MINHA BIBLIOTECA SOBRE A MONGÓLIA

6 de fevereiro de 2020

Depois de cruzar a Mongólia sozinho e de bicicleta, depois de pedalar 3.633 km em 78 dias, acampar selvagem por 58 noites e viajar de forma autossuficiente por toda a maior extensão do país, escrevi o livro  TRANSMONGÓLIA: GENGIS KHAN NA GARRAFA DE VODCA, narrando em detalhes toda a aventura. O livro conta também a história da Mongólia desde os tempos de Gengis Khan até minha visita.  Grande parte da pesquisa necessária necessária para para que eu pudesse escrever a obra aconteceu lendo livros que, em geral, adquiro pela Amazon americana. Livros usados, de capa dura, em excelente estado. Fetiches de quem sempre amou livros. Como venho fazendo desde 2012, quando deixei de escrever, produzir e publicar guias e manuais de esportes de aventura pra me dedicar à literatura de aventura, o livro sobre a Mongólia é um misto equilibrado entre a descrição da aventura, meus sentimentos e pensamentos durante a travessia, muita pesquisa histórica e cultural e alguma crítica filosófica e social. Foi assim que escrevi o livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, lançado em 2015 e correndo para a segunda edição, depois de quase 3.000 exemplares já vendidos; e a última produção, o livro HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS, lançado em 2017 e recebendo elogios aos montes. Os livros abaixo são apenas alguns dos que já li na pesquisa atual, mas são aqueles que achei mais importantes. Todos farão parte do meu texto, de uma forma ou outra. Às vezes leio um livro inteiro pra escrever apenas uma linha, mas uma linha que virá cheia de certeza, de profundidade e de qualidade. Às vezes leio um livro inteiro e nada de seu conteúdo vai para o meu texto. Tudo bem. O que importa é que livros seguem sendo a grande fonte de pesquisa e acesso a conhecimento de profundidade e de abrangência. Na era da informação digital, em vídeo, a cores, em tempo real, full HD e no ritmo de videoclipes, investir na produção de material mais completo e mais complexo é investir na manutenção da inteligência humana. Quem quer se informar de verdade sobre temas mais difíceis do que futebol, Big Brother Brasil ou o mercado do entretenimento, precisa ler mais livros. Aventura também é cultura! 

[highlight color=”eg.yellow, black”]BIBLIOTECA MONGÓLIA[/highlight]

[highlight color=”eg. yellow, black”]UNDER A LUCKY STAR: A LIFETIME OF ADVENTURE[/highlight] Aos 59 anos de idade, o cientista e explorador Roy Chapman Andrews escreveu, em 1943, essa pequena autobiografia. Famoso principalmente por ter descoberto os primeiros ovos de dinossauro da história, nas décadas de 1920 e 1930 no Deserto de Gobi, na Mongólia, Andrews é uma das mais prováveis inspirações para o personagem Indiana Jones. Durante 35 anos, ele foi funcionário do American Museum of Natural History, na cidade de New York, chegando a ser seu diretor-geral. O livro, cheio de trejeitos de época, mostra um narrador-protagonista entusiasmado, energético, obcecado por seus objetivos, bem-sucedido e plenamente ciente do impacto que seu discurso exerce sobre o público. Andrews é um mestre do marketing pessoal, o que não diminui em nada a grandiosidade de seus feitos e suas conquistas. Autor de 23 livros e dúzias de artigos para revistas, apresentador de programas de rádio, produtor de diversos filmes-documentários, ele foi um dos homens mais famosos de seu tempo e, certamente, o explorador norte-americano mais pop na época. UNDER A LUCKY STAR, que traduzido seria “Sob a Estrela da Sorte”, tenta mostrar que todo o sucesso de Andrews aconteceu por pura sorte ou casualidade, embora o texto prove que foi justamente o contrário: muita perseverança e muito empenho ergueram o nome de Andrews ao estrelato. As passagens na China e na Mongólia são, sem dúvida, as mais interessantes e vibrantes do livro. Andrews viveu por 12 anos na região. As narrativas sociais e urbanas da autobiografia mostram um personagem típico da aristocracia norte-americana, sempre com um charuto ou cachimbo na boca, um copo de coquetel na mão, uma arma carregada na cintura e o mundos aos seus pés. Uma leitura agradável, envolvente, clara e enriquecedora.

