Eu estava em Punta Arenas, na Patagônia chilena, no fim de janeiro de 2025, descansando da expedição de bikepacking LA GRAN TOUR DE TIERRA DEL FUEGO e esperando os companheiros chegarem para a começar a expedição de trekking CABO FROWARD 2025. Eu teria uma semana de recuperação e já no segundo dia parado bateu o tédio. Sinal de que já estava pronto para mais aventura.
Percorrendo as ruas sempre limpas da cidade, impressionado com a cortesia dos motoristas, que paravam para que pedestres atravessassem sem expressar nenhuma pressa, encontrei numa livraria um título que havia tempo eu queria ler: YAGANES DEL CABO DE HORNOS: ENCUENTROS COM LOS EUROPEUS ANTES Y DESPUÉS DE DARWIN, de Anne Chapman. O calhamaço de 792 páginas já havia chamado minha atenção em outras ocasiões no extremo sul, eu conhecia e gostava do trabalho de Anne Chapman, mas o tamanho do volume deixava dúvidas. Será que eu queria mesmo me aprofundar tanto no tema dos indígenas yaganes? Será que o livro não era técnico demais? Acadêmico demais?
Anne MacKaye Chapman (1922 – 2010), foi uma etnóloga estadunidense, nascida em Los Angeles, formada em antropologia na renomada Escuela Nacional de Antropologia e Historia, na Cidade do México. De volta aos EUA na década de 1950, ela fez seu doutorado na prestigiosa Columbia University, na cidade de Nova Iorque. Em 1961, se tornou membro da French Centre National de la Recherche Scientifique, trabalhando sob a tutela do genial Claude Lévi-Strauss até 1969. Sua conexão com a Terra do Fogo começou em 1964, quando recebeu o convite para integrar o time de pesquisa da arqueóloga Annette Laming-Emperaire. Eu já havia lido um de seus livros mais conhecidos: HAIN: SELKNAM INITIATION CEREMONY, sobre os rituais da etnia selk’man, também chamados de onas, que habitaram o interior da Ilha Grande da Terra do Fogo. Esse livro tem lindas fotos de indígenas pintados e adornados como exemplos de seus mitos, sendo muito cobiçado como suvenir por turistas.
YAGANES DEL CABO DE HORNOS: ENCUENTROS COM LOS EUROPEUS ANTES Y DESPUÉS DE DARWIN, prendeu minha atenção da primeira à última página.
Chapman embarcou numa longa e árdua jornada ao escrever esse livro. Ela traça todos os mais importantes encontros conhecidos entre europeus e yagans desde 1578, quando o pirata inglês Francis Drake (1540-1596) narrou em seu diário de bordo o primeiro contato com a etnia. Drake é figura conhecida entre aventureiros, como eu. Primeiro não-ibérico a cruzar o Estreito de Magalhães desde seu “descobrimento” pelos europeus, em 1520 pelo próprio Fernão de Magalhães, ao sair do canal no Oceano Pacífico acabou arrastado para o sul por uma tempestade. Drake acabou “descobrindo” o Cabo Horn.
Acho importante que se escreva “descobrir” entre aspas porque, milênios antes da chegada dos europeus, as etnias originárias da Patagônia e da Terra do Fogo já navegavam livremente por essas águas.
Os yagans, também chamados de yamanas, eram a etnia que habitava do Canal Beagle, onde hoje se encontra a cidade argentina de Ushuaia, até o Cabo Horn. Indígenas canoeiros, eles viviam basicamente da caça de focas, de carne de baleias encalhadas nas praias, da coleta de mexilhões, de fungos e frutos silvestres. Extremamente adaptados às inóspitas condições geográficas e climáticas da região, eles viviam praticamente nus tanto no verão quanto no inverno, protegidos por óleo de foca ou de baleia besuntado no corpo e pequenas fogueiras, sempre acesas, mesmo quando navegavam em suas canoas. Esses caçadores-coletores viveram toda sua existência na Idade da Pedra.
