimento necessário para tanto. Em vez disso, AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRIA LATINA, como o livro foi traduzido para o português, acabou sendo escrito como um rosário de explorações, roubos, fraudes, desvios e traições que mantiveram os países americanos ao sul dos Estados Unidos subdesenvolvidos, subjugados e dominados. A começar pela “descoberta” e colonização pelos países ibéricos, Espanha e Portugal, passando pela dominação inglesa e terminando pela atual influência autoritária dos Estados Unidos, a história de nossa economia sempre foi a manutenção daquilo que o carrasco da democracia brasileiro, general Golbery do Couto e Silva, denominou de “destino manifesto” da nação: servir à potência da ocasião. A ideologia do atraso que persiste ainda no discurso e atitudes de, por exemplo, o presidente Jair Messias Bolsonaro. A América do Sul é a região de solo e subsolo mais ricos do planeta e, paradoxalmente, residência de umas das populações mais pobres. Esse livro, embora desatualizado, explica as raízes dessa realidade. Como brasileiro médio, confesso que sabia muito pouco sobre a história dos demais países latino-americanos, suas origens e percalços. Galleano complementa muito bem o discurso do libertador Bolívar, que enxergava a América de língua latina como um só país, de passado, presente e futuro comuns. Uma realidade impossível de ser alcançada não por vocação ou preconceitos internos, mas pela força de desunião que vem de longe, projetada para dividir e conquistar.
[highlight color=”eg. yellow, black”]TÚPAC AMARU: EL CACIQUE INCA QUE REBELÓ LOS ANDES[/highlight] O mestiço José Gabriel Condorcanqui Noguera (1738-1781), descendente direto do último inca peruado, último rei do Peru, Tupac Amaru, adotou o nome de seu antepassado e entrou para a história como Tupac Amaru II. Responsável pelo levante revolucionário dos nativos nos anos 1780 e 81, ele venceu importantes batalhas e poderia ter invadido Cuzco se quisesse. Sua luta era, a princípio, por melhores condições de vida para os nativos, explorados até a morte pelo sistema colonial espanhol de impostos e trabalho análogo ao escravo. Sua bandeiras, no entanto, tinham os matizes de seu tempo, influenciadas pelo iluminismo europeu, que promoveram a Independência dos Estados Unidos em 1771 e a Revolução Francesa em 1789. Tupac Amaru, como ele ficou conhecido, pregava a irmandade dos peruanos independente de sua raça. Em sua época havia claras restrições sociais às diferentes matizes de pele, com o negro africano escravo no mais baixo degrau da escada social e o branco europeu no topo. Considerado pelos estudiosos o primeiro revolucionário americanista da América do Sul, o primeiro a pregar um separatismo da colônia em relação à matriz europeia, Tupac Amaru era no entanto monarquista e cristão católico. Seus discursos e lutas deixaram marcas profundas na sociedade peruana e sul-americana, transformaram-no em mártir e ídolo de lutas sociais até hoje, influenciando inclusive os guerrilheiros urbanos uruguaios que lutaram contra a ditadura militar de seu país na segunda metade do século XX, os tupamaros, movimento do qual fez parte o ex-presidente do Uruguai José Mujica. Esse pequeno livro, em espanhol, é muito bem ilustrado, bem produzido, de capa dura e impresso em bom papel couche. No entanto, as muitas imagens não apresentam referência autoral e o texto é professoral, truncado e chato de ler. Mais de 80% do material é uma explicação confusa, sem explicações de rodapé, cheia de citações de autores desconhecidos para mim, pintando o cenário em que as revoltas de Tupac Amaru ocorreram. Apenas o trecho final trata do personagem em sim e, mesmo assim, de forma superficial. Gostei de ter aprendido algo sobre um figura histórica totalmente desconhecida para mim, mas ficou o desejo de ler algo mais consistente.
[highlight color=”eg. yellow, black”]EIGHT FEET IN THE ANDES[/highlight] Em 1978, a irlandesa Dervla Murphy, então com 47 anos de idade, caminhou cerca de 2 mil quilômetros, em pouco mais de três meses, no Peru, de Cajamarca a Cuzco. Sua filha, Rachel, de nove anos de idade, festejou seu décimo aniversário no percurso. Uma mula, chamada Juana, foi adquirida para servir de animal de carga para a improvável dupla de aventureiras. Dervla Murphy é uma conhecida e consagrada escritora de viagem. Sua estreia aconteceu em 1963, quando aos 32 anos de idade, pedalou sozinha uma bicicleta velha e pesada, sem marchas, da Irlanda até a Índia. Dessa aventura nasceu o livro FULL TILT, o primeiro de muitos. Eu não conhecia Dervla, nunca tinha lido nada dela. Pesquisando sobre os Andes, descobri o título EIGHT FEET IN THE ANDES e descobri também que a autora estava viva e ativa e era uma espécie de instituição na Irlanda. Minha relação com esse livro foi tumultuada. Acho que influenciado demais pela leitura de LAS VENAS ABIERTAS DE AMÉRICA LATINA, do uruguaio Eduardo Galeano, fiquei ofendido ao perceber a extrema consciência racial de Dervla Murphy na obra. Inúmeras vezes ela definia as pessoas que encontrava no caminho por categorias raciais de “índios”, “mestiços” e “brancos”, com a nuance pouco clara ainda de “índio de feições incas”, seja lá o que isso for. Raças que inclusive definiam atitudes e personalidades. Também me incomodou os constantes erros gramaticais na obra toda vez que a autora mencionava alguma palavra de seu escasso vocabulário espanhol. “Mula bonito”, “mercada” em vez de mercado, “olé” em vez de “olá” e assim por diante. Algumas de suas análises sócio-econômicas também não me agradaram a princípio. Mas, ao mesmo tempo, a natureza exuberante dos Andes, descrita de forma magistral, embora às vezes poética demais, logo me prendeu. Fiquei também fascinado pela natureza original e pura da aventura de mãe e filha, sozinhas na imensidão andina do final da década de 1970, perdidas e famintas por trilhas tênues, vales profundos e montanhas impiedosas. Dervla Murphy é um exemplo do típico aventureiro inglês/britânico/irlandês representante do extinto império. Intrépida, destemida, fleumática, estoica, mortalmente humilde, capaz de humor mesmo debaixo de chuva torrencial a mais de 4.000 metros acima do nível do mar e com as roupas molhadas. Consegui aproveitar melhor o texto por haver lido, anteriormente, THE INCAS OF PEDRO DE CIEZA DE LEÓN, várias vezes citado por Dervla, e THE CONQUEST OF THE INCAS, de John Hemming, também bastante citado por Dervla. As menções históricas da autora não são muito explicadas em seu livro, fazendo crer que os leitores de língua inglesa já estão devidamente instruídos na história andina ou devem procurar se instruir em outros lugares. Típico também da cultura britânica/irlandesa. No final o livro me cativou. Virei fã de Dervla Murphy, quero ler seus outros livros. Reconheço seu valor como escritora e como mulher à frente de seu tempo. Sua aventura pelos Andes, refazendo o caminho da conquista espanhola liderada por Francisco Pizarro em 1533, foi épica e original — algo raro e valoroso pra mim. Com certeza Dervla Murphy terá lugar garantido na minha aventura e futura narrativa na exploração que pretendo fazer.
[highlight color=”eg. yellow, black”]”SE ME DEIXAM FALAR…”[/highlight] Quando Domitila Barrios de Chungara (1937-2012) morreu, o então presidente da Bolívia, Evo Morales, decretou três dias de luto nacional. “SE ME DEIXAM FALAR…” é uma compilação de diversos discursos e entrevistas cedidas por Domitila na década de 1970. A obra foi organizada pela socióloga brasileira Moema Viezzer e teve grande repercussão internacional, especialmente na Bolívia, onde foi lançada em espanhol. A história de Domitila é uma epopeia de sofrimento e luta. Nascida na famosa mina de estanho Siglo XX, na região de Potosí, no altiplano boliviano, aos dez anos de idade, com a morte de sua mãe ela assumiu o cuidado de sua casa e de suas cinco irmãs menores. O pai, dirigente sindical dos mineiros, ensinou-lhe a não baixar a cabeça contra a opressão e a não fechar os olhos contra as injustiças e foi isso que Domitila fez a vida toda. “SE ME DEIXAM FALAR…” é pungente, comovente e aterrorizador. A miséria dos mineiros e suas famílias transborda das páginas em relatos de fome, escassez, doenças e mortes precoces. Domitila teve sete filhos trabalhando sem parar para manter sua família alimentada, vestida e segura. Sem abdicar de suas funções domésticas, ingressa no Comitê das Donas de Casa da Siglo XX, a primeira organização sindical do gênero na Bolívia, onde chega a secretária-geral. Testemunha do famoso Massacre de San Juan, de 1967, viu centenas de mineiros, esposas de mineiros e crianças serem fuziladas e mortas por espancamento pelo exército da Bolívia. As denúncias que fez desse massacre fizeram com que ela fosse, para sempre, considerada uma subversiva e inimiga do Estado sempre que havia um ditador militar no poder. Foi brutalmente torturada e abortou, aos oito meses de gravidez, numa cela. Participou de congressos feministas pelo mundo, onde se destacou por pregar não apenas pela igualdade de sexo, mas por um mundo sem fome e sem injustiça, que ele identificava com o socialismo. Domitila foi indicada ao Premio Nobel da Paz e foi a primeira mulher a concorrer à direção do poder executivo, quando se candidatou à vice-presidência da Bolívia. Um livro fascinante que mostra as entranhas da exploração do indígena boliviano, as populações congenitamente e cronicamente pobres, desde a queda do Império Inca.
