INTRODUÇÃO
Descobri que sou um tipo de “especialista na Patagônia”. Ou pelo menos é assim que aparentemente sou visto. Essa foi a explicação dada para o convite — que obviamente aceitei —, de filmar um episódio na série documental DE VOLTA AO PARAÍSO, produzida e veiculada sob o comando do CANAL OFF. Passei quase três semanas na região de Ushuaia, na Terra do Fogo argentina, acompanhado de um diretor/produtor e um cameraman. Retornei à Baia Yendegaia, na Terra do Fogo chilena, lugar que considero um tipo de “paraíso pessoal”. Velejei por três dias pelo Canal Beagle e voei de helicóptero, tudo pela primeira vez na vida. Revi velhos amigos e saudosas paisagens. Fiz novos contatos para aventuras futuras. Tive a oportunidade de explicar no filme — ou tentar explicar — porque frequento a região há mais de vinte anos e nunca me canso de lá. Nesse longo período, obviamente conheci muitos lugares que poucas pessoas conhecem, mas é incrível que a lista de pontos que ainda desejo conhecer só parece aumentar…
Tudo começou, se não me engano, com uma viagem a Torres del Paine, em 2004. Percorri os 125 km do Circuito Paine, também chamado de “Circuito O”, guiando cinco outros brasileiros. “Guiando” não é o termo que mais gosto porque não me considero um guia. Sou uma espécie de “agente inspirador e facilitador em atividades de aventura”. Inspiro e ensino técnicas, conceitos e o uso apropriado de equipamento para que outras pessoas possam desfrutar da natureza com segurança e autossuficiência. Desde 2004, voltei praticamente todos os anos à Patagônia para expedições de duas semanas a seis meses de duração.
Sou autor de vinte livros — entre eles o clássico TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS (Kalapalo Editora, 2015) — e coautor de vários documentários — destaque para o premiado TRANSPATAGÔNIA (Fábula Filmes/Kalapalo Editora, 2015, dirigido por Cauê Steinberg). Fundei e dirijo a KALAPALO EDITORA desde 2001. Fundei e dirijo o REFÚGIO KALAPALO, a primeira e (até onde sei) a única escola de aventura do Brasil, sediada em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira, onde também resido. Meus exclusivos CURSO DE BIKEPACKING e CURSO DE TREKKING são portas de entrada aos interessados em realizar expedições como essa que narro aqui.
Recomendo a leitura, na sequência, das três expedições que organizei e liderei entre 4 de janeiro e 26 de fevereiro de 2025 na Patagônia/Terra do Fogo: (1) esta narrativa da LA GRAN TOUR DE TIERRA DEL FUEGO 2025 (dividida em três partes) e as narrativas das expedições de trekking (2) CABO FROWARD 2025 e (3) DENTES DE NAVARINO 2025. Incluí links para material complementar em todas os textos.
PREPARAÇÃO / APRESENTAÇÃO DO GRUPO
Quem já fez algum dos meus cursos e treinamentos, ou participou de alguma expedição didática, como esta, conhece bem o conceito do “tripé da aventura”, que criei e dissemino. Nela, explico que o investimento em 1) condicionamento físico e preparo psicológico; 2) conhecimentos teóricos e habilidades; 3) tecnologia e equipamento; garantem a segurança e a autossuficiência que possibilitarão realizar todo tipo de aventura. Em mais de duas décadas de uso e teste, essa teoria até agora não falhou para mim.
Alguns dos participantes desta expedição, que chamei de LA GRAN TOUR DE TIERRA DEL FUEGO 2025, passaram praticamente todo o ano de 2024 se preparando para a travessia. Alguns não tinham sequer a bicicleta apropriada. Outros já haviam sido recusados para expedições anteriores por falta de condicionamento físico. Assistir e poder auxiliar nessa longa preparação chega a ser mais importante para mim do que a expedição em si.
