LIVRO: MONTE SHIPTON 1962

6 de março de 2025

Durante a temporada de verão de 2025, quando organizei e liderei três expedições de aventura na Patagônia/Terra do Fogo — LA GRAN TOUR DE TIERRA DEL FUEGO, de bikepacking, CABO FROWARD 2025 e DENTES DE NAVARINO 2025, ambas em trekking — usei a cidade de Punta Arenas com base de operações.

Cheguei em Punta Arenas no dia 4 de janeiro e deixei a cidade, partindo de volta ao Brasil, no dia 26 de fevereiro. Foram quase dois meses residindo provisoriamente num hostel nos intervalos entre cada expedição, conhecendo melhor a cidade, experimentando restaurantes, visitando museus, fazendo novas amizades e, obviamente, pesquisando as lojas de aventura locais.

Pra não dizer que não dou dicas básicas de viagem, recomendo os restaurantes populares EL CARIOCA e PALI-AIKE, ambos na rua Chiloé, quase vizinhos. Recomendo também os restaurantes turísticos LA MESITA GRANDE e LA LUNA, vizinhos na rua Libertador Bernardo O’Higgins. Recomendo o MUSEU MARÍTMO & NAVAL, o MUSEU SALESIANO MAGIORINNO BORGATELLO e o MUSEU NAO VICTORIA.

Frequentei, assiduamente com meus alunos dos CURSO DE TREKKING e do CURSO DE BIKEPACKING, que organizo no REFÚGIO KALAPALO, onde vivo e trabalho, a boa loja de aventura GRADO ZERO, localizada na rua Presidente Federico Errázuriz. Era uma piada corrente entre nós dizer, por exemplo: “Vamos comer antes ou depois de passar na Grado Zero?”. Não seria exagero dizer que “batermos cartão” todos os dias na loja.

Sou tagarela, especialmente com estranhos, e gosto de explicar o que faço da vida, falar sobre meu trabalho como autor e editor de livros de aventura, coautor e produtor de documentários, fundador e diretor de uma escola de aventura. Além de ter orgulho do meu trabalho, acho essencial plantar sementes e expandir o alcance das minhas ações e produções. Eu vivo exclusivamente de aventura e cada novo leitor, aluno e interessado faz a diferença.

Comentei sobre meu trabalho com os jovens vendedores numa das visitas à loja. Num retorno ao local, fui recebido pelo proprietário da loja, que já havia pesquisado mais a meu respeito e ficou curioso em me conhecer. “Vi que você é autor de vários livros e gostaríamos de ter seu material disponível aqui”, disse ele. O comentário soou como música para meus ouvidos. 

 

Eu tinha um único exemplar do livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, que vendi no ato à loja pelo mesmo preço que venderia no Brasil. Conversamos sobre formas de enviar mais exemplares, usando talvez turistas brasileiros em viagem a Punta Arenas como “mulas”. Uma ideia de “contrabando” artesanal que não me constrangeria em nada fazer. Fica aqui o pedido a quem puder e quiser ajudar.

“Nós ajudamos na produção de um livro também,” explicou o comerciante, “baseado numa expedição realizada aqui perto, na Cordilheira Darwin, por um montanhista britânico chamado Eric Shipton, em 1962…”

Pulei ao ouvir o nome. “Conheço bem o trabalho e a vida de Eric Shipton,” interrompi a frase, excitado demais para apenas ouvir. “Sou fã dele e inclusive menciono ele nesse livro que você acaba de comprar”.

“Nós temos ainda alguns exemplares dessa obra, que não é comercial, não foi vendida. Vou te dar um de presente”.

Foi assim que ganhei, com dedicatória geral dos vendedores e do proprietário da Grado Zero, um exemplar de MONTE SHIPTON 1962 – UN RELATO DE CEDOMIR MARANGUNIC.

Eu tenho um livro com toda a obra literária de Eric Shipton, um volume enorme e lindamente editado, chamado THE SIX MOUNTAIN-TRAVEL BOOKS, resenhado no meu blog. Li todos os livros, inclusive LAND OF TEMPEST, onde ele narra a primeira escalada do Monte Darwin (2.469 m), em 1962 — a montanha mais alta da Terra do Fogo, hoje rebatizada de Monte Shipton. Entre seus três companheiros de escalada estava Cedomir Marangunic, único do grupo vivo até a data em que esse meu relato foi publicado e autor das fotografias da expedição pioneira.

O pequeno livro, todo colorido e impresso em excelente papel, traz as fotografias originais de Cedomir Marangunic e seu relato, em primeira pessoa, da inesquecível experiência de escalar ao lado do ícone Shipton. Gostei particularmente da parte em que ele diz (a tradução do espanhol é minha): “Eric Shipton era um montanhista muito famoso. Ele abriu a rota até o Everest, mas na última hora foi marginalizado da expedição que alcançou o cume, em 1953. Obviamente, Eric teria gostado de dirigir essa expedição, mas a liderança foi dada a outra pessoa. Todo mundo dizia que a expedição deveria ter sido dirigida por Eric, mas seu estilo era de viagens com poucas pessoas, rápidas, leves, sem muitas coisas”.

Eu conhecia bem essa história e era da mesma opinião que Marangunic. A política escanteou Shipton porque seu estilo era “puro” demais. Para ela havia muitos outros interesses no montanhismo além do cume.

Marangunic havia participado também, no verão de 1960-61, da primeira travessia longitudinal do Campo de Gelo Patagônico Sul — a maior massa gelada do globo terrestre fora da Antártica e da Groênlândia —, também sob a liderança de Eric Shipton.

A produção do livro também organizou uma expedição, a bordo de um veleiro, quando uma equipe de montanhistas e um fotógrafo, todos chilenos, tentarem repetir a escalada de Shipton e companhia. Segundo o livro, o clima inóspito impediu a escalada. Foram publicadas algumas fotos contemporâneas do local de acesso à Cordilheira Darwin lado a lado com as fotos antigas de Marangunic.

O Monte Shipton segue com apenas uma escalada bem-sucedida na sua história: aquela liderada, em 1962, por Eric Shipton.

Esse belo livro encaixou certinho na minha respeitável Biblioteca Patagônica.

Aos interessados nos temas Terra do Fogo e Shipton, recomendo também a leitura da resenha que fiz da obra THE SPRINGS OF ENCHANTMENT, do britânico e companheiro de escalada de Shipton, John Earle (com quem tive o prazer de trocar mensagens escritas anos atrás… Mas essa é outra história).

MONTE SHIPTON 1962 – UN RELATO DE CEDOMIR MARANGUNIC
2023
Alfredo Pourailly De La Plaza (editor)
17 x 21 x 0,8 cm
209 g
Brochura
Encadernação em papel cartão com miolo em papel couchê
Colorido

Uma resposta para “LIVRO: MONTE SHIPTON 1962”

  1. Ricardo Silva disse:

    Fico imaginando naquela época, uma primeira escalada do Monte Darwin (2.469 m), em 1962 sem os aparatos tecnológicos de hoje, mas a paisagem e a natureza por lá não devem ter mudado muito.

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