[highlight color=”eg. yellow, black”]CHE GUEVARA[/highlight] Ernesto Rafael Guevara de la Serna (1928-1967), o Che Guevara, é talvez a melhor exemplo de uma ideologia transformada em produto de consumo. Esvaziado da maior parte de seu conteúdo histórico, sua imagem — resumida em seu rosto jovem, olhos perdidos no horizonte, barba rala, cabelos longos e boina basca com uma estrela na frente — virou sinônimo do clichê máximo de revolta e contracultura. Che é um símbolo pop. Essa biografia, curta e bem ilustrada, tem também estética pop, a começar pela capa colorida por elementos gráficos modernos que lembram obras de Andy Warhol. O texto é fluído e didático, cobrindo, de forma geral, toda a vida do argentino que ficou famoso em Cuba e morreu na Bolívia. Che era uma figura controversa mesmo enquanto vivo. Foi um revolucionário marxista sem ser comunista, ele jamais de filiou ao partido e sempre se posicionou de forma crítica às ações de viés imperialistas da extinta União Soviética. Lutou como ninguém, mesmo sem ser cubano, pela libertação de Cuba do domínio dos Estados Unidos. Assumiu depois funções importantes na reconstrução do país após a revolução, como ministro, presidente do banco central e chanceler. Sua impaciência, no entanto, o impediu de desfrutar por muito tempo dos louros da vitória, da glória de herói nacional e dos privilégios do primeiro escalão de qualquer governo. Logo perdeu a paciência com a excessiva demora, em sua visão, na emancipação definitiva do povo cubano — ainda comprometido com muito trabalho e vidas simples, embora já dedicadas em benefício próprio. Dedidiu então exportar a revolução a outros povos oprimidos. Lutou no antigo Congo Belga, hoje Zaire, plantando a semente da independência em diversos países africanos. Por fim, internou-se na selvas da Bolívia, movido pela experiência de viagens pela América do Sul como estudante de medicina e depois como médico, ciente da enorme miséria e da imensa desigualdade social existente no continente. Lançado em 1997, para o aniversário de 30 anos da morte do Che, o livro já antevia que a imagem do guerrilheiro se aproximava de forma inexorável do caráter de lenda, distanciando-se sempre mais e mais da realidade da ação consciente que Guevara propunha. O exemplo prático de sua vida, de seu compromisso ilimitado com ideais capazes de transformar a realidade, acabaram diluídos no eficiente sistema de recompensas imediatas da sociedade de consumo. Hoje, para ser revolucionário basta comprar uma camiseta com o rosto do Che estampado no peito.
[highlight color=”eg. yellow, black”]DIARIOS DE MOTOCICLETA: NOTAS DE UN VIAJE POR AMÉRICA LATINA[/highlight] Pelo menos cinco anos antes de Jack Kerouac ter lançado ON THE ROAD (1957), Che Guevara vivia e descreveria em seguida uma viagem tão seminal e tão emblemática para gerações de sul-americanos quando o livro beatnik de Kerouac foi para os norte-americanos. O cineasta brasileiro Walter Salles filmou a saga para o cinema em DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (2004), produção vencedora de melhor canção no Oscar. Em 1951-52 Ernesto Che Guevara e um amigo, Alberto Granado, partiram de Córdoba, na Argentina, numa motocicleta velha batizada de La Poderosa II, para tentarem chegar aos Estados Unidos. A ideia era passar nove meses na estrada, com pouquíssimo dinheiro, já que esse era o tempo máximo que o Che tinha livre antes de se formar em medicina. A motocicleta logo quebrou e a viagem continuou de carona, comendo em quartéis, dormindo em delegacias de polícia, passando fome e descobrindo a realidade da América do Sul. O itinerário levou os aventureiros pelo Chile, Peru, Colômbia e Venezuela. Alberto Granado ficou em Caracas, onde se estabeleceu como um dos maiores especialistas em lepra das Américas, enquanto Guevara chegou até Miami, nos EUA, para em seguida voar, de carona, de volta a Argentina. A miséria, a desigualdade social e a injustiça testemunhadas no caminho marcaram profundamente o pensamento de Che, na época com apenas 23 anos (ele completou 24 na viagem), determinando assim seu futuro. Esse livro influenciou incontáveis jovens na América do Sul, gente que também saiu sem dinheiro para conhecer e se compadecer do sofrimento alheio. O livro é divertido, muito bem escrito, envolvente, poético, filosófico, extremamente sincero e funciona como um convite a conhecer a mente do revolucionário em construção. Como obra de aventura tem todos os ingredientes de uma boa leitura, tem estilo, ritmo e mostra, infelizmente, que pouca coisa mudou no ambiente social por onde Che passou.
[highlight color=”eg. yellow, black”]CHE GUEVARA NA BOLÍVIA: DIÁRIO[/highlight] Mesmo escrito no calor da guerrilha, faminto, doente, cansado, ferido e no desconforto extremo de uma região serrana de floresta amazônica, o DIÁRIO DE CHE GUEVARA NA BOLÍVIA é uma obra de literatura. A importância histórica desse livro é incontestável. Fidel Castro, em seu detalhado, inflamado e didático texto, ao final da obra, responde à pergunta óbvia sobre a necessidade da publicação do diário: trata-se de um gesto de solidariedade para com o movimento revolucionário, encarnado de forma definitiva na figura do Che. É impressionante como um grupo de menos de 50 homens maltrapilhos, às vezes descalços, famélicos, nem sempre bem armados, isolados e sem o apoio dos cidadãos que eles tentavam libertar da opressão e da miséria, conseguiram balançar as estruturas de um país inteiro. A narrativa de Che escancara a precariedade do Estado boliviano de então, sua desfaçatez e sua imoralidade. Estudar a passagem de Che Guevara pela América do Sul, em particular pela Bolívia e pelo Peru, tem sido muito educativo para mim. Minha origem burguesa e urbana me manteve distante da realidade rural, camponesa e radicalmente pobre de meu continente de origem. Uma distância que confunde e nubla a realidade. Enquanto me preparo para minha jornada latino-americana, entendo, através de livros como esse, o massacre psicológico mantido há 400 anos no continente que fez de bravos guerreiros escravos submissos. Fico revoltado com a força policial e os militares — seja da Bolívia, do Peru ou do Brasil —, que, oriundos das classes proletárias, se submetem voluntariamente a servirem de cães de aluguel da força opressora do grande capital, sempre estrangeiro. Fica na minha memória a frase escrita por Che nesse diário: “Este tipo de luta nos dá a oportunidade de nos convertemos em revolucionários, o escalão mais alto da espécie humana, mas também nos permite graduar-nos como homens; os que não podem alcançar nenhum desses dois estágios, devem dizê-lo e deixar a luta”.
[highlight color=”eg. yellow, black”]BOLIVAR[/highlight] Infelizmente, no Brasil estudamos muito pouco a história dos demais países da América do Sul. Não me lembro de ter tido uma aula na escola sobre a independência da América hispânica ou sobre a ação de Simón Bolivar, principal responsável pelas guerras que libertaram Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Bolívia, além de influenciar na independência do Brasil. Chamado de El Libertador, o venezuelano passou quinze anos lutando com poucos homens e poucas armas contra um exército profissional e bem equipado. Seu gênio em estratégia militar era comparável ao de Napoleão Bonaparte e suas conquistas tiveram consequências mais duradouras. Bolivar também foi um grande político e um visionário revolucionário e político comparável a Lenin. Sua proposta de uma América Latina unida e sem fronteiras, com livre comércio interno e forças armadas unificadas, que pudessem fazer frente às pressões dos gigantes imperialistas de seu tempo, Inglaterra e Estados Unidos, podem ser vistos até hoje como a solução para o eterno problema de nossa submissão e exploração por potências mundiais. Sua visão das injustiças sociais, fundadas no período da colonização, exigiam mudanças radicais na organização da sociedade que até hoje fazem falta. A biografia de Bolivar se mistura diretamente com a história dos países da América do Sul. Suas ações revolucionárias influenciaram diretamente a formação dos atuais estados americanos. Esse livro, muito bem escrito e pesquisado, embora nada imparcial, foi essencial para entender a origem dos países que pretendo visitar nesse próximo projeto de aventura e literatura. Traços sociopolíticos presentes até hoje no Equador, no Peru e na Bolívia foram marcantes durante as guerras bolivarianas, resultando em suas atuais fronteiras. O autor é fã inconteste de Simón Bolivar e defende muito bem seu herói, tornando difícil para o leitor não tornar-se também um fã. O ponto baixo do livro, na minha opinião, foram os trechos em que o autor tenta inferir as motivações psicológicas, os sentimentos íntimos e os impulsos de personagens históricos em momentos decisivos. Os pontos altos foram: a narrativa envolvente e o detalhamento de passagens e circunstâncias marcantes no processo histórico. Não sei se existem biografias mais isentas ou mais completas, mas essa foi bem esclarecedora.
[highlight color=”eg. yellow, black”]TOUCHING THE VOID[/highlight] Em 1985, os escaladores britânicos Joe Simpson e Simon Yates escalaram a parede oeste do pico Siula Grande (6.344 m), parte da Cordilheira Huayhuash, no Peru. Essa foi a primeira ascensão desse pico por essa via. Na descida, ainda altos na montanha, Simpson sofreu uma queda e fraturou a perna direita. Sem combustível no fogareiro, os escaladores não tinham como derreter neve para se hidratar e o mau tempo dificultava ainda mais seus movimentos. Desse momento em diante, começou uma saga quase sobrenatural de sobrevivência para ambos montanhistas. Simpson descreveu a história nesse monumental livro, TOUCHING THE VOID, traduzido para o português como TOCANDO O VAZIO, publicado pela Companhia das Letras em 2004. Traduzida para mais de vinte línguas, a obra vendeu mais de dois milhões de cópias no mudo todo. Em 2003, a história ganhou uma versão para cinema, em estilo “docudrama”, misturando relatos dos escaladores envolvidos com cenas filmadas com atores. Depois de muito sofrimento na descida da montanha, em determinado momento, Yates foi obrigado a cortar a corda de segurança que o atava a Simpson para não desabar junto com o companheiro. Na sequência, Yates termina de descer a montanha sem proteção, desidratado, faminto e com alguns dedos congelados, certo de que Simpson havia morrido na queda de 60 metros até uma geleira. Nos três dias seguintes, Simpson se arrastou, pulou numa perna só, dormiu em buracos cavados na neve e conseguiu chegar ao acampamento base antes que seu amigo, parcialmente recuperado de suas lesões, partisse de volta à Inglaterra. A narrativa é extremamente realista, detalhista, mesclando de forma perfeita a descrição de situações e lugares com um escaneamento mental e emocional dos dois escaladores. Joe Simpson ganhou diversos prêmios com o livro, inclusive o consagrado Prêmio Boardman-Tasker em 1989. Yates foi duramente criticado, em especial pela mídia sensacionalista da Grã-Bretanha, por ter cortado a corda e condenado o companheiro à morte. Simpson fez questão de abordar essa questão no livro de forma objetiva, declarando mais de uma vez que teria feito o mesmo se as posições fossem invertidas. Mas o debate moral, no entanto, persiste, como deve ser, já que questões de vida e morte não podem ser facilmente resolvidas. O leitor se pergunta o que faria na mesma situação, como se sentiria, que valores nos impediriam ou nos levariam a agir como Yates agiu. TOUCHING THE VOID é mais que um best-seller de literatura de aventura e montanhismo, é um tratado de sobrevivência e superação, um debate profundo sobre resiliência e desejo de viver, além de um mergulho na alma do autor. Impossível não sentir frio e desconforto na leitura.