[highlight color=”eg. yellow, black”]BEYOND THE HOUSE OF THE FALSE LAMA[/highlight] Eu já havia lido o primeiro livro do autor, George Crane, BONES OF THE MASTER, que narra seu inusitado relacionamento com um monge chinês nos Estados Unidos, que termina por guia-lo por uma aventura bizarra na região autônoma no norte da China conhecida como Mongólia Interior. Nesse segundo livro, Crane retoma parcialmente a relação com o monge e resgata pendências do livro anterior, mas como acontece em geral com “sequências”, o autor perdeu a mão.

Literatura pode ser um frutífero campo de experimentos onde quase tudo é possível. Se obedecemos a regra básica de organizar o texto de forma bela e harmoniosa, é praticamente impossível escrever um livro ruim. A estética é tudo. “A forma é tudo”, escreveu Andres Roslund, famoso autor contemporâneo sueco. Porém, existe também a questão da autenticidade, da voz interior que deve soar como nenhuma outra. Ponto no qual Crane parece não ter atentado nesse volume.

No livro, reconheci facilmente as vozes de Hunter S. Thompson, criador do “jornalismo Gonzo” e autor do hilário e cáustico FEAR AND LOATHING IN LAS VEGAS (traduzido em português como MEDO E DELÍRIO EM LAS VEGAS), de Charles Bukowski e sua literatura poética e etílica, sempre muito divertida, e também a voz do iconoclasta Henry Miller, autor de TRÓPICO DE CÂNCER e de TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO, que foi meu autor favorito por muitos anos, num episódio de adolescência tardia aos trinta anos de idade. Vozes dissonantes de seus tempos, vozes corajosas e propositadamente agressivas. Vozes que quando imitadas soam invariavelmente falsas e vazias.

Num trecho no meio do livro BEYOND THE HOUSE OF THE FALSE LAMA, Crane chega a confessar seu crime, quase num forma de desculpas: “Toda literatura é plagiada e falsificada, inventada a partir de partes e pedaços de outros trabalhos. […] Uma espécie de história telepática, direta e sem intermediários ou impedimentos. As regras são simples: aprender tudo, ler tudo e, acima de tudo, ser flexível. Ou seja, roubar.”