Depois de Drake, o próximo contato importante aconteceu com outro aventureiro inglês de renome: James Cook (1728-1779). Famoso navegador e explorador, Cook liderou a primeira expedição naval de exploração e mapeamento do Hemisfério Sul, com ênfase no Oceano Pacífico. As reservas de carne, couro e gordura de focas e baleias no Hemisfério Norte já estavam se esgotando. Ricos comerciantes britânicos pressionaram o governo e investiram na busca de novas fontes de riqueza. Além de “descobrir” o Havaí, Cook chegou mais ao sul do que qualquer outro navegador antes dele, descobrindo também as ilhas da Georgia do Sul e as ilhas Sandwich do Sul. Mais que tudo, ele “descobriu” um manancial estupendo de vida animal. Seus relatos, publicados em livros, descreveram milhões de focas se aquecendo ao sol em praias desertas de gente e cardumes infinitos de baleias navegando calmamente.
Todos os principais baleiros e caçadores de focas da Europa e dos Estados Unidos rumaram para o sul. Entre eles o futuro famoso escritor estadunidense Herman Melville, autor do clássico MOBY DICK.
Estava decretada a fome do povo yagan.
Na sequência de encontros, que eu chamaria de “desastrosos” para os yagans, entra em cena no livro de Anne Chapman a dupla Robert FitzRoy (1805-1865) e Charles Darwin (1809-1882). O jovem capitão FitzRoy decidiu levar um naturalista em sua segunda viagem de exploração e mapeamento naval da Terra do Fogo. O ainda mais jovem Darwin foi o escolhido. Durante cinco anos, de 1831 a 1836, o indestrutível HMS Beagle, um pequeno veleiro de dois mastros e 27,5 m de cumprimento, completou a circum-navegação do globo e ofereceu o material necessário para que Darwin formulasse a Teoria da Evolução das Espécies.
FitzRoy e sua equipe foram os “descobridores” do Canal Beagle, batizado com esse nome em homenagem ao valoroso barco que os transportava. Quando avistaram o longo canal, os europeus viram centenas de pequenas canoas feitas de cascas de árvores singrando as águas agitadas de um lado para outro.
Darwin, mal-informado por relatos de navegadores que o antecederam, tinha certeza de que os yagans eram canibais com predileção por comer as mulheres velhas de suas tribos. Essa desinformação, tida como verdade inegável por séculos, velou seu juízo da etnia e resultou em comentários depreciativos em seus livros — algo que a comunidade científica até hoje critica e debate.
Quando Darwin e FitzRoy visitaram a Terra do Fogo, os yagans já se encontravam em péssimas condições, privados pelos baleeiros e caçadores de focas do norte de suas principais fontes de alimento. Também não ajudou o fato de eles estarem besuntados em óleo e gordura desses animais, para se proteger do frio e da chuva constante, característicos da região. “Fedidos”, “imundos e “asquerosos” eram alguns dos adjetivos mais usados em referência aos indígenas.
Em sua primeira viagem à Terra do Fogo, FitzRoy havia levado quatro indígenas até a Inglaterra, sendo apenas um yagan. Um deles morreu no caminho. Os três sobreviventes passaram pouco mais de dois anos e meio com os europeus, o que muitos estudiosos do passado e contemporâneos acusam como um caso de sequestro. O yagan era chamdo de Orundellico, mas passou para a história como Jemmy Button porque, segundo o entendimento dos europeus, inclusive do próprio FitzRoy, ele havia sido trocado por um botão — “button”, em inglês.
Jemmy Button é figura central no livro de Anne Chapman. A primeira vítima histórica do encontro e do confronto letal entre duas culturas muito diferentes. Depois de passar mais de um ano na Inglaterra e ter sido apresentado ao então rei e rainha, Jemmy Button não quis retornar para a civilização, preferindo continuar como “selvagem” caçador-coletor, seminu, exposto ao clima inóspito. Já FitzRoy estava empenhado em instalar uma missão cristã na Terra do Fogo e “resgatar da barbárie” aquelas “almas carentes de Deus”.
Depois da fome imposta pela ganância dos comerciantes, estava finalmente decretada a pena de morte para a etnia yagan, em nome de Deus.
YAGANES DEL CABO DE HORNOS segue a narrativa com a chegada, em 1844, do primeiro missionário cristão inglês à Terra do Fogo. Demoraria ainda algumas décadas, até 1869, quando uma missão evangelizadora conseguisse finalmente se instalar de forma definitiva na região, em Ushuaia.