[highlight color=”eg. yellow, black”]ECUADOR AND THE GALÁPAGOS ISLANDS[/highlight] Victor Wolfgang von Hagen (1908-1985) foi um explorador dos Estados Unidos muito conhecido por seus mais de 50 livros sobre a América Latina, em especial sobre as civilizações asteca, maia e inca. Ele passou oito meses com os indígenas caçadores de cabeça da República do Equador, experiência que gerou seu primeiro livro OFF WITH THEIR HEADS, de 1937, inaugurando um tipo de literatura científica, sobre antropologia, arqueologia, história e ciências naturais, acadêmica e ao mesmo tempo divertida, erudita e envolvente. Seus livros foram traduzidos para vários idiomas, inclusive espanhol e português. Nessa obra ECUADOR AND THE GALÁPAGOS ISLANDS, von Hagen conta a história da República do Equador desde a chegada dos conquistadores espanhóis até logo depois da Segunda Guerra Mundial. O livro foi lançado em 1949. Sua cultura geral é impressionante, a quantidade de livros que ele leu, cita e lista na bibliografia da obra é estonteante. Quase metade do trabalho é sobre o arquipélago de Galápagos, começando pelo seu descobrimento acidental pelos espanhóis do século XVI, passando pelos corsários ingleses do século, a indústria baleeira, a passagem de Charles Darwin pelas ilhas e chegando até a última grande guerra. Os pontos altos do livro, pra mim, foram justamente as descrições sobre os índios caçadores de cabeça da Amazônia equatoriana, os muitos corsários (alguns deles grandes escritores, como William Dampier) e a história de Galápagos. Texto educativo e divertido. Virei fã desse autor!
[highlight color=”eg. yellow, black”]EL IMPERIO SOCIALISTA DE LOS INCAS[/highlight] O belga Louis Baudin (1887-1964) foi um famoso economista vinculado à academia francesa, professor da faculdade de direito da Universidade de Paris. Autor de mais de vinte livros, estudioso e crítico do socialismo enquanto modelo econômico, ele estudou muito o sistema socioeconômico do Império Inca. Seu livro L’Empire Socialiste des Inka, de 1928, que li na versão em espanhol, EL IMPERIO SOCIALISTA DE LOS INCAS, foi a primeira obra no mundo a abordar a organização econômica dos incas de forma detalhada e específica. O livro é muito bem pesquisado, detalhado, compara diversas outras obras, inclusive os trabalhos dos primeiros cronistas do século XVI, além de obras consagradas de personalidades da região dos séculos seguintes à conquista. Em diversas passagens ele compara muitos autores, identificando quais se equivocaram em suas análises e quais tiveram suas visões confirmadas pelas ciências mais modernas da arqueologia. Obviamente, muitas conclusões de Baudin foram revistas desde a primeira publicação da obra, mas de modo geral sua abordagem resiste ao tempo. Apenas no final, nos dois últimos capítulos, Baudin deixa escapar sua posição ideológica oposta ao socialismo, que ele compara com o modelo soviético, fazendo com que o texto perca seu caráter puramente científico. Nessas páginas finais, ele faz ainda elogios à colonização e tece comentários eugenistas, valorizando a imposição da cultura europeia em detrimento da cultura nativa. Baudin chega a relativizar o genocídio, a escravidão e o estupro praticado pelos conquistadores e pelos colonizadores da América do Sul, declarando que seu legado cultural foi uma vantagem para os povos nativos. Mas é preciso não fazer revisionismo histórico, não julgar atos e crenças do passado sob a luz do presente. Baudin é fruto de seu tempo, quando o ocidente lutava contra o socialismo que nascia e crescia a partir da Rússia e dominava rapidamente o mundo, ameaçando privilégios conquistados a ferro e fogo em particular nas Américas Central e do Sul, na Ásia e na África. Esse é um livro muito rico em informações e detalhes, perfeito para a pesquisa que realizo.
[highlight color=”eg. yellow, black”]JACQUES COUSTEAU’S AMAZON JOURNEY[/highlight] O francês Jacques-Yves Cousteau (1910-1997) foi um famoso oceanógrafo, ecologista, explorador, um dos precursores do mergulho autônomo e cineasta submarino premiado com dois Oscar. Suas aventuras subaquáticas eram transmitidas por televisões do mundo todo. Segundo o próprio Cousteau, a viagem realizada entre 1982 e 1983, narrada nesse livro, que resultou na exploração por água, terra e ar do território da Amazônia em diversos países, foi sua maior e mais importante aventura. Durante 18 meses a equipe de Jacques Cousteau percorreu toda a extensão do rio Amazonas, de sua nascente, no topo de uma montanha nos Andes peruanos, até sua foz, no oceano Atlântico. Usando seu famoso navio de pesquisa, Calypso, como base, um hidroavião, um pequeno helicóptero, um enorme caminhão 6×6, um veículo anfíbio, um jipe e diversas embarcações náuticas, como botes de rafting, balsas infláveis, barcos de alumínio e infláveis com motor de popa, o time de exploradores, cientistas, fotógrafos, cinegrafistas, mergulhadores e aventureiros percorreu uma área equivalente aos estados contíguos dos Estados Unidos. Índios isolados foram contatados, garimpeiros e ribeirinhos entrevistados, amostras de solo, água, ar e sangue humano e animal foram coletados para estudo, espécies de peixes foram filmadas em seu habitat natural pela primeira vez. A lista de pesquisas é extensa demais para constar nessa curta resenha. O livro é escrito, em sua maior parte pelo norte-americano Mose Richards, membro da expedição, e Jacques Cousteau. A narrativa é delicada e envolvente. As fotografias deslumbrantes e realistas. O conjunto é impactante. Em diversos momentos da leitura fiz comparações com minhas próprias expedições. A tecnologia que tenho hoje à disposição possibilitaria resultados semelhantes aos obtidos por Cousteau e uma dúzia de companheiros, sem tantos veículos. Um drone substituiria todas as filmagens feitas de avião ou helicóptero. Uma GoPro permitiria filmagens subaquáticas de alta qualidade. Comunicação via satélite permitiria pesquisas e troca de informações de forma bem mais rápida e econômica. Mas esse revisionismo histórico é equivocado. Na maior parte do tempo, o livro me transportou a regiões inóspitas e ainda pouco acessíveis, se não inacessíveis. Mais que tudo, porém, fica claro na leitura do ótimo JACQUES COUSTEAU’S AMAZON JOURNEY, a imensidão da Amazônia multinacional, a complexidade de sua biologia, a importância de suas funções na ecologia mundial. Nos quase 50 aos passados desde a expedição de Cousteau muita coisa aconteceu. A Amazônia diminuiu muito de tamanho, várias áreas de florestas foram destruídas, estamos diante de uma crise climática de proporções apocalípticas. Ninguém deu muito ouvido aos alertas de Cousteau e de outros cientistas e exploradores. Seguimos enxergando a floresta, o oceano, os rios, como objetos inanimados e disponíveis para nosso deleite hedonista e narcísico. Perdemos a visão de sagrado que os índios amazônicos ainda têm em relação à floresta e suas entidades. Confirmamos a percepção indígena que nós, brancos ditos civilizados, somos os bárbaros invasores.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE WHITE ROCK[/highlight] Em 1982, o inglês Hugh Thomson tinha apenas 21 anos de idade e trabalhava servindo bebidas num pub em Londres, quando decidiu procurar ruínas incas no Peru. Um artigo jornalístico dizia que uma importante ruína inca encontrada pelo famoso explorador norte-americano Hiram Bingham, o mesmo que “descobriu” Machu Picchu, em 1911, havia sido “perdida”. Ninguém conseguia localizar o achado arqueológico. Hugh Thomson e dois amigos, também ingleses, montaram uma expedição e partiram para a América do Sul na esperança se tornarem exploradores. Sem dar spoiler, porque isso está inclusive a apresentação do livro na edição que tenho, os jovens britânicos encontraram as tais ruínas e Hugh foi picado pelo inseto da exploração. Ficou viciado. Depois dessa primeira experiência como explorador, Hugh passou e ler tudo o que ele pudesse encontrar sobre o Império Inca, exploradores e arqueólogos, ruínas e caminhos incas. Ele só conseguiu retornar ao Peru em 1999, já com 38 anos de idade e um conhecido diretor de documentários para a BBC de Londres, para refazer alguns de seus passos e visitar as ruínas da última cidade dos Incas, a Velha Vilcabamba, em Espiritu Pampa, já na Amazônia peruana. O único conjunto de construções importantes que ele não havia visto pessoalmente. THE WHITE ROCK conta sobre essas duas expedições e sobre todo o estudo que o autor fez ao longo dos anos sobre o tema de sua paixão: a história dos Incas. Envolvente, engraçado, erudito, perspicaz e didático, sem ser professoral, o texto me deixou hipnotizado da primeira à última página. O estilo do autor, misturando suas andanças com vasta pesquisa histórica, se aproxima muito do meu. Tive até uma sensação estranha durante a leitura, medo de que eu estivesse me deixando influenciar pela voz de alguém que pudesse, de alguma forma, direcionar o livro que pretendo escrever sobre os Incas e os Andes. Sem problema. Se a influência se confirmar será positiva. Gostei particularmente da forma despretensiosa como o autor inclui informações históricas curiosas no meio do texto sem fazer muito alarde. Obviamente, quando ele menciona personagens ingleses de renome não há necessidade de apresentá-los. O mesmo não acontece com meus livros e com o leitor médio brasileiro, que precisa de referências e explicações mais detalhadas para colocar nomes e lugares no contexto. THE WHITE ROCK narra a história do Império Inca de forma simples e rica, sem ser um livro didático. Ao mesmo tempo, o livro dá cores e sabores ao Peru descrito em suas páginas. Um excelente exemplo de literatura de viagem que consegue ser altamente instrutivo além de muito divertido.