Em teoria, a proposta literária por trás de BEYOND THE HOUSE OF THE FALSE LAMA pode parecer bem fundamentada. Na prática, o livro ficou restrito ao que exatamente é: um diário desorganizado e desconexo, uma piscina rasa onde o leitor não consegue mergulhar fundo sem bater a cara no piso. Nem a quarta parte do livro, a parte final, quando finalmente o autor viaja à Mongólia em busca de um templo perdido no Deserto de Gobi, consegue salvar a obra. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]IN THE EMPIRE OF GENGHIS KHAN[/highlight] Enquanto me preparo para cruzar toda a extensão oeste-leste da Mongólia de bicicleta, sozinho e autossuficiente, leio sobre travessias de outros aventureiros relatadas em livros. Às vezes, como aconteceu com esse título que acabei de ler, descubro um autor talentoso, espirituoso e inteligente que entra para um seleto grupo de nomes que passo a acompanhar. IN THE EMPIRE OF GENGHIS KHAN me apresentou a Stanley Stewart e agora estou atrás de todos seus outros livros. O irlandês Stewart cruzou metade da Mongólia a cavalo, acompanhado de guias locais e de tradutores numa pequena expedição organizada por ele mesmo. O livro foi lançado no ano 2000. Sua viagem foi qualquer coisa menos solitária. A maior parte das noites — e dos almoços durante a cavalgada — ele passou em tendas de famílias nômades. Observador atento, ele traz para as páginas da obra um rosário de personagens únicos, figuras extraordinárias que só grandes aventuras são capazes de descobrir. Seu estilo bem humorado e gozador faz da narrativa uma sequência de risadas. Seu aguçado senso crítico e seu profundo conhecimento histórico costura a travessia com observações e imagens inesquecíveis. Seu estilo, inegavelmente britânico, faz lembrar grandes escritores do gênero como Erik Newby e Bruce Chatwin. Mas Stanley Stewart tem personalidade própria. Esse é um excelente livro que me deixou ainda mais ansioso para começar logo minha viagem de aventura pelo Império de Gengis Khan. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]IN SEARCH OF GENGHIS KHAN[/highlight] Tim Severin é um importante explorador britânico, escritor, geógrafo e historiador com diversos livros publicados. Sua especialidade é refazer roteiros históricos revivendo técnicas e tecnologia antigas. Ele velejou, por exemplo, um pequeno barco construído em madeira e couro da Grã-Bretanha até os Estados Unidos para verificar a possibilidade de São Brandão, O Navegador, ter realmente cruzado o Atlântico Norte no século VI. Outras de suas aventuras e pesquisas que resultaram em livros foi retraçar a rota de Marco Polo, refazer o caminho de Simbad e, nesse livro que acabei de ler, cavalgar pela Mongólia nos passos de Gêngis Khan. Severin é especialista na Idade Média, formado pela consagrada Universidade de Oxford, membro da Royal Geographical Society e tem um estilo leve e fluído de narrativa. Sem dúvida, uma referência para mim. Nesse título ele percorre grandes distâncias a cavalo na Mongólia, em companhia de gente simples local, no primeiro verão depois da queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética. A Mongólia recém despertava de um pesadelo de mais de 70 anos sob a influência russa, quando teve sua religião (o budismo tibetano) apagada, seu alfabeto trocado pelo alfabeto cirílico russo e milhares de opositores políticos dizimados. Por outro lado, os russos extinguiram o analfabetismo, acabaram com a epidemia de sífilis que assolava praticamente toda a população e impediram que a Mongólia fosse tomada pela China, como aconteceu com o Tibete. O livro abriu meus olhos para algumas possibilidades de roteiros e chamou minha atenção para traços culturais importantes. Mais ainda, o texto de Severin serve de bússola para mim, no longo e infinito trabalho de lapidar meu próprio texto até alcançar a clareza, o estilo, a personalidade e o engajamento com o público que pretendo. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]MONGOLIA’S CULTURE AND SOCIETY[/highlight] Um estudo antropológico bastante completo, embora já antigo, realizado por intelectuais especialistas na Mongólia na década de 1970. Embora, técnico, recheado de estatísticas, referências literárias a trabalhos de pesquisa e até gráficos, o texto é bastante fluído e fácil de ler. Um dos autores é mongol, o que empresta à obra maior peso e maior profundidade empírica. As sessões sobre cultura, religião, arte e costumes foram as mais ricas e interessantes. Os capítulos sobre economiz e política, por terem sido escrito durante as décadas de influência russa, quando a Mongólia era uma das repúblicas soviéticas (a mais antiga, depois da própria Rússia), fazem a obra ficar datada e até obsoleta. O livro tem grande importância histórica, no entanto, por ter sido praticamente a única obra tão abrangente num tempo em que a Mongólia era um dos países mais restritos à visitação de ocidentais do planeta. Esse tipo de pesquisa é muito importante para mim, para completar com dados históricos e estudos sociológicos, minha narrativa de viagem. Não acredito que diários de viagens formem literatura completa se não trazem dados, informações e “outras vozes” que coloquem o local visitado em perspectiva. Esse não é o tipo de livro que eu recomendaria a curiosos sobre a Mongólia, mas gostei muito de tê-lo lido. Se o número de linhas grifadas for alguma referência sobre a qualidade da obra, essa vai ficar bem alto na minha avaliação. Eu risquei o livro inteiro!  