Maria Beatriz Lacerda, a Mabê, 34, médica oftalmologista, residente em São Paulo (SP), participou de um treinamento de bikepacking que fiz no carnaval de 2024. Foram quatro dias de pedal relativamente leve pela manhã com hospedagem e alimentação no REFÚGIO KALAPALO. Fizemos apenas um acampamento selvagem, pertinho de casa. Identifiquei nela muito potencial e muita vontade, mas não aprovei sua bicicleta nem seu preparo físico. Jovem e forte, faltava a ela “tempo de selim” — as muitas horas que calejam a bunda de todo ciclista. Ela também não tinha nada de equipamento — barraca, saco de dormir, isolante térmico, mochila, bolsas para transporte de bagagem na bicicleta, roupas impermeáveis, roupas térmicas, etc. —, o que poderia fazer da expedição na Terra do Fogo uma experiência proibitivamente cara. Realmente não ficou barato. Ela fez ainda uma NOITERA BIKEPACKING comigo em setembro de 2024, para uma segunda e decisiva avaliação. Mabê persistiu, insistiu, não desistiu e chegou lá. Mérito exclusivo dela.
Marcos Costa Claro Molina, 33, engenheiro civil, residente em São José dos Campos (SP), queria participar de outra expedição que realizei na Patagônia, alguns anos atrás. Segundo ele, eu disse: “seu condicionamento físico não é apropriado” — o que poderia ter sido um banho de água fria. Não foi. Marcos passou a treinar com afinco, procurou ajuda de nutricionista e preparador físico, comprou uma mountain bike competente e foi se aventurar na Serra da Mantiqueira. Não exatamente o que eu recomendaria para iniciantes, mas parece que Marcos é imune a traumas. Segundo ele: “a primeira vez que fui de São José a São Francisco Xavier quase morri”. Não fiquei surpreso. Marcos fez meu CURSO DE BIKEPACKING em novembro de 2024 para que eu pudesse fazer uma avaliação final e fiquei bastante confiante no que vi. O cara que tinha sido inicialmente reprovado estava pronto para enfrentar grandes desafios. Mérito exclusivo dele.
Daniel Fegyveres de Carvalho, 53, corretor de imóveis, residente em São Paulo (SP), participou da mesma NOITERA BIKEPACKING que a Mabê, em setembro de 2024. Alto, magro e bastante calejado na bunda, aprovei sua participação da expedição sem grandes ressalvas. Daniel pelada regularmente desde moleque, ama bicicletas, coleciona bicicletas, lembra de marcas de pneus, modelos de bikes, freios e sistemas de marchas da década de 90 — que eu também usei, mas que a memória apagou junto com velhas piadas. Daniel parece não esquecer de nada. Velhos ciclistas são diferentes de ciclistas velhos. Sei disso por que sou os dois. Com o tempo, acumulamos conhecimento, mas também juntamos hábitos e vícios. Daniel foi o único a levar uma bike gravel na expedição, apesar das minhas ressalvas. Bike nova, xodó novo. Acho que não houve arrependimentos, principalmente porque qualquer coisa com pedal e rodas se encaixa bem com o ele. Daniel traria piadas (velhas e novas), bom humor e disposição quase infindável em pedalar. Mérito exclusivo dele.
Alexandre Ferreira Daniotti, 50, médico oftalmologista, residente de Capinzal (SC), foi o único aprovado sem que eu o tivesse conhecido previamente e avaliado pessoalmente. Não foi preciso. Todos os candidatos a participar de meus cursos, treinamentos e, principalmente, expedições, devem preencher uma detalhada ficha de inscrição. Nela, pergunto tudo. Rejeito regularmente inscrições de candidatos, com fiz com o Marcos, por falta de condicionamento físico e falta de equipamento, em particular boas bicicletas (único item que não forneço nos cursos e treinamentos). O currículo do Alexandre era invejável! A lista de provas de mountain bike, maratonas e desafios que ele já havia feito davam inveja. Previ, acertadamente, que fisicamente ele seria a locomotiva do grupo. Alguém em quem eu poderia contar caso a exigência física se tornasse um problema. Por outro lado, ele nunca havia acampado selvagem na vida, nem mesmo num curso ou treinamento comigo. Depois de uma longa entrevista por videochamada, fiquei bastante confiante na capacidade do Alexandre. Mérito exclusivo dele.
