TREINO DE BIKEPACKING, ACIDENTES, INCIDENTES E APRENDIZADOS

7 de novembro de 2018

TREINO DE BIKEPACKING

TEXTO: Guilherme Cavallari / FOTOS: Javier Cencig, Adriana Braga e Fernando Zanelato

Nesse último feriado de finados, pedalei com um grupo de seis pessoas parte de um percurso que eu havia feito, pela última vez, no carnaval de 2014, também de bicicleta e em grupo de treinamento. Essa cicloviagem de 200 km de extensão, que conecta Joanópolis, Monte Verde, Gonçalves, São Francisco Xavier formando um anel, está publicada no GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA (VOL. 2) e outra versão desse roteiro está publicada também no GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA, num contexto bem maior, de 1.611 km de extensão, conectando toda a Serra da Mantiqueira em mountain bike.

A diferença entre o treinamento que fiz em 2014 e esse agora, de 2018, foi gritante. O percurso mudou pouco, a proposta da primeira e da segunda viagem de treinamento em mountain bike também mudou quase nada, mas a dinâmica foi totalmente diferente. Em 2014, por uma questão de equação de peso e volume, todos os participantes dormiram em redes com toldos. Essa era a única forma viável de ganharmos autonomia em acampamento selvagem, levando todo nosso equipamento nas bicicletas. Essa era a única tecnologia disponível então. O grupo, na época, se revezava em puxar dois bike-trailers com toda a tralha dentro, inclusive a comida para os quatro dias, para que pudéssemos dispensar veículos motorizados de apoio e sermos autossuficientes. Hoje, em 2018, as técnicas e os equipamentos de bikepacking disponíveis possibilitaram que cada participante ficasse independente, carregasse sozinho todo seu acampamento, alimentação e o restante do equipamento necessário.

Parece pouco, mas na verdade não é.

Nesse intervalo de tempo, entre 2014 e 2018, surgiram novas bicicletas, novas tecnologias aplicadas à bicicleta, novas bolsas específicas para transporte de bagagem, o equipamento ficou mais leve e menos volumoso, enfim, tudo contribuiu para que a ciência e a arte de viajar e acampar numa mountain bike sozinho ficasse algo bem mais acessível e viável. O que não quer dizer que tenha ficado fácil… 

Quando ministro um CURSO DE BIKEPACKING, organizo um TREINO DE BIKEPACKING ou lidero uma EXPEDIÇÃO DIDÁTICA DE BIKEPACKING tenho sempre como foco apresentar os conceitos, as técnicas e os equipamentos necessários para que a experiência de viajar de bicicleta de forma autossuficiente e em contato com a natureza o mais preservada possível seja autêntica e flexível. Autêntica porque se transitamos apenas por estradas em boas condições, em bom clima, leves e com apoio, eu estaria maquiando o bikepacking, transformando-o em algo artificial. Flexível, porque cada pessoa terá expectativas diferentes, limites pessoais diferentes, objetivos diferentes e o bikepacking tem que atender a todos. 

Nesse TREINO DE BIKEPACKING de novembro de 2018, cada participante levava na bicicleta seu próprio acampamento, sua parte na divisão da comida completa para três dias, toda sua (pouca) roupa necessária e nós não ficaríamos restritos a pedalar pelo melhor terreno e muito menos pelo terreno mais fácil. Bikepacking, afinal de contas, também é empurrar a bike quando não for possível pedalar — o que em linguagem técnica chamamos de “hike-a-bike”.

ACIDENTES, INCIDENTES E APRENDIZADOS

Cinco dos seis participantes chegaram na quinta-feira, 1 de novembro, para preparar as bicicletas e dormir no REFÚGIO KALAPALO. Apenas um dos participantes, que mora a apenas 5 km da minha casa, chegou na manhã do feriado, sexta-feira 2 de novembro. Havia previsão de chuva, mas o clima nos presenteou com uma manhã nublada e seca. O processo de montar as bikes é sempre demorado e laborioso, cheio de adaptações e improvisos. Eu desenvolvi uma técnica de adaptar bolsas estanques de 20 litros de capacidade de carga (Big River 20 litros, da marca Sea to Summit), usando fitas de compressão (Accessory Strap Hook 20mm, também da marca Sea to Summit) para uso como bolsas de guidão em bikepacking. Isso, outro saco estanque preso em cima de um bagageiro traseiro, uma bolsa de quadro e uma mochila de cerca de 30 litros (modelo Transalpine, da marca Deuter, por exemplo), compõem o resumo de todo o conjunto de bolsas de transporte de carga necessários em bikepacking, não importa a distância ou a quilometragem escolhidas. Suficiente para duas ou três voltas ao mundo consecutivas! Havendo disponibilidade financeira, a melhor opção sem dúvida seriam as bolsas específicas para bikepacking da marca alemã Ortlieb, que eu uso. Quatro dos seis participantes desse TREINO DE BIKEPACKING, alunos que já fizeram meu CURSO DE BIKEPACKING anteriormente, estavam testando suas respectivas bolsas Ortlieb no treinamento. 