[highlight color=”eg. yellow, black”]A ESTRADA DO SOL[/highlight] Nos anos de 1953 e 1954, o etnólogo norte-americano Victor Wolfgang von Hagen (1908-1985) percorreu cerca de 8.000 km do sistema inca de estradas, que continha em torno de 17.000 km de vias ligando praticamente toda a América do Sul, da Colômbia à Argentina. Com o apoio da National Geographic, a expedição tinha o apoio oficial do governo peruano, além do suporte de diversas grandes empresas norte-americanas. O time de exploradores e arqueólogos, liderados por Hagen, contava com sua esposa, Silvia, menos de um ano depois dos dois terem se casado. O trabalho monumental durou dois anos e envolveu diversos veículos motorizados, inclusive aviões, além de inúmeros ajudantes indígenas locais, cavalos e mulas. O livro A ESTRADA DO SOL, traduzido do original em inglês HIGHWAY OF THE SUN, foi um tremendo best-seller, traduzido para vários idiomas, narra essa epopeia científica que descobriu muitos sítios arqueológicos e ajudou a popularizar ainda mais a mística sedutora do Império Inca. O texto em português ficou muito datado, marcado por longas sentenças construídas com uma infinidade de vírgulas, apostos e vocativos, tirando, hoje em dia, um tanto do brilho da narrativa. Uma pena. A história mescla bem história, aventura, diário de viagem e arqueologia. Sem dúvida um livro importante no estudo da história dos incas. Victor W. von Hagen é um dos grandes especialistas nas culturas pré-colombianas das Américas Central e do Sul. O livro me ajudou a encadenar melhor os diversos sítios arqueológicos que pretendo visitar na minha exploração da história e da geografia dos incas.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE KON-TIKI EXPEDITION[/highlight] Em 1947, logo após a Segunda Guerra Mundial, o explorador, aventureiro etnógrafo, botânico, zoólogo e geografo norueguês, Thor Heyerdhal (1914-2002) construiu uma jangada de madeira balsa na República do Equador e, com outros cinco companheiros — quatro noruegueses e um sueco —, passou mais de 100 dias boiando no oceano Pacífico para cruzar da costa do Peru até a Polinésia. Foram cerca de 8 mil quilômetros, ou 4.300 milhas náuticas. Sua embarcação encalhou em Raroia, uma das ilhas do arquipélago de Tuamotu-Gambier, na Polinésia Francesa. Heyerdahl tentou, com essa aventura, comprovar sua teoria de que a Polinésia havia sido colonizada, pela primeira vez na história, pelo povo Tiki, construtores das ruínas de Tiahuanaco, no lago Titicaca. Esse teoria, ainda bastante controversa, foi baseada em dados arqueológicos coletados ao longo da vasta extensão da Polinésia, elementos que indicavam forte conexão no passado com a cultura pré-incaica de Tiahuanaco, atualmente na Bolívia. Pirâmides, imagens esculpidas em pedra, plantas importadas da América do Sul e palavras comuns ao idioma falado na região do lago Titicaca levaram Heyerdahl a formular sua teoria da colonização do Pacífico à partir da forte corrente marítima e dos ventos constantes que sopram de leste para oeste, que permitiriam, teoricamente, que qualquer embarcação flutuante cruzasse o vasto oceano, mesmo há 1.500 anos atrás. THE KON-TIKI EXPEDITION foi um best-seller desde seu lançamento e segue ainda hoje um dos livros de aventura mais lidos do mundo. Essa travessia lançou Heyerdahl como um nome forte no cenário dos exploradores profissionais e foi o primeir projeto de uma série. Depois vieram as expedições AKU-AKU, RÁ e TIGRIS, todas de formato semelhante: barcos tradicionais e simples cruzando enormes extensões de mar. Heyerdahl com certeza será personagem importante na minha narrativa de exploração na região incaica dos Andes.
[highlight color=”eg. yellow, black”]AKU-AKU[/highlight] Thor Heyerdahl (1914-2002), foi um aventureiro, explorador e etnógrafo norueguês especializado em zoologia, botânica e geografia, que ficou mundialmente famoso por defender a teoria que as ilhas do oceano Pacífico foram povoadas a partir da América do Sul e não da Ásia. Escritor talentoso, seus livros foram best-sellers traduzidos em dezenas de idiomas. Em AKU-AKU, seu terceiro livro de narrativa de aventura e quarto livro geral, Heyerdahl organiza uma grande expedição arqueológica com o objetivo de explorar e escavar, pela primeira vez, a Ilha de Páscoa. Esse território chileno, distante do continente e a meio caminho entre Chile e Taiti, figurou entre os grandes mistérios da história e da arqueologia por séculos. As grandes estátuas de figuras humanas, chamadas de moai na língua local, não pertenciam à etnografia da Oceania. Sua ligação mais óbvia seria com a cultura pré-incaica de tiahuanaco, na atual Bolívia. AKU-AKU é mais literatura, em forma de crônicas organizadas numa narrativa fluída, do que um livro de ciência. Heyerdahl leva a Rapanui, nome local para a Ilha de Páscoa, uma equipe internacional de arqueólogos, um fotógrafo, um mergulhador profissional e toda uma tripulação de marinheiros noruegueses, além de sua família, para muitos meses de viagem e trabalho no Pacífico. Na Ilha de Páscoa a equipe faz importantes descobertas e desenterra novas estátuas, ainda mais semelhantes às encontradas em tiahuanaco, às margens do lago Titicaca, do que os moais. Restos mortais, construções e edificações antigas também são reveladas, confirmando, parcialmente, a narrativa oral preservada sobre a história da primeira ocupação da ilha. A ligação com a América do Sul é inegável. No entanto, AKU-AKU tem alguma coisa que me incomoda. Correndo o risco do revisionismo histórico, uma reavaliação de feitos do passado a partir da ética contemporânea, fiquei incomodado com a dinâmica que Heyerdahl impõe ao trabalho arqueológico. Havia uma centenária tradição na ilha de manter antigas esculturas em pedra escondidas em cavernas secretas. Essas cavernas eram tabu. Se aproveitando da ingenuidade e da cultura mística local, Heyerdahl descontrói a partir de sua visão cultural e de seus interesses científicos, além de materiais, as crenças dos habitantes da ilha e barganha antigas e valiosas estátuas em troca de maços de cigarros e cortes de tecido. Ao final, as ciências humanas ganharam conhecimento e artigos a serem expostos em museus, mas a Ilha de Páscoa ficou mais pobre de sua riqueza antropológica e histórica. Como os demais livros de Heyerdhal, AKU-AKU é bem escrito, espirituoso, divertido, questionador e permite ao leitor uma visita à visão de mundo do autor. Personagens interessante, exóticos e complexos são apresentados, embora às vezes sob uma ótica crítica e até preconceituosa. Apesar desses detalhes, AKU_AKU é sem dúvida ótima literatura.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THREE ADVENTURES[/highlight] Meu maior interesse por esse livro foi a visita de Jacques-Yves Cousteau ao lago Titicaca. O grande explorador dos mares ocupou lugar de destaque na minha infância. Pioneiro da exploração subaquática, Cousteau foi um genial produtor de conteúdo cultural. Seus documentários ganharam incontáveis prêmios e ocuparam espaço nas televisões do mundo inteiro. Seus livros, traduzidos em dezenas de línguas, eram literatura obrigatória a quem gostasse de aventura. No final, a aventura andina foi a que menos me impressionou nessa obra. A viagem às ilhas Galápagos, que ocupavam o segundo lugar no meu interesse pelo livro, foi muito instrutiva. Entendi, finalmente, o que tanto impressionou e inspirou Charles Darwin quando o grande cientista natural examinou a fauna desse isolado arquipélago equatoriano. Esse livro de Cousteau parece ter sido escrito para um público jovem e curioso, meticuloso e detalhista. A linguagem é clara beirando o didatismo. As fotografias parecem amadoras, se comparadas com os recursos tecnológicos disponíveis a qualquer um hoje em dia. Mas isso também é didático. Ver as volumosas e pesadas filmadoras que a equipe do Calypso usava, o famoso barco de Cousteau, alimentadas por longos e pesadíssimos cabos de energia elétrica, só valoriza o trabalho desses pioneiros. A exploração terrestre e subaquática das ilhas Galápagos foi o ponto alto do livro. A terceira exploração da obra, dos Blue Holes de Honduras e da Bahamas, no mar do Caribe, foram novidade total pra mim, que nunca tinha ouvido falar deles. Foi um livro divertido de ler, que me fez sentir novamente como o adolescente sedento de experiências que nunca deixei de ser.
[highlight color=”eg. yellow, black”]INCA-KOLA: A TRAVELLER’S TALE OF PERU[/highlight] Best-seller de literatura de viagem lançado em 1990, escrito por Matthew Parris, jornalista, radialista e ex-membro do parlamento inglês pelo Partido Conservador na década de 1980. Discípulo direto de Margareth Thatcher, a ex-primeira ministra britânica conhecida como “A Dama de Ferro”, Parris é um nome bastante conhecido no Reino Unido. Neoliberal convicto, ele defende veementemente princípios de Estado mínimo, liberdade máxima para o mercado, restrição total de benefícios oferecidos pelo governo aos cidadãos e outras barbaridades, já mortas e enterradas no mundo civilizado contemporâneo. Nessa obra, a primeira do autor, ele narra uma viagem realizada em 1889 com três amigos pelo Peru. Apesar de bem escrito, o livro é muito datado, muito comprometido com a visão política do autor. Pra mim, a leitura possibilitou duas viagens: uma pelo Peru de décadas atrás, visitando inclusive lugares que eu também visitei, e outra viagem pela mente do autor. Foi quase uma viagem também no tempo, porque lembrei de minha estadia pela Inglaterra, em 1989/90, e lembrei do Brasil nos tempos da hiperinflação, enorme dívida externa, interferência constante do FMI, início do Plano Real. A passagem de Parris pelo Peru deixou um relato superficial e um tanto preconceituoso, focado basicamente na miséria do povo e na total desconexão dessa miséria, na visão míope do autor, com qualquer explicação histórica, política ou social. Difícil engolir um texto escrito por um inglês, representante da força colonial moderna, que observa a pobreza como se fosse uma raridade encontrada em um museu distante. Nenhuma empatia, nenhum senso de responsabilidade. Um livro que, com certeza, vai integrar de alguma forma minha narrativa da EXPEDIÇÃO TRANS-INCA, a viagem solo de bicicleta de 4.000 km de extensão, que realizei de abril a setembro de 2022, e objetivo final dessa biblioteca.