A título de apresentação do grupo, devo dizer que ao embarcar para Punta Arenas, no Chile, no dia 3 de janeiro de 2025, antes de todos os demais membros da expedição, minha avaliação de mim mesmo não era das melhores. Eu me considerava “o elo frágil” do time. Nada a ver com experiência, obviamente. Três semanas antes da viagem eu havia tido uma das crises de coluna (lombar) mais graves que já tive na vida. Fiquei pelo menos três dias na cama, incapaz de me mover sem sentir agulhadas de dor. Sou contra o uso precipitado ou contínuo de medicamentos, então não usei nada, nem analgésicos e muito menos anti-inflamatórios, até não aguentar mais. Uma visita a um quiropata ajudou bastante, mas não resolveu o problema. Adriana, minha companheira de vida e aventura, lembrou: “não é a primeira vez que você tem crise de coluna antes de uma expedição… parece ser uma reação psicossomática”. Pode ser, pensei, mas dói pra caralho! Lembrei de outras crises às vésperas de outras expedições. Realmente parecia haver um fator psicológico. Aos 62 anos de idade, o mais velho do grupo, essa seria a primeira vez que eu lideraria três expedições consecutivas na Patagônia/Terra do Fogo: uma de bikepacking e duas de trekking (CABO FROWARD 2025 e DENTES DE NAVARINO 2025). Eu ficaria um total de 53 dias no extremo sul, pedalaria 960 km e caminharia, carregando mais de 20 kg na mochila, uns 140 km. Tudo o que me passava pela cabeça era: “será que dou conta?”.
O ROTEIRO / A PROPOSTA
Punta Arenas já foi um importante porto na ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Às margens do Estreito de Magalhães, era ponto de reabastecimento obrigatório para navios que conectavam a costa leste à costa oeste dos Estados Unidos. A prosperidade que essa posição estratégica ofereceu deixou marcas visíveis na arquitetura da cidade, com uma proliferação de mansões e casas luxuosas. Riqueza que foi abruptamente ceifada com a construção do Canal do Panamá, em 1904. De lá para cá, Punta Arenas desapareceu do Mapa Múndi para ganhar relativa importância no mapa do Chile.
A proposta da expedição LA GRAN TOUR DE TIERRA DO FOGO 2025 era, como o pomposo título já diz, conectar a maior parte dos pontos de interesse na Ilha Grande da Terra do Fogo, tanto no Chile quanto na Argentina.
Começaríamos por cruzar o Estreito de Magalhães de Punta Arenas a Puerto Porvenir, usando uma grande e moderna balsa regular de transporte de veículos motorizados e passageiros. Eu já havia percorrido de bicicleta, em outro treinamento, a parte argentina desse roteiro na EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO 2019. Agora, em 2025, eu propunha refazer boa parte do realizado em 2019 com dois adendos importantes, duas localidades novas para mim. Eu nunca tinha estado antes em Caleta María, no Chile. Eu nunca tinha chegado de bicicleta ao Cabo San Pablo, na Argentina.
De Puerto Porvenir, nós circundaríamos a Baía Inútil até a vila de Camerón. Lugares onde eu havia estado em 2012, durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, de seis meses de duração e 6.000 km de extensão, que gerou o livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e o documentário TRANSPATAGÔNIA. Em seguida, cruzaríamos a região pouco habitada de Russfín e Río Grande até o Lago Blanco. Para o sul, seria tudo território desconhecido para mim, até Caleta María, onde faríamos um dia de descanso. Voltaríamos pelo mesmo caminho, até próximo do Lago Blanco, para cruzar para a Argentina pelo pouco usado Paso Bellavista. De lá, iríamos até a cidade argentina de Río Grande para nos reabastecer de comida. Nossa parada seguinte seria o Cabo San Pablo, numa incursão de ida e volta por uma longa estrada de terra e mais um dia de descanso. O asfalto da Ruta Nacional 3 nos levaria até Tolhuin, às margens do Lago Fagnano, passando depois pelo Paso Garibaldi, até as margens do Canal Beagle, na região da vila pesqueira de Puerto Almanza. Dois dias mais acompanhando esse famoso braço de mar e chegaríamos ao nosso destino — Ushuaia.
Se tudo desse certo, pedalaríamos, de forma totalmente autossuficiente, sem qualquer apoio externo — como um bom roteiro de bikepacking deve ser —, quinze dias, com dois dias de descanso, perfazendo um total de 960 km.
Se algo desse errado, não haveria fracasso. Haveríamos tentado realizar algo usando o melhor de nossas habilidades e contornando nossas inegáveis deficiências. Viajaríamos como um organismo composto por cinco pessoas em cinco bicicletas, todos igualmente responsáveis por tudo na jornada. Ninguém ficaria para trás. Ou chegaríamos todos ou não chegaria nenhum.