No primeiro dia, fizemos de cara o mesmo percurso de 6 km que uso para chegar ao local de acampamento do CURSO DE BIKEPACKING, por uma trilha íngreme, que exige que as bicicletas carregadas sejam empurradas morro acima, passando na sequência por um trecho de 2 km em singletrack (trilha estreita por onde só passa uma bike por vez, geralmente trilha de vaca), onde degraus naturais, pedras soltas, arbustos e outros obstáculos colocam toda a habilidade, técnica e força do ciclista em cheque. Esse trecho é bem didático, especialmente para quem vem do mountain bike esportivo ou do ciclismo competitivo, acostumados a pensar em performance e rendimento. Bate um misto de frustração e raiva, emoções muito ligadas ao ego, que podem servir para gerar a humildade necessária para o convívio mais harmonioso com a natureza ou aumentar ainda mais o distanciamento entre o indivíduo e o meio natural. Mesmo a paisagem sendo infinitamente mais bonita e gratificante por esse caminho pela crista da montanha, tem sempre gente que questiona se não teria sido “melhor permanecer no fundo do vale”, onde não há vista alguma, mas por onde é possível pedalar o tempo todo. É como se “empurrar a bicicleta não fosso produtivo”, mesmo numa situação onde “produtividade” não faz parte da equação. 

Nesse caminho mais técnico, um galho solto num pequeno lamaçal enganchou no meu câmbio traseiro, dançou pelos raios da roda e fez um baita estrago: câmbio quebrado e diversos raios danificados. Usei a circunstância para explicar que procedimento mecânico seria apropriado para a situação (extrair o câmbio quebrado, cortar a corrente e deixar a bike com apenas uma marcha para seguir viagem), mas como estava a apenas 4 km de casa, liguei para a Adriana, minha esposa, e pedi que ela trouxesse minha segunda bike. Quarenta minutos depois, estava tudo resolvido o treinamento continuou. Ficou só o prejuízo material.

Fizemos uma bela pausa para o almoço no topo da montanha, com o horizonte norte do estado de Minas Gerais nos presenteando com visões da Pedra do Baú, do platô de Campos de Jordão, da Pedra do Forno, da Pedra de São Domingos e até do Pico dos Marins e do Pico do Itaguaré no horizonte. Em seguida, descemos por uma estrada de terra até o bairro do Juncal, já no município de Sapucaí Mirim, passando pelo Restaurante do Jair. Nessa descida, Tite, um dos nossos companheiros, se distraiu, entrou com a roda dianteira numa vala e voou por cima da bike de cara no chão. Eu estava mais à frente do grupo e não vi o acidente, subir até o local da queda e ele já estava de pé, cuidando de arranhões e cortes nos joelhos, antebraços e num dos ombros.

Seguimos caminho em direção a São Francisco Xavier e paramos para acampar num pequeno reflorestamento de eucaliptos na divisa entre os municípios de Sapucaí Mirim e SFX, no mesmo local onde acampei com o outro grupo em 2014. Acho que se não tivéssemos sofrido os dois acidentes (câmbio e queda), talvez tivéssemos ido um pouco mais além, embora isso não significasse sucesso. Alguns companheiros dormiram em redes amarradas a árvores, outros dormiram sozinhos em barracas e outros ainda passaram a noite em sacos de bivaque. No jantar fiz a tradicional polenta com atum e queijo ralado, com chocolate de sobremesa. Meu fogareiro de expedição, que uso desde 2013 sem nunca ter tido problemas, não estava bem dos pulmões e demorou mais do que o normal para ferver a água do jantar e depois parou de vez. Isso é assim mesmo, esses fogareiros a pressão não dão aviso que vão entupir, simplesmente entopem e exigem que sejam desmontados, limpos e remontados novamente. Um trabalho de algumas horas, preferencialmente num dia de descanso. Coisas de expedição mesmo. Mas todo mundo comeu uma cuia cheia, mais do que suficiente para alimentar e matar a fome, mas talvez não o suficiente para saciar a mente acostumada à fartura ilimitada do ambiente urbano. Mais uma pequena e importante lição que a dinâmica de expedição oferece aos interessados em aprender, flexibilizar e simplificar.