A primeira coisa que os cristãos fizeram foi vestir os indígenas, para “cobrir suas vergonhas”. Num clima chuvoso e frio — mas não tão frio quanto as mesmas latitudes no Hemisfério Norte, onde é impossível viver desnudo —, as roupas imediatamente se transformaram em transtorno. Uma vez molhadas, elas impediam que o indivíduo vestido se secasse e se esquentasse, além de impedir os movimentos livres necessários para caça e coleta de alimento. Junto com as roupas usadas, doadas por bons cristãos europeus, vieram também vírus e bacilos. Começou uma interminável sequência de epidemias de varíola, sarampo, tuberculose e influenza, que mais tarde foram somadas à sífilis, causada pelos inúmeros ataques sexuais às mulheres yagans provocados pelo homem branco.
Além da obrigação das roupas, os cristãos europeus exigiram que os nativos abandonassem a vida nômade e canoeira, para se fixarem à terra e virassem agricultores, plantadores de batatas e nabos, além de criadores de vacas, cabras, ovelhas e cavalos. Logo os nativos deixaram de construir canoas e deixaram de ensinar seus filhos essas técnicas essenciais de sobrevivência. Mas, a cereja do bolo, a tragédia maior, foi a introdução da moral cristã protestante do individualismo e da relação estritamente comercial entre as pessoas.
Os evangelizadores criticavam veementemente a tendência dos indígenas de “distribuírem o que tinham entre parentes e vizinhos”. Era primordial, segundo a lógica cristã protestante, ter vontade de prosperar materialmente através do acúmulo. A carência, segundo essa visão de mundo, é a melhor lição para acabar com a preguiça, a inação, a falta de produtividade. Na missão de Ushuaia, os indígenas trabalhavam para os missionários cortando árvores para produzir madeira, que era exportada para as Ilhas Malvinas (já chamadas de Falklands, invadidas por força armada inglesa), onde era comercializada por enorme lucro. Os nativos também construíram casas, escolas, igreja e as hortas que alimentavam os brancos. Todo esse trabalho era pago com as roupas usadas doadas na Europa.
Os yagans então já não tinham saída.
Quando os altíssimos índices de mortandade causados pelas constantes epidemias deixaram claro, até mesmo para os evangelizadores, que os nativos estavam condenados à extinção, os brancos cristãos se aposentaram do trabalho de missionários e fundaram as primeiras estancias de ovelhas do Canal Beagle — Haberton e Remolino — que tive a oportunidade de visitar. Os indígenas sobreviventes foram então contratados, como mão-de-obra barata, como tosadores de ovelhas, criadores de cavalos e lenhadores. Trabalhando por salários mínimos a terra que até recentemente era deles. Um livro essencial a ser lido sobre a fundação de Ushuaia e da estancia Haberton é o clássico EL ÚLTIMO CONFÍN DE LA TIERRA, do inglês-argentino E. Lucas Bridges, segunda criança branca a nascer em Ushuaia.
YAGANES DEL CABO DE HORNOS não tem final feliz. É livro de história, não romance. Anne Chapman frequentou a região por décadas e investiu bastante tempo na Ilha Navarino, em Puerto Williams, um dos meus lugares favoritos nesse extremo sul. Lá ela conheceu a última descendente de yagan que ainda falava a língua de seu povo como idioma materno — Cristina Calderón (1928-2022) — que também tive a honra de conhecer e de, inclusive, comprar uma miniatura de canoa construída por ela e sua família, em 2008, quando visitei Navarino pela primeira vez, para produzir o livro GUIA DE TRILHAS TREKKING (VOL. 2).
O mais importante é entender que a trágica história do povo yagan não é exceção. É a infeliz regra de todo contato de povos originários com a “civilização” europeia. Não foi diferente em todos os cantos do Brasil ou de qualquer outro lugar. A grande diferença é que os yagans foram “descobertos” faz muito pouco tempo e a memória desse encontro nefasto ainda está fresca, com indícios ainda vivos.
YAGANES DEL CABO DE HORNOS: ENCUENTROS COM LOS EUROPEUS ANTES Y DESPUÉS DE DARWIN
Anne Chapman
2012
Pehuén Editores
792 páginas
ISBN 9789561607309
www.pehuen.cl




Buenas, Cavallari,
Livro que vou atrás de qualquer jeito.
Tentei e tentei, mas, não sei como comprar este livro. Mesmo na Editora chilena, está esgotado.
Se tiver alguma ideia, agradeço.
Abs.