[highlight color=”eg. yellow, black”]O BEM VIVER: UMA OPORTUNIDADE PARA IMAGINAR OUTROS MUNDOS[/highlight] Eu estava em Quito, no Equador, no começo de uma longa travessia solo de bicicleta pelos Andes, até Cusco, no Peru, quando recebi um vídeo curto sobre o “Bem Viver”. Nunca tinha ouvido falar desse conceito, embora o nome soasse obviamente agradável.
Um equatoriano, que mais tarde descobri haver sido Ministro de Energia e Minas do Equador, no primeiro mandato do presidente Raphael Correa, discursava para um público brasileiro sobre os desafios de um novo ciclo da esquerda na política sul-americana. O Brasil estava prestes a reeleger Lula presidente, quebrando quatro anos de discórdia, destruição, difamação e desamparo do desastroso governo Bolsonaro. Foi quando descobri Alberto Acosta, autor de EL BUEN VIVIR (SUMAK KAWSAY): UNA OPORTUNIDAD PARA IMAGINAR OTROS MUNDOS. Imediatamente decidi ler a obra.
O BEM VIVER: UMA OPORTUNIDADE PARA IMAGINAR OUTROS MUNDOS, de Alberto Acosta, tradução publicada em 2016 pela Editora Elefante, traz uma série de discussões interessantes e originais, pelo menos pra mim. O texto me fez lembrar de quando o pré-sal foi descoberto, a imensa reserva petrolífera brasileira que colocou o Brasil na mira do capital internacional e resultou no golpe contra a presidente Dilma Rousseff e a prisão do então ex-presidente Lula. O Brasil comemorava e eu lamentava. Por que explorar mais petróleo? Por que seguir nesse caminho assassino e suicida de queimar sempre mais combustível fóssil, se sabemos que essa é a causa do aquecimento global? Por que seguir destruindo a natureza como se fôssemos extraterrestres? Quando vamos virar essa página e finalmente amadurecer?
Alberto Acosta apresenta na obra o conceito de Sumak Kawsay das tradições andinas e amazônicas, traduzido em espanhol como Buen Vivir e em português como Bem Viver. Trata-se, simplesmente, de organizar a vida em harmonia com a natureza, com os demais seres vivos, com os demais seres humanos, em comunidade. Um paradigma que sobreviveu a mais de 500 anos de invasão, ocupação e colonização das Américas pelo bárbaros europeus.
Nossa civilização se organizou em torno de visões distorcidas da realidade. Acreditamos no crescimento constante, infinito, de nossas economias apesar de sabermos que a natureza, o planeta, tem recursos finitos. Criamos um modelo econômico de acúmulo de riqueza que faz com que a imensa maioria dos seres humanos viva na pobreza ou na miséria, independentemente do quanto multiplicarmos a riqueza disponível no mundo. Fantasiamos uma justificativa para o sucesso material de alguns e o fracasso de muitos baseada em cor de pele, na teoria absurda de raças humanas, mesmo depois da genética comprovar que todos os seres vivos, humanos e não-humanos, dividem um mesmo código genético base. Transformamos a natureza em “recursos naturais”, em “valor ambiental”, em “riqueza”, emprestando valor monetário de acordo com leis abstratas de oferta e procura, como se tudo no mundo pudesse receber uma etiqueta de preço. Secar um rio para dele extrair ouro não transfere para o metal o custo de recuperar esse mesmo rio. Poluir os oceanos para extrair petróleo não inclui no preço do óleo o custo de limpeza dos mares.
As melhores universidades, os maiores cientistas, pregam que a ciência e a tecnologia resolverão todos os problemas mais tarde, enquanto novas descobertas, como a energia atômica, acabam sendo usadas para fins bélicos, para a destruição e a extinção, não para solucionar problema algum. Remédios que prometem curas milagrosas são caros demais para praticamente todos os seres humanos doentes. Chegamos ao espaço, pisamos na lua, mas deixamos tantos resíduos, tantos destroços no caminho que hoje é preciso calcular complicados caminhos que evitem colisão com nosso lixo na órbita da Terra. Desenvolvemos eficientes vacinas para depois contestá-las, apenas pra provar que nossos argumentos são mais fortes que a ciência.
A solução, aparentemente óbvia, é trocar de bússola. Deixar de acreditar que devemos fazer nossas economias crescer infinitamente. Abandonar a rota do desenvolvimento unilateral e obtuso, que é sinônimo de destruição ambiental. Humanizar a economia, incluir o bem-estar de todos na conta dos mercados. Reaproximar a civilização da natureza, desurbanizar nossas cidades. Abrir mão de privilégios e reduzir drasticamente o nível de consumo nos países ricos. Enfim, olhar o exemplo dos povos indígenas americanos, africanos, asiáticos, onde o desenvolvimento não conseguiu ainda extinguir as diferentes formas de organização social.
Confesso que o livro me deixou deprimido. O texto colocou em palavras minhas percepções intuitivas de que estamos em rota de colisão e pisando fundo no acelerador. Não vejo luz no fim do túnel. Não vejo sequer o fim do túnel. Mais e mais, ouço discursos pregando a desigualdade social como motor da economia, a competição como incentivo, o individualismo como regra de convívio. Exatamente o oposto da solução lógica: solidariedade, coletividade, cooperativismo, irmandade, gratidão pelo que se tem e não cobiça sem limites por tudo o que não se tem.
Fui testemunha do Sumak Kawsay em ação na travessia de bicicleta que fiz pelos Andes. Participei de uma reunião comunitária onde se discutia técnicas para melhorar a produção de leite e de queijo; vi um mutirão comunitário pra cavar valas de irrigação; fui convidado para uma festa em louvor à fecundidade da terra — Pacha Mama —, onde todos colaboraram com as comidas e as bebidas do banquete coletivo; testemunhei a troca de produtos sem a intromissão de dinheiro. Enfim, exemplos do Sumak Kawsay vivo e pulsante.
O BEM VIVER: UMA OPORTUNIDADE PARA IMAGINAR OUTROS MUNDOS é um livro seminal que me fará ler outros livros, pesquisar mais sobre o tema. A simplicidade dos preceitos do Sumak Kawsay, que basicamente prega a reconexão com a natureza, soam verdadeiros pra mim. Vejo a aventura como um caminho semelhante. No final, trata-se de colocar a economia a serviço da natureza e a política a serviço dos seres humanos.
[highlight color=”eg. yellow, black”]EL GENERAL EN SU LABERINTO[/highlight] É comum, na boa literatura, que se tome uma passagem história conhecida e a explore profundamente misturando ficção. Foi o que fez o escritor colombiano, Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura, com os últimos meses de vida do libertador Simón Bolívar. A história de Bolívar não é muito conhecida dos brasileiros. Na América hispânica ele é estudado e reverenciado. Principal promotor e lutador pela independência das colônias espanholas, ele deu continuidade a importantes movimentos de libertação e de igualdade social como foram a independência dos EUA em 1776 e a Revolução Francesa em 1789. Seguidor das ideias de Rousseau, Montesquieu e Voltaire, entre outros, Bolívar percorreu enormes distâncias na América do Sul, lutou muitas batalhas, discursou em inúmeros lugares, tornou-se o primeiro presidente das novas repúblicas e terminou derrotado pela política. Seu sonho de um continente unido, que fizesse frente às maiores forças europeias, foi massacrado pela mesquinhez provinciana das regiões por ele libertadas. Seus últimos meses de vida foram de extrema solidão, desilusão e doença. García Márquez explora cenário e psicologia como poucos. Um livro de profunda humanidade, embora trate da vida de um personagem histórico. Aprendi muito sobre a mentalidade sul-americana ao ler essa obra.
[highlight color=”eg. yellow, black”]LA CUARTA ESPADA: LA HISTÓRIA DE ABIMAEL GUZMÁN Y SENDERO LUMINOSO[/highlight] O romancista, roteirista e jornalista Santiago Roncagliolo nasceu no Peru, mas viveu parte da infância no México com os pais, asilados políticos peruanos. Com o retorno da normalidade democrática ao seu país de origem, ele retorna ao Peru para viver em Lima e estudar. Sua relação com a história e a cultura peruana, apesar de ser cidadão peruano, é parecida com a de um estrangeiro curioso, como eu. LA CUART ESPADA é um livro autoral, escrito em primeira pessoa, que mescla de forma sutil a história do autor com a história do grupo terrorista Sendero Luminoso, fundado pelo professor universitário de filosofia Abimael Guzmán (1934-2021). Famoso por explodir torres de eletricidade e deixar cidades peruanas, em particular Lima, a capital, no escuro, o Sendero Luminoso cometeu assassinatos em massa, assaltos e terminou se envolvendo com o narcotráfico. Por outro lado, construiu e manteve escolas em comunidades isoladas, criou um rígido sistema de justiça e justiçamento em que ladrões, estupradores e delatores foram sumariamente julgados e executados em praça pública. Herdeiro das revoluções socialistas das décadas de 50 e 60, o grupo atuou fortemente na área montanhosa do centro-sul do Peru e concorreu diretamente com o Estado pelo poder de imensas áreas territoriais. O Sendero Luminoso é tema de incontáveis estudos sociológicos e políticos, inspirou livros, filmes e dissertações acadêmicas e resiste até hoje na região do rio Apurimac, perto de Cusco, na região da selva amazônica. Impossível pra mim, enquanto viajante e pesquisador da história e da cultura local, não investigar a história desse importante período do Peru e dos Andes, o tempo da guerra civil promovida pelo Sendero Luminoso. Esse livro é excepcionalmente bem escrito. Sutil, leva o leitor a uma viagem de investigação jornalística e de investigação pessoal sobre valores humanitários. O autor começa deixando claro que não concorda com a ideologia maoísta e terrorista do Sendero Luminoso e, ao longo da obra, começa a entender a complexidade do grupo e sua luta. Num país ainda mais desigual que o Brasil, racista desde sua fundação, com a maioria da população indígena ou mestiça relegada a segundo plano pela supremacia branca, a violência do grupo se explica, embora nunca possa se justificar. Das quase 70.000 pessoas mortas ou desaparecidas durante o conflito armado entre o Estado e o Sendero Luminoso calcula-se que cerca de 40% tenha morrido pelas mãos das polícias e das Forças Armadas. O terror de Estado é por acaso menos cruel que o terror praticado por grupos extremistas? Uma pergunta que ocorre na leitura da obra. Praticamente todos os mortos e desaparecidos eram cidadãos muito pobres. Uma guerra de pobre matando pobre. Em determinado momento da minha travessia solo e de bicicleta do Equador e do Peru, pensei em descer até a selva amazônica para viver essa experiência, mas fui rapidamente dissuadido por questões de segurança. A área era dominada por narcotraficantes e pelo que resta do Sendero Luminoso. Livro impactante.