Fez mais calor do que o previsto à noite e o céu se abriu em estrelas. Choveu um pouco e amanheceu ventando bastante, com as copas altas dos finos eucaliptos dançando como pêndulos contra o céu cinza e azul. Comemos nossas porções de granola com leite em pó, tomamos café solúvel e descemos a Serra de Santa Bárbara até São Francisco Xavier. Foram 13 km em menos de 20 minutos. Na cidade, investiguei a possibilidade de cortarmos caminho por uma trilha de cavalos até Monte Verde. Não seria fácil, teríamos que empurrar as bikes montanha acima por cerca de 4 km, o que nos tomaria talvez 4 horas, mas isso resultaria em economizar 34 km de pedal. Em vez de vencer 60 km até Monte Verde pela estrada de terra principal, chegaríamos à vila em apenas 26 km.

Um grupo de mountain bikers na pracinha central deu a má notícia pra mim sem rodeios: a trilha estava fechada porque o proprietário da terra não queria visitantes na fazenda dele. Achei estranho, não me lembrava de fazenda alguma nessa trilha, apenas casinhas humildes de gente da terra, algumas cabeças de gado e cachorros esquálidos. Na padaria onde estávamos agrupados e discutindo os próximos passos, consegui que o proprietário do negócio fornecesse o número do telefone do tal dono da fazenda Santa Cruz, por onde passa a trilha que eu queria usar. Um funcionário informou que o patrão não estava disponível. Tentei ainda fazer contato através de uma imobiliária, onde o corretor supostamente era amigo do tal fazendeiro. Nenhum sucesso tampouco. Resolvemos ir até a porta da fazenda e tentar o contato pessoalmente, não havia alternativas, nosso caminho era naquela direção mesmo.

Subimos lentamente a montanha que separa São Francisco Xavier e Joanópolis, foram 14 km e quase 500 m de desnível vertical, nada de mais, mas nossas bikes pesadas e o calor abafado e úmido do dia cobrava caro em suor e esforço. No caminho percebi que a opção de pedalar todos os 60 km até Monte Verde, caso a trilha da Santa Cruz permanecesse fechada para nós, não seria viável. Uma vez em Monte Verde teríamos ainda mais 50 km até o REFÚGIO KALAPALO e o fim do treinamento. Pouco provável para esse grupo. 

Reagrupamos no topo da subida, onde havia um grupo de mountain bikers reunidos (romeiros em direção a Aparecida, na rodovia Dutra), e fomos presenteados com um cacho de bananas pelos amigos ciclistas. Comemos, nos reidratamos, descansamos um pouco e tocamos para a fazenda, que era ali ao lado. Fomos recebidos com porteira trancada e um interfone lacônico. O proprietário não estava disponível e a ideia de cruzarmos sua propriedade parecia absurda. Lembrei das duas travessias que fiz pelas Highlands da Escócia, uma em trekking, que gerou o livro HIGHLANDS, POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS, e a outra em mountain bike dupla com Adriana, que faz parte do vídeo HIGHLANDS. Na Escócia existe uma lei que garante a acessibilidade à terra por todos os cidadãos, mesmo os turistas. Um proprietário de terra não pode simplesmente vetar a passagem de alguém sem uma justificativa plausível. Toda terra é aberta ao uso público consciente e responsável. Um tipo de civilidade anos-luz distante da realidade brasileira. Um tema que exponho e debato extensivamente comigo mesmo nesse meu livro. 