PREPARAÇÃO EM PUNTA ARENAS
Aventureiros experientes sabem que não existem fórmulas no processo da exploração do ambiente natural. Existem alguns parâmetros e diretrizes a serem observadas, como mínimo impacto ambiental e respeito às comunidades autóctones. Segurança é uma questão complexa, se exageramos no seu encalço, a experiência fica burocrática, previsível e o fator aventura deixa de existir. Sem risco de morte não existe aventura. Recomendo também nunca esquecer humildade na bagagem. Cada aventureiro acumula suas próprias receitas de “sucesso” — seja lá o que isso for. “Fracasso”, para mim, é não arriscar.
Sou adepto, por exemplo, da proposta de “Light and Fast” (Leve e Rápido), introduzida
no montanhismo pela dupla britânica Eric Shipton (1907-1977) e Bill Tilman (1898-1977), pioneiros da exploração do Monte Everest na década de 1930. Como eles, prefiro uma dieta simples, quase única, que alimente e garanta saúde e disposição, ao invés de cardápios diversos, complexos, caros e com produtos inexistentes no local a ser explorado. Busco evitar opções de alimentação que restrinjam minha experiência, seja onde for. Em casa, é o inverso, minha alimentação busca qualidade e prazer.
Assim que o grupo se reuniu em Punta Arenas, percorremos juntos as lojas de alimentos e os supermercados — que eu já havia inspecionado nos dois dias que passei sozinho na cidade, antes dos companheiros chegarem — para comprar todo o necessitaríamos para os primeiro 670 km e onze dias da expedição.
Só o cuidado, quase dogmático, com o minimalismo e a eficiência conseguem permitir levar tanta comida a bordo das bicicletas sem comprometer o deslocamento. Nessas horas acendo mais uma vela para Shipton e Tilman.
Nosso cardápio ficou assim: os cafés-da-manhã seriam compostos por granola, leite em pó, chá preto e café solúvel. Cada membro da expedição teria direito a cerca de 100 g de granola para fazer um nutritivo mingau com leite em pó e água quente. Durante o dia, cada um teria um pacote, intitulado “lanche de trilha”, com três sanduíches de queijo para os três primeiros dias, cinco barrinhas de proteína de sabores diferentes, cerca de 400 g de castanhas (amendoim, nozes, amêndoas, etc.) e mais 200 g de frutas secas. Nosso jantar seria quente, com purê de batatas instantâneo ou cuscuz marroquino (sêmola de trigo) como base de carboidrato, jurel (cavala), atum ou salmão em lata como proteína animal e queijo ralado fechando o prato principal. O chocolate em barras de sobremesa e bastante chá de ervas completariam o banquete. Mesmo com tamanha economia, o volume final a ser carregado nas bicicletas era assustador! Toda a alimentação foi devidamente embalada par evitar vazamentos em trânsito.
Eu transportaria comigo a cozinha coletiva. Cada um de nós tinha seu acampamento completo individual e todo o vestuário necessário — que se resumiam a 1) uma muda de roupa para pedalar com peças sobressalentes, com duas camisetas, dois pares de meias e duas roupas de baixo; 2) um conjunto de calça e jaqueta impermeáveis; 3) um conjunto de roupas térmicas contendo um jogo de segunda pele, uma jaqueta de enchimento, um par de luvas e um gorro. Cada um levaria ainda um kit de mecânica de emergência, com uma corrente e pastilhas de freio sobressalentes por pessoa. Ferramentas seriam compartilhadas.
Passamos dois dias em Punta Arenas para também procurar algum item de equipamento que precisasse ser trocado. Ficamos todos hospedados no mesmo hostel, com uma garagem coberta e fechada, reservada para que pudéssemos ter espaço protegido do sol, da chuva e do vento para montar nossas bicicletas, desmontadas e embaladas para o transporte no avião. Acompanhei todo esse processo de desmontar e remontar as bikes explicando a todos a necessidade de cada etapa. Acho que meu maior medo nessas expedições ciclísticas é que a bike não apareça no aeroporto no começo da aventura. O segundo maior medo talvez seja ver a bike danificada na hora de começar a travessia. Com todas as bicicletas montadas e prontas, suspirei aliviado.
O ESTREITO DE MAGALHÃES / O COMEÇO
LA GRAN TOUR DE TIERRA DEL FUEGO começa na balsa que conecta regularmente Punta Arenas e Puerto Porvenir. O temido clima de ventos fortes e ondas grandes, comum na região, pode atrasar ou até cancelar a travessia. Algo que acontece com frequência. Todas as informações sobre a balsa estão disponíveis no site da TRANSBORDADORA AUSTRAL BROOM. Bicicletas viajam sem custo adicional.