[highlight color=”eg. yellow, black”]YAWAR FIESTA[/highlight] Ao lado de Mário Vargas Llosa, o escritor José María Arguedas (1911-1969) é o mais famoso romancista peruano. Diferente de Llosa, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Arguedas é pouco conhecido no mundo, mas é muito querido no Peru, talvez mais do que o próprio Llosa.
Confesso que nunca tinha ouvido falar seu nome até viajar para o Peru. Durante a longa travessia solo de bicicleta que fiz, de cinco meses de duração de 4.000 km de extensão, de Quito, no Equador, a Cusco, no Peru, várias pessoas indicaram que eu deveria ler Yawar Fiesta — a obra mais popular de Arguedas.
Yawar signfica “sangue” em quíchua. Fiesta é “festa” em castelhano. Yawar Fiesta, ou a “Festa de Sangue”, trata de uma tourada andina clássica, onde os toureiros usam seus ponchos para enganar o touro e, no lugar de espadas, lutam com bananas de dinamite. Esses toureiros são camponeses sem maior treinamento, munidos apenas de coragem ancestral e muito álcool no sangue.
Arguedas é um famoso antropólogo, sociólogo, etnólogo e folclorista, com vasta bibliografia publicada com pesquisas sobre os povos andinos tradicionais. Paladino na luta pela emancipação e melhoria da qualidade de vida das populações nativas de língua quíchua, ele é considerado um marco na luta por direitos humanos e participação política da vasta população explorada dos Andes peruanos. Seus livros são verdadeiros mergulhos na psique indígena, em seus mitos, sua arte, sua visão de mundo e as dinâmicas sociais que regem sua realidade.
Yawar Fiesta lembra um pouco, em termos de linguagem, as obras de Guimarães Rosa. Assim com fez Rosa, Arguedas não tenta explicar as razões por trás das ações de seus personagens nativos — camponeses simples e analfabetos, com conhecimentos milenares —, apenas descreve com profundidade acontecimentos que emprestam luz a episódios aparentemente inexplicáveis do ponto de vista da população urbanizada.
Aprendi mais sobre os peruanos das montanhas lendo esse livro do que em qualquer outra obra. Sua desconfiança, sua formalidade, a aparente falta de hospitalidade inicial que me surpreendeu no começo da travessia, a rigidez das estruturas sociais na vilas camponesas, o distanciamento que se erguia entre a comunidade e o visitante estrangeiro.
Quando eu chegava a uma pequena comunidade andina, composta de uma dúzia de casinhas simples, construídas de tijolos artesanais de barro seco ao sol, e pedia para acampar ali no fim da tarde, raramente era bem-recebido. Demorou até que eu entendesse que tinha que, primeiro, identificar a autoridade local e pedir permissão à ela. Respeitado o protocolo, todas as portas se abriam, inclusive com grandes demonstrações de generosidade. Esse sistema comunitário de vida, chamado ayllu em quíchua, vem desde o tempos do Império Inca. Sempre haverá um presidente local que fala em nome de todos os comuneros.
Aywar Fiesta trata do conflito cultural decorrente da invasão europeia, que não cessou com a tomada do Império Inca pelos conquistadores espanhóis do século XVI, que segue ocorrendo toda vez que um branco — um gringo — invade o território de um grupo de falantes de quíchua esquecidos pelo tempo nas montanhas. Ocorre todos os dias ainda hoje com a chegada, por exemplo, de mineradoras no interior dos Andes. Pode ocorrer com a chegada de um turista, como eu, de bicicleta, vindo não se sabe de onde e não se sabe para quê.
O livro também fala da relação do homem do campo, do quíchua tradicional, com as forças da natureza. Tanto as forças naturais quanto as forças míticas e ancestrais. O sagrado e o profano. A profanação do sagrado — quando montes e rios, antes considerados entidades a serem reverenciadas, passam a ser tratadas apenas como valores econômicos a serem explorados — ainda causa profundos transtornos nos alicerces de comunidades afastadas. A lógica do trabalho, do dinheiro, do desenvolvimento como meta absoluta, não se encaixa com a ancestralidade de valores que regeram a vida dos povos andinos por milênios.
Lendo Aywar Fiesta lembrei de situações de conflito que vivi na viagem. Momentos em que a humildade de comunidades agrícolas e pastoris se confundia com pobreza ou miséria. Uma confusão existencial fundamental. Confusão que inclusive colocou em xeque valores pessoais que eu trazia. Um dos melhores livros que li na pesquisa para essa expedição.
[highlight color=”eg. yellow, black”]THE ADVENTURES OF ALEXANDER VON HUMBOLDT[/highlight] Uma biografia primorosa, vastamente pesquisada, produzida em formato de HQ, um tipo de história em quadrinhos de alta qualidade. Uma obra de arte. A autora do texto, Andrea Wulf, é também autora da biografia mais tradicional THE INVENTION OF NATURE, traduzida e lançada em português como A INVENÇÃO DA NATUREZA. A desenhista responsável pelas ilustrações, muitas baseadas em desenhos do próprio Humboldt, é Lillian Melcher. Esse livro foi louvado e ganhou diversos merecidos prêmios desde seu lançamento, em 2019. Descobri, lendo a obra, que subi (de teleférico) o vulcão Pichincha, em Quito, capital do Equador, no exato mesmo dia que Alexander von Humboldt tentou escalar a montanha em 1802, exatos 220 anos antes de mim. Uma coincidência que encheu meu coração de alegria. Confesso, com profunda vergonha, que sabia quase nada sobre a vida e as andanças de Humboldt. Descobri, entre outras coincidências, que o geógrafo e explorador alemão influencio diretamente o pensamento do libertador Simón Bolívar, também pesquisado por mim nesse projeto da TRANS-INCA. Humboldt influenciou também John Muir, o pai do preservacionismo norte-americano, que estudei e cuja biografia incluí no livro HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS. Influenciou fortemente Charles Darwin. Considerado o pai da ecologia, o primeiro a descrever e criticar a monocultura, o desmatamento e alertar para o perigo do aquecimento global, Humboldt atuou como cientistas em tantas áreas que seu trabalho parece obra de ficção. Geografia, biologia, física, etnografia, história, astronomia, química, botânica, política, antropologia, etc, etc, etc. Desnecessário dizer que o cientista alemão será personagem da minha narrativa de literatura de aventura. Com destaque. Ele chegou mais alto que qualquer outro europeu no vulcão Chimborazo (6.263 m), não alcançando o cume, mas deteve o recorde de altitude no mundo por décadas, até ser batido por um balonista francês. Li esse livro em dois dias de total concentração e imersão, incapaz de fazer qualquer outra coisa. Humboldt era incansável e durante os cinco anos que permaneceu nas Américas, sendo a maior parte do tempo na América do Sul, realizou mais do que qualquer um antes ou depois dele. Amigo próximo de nomes como Goethe e Thomas Jefferson, entre muitos outros, ele foi um dos personagens mais famosos de seu tempo. Fiquei hipnotizado com sua história e com certeza vou ler sua biografia em breve. Deu vontade de coletar plantas, prensá-las e secá-las como faziam os antigos naturalistas, produzir obras de arte com a arte pronta da natureza como forma de valorizar a própria natureza. Ele entrou para meu panteão de ídolos e modelos. Esse é um livro maravilhoso, ideal como introdução e aperitivo para a vida e obra desse gênio. Um livro para leitores de qualquer idade.
[highlight color=”eg. yellow, black”]ANTISUYU: THE SEARCH FOR THE LOST CITIES OF THE AMAZON[/highlight] Tawantinsuyu, que em quíchua, a língua dos incas, significa “As Quatro Regiões”, era como o Império Inca era conhecido antes de sua extinção pelos conquistadores (invasores) espanhóis. Antisuyo era o quadrante leste, amazônico, do império e aquele menos conhecido até hoje pelos estudiosos. Gene Savoy, o autor desse monumental livro, foi o explorador mais ativo nesse quadrante, descobridor de várias cidades “perdidas” não apenas do Império Inca, mas de civilizações anteriores e ainda pouco conhecidas por nós. Savoy foi uma figura controversa. Líder religioso cristão, bispo de uma igreja menor no Peru, fundou, em Lima, o Andean Explorers Club nos moldes do prestigioso Explorers Club sediado em Nova Iorque, com o qual realizou diversas expedições nas encostas da cordilheira dos Andes próximas à floresta Amazônica. Durante boa parte da década de 1960, Savoy permaneceu enfurnado na mata e descobriu pelo menos seis cidades escondidas pela vegetação. Uma de suas mais importantes descobertas foi Vilcabamba, la capital do Império Inca depois da invasão espanhola. Cidade que o britânico Hiram Bingham, “descobridor” de Machu Picchu, chegou perto de encontrar meio século antes de Savoy, mas falhou. Para Bingham, Machu Picchu era a capital secreta. Savoy defendia duas teorias: 1) Que a floresta amazônica próxima aos Andes já havia abrigado enorme população e havia sido o centro civilizacional da região no passado. Uma teoria não aceita pela corrente de especialistas na época, que Savoy conseguiu comprovar com suas descobertas. 2) Que a origem das civilizações andinas esntaria a floresta Amazônia, teoria que se mostrou infundada com o tempo. Savoy não tinha formação acadêmica e divulgava nos veículos de comunicação, com bastante alarde, cada descoberta arqueológica, sem investigá-las profundamente. Isso causou ciúmes na academia e duras críticas de arqueólogos de bibliotecas em todo o mundo. Gerou também enorme admiração e afinidade com todos aqueles sonhadores com espírito aventureiro. Savoy foi chamado pela famosa revista People, nos Estados Unidos, de “o verdadeiro Indiana Jones”, título também dividido com Roy Chapman Andrews. Esse livro, escrito na primeira pessoa pelo próprio Gene Savoy, narra em detalhes suas expedições e descobertas. Um clássico. Embora minha EXPEDIÇÃO TRANS-INCA não tenha visitado o lado amazônico do Equador e do Peru, a história de Savoy e seus achados arqueológicos me acompanharam todo o tempo. Mais que tudo, foi uma leitura de fácil identificação pessoal. Reconheço a curiosidade como principal motor empreendedor e a enorme satisfação de encontrar algo realmente novo num mundo já tão mapeado. Ótima leitura!