A alternativa que nos restava era voltar pelo caminho que viemos, montando um acampamento próximo de SFX. Qualquer outra possibilidade seria insustentável a não ser que abríssemos mão de chegar ao REFÚGIO KALAPALO no domingo, mas tempo é uma commodity rara nos dias de hoje. Descemos sem esforço a mesma serra que havia nos custado tanto suor e, perto da cidade, começamos a procurar um local para acampar perto do rio que corria ao lado da estradinha. Novamente, esbarramos com caseiros e funcionários de proprietários de terra residentes de São Paulo, que não queriam nem ouvir falar em campistas em seus territórios. Continuamos descendo a montanha até um camping estabelecido em frente à Cachoeira Pedro David, um parque aquático municipal gratuito. Ocupamos um espaçoso galpão com dois banheiros, tudo muito simples, de cimento rústico no chão, paredes de tábuas e teto de telhas de barro aparentes, mas com eletricidade e chuveiros aquecidos, por míseros R$ 15 por cabeça. Tínhamos o lugar só para nós e cerveja à vontade para matar a sede do dia quente e úmido. Atravessamos a rua asfaltada e passamos um tempo nos refrescando nas diversas quedas d’água e poços naturais do parque. Perfeito! Numa situação real de expedição, caso eu estivesse, por exemplo, explorando uma região em bikepacking como fiz e descrevo no livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, usaria essa instalação sem pestanejar.

Dois companheiros, os cariocas Zeca e Jahn, decidiram parar o treinamento ali. Eles estavam preocupados com o horário de chegada ao REFÚGIO KALAPALO e a longa viagem de volta ao Rio de Janeiro no domingo. Os demais estavam bastante cansados e optamos então por chamar novamente a Adriana, que resgataria os cariocas e levaria toda a bagagem no carro até em casa, para que nós pudéssemos pedalar sem peso. Pedimos pizza no galpão para o jantar. Luxo puro! Armamos nossas redes e barracas, sem os sobretetos, para uma confortável noite de sono.

Pela manhã, Zeca e Jahn ficaram no galpão com as bagagens enquanto o restante do grupo pedalou 2,5 km até SFX para tomar café da manhã na padaria e começar o pedal de volta. No começo da serra de Santa Bárbara cruzamos com Adriana. Perto do fim da serra, logo depois da Igreja, cruzamos com ela novamente, dessa vez subindo a montanha. Tite, que estava bastante cansado e com dores nas costas, pegou carona. O dia estava nublado e fresco, embora muito úmido, e fazia tempo que eu não suava aquele tanto! Se eu fechasse e apertasse as mãos, o suor escorria das minhas luvas como duas torneirinhas. Minha bermuda de ciclismo parecia uma fralda cheia de urina.

Reagrupamos no topo da serra e descemos até o Bairro do Paiol pra comer nossos lanches de trilha no boteco que tem lá, famoso entre mountain bikers. Assim que chegamos, começou a chover forte. Comemos nosso pão árabe, salame, queijo provolone, frutas secas, castanhas, chocolate, bebemos Gatorade e Coca-Cola e quando já estávamos satisfeitos e descansados, a chuva parou. O Fernando estava sem capa de chuva, que ele esqueceu na bagagem recolhida pela Adriana, então ele saiu antes, ao primeiro sinal de estiagem. Thomas, Javier e eu ficamos ainda um pouco mais no boteco, esperando pra ter certeza que a chuva havia passado.

 

Pedalamos talvez 30 minutos, encapotados com nossas jaquetas e calças impermeáveis, quando percebi que a chuva não parecia voltar e o calor com os impermeáveis estava insuportável. Despimos toda a proteção e seguimos viagem amassando barro. Meu movimento central, o eixo do pedivela da bike, estava rangendo desde o dia anterior. Inexplicavelmente, o ranger parou completamente e imaginei que a chuva e o barro haviam “lubrificado” o sistema. Errado. Era o prenúncio do fim. Cerca de 15 km adiante o pedivela esquerdo se soltou e caiu. Pedalei com uma perna só mais 2 km até a igreja do Juncal e tentamos ligar para a Adriana. Sem sinal. Ensinei o caminho ao Thomas e ao Javier e dispensei os dois. Eu daria um jeito de chegar em casa. Imediatamente depois, uma Toyota Bandeirante cabine dupla e caçamba passou, fiz sinal, o motorista e a namorada pararam, pedi carona e eles disseram que me deixariam a 1,7 km da minha casa. Parecia encomenda.

De carro, pedindo desculpas aos meus bem-feitores pelo indisfarçável cheiro de suor das minhas roupas, passamos pelo Fernando empurrando a bike numa das últimas subidas antes do REFÚGIO KALAPALO. Ele estava encharcado de suor e chuva. No final, dos sete participantes, incluindo eu, apenas três completaram no pedal todo o treinamento: Fernando, Thomas e Javier. Mas espero que todos tenham aproveitado bem a experiência. Eu garanto que me diverti muito e aprendi um monte! 

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