A navegação demora cerca de duas horas e, com sorte, é acompanhada pelos saltos acrobáticos dos famosos golfinhos de Magalhães, também denominados como golfinhos-de-Commerson (Cephalorhynchus commersonii), de cabeça, aleta dorsal e cauda pretas num corpo branco. Um dos menores golfinhos do mundo, troncudos e ágeis, sua coloração lembra o padrão das baleias orcas.
Desembarcamos com céu nublado e sentindo o friozinho que nos acompanharia por praticamente toda a jornada, de apenas 10˚C — normal para o verão austral. Alguns poucos graus a mais e poderia ser chamado de “um dia quente de verão”. Nosso primeiro desafio seria contornar a extensa Baía Inútil (Useless Bay, em inglês), assim denominada, em 1827, pelo capitão Phillip Parker King (1791-1856), que comandou as primeiras expedições britânicas de exploração e mapeamento do emaranhado de canais aquáticos que compõe a Terra do Fogo. Parker King foi o chefe imediato do famoso capitão Robert FitzRoy (1805-1865), que levou o naturalista Charles Darwin (1809-1882) a bordo do veleiro HMS Beagle na famosa volta ao mundo que suscitou a revolucionária Teoria da Evolução das Espécies. Segundo Parker King, a baía não oferecia “nem ancoragem, nem abrigo, ou qualquer outra vantagem ao navegante”.
Fiquei impressionado com o tamanho de Puerto Porvenir. Minha memória, de 2012, era de uma vilazinha de algumas centenas de casas. A cidade parecia abrigar agora milhares de habitantes. Fiquei um pouco perdido e terminei liderando o grupo por um caminho secundário, mais tortuoso e longo beirando o mar. Subimos e descemos um morro que poderia ter sido evitado. Usei o “erro” pra pontuar a todos que a navegação deveria ser responsabilidade coletiva. Todos deveriam se manter atentos ao roteiro, ao cronograma, ao ritmo e ao bem-estar de cada membro da equipe.
Pedalamos apenas 55 km nesse primeiro dia, com 522 metros acumulados de subidas e 470 m acumulados de descidas. Perto do fim do dia, minha única preocupação era encontrar um local adequado para nosso primeiro acampamento selvagem. Preferencialmente com acesso fácil a água potável. Pedindo e confirmando informações com os poucos veículos que passavam pela estrada, entendemos que haveria água potável na Estancia Draga, quilômetros adiante. Essas poucas propriedades particulares ainda são extensas, mas são hoje uma fração dos gigantescos latifúndios dos todopoderosos criadores de ovelhas que compunham a elite agrária da Terra do Fogo.
Fomos recebidos pelo caseiro, Onofre Vargas, originário do centro do Chile e empregado na fazenda há apenas um ano. Sexagenário, miúdo, de rosto enrugado e olhos muito azuis, ele permitiu que acampássemos na propriedade dizendo: “meu patrão me orientou a receber bem os viajantes, em especial os ciclistas”. Depois completou: “aqui é muito bonito no verão”. Imaginei o que ele havia passado sozinho no inverno…
Montamos as barracas ao lado de um barracão de tábuas, uma espécie de quiosque para churrasco, ao lado da casa principal, com mesa e bancos de piquenique que usamos para o jantar. Pelas janelas, pude observar o interior da sede, com sólidos móveis antigos e decoração de influência europeia conservadora. A pequena biblioteca me deixou curioso em ver que títulos continha. Uma bandeirinha da Croácia indicava que os proprietários eram descendes de croatas, que imigraram para a região na última década do século XIX. Não faltam placas de comércios com nomes croatas em Punta Arenas. Onofre permitiu que usássemos seu banheiro, na humilde casa de caseiro, e vários dos meus companheiros tomaram banho de chuveiro. Torci no nariz, esperando que não demorasse muito para eles entrassem no “modo expedição” e desapegassem dessas comodidades urbanas. Não tomei banho e cavei minha própria latrina na manhã seguinte para atender ao chamado da natureza. Cada um tem seu tempo.
PINGUINS E MUTUCAS
Quase todo turista de Punta Arenas que cruza o Estreito de Magalhães para Puerto Porvenir vai visitar a pinguinera (colônia de pinguins) de pinguins-rei (Aptenodytes patagonicus) da Baía Inútil. Vans lotadas cruzaram nosso caminho.