[highlight color=”eg. yellow, black”]COCHINEAL RED: TRAVELS THROUGH ANCIENT PERU[/highlight] Hugh Thomson, o britânico autor também do consagrado THE WHITE ROCK: AN EXPLORATION OF THE INCA HEARTLAND, é um arqueólogo amador de bastante sucesso, um autodidata de impressionante erudição e membro de um seleto clube não-oficial de exploradores especialistas no Império Inca com imensa experiência em campo. Com mais de duas décadas de viagens, aventuras, estudos e pesquisas sobre a história inca, ele decide fazer uma empreitada mais longa e passa muitos meses vivendo no Peru, inclusive com a família toda: esposa e três filhos entre 3 e 9 anos de idade. Primeiro, ele “redescobre” as ruínas de Llactapata, numa montanha em frente a Machu Picchu, “descoberta pela primeira vez” pelo famoso Hiram Bingham, “descobridor” também da cidadela de Machu Picchu no começo do século XX. Uso aspas quando menciono descobrimento porque essas ruínas nunca estiveram perdidas e obviamente não foram “encontradas” por exploradores brancos. Machu Picchu, por exemplo, era usada como curral pela população local antes de Bingham chegar até as ruínas. Thomson, inclusive, faz questão de frisar exatamente isso, que não “descobriu” nada. Nesse maravilhoso livro, uma das melhores narrativas de viagem e aventura que li nessa longa pesquisa andina e incaica, Thomson decide percorrer todas as mais importantes ruínas pré-hispânicas peruanas e bolivianas que representam a herança recebida pelos incas. Alguns dos sítios arqueológicos que ele visita, nos quatro cantos do Peru, datam de 5.000 anos atrás e provam que as civilizações peruanas e andinas eram tão desenvolvidas e tão antigas quanto o Egito antigo, por exemplo. As civilizações Caral, Chavín, Huari, Nasca e Tiahuanaco, pra citar apenas algumas, deixaram edificações, múmias, artefatos e toda uma série de visões de mundo que explicam melhor que tudo a civilização inca. O autor se pergunta aquilo que o leitor também quer saber: o que teria alcançado as civilizações sul-americanas se não houvessem sido dizimadas pelos colonizadores europeus? Que tipo de sociedade, de cultura, teria frutificado se a evolução da região tivesse se mantido preservada? Enquanto os povos do continente não tinham linguagem escrita, eles tinham outros tipos de comunicação, incluindo a arquitetura, os têxteis, a música e a astrologia. Investigar esse passado é investigar toda a capacidade humana de criação e transformação. Gostei particularmente de uma passagem em que Thomson diz que o contato com os incas e seus antepassados é o mais próximo que chegamos e que talvez chegaremos de contato com civilizações alienígenas. Um livro que merece ser livro mais de uma vez e que merece ser usado como roteiro de viagem.
[highlight color=”eg. yellow, black”]PORTRAIT OF AN EXPLORER: HIRAM BINGHAM, DISCOVERER OF MACHU PICCHU[/highlight] O explorador, escritor, professor universitário, aviador e político conservador estadunidense Hiram Bingham III (1875-1956) ficou mundialmente famoso como o “descobridor” de Machu Picchu — o mais famoso sítio arqueológico do Peru, eleito uma das “sete maravilhas do mundo moderno”.
Acabei de completar uma travessia de Quito, capital da República do Equador, a Cusco, antiga capital inca no atual Peru, sozinho de bicicleta. Foi uma viagem de cinco meses e um dia de duração, com 84 dias na bicicleta, 3.994 km percorridos, sendo 3.644 km pedalados, com mais de 83.000 m acumulados de subidas e quase 79.000 m de descidas. Como fiz em projetos anteriores, escrevo agora um relato literário da aventura com muita pesquisa histórica e cultural. Hiram Bingham III não poderia ficar de fora da narrativa.
O livro PORTRAIT OF AN EXPLORER é a biografia mais famosa e melhor conceituada de Bingham. Fiquei em dúvida se seria isenta já que foi escrita por um de seus sete filhos, Alfred Mitchell Bingham. Comecei a leitura com mais atenção do que de costume, buscando sinais de bajulação e desmedido entusiasmo. A leitura foi uma grata surpresa nesse e em outros sentidos.
Alfred M. Bingham, terceiro filho do explorador, continuou o trabalho de outro irmão, historiador, que começou a escrever a biografia do pai famoso e não chegou a terminar. Aluno da Yale University, onde o pai foi professor, Alfred teve total acesso aos vastos arquivos do pai, quando Hiram foi diretor das três expedições ao Peru financiadas pela instituição de ensino, as duas últimas apoiadas também pela revista National Geographic.
Minucioso e objetivo, o autor da biografia descreve a vida do pai desde muito antes de seu nascimento. Neto e filho de evangelizadores, de missionários cristãos dos Estados Unidos enviados às ilhas do Pacífico para catequizar os nativos, Hiram Bingham III nasceu no Havaí. Hiram, neto, passou por escolas cristãs como seus antepassados e pensou seriamente em tornar-se pastor também. Mas, segundo seu filho Alfred, suas ambições eram grandes demais para uma vida abnegada de pregação religiosa.
Hiram Bingham III se casou com Alfreda Mitchell, herdeira do fundador da famosa joalheria Tiffany’s, de Nova Iorque. Segundo seu biógrafo, o amor era verdadeiro, embora bastante inflamado pelas promessas de fortuna da poderosa família. O pai de Alfreda era contra o casamento, por ver em Hiram apenas um filho de missionário pobre sem eira nem beira. Já a mãe preferiu tomar o partido da filha, criada em berço de ouro por tutores e babás em mansões em diversos estados dos Estados Unidos.
Os filhos vieram ininterruptamente, com exceção de um bebê morto logo depois de nascer, mantendo Alfreda sempre em casa cuidando da prole. Hiram investiu na carreira universitária, mas vivia da polpuda mesada paga pelos sogros, que desejavam manter o padrão de vida a que filha estava acostumada. Na Yale University Hiram nunca foi bem acolhido pelos colegas professores, incomodados com seu estilo de vida de ostentação, com mansões e até um automóvel com chofer, bancados pelo dinheiro proveniente da Tiffany’s. A trilha de explorador aconteceu quase ao acaso.
Hiram Bingham III fez duas longas expedições, pouco exploratórias, visitando a Colômbia e a Venezuela em 1906 e 1907, e cruzando a América do Sul de leste a oeste em 1908 e 1909. Nessa segunda viagem ele visitou Cusco pela primeira vez e entendeu que havia muito o que ser explorado, em termos de ruínas incas, na região.
A famosa expedição de 1911, a Yale Peruvian Expedition, que resultou no “descobrimento” de Machu Picchu, é narrada no livro de forma detalhada e sistemática, ocupando boa parte da obra. Em resumo, Hiram ouviu do reitor da Universidade de Cusco sobre a existência de importantes ruínas incas na montanha Huayna Pichu. Esse mesmo reitor passou o contato de um peruano, criador de gado, que havia estado nas ruínas e que poderia acompanhar o explorador gringo ao local. Esse ruralista, por sua vez, indicou a Hiram um morador local que também conhecia as ruínas. Seguindo essas indicações, Hiram Bingham III subiu até Machu Picchu, onde duas ou três famílias de camponeses humildes haviam limpado parte das ruínas pra plantas milho e batatas nos terraços construídos pelos incas.
Quando Hiram visitou Machu Picchu pela primeira vez, havia um grafite numa das paredes incaicas com o nome e a data da visitação feita pelo ruralista que ele havia conhecido. Mais tarde, anos mais tarde, Hiram descobriu também menção de Machu Picchu em relatos de conquistadores espanhóis, que sabiam da existência da cidadela inca, chamada apenas de “Pichu”.
Duas outras expedições levaram Hiram Bingham III ao Peru, a Machu Picchu brevemente, resultando também em outras “descobertas”, algumas até de maior importância histórica e arqueológica que Machu Picchu. Hoje é mais comum dizer que Hiram Bingham III foi o “descobridor científico” de Machu Picchu, já que da famosa cidadela nunca esteve, de fato, perdida para o mundo.
A biografia segue narrando a mudança profissional na vida de Hiram, que foi piloto de avião, na verdade coordenador de áreas de instrução de voo, na França durante a Segunda Guerra Mundial e depois político. Hiram foi vice-governador, governador e senador no estado de Connecticut pelo Partido Republicano. Ele acabou se divorciando de Alfreda e casou-se com sua amante, depois que ela se divorciou do marido, também político. Antes do divórcio, Hiram Bingham III conseguiu que a primeira esposa passasse para seu nome as ações que ela havia herdado da Tiffany’s, alegando que assim ela evitaria pagar impostos. Depois da separação do casal, Alfreda solicitou que Hiram devolvesse as ações e ele se recusou.