[highlight color=”eg. yellow, black”]EAGLE DREAMS: SEARCHING FOR LEGENDS IN WILD MONGOLIA[/highlight] Nessa obra, o autor, Stephen J. Bodio, norte-americano, escritor profissional e praticante de falcoaria, viaja para o extremo oeste da Mongólia para estudar os criadores de águias douradas, de etnia cazaque, em sua milenar arte de caçar usando aves de rapina. Como acontece em boas narrativas de viagem, além de conter informação importante e relevante, o livro também é divertido. Bodio é um narrador talentoso que se faz presente, exibindo aos poucos sua personalidade, habilidades e deficiências nas entrelinhas do texto, sem o pudor excessivo dos atuais autores dos abundantes guias de viagem. Comprometido com as aves de rapina e tudo aquilo que elas representam — história, tradição, cultura e o prazer sanguinolento da caça, sem hipocrisia — o autor nos leva para conhecer um costume milenar em extinção. Num país ainda fiel às suas raízes, como a Mongólia, a arte da falcoaria continua fazendo todo sentido de sua herança histórica. O livro é também uma ode de amor à natureza em toda sua complexa profundidade. Obviamente, está nos meus planos visitar os caçadores com água cazaques. Aliás, isso deverá acontecer logo no começo da viagem, já que pretendo cruzar a Mongólia de oeste para leste. Os cazaques estão concentrados no extremo oeste do país, próximos dos picos mais altos das montanhas Altai. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]TRACKING MARCO POLO[/highlight] Tim Severin, autor dessa narrativa de viagem, é um velho conhecido meu. Ele escreveu diversas obras de pesquisa antropológica onde ele refaz o trajeto de algum grande explorador do passado. Especialista em história medieval, Severin seguiu os passos, por exemplo, de São Brandão, o Navegador, que levou o catolicismo às ilhas longínquas do Atlântico Norte e supostamente navegou até a América do Norte ainda no século VI, e Simbad, o marujo árabe que virou até personagem de desenho animado. Nesse livro, seu primeiro trabalho enquanto ainda era estudante universitário em Oxford, ele seguiu a rota de Marco Polo de Veneza até o Afeganistão numa motocicleta na década de 1960. Meu interesse no livro era justamente conhecer mais detalhes sobre as viagens de Marco Polo, que apresentou ao mundo o grande imperador chinês e rei mongol Kublai Khan. Severin não chegou até a Mongólia nessa expedição, o que não diminuiu em nada meu interesse pela obra. O livro é jovial, entusiasmado, engraçado e descompromissado. Gostei muito em especial por ter sido o livro que lançou Tim Severin no ambiente literário, além de ter sido sua primeira expedição de pesquisa histórica. A obra é uma espécie de embrião daquilo que mais tarde Severin se tornaria: um explorador e escritor consagrado. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE END OF NOMADISM?[/highlight] Nesse denso e científico tratado antropológico, os autores analisam as semelhanças e dificuldades dos povos nômades e pastoris na Ásia Central: populações da China, Rússia e Mongólia. Apesar da abordagem técnica, muito da história e da dinâmica dos nômades ficam claras no texto. O principal argumento do estudo publicado é a desmistificação de que nômades são povos subdesenvolvidos, carentes de tecnologia e dependentes das populações estáticas e urbanizadas. O conhecimento ambiental, geográfico e as técnicas no trato de animais dos povos nômades formam imensa bagagem cultural e de eficiência produtiva incomparável. Essa abordagem sobre o nomadismo é talvez uma das principais razões de eu ter escolhido a Mongólia para minha próxima exploração. Vivemos um momento de questionamento no mundo, onde nossos processos de produção e consumo se mostram incompatíveis com a saúde do planeta. Incompatíveis até, eu diria, com a busca pela felicidade. A postura nômade de baixo impacto ambiental, de deslocamento constante, de pouco apego a bens materiais estáticos, como residências fixas, de minimizar a bagagem que carregamos, pode ser uma alternativa de estilo de vida ao nosso alcance. É claro que não é tão simples assim, mas espero ter contato com essa cultura na Mongólia e tirar minhas próprias conclusões. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]KHUBILAI KHAN: HIS LIFE AND TIMES[/highlight] Essa é a biografia do líder mongol e imperador chinês Kublai Khan, neto de Gengis Khan. Kublai, ou Khubilai, ficou famoso no ocidente graças à descrição feita dele por Marco Polo no século XIII, quando o mercador de Veneza passou anos em contato com o manda-chuva mongol. Kublai conseguiu unificar a China depois de séculos de divisão, fundou a primeira dinastia mongol na China e abriu as portas do oriente ao ocidente. O livro é extremamente bem escrito por um dos maiores acadêmicos especializado na Mongólia. Morris Rossabi é inglês, viculado à Universidade de Cambridge e consegue explicar de forma breve e clara a complexidade do Império Mongol. Descobri nesse livro, por exemplo, que a Cidade Proibida, em Beijing, antiga Peking, residência dos imperadores chineses até o século XX, foi obra de Kublai Khan. Uma descoberta que remanejou meu planejamento de viagem: agora pretendo passar pelo menos uma ou duas semanas em Beijing estudando a influência mongol na atual capital chinesa. Esse livro é de leitura muito fácil e fluída, recomendado a qualquer um interessado no tema. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE GRAY EARTH[/highlight] Galsan Tschinag é o escritor vivo