Visitei essa colônia em 2012 e me arrependi. As aves adultas, de cerca de 90 cm de altura e pesando entre 12 a 15 kg, habitantes da Antártica, desovam e criam seus filhotes todos os anos no mesmo lugar, longe do frio. A espécie é a segunda maior existente, menor apenas que o pinguim-imperador (Aptenodytes forsteri), que chega a 1,20 m de altura e pesa mais de 35 kg, mas que nunca deixa a região antártica. O problema, do ponto de vista do turista, é que a visita à colônia não permite que ninguém se aproxime das aves. O avistamento é feito de muito longe. Os pinguins obviamente agradecem. Para eles, a baía não é nada inútil.
Esse segundo dia, de 76 km, com 345 m de subidas acumuladas e 336 de descidas, foi mais quente e mais cansativo que o primeiro. Passamos o importante cruzamento Onaissin, onde abandonamos a estrada principal, que segue até o Paso San Sebastián, por onde passam os caminhões que cruzam entre Chile e Argentina. O caminho estava sendo asfaltado e pudemos pedalar pelo pavimento de concreto ainda não terminado e não liberado para veículos motorizados. Enormes máquinas, verdadeiras plataformas de concretagem, estavam paradas na obra e usamos uma delas como apoio e sombra pra sentar durante o almoço. Com o vento forte soprando nas nossas costas parecia que nossas bikes eram elétricas.
A pinguinera já estava fechada para o dia quando chegamos nela, perto das 17h. Como o sol só se punha lá pelas 22h, o dia parecia interminável. Conseguimos acampar em dois abrigos públicos na beira da estrada, 2 km depois da colônia de pinguins, bem em frente à entrada da Estancia Tres Hermanos. Essas casinhas bem construídas, com banheiro de latrina entupida e sem chuveiro, servem para proteger o viajante dos elementos — sol e vento no verão, neve e frio no inverno. Sem móveis, a não ser o eventual banco construído na parede e uma mesa de piquenique, quase sempre sem luz elétrica, eles são apenas uma caixa de isolamento num ambiente nem sempre acolhedor. Uma bênção em dias de chuva ou vento forte. O chão do abrigo estava lotado de mutucas mortas ou agonizantes — os temíveis tábanos patagônicos. Essas mutucas são infernais e picam por cima de roupa grossa. Em várias viagens anteriores sofri com seu assédio e descobri que era preciso pedalar acima de 20 km/h para ficar livre deles. Algo raramente possível.
Senti um cansaço extremo. Fiquei preocupado. A coluna reclamou também, aumentando ainda mais minha preocupação. As dúvidas em relação ao meu estado físico e idade voltaram forte. O conselho médico — Mabê e Alexandre — embora composto de especialistas em oftalmologia, recomendou veementemente que eu tomasse um anti-inflamatório não-esteroide (acho que foi essa a terminologia técnica). Acatei as ordens médicas e confesso que o alívio foi enorme. No dia seguinte, voltei ao selim mais confiante.
Até ali, nós já havíamos percorrido mais ou menos dois terços da Baía Inútil, que abandonaríamos na metade do terceiro dia de pedal, exatamente na vila de Camerón. Depois de Onaissin, o pequeno fluxo de veículos no caminho quase desapareceu e entramos numa região bem menos movimentada, mais condizente com a proposta da expedição de contato próximo com a natureza, de isolamento e de autossuficiência. Observando como meus companheiros se movimentavam, como pedalavam, no ritmo e estilo de cada um, fui ganhando mais confiança no grupo.
Alexandre era realmente o mais forte, o melhor fisicamente preparado. Daniel não era rápido, mas parecia incansável. Marcos tinha picos de explosão, altos e baixos de velocidade que eventualmente se estabilizava, quando ele mantinha um ritmo seguro e constante. Mabê, a primeira mulher a participar de uma expedição internacional de bikepacking organizada por mim, não demorou a ganhar minha total confiança. Nos treinamentos na Mantiqueira ela se mostrou forte, mas me deixou um pouco preocupado. Ela empurrava a bicicleta em praticamente todas as subidas, mesmo aquelas não muito íngremes, nem muito longas. Esse estilo de pedalar se manteve na Terra do Fogo, mas não se mostrou um problema. Mabê empurrava a bike na mesma velocidade em que ela pedalaria lentamente morro acima. Ou seja, ela simplesmente não parava.
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Sempre muito bom ler um texto bem escrito que possibilita tanta emoção e inspiração.