Alfred M. Bingham me surpreendeu no livro. Primeiro, eu esperava um trabalho de amor filial, de louvor à imagem do pai herói. Ao longo do livro, passei a esperar avalanches de rancor ressentimento, afinal o pai Hiram Bingham III foi ausente da vida da família todo o tempo, sempre correndo atrás de seus sonhos de grandeza. Por final, entendi a grandeza da obra como esforço de isenção e compaixão. Embora negligenciado, o filho Alfred M. Bingham entende que o pai, o aventureiro e político, era apenas fiel a seus princípios e anseios. Em nenhum momento o autor desmerece o legado do pai. Mesmo quando Hiram Bingham III investe em criar uma mitologia irreal em torno de Machu Picchu, seu maior feito, tentando vender a cidadela como o “berço dos incas” ou como “sua última capital” — coisas que Machu Picchu nunca foi.
[highlight color=”eg. yellow, black”]BAJÓ EL HUASCARÁN[/highlight] Comovente relato, em forma de crônica, da tragédia que ocorreu no dia 31 de maio de 1970, dia da abertura da Copa do Mundo do México, quando um forte terremoto de 7.9 na escala Richter causou davastação e cerca de 74.000 mortes no Peru. O autor, Alex Cordero, entrelaça num discurso sem intervalo, narrativas de sobreviventes com dados científicos e jornalísticos. É possível, através do relato, sentir-se na cidade de Yungay Viejo, no dia em que uma monstruosa avalanche de dezenas de metros de altura varreu e soterrou a cidade de 20.000 habitantes, deixando apenas 350 sobreviventes — a maioria crianças, que assistiam a um espetáculo de circo no estádio municipal, num morro mais elevado que a cidade. Essas crianças passaram pra história como “Os Órfãos de Yungay” e muitas foram adotadas por famílias estrangeiras vivendo fora do Peru. O local onde ficava Yungay hoje é um mausoléu denominado Campo Santo, que pude visitar na minha expedição. Encontrei esse livro em Huaraz, junto com alguns outros, a maioria sobre o mesmo tema. BAJÓ EL HUASCARÁN é, sem dúvida, o melhor escrito, melhor pesquisado e mais recente, lançado em 2020.
[highlight color=”eg. yellow, black”]TODAS LAS SANGRES[/highlight] Obra máxima do reconhecido antropólogo, sociólogo, etnólogo e folclorista peruano José María Arguedas (1911-1969), tido no país como seu melhor romancista. Eu já havia lido YAWAR FIESTA do mesmo autor e cheguei a duvidar se conseguiria ler TODAS LAS SANGRES quando comecei a ler o romance. O estilo pareceu truncado no início, com imagens fortes e um tanto inverossímeis, emocionalmente muito exageradas, linguagem rebuscada. Mas essa primeira impressão logo desapareceu e devorei as quase 500 páginas em poucos dias. Usando de alegorias, onde cada personagem representa uma faceta histórica do caráter peruano, o enredo narra o declínio econômico da população branca, a ascensão de mestiços tão ou mais inescrupulosos que a elite branca, a opressão sofrida pela massa indígena. O Peru ainda é bastante segmentado racialmente, assim como o Brasil, com a imensa maioria dos desprivilegiados de etnia original indígena. Muitas comunidades andinas sequer falam o espanhol como primeira língua, falam o quíchua. Na época em que o livro foi escrito e lançado, começo da década de 1960, aqueles que falavam quíchua eram quase todos analfabetos e incapazes de se comunicar em espanhol. O centro de atrito no romance é o investimento numa mina de prata no meio de uma comunidade agrícola pobre nos altos andinos. A cobiça atrai também mineradoras multinacionais, incluindo um elemento de crítica capitalista à obra. Hipnotizante. Didático. O título TODAS LAS SANGRES pretende justamente exibir todos os diferentes matizes humanos que compõem o Peru e Arguedas consegue o feito. Aprendi muito sobre as dinâmicas sociais que moldam até hoje a sociedade peruana. Um livro altamente recomendável.
[highlight color=”eg. yellow, black”]FULL TILT: IRELAND TO INDIA WITH A BICYCLE[/highlight] Primeiro livro da aventureira e escritora irlandesa Dervla Murphu (1931-2022), publicado pela primeira vez em 1965. Aos 31 anos de idade, no inverno de 1963, considerado o mais frio já registrado na Europa, Dervla partiu da Irlanda com uma bicicleta usada sem marchas rumo à Índia. Era a realização de um sonho elaborado quando ela ganhou sua primeira bicicleta e um Atlas como presentes de dez anos de aniversário. Dos 14 aos 31 anos, Dervla cuidou da mãe, inválida por artrite reumatóide. Assim que seus pais faleceram, com apenas 18 meses de intervalo entre as mortes, ela juntou o que tinha e partiu rumo a Nova Delhi. Armada com um revólver calibre 22, ela se defendeu matando dois lobos e espantando ladrões que levaram sua bicicleta no Irã. Herdeira dos aventureiros e exploradores victorianos, que desconheciam desconforto ou temor, ela dormiu em qualquer lugar e comeu qualquer coisa no caminho, que durou pouco menos de seis meses. Ela pedalou mais ou menos a metade da distância aproximada de 7.000 mil quilômetros, pegando caronas quando necessário. Sua narrativa é entusiasmada, autêntica e divertida. FULL TILT lançou Dervla Murphy no cenário literário de viagem e ela não parou de trabalhar até sua morte, aos 91 anos de idade. Seus mais de 25 livros fizeram sucesso no mercado de língua inglesa e renderam à autora prêmios literários e uma medalha da Royal Geographical Society por ajudar a promover a geografia através de seus livros. Eu li esse livro como parte da pesquisa sobre a biografia de Dervla Murphy, depois de ter lido EIGHT FEET IN THE ANDES, que ajudou na minha narrativa da EXPEDIÇÃO TRANS-INCA. Acho que Dervla e eu temos um longo futuro juntos, diversos dos destinos que ela explorou estão também no meu radar.
[highlight color=”eg. yellow, black”]VAGABOND FEVER: A GAY JOURNEY IN THE LAND OF THE ANDES[/highlight] Em 1948, o jornalista e escritor dinamarquês, Karl Ekelund, vivia com sua esposa, chinesa Chi-Yun Fei Eskelund e a filha de ambos Mei-Mei Eskelund, de seis anos de idade perto de um lago na Guatemala. Decepcionado com a recusa inicial de seu primeiro romance, o casal decide investir numa longa viagem exploratória, em busca de material para artigos e, quem sabe, um novo livro de viagem. O destino mais econômico é a América do Sul. A viagem narrada pelo livro VAGABOND FEVER vai da Guatemala até Bogotá, na Colômbia, e de lá em transportes terrestres públicos até Santiago do Chile. Os ônibus eram caminhões com alguma carroceria coberta e bancos de madeira fixos ao piso. Eskelund tem bom humor, embora faça muito esforço para soar engraçado. Seu texto é fluído e apresenta dados históricos e informações políticas sobre cada país que visita: Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Chile. Ele tem sensibilidade social e faz crítica sociopolítica, apontando os abusos das elites econômicas, o racismo estrutural e as infinitas dificuldades do povo de origem indígena. Eu nunca tinha ouvido falar do escritor, descobri esse livro pesquisando sobre viajantes pelo Andes peruanos. Foi uma grata surpresa.
[highlight color=”eg. yellow, black”]HISTORIA DEL TAHUANTINSUYU[/highlight] María Rostworowski Tovar de Diez Canseco é talvez a mais importantes pesquisadora e historiadora peruana. HISTORIA DEL TAHUANTINSUYU é seu livro mais famoso, com um estudo profundo e atualizado sobre a história do Império Incaico. Sistemática, enciclopédica, ela leva o leitor por séculos de história a partir de descobertas modernas, explicando o complexo intercâmbio entre as diversas culturas que existiram no noroeste da América do Sul antes da chegada dos espanhóis. Culturas milenares que deixaram legados até serem absorvidos pelos incas. Sistemas de organização social, política e econômica que culminaram em um vasto império de abrangência única e relações particulares com as diferentes etnias e forças que compunham uma nação heterogênea e instável. A invasão dos conquistadores ibéricos soube tirar vantagem dessas características delicadas.
[highlight color=”eg. yellow, black”]A ESTRADA DO SOL[/highlight] EM BREVE RESENHA AQUI
[highlight color=”eg. yellow, black”]O SOLDADO PEDRO DE CIEZA DE LEÓN E O IMPÉRIO INCAICO[/highlight] EM BREVE RESENHA AQUI



Guilherme,
Parabéns pela escolha de um destino tão rico culturalmente aqui na nossa América do Sul. Desejo-lhe todo o sucesso seja no planejamento, na expedição e na escrita do seu próximo livro. Conte, desde já, comigo para ser um “patrono da aventura” nesse projeto também. Forte abraço aqui do Planalto Central.
Recomendo muitíssimo os livros e o canal do Youtube do casal de cicloviajantes Olinto e Rafaela Asprino, que realizaram muitas viagens pela América do Sul, incluindo o altiplano andino. Sobre o Peabirú, recomendo o livro da escritora catarinense Rosana Bond. Na minha opinião, de modo geral, livros de autores americanos e europeus acerca do mundo inca, maia, asteca e tals tem uma visão um tanto fantasiosa destas civilizações. Talvez, pela dificuldade de entendimento dos idiomas e dialetos falados por aqui (quéchua, aimara, etc). Já perambulei um tanto pelos Andes e, se tiver algum interesse, modestamente, me proponho a auxiliá-lo. Bon voyage.
Olá Guilherme! Sou seu fã há muitos anos! Desde a Transpagonia, sua viagem que me inspirou e já me levou pra lá duas vezes e pra muitos outros lugares. O seu filme Transpatagonia eu acho que já vi centenas de vezes. O que mais gosto no seu trabalho, além da originalidade, sinceridade e honestidade, é o fato de você sempre ir mais além, mais a fundo. Nao só no conhecimento, mas também no espirito e nas descobertas interiores. Isso é inspirador, e hoje sou um grande admirador da historia e cultura sulamericanas muito gracas a você. E isso vale pra Mantiqueira também!
Obrigado por seguir e continuar me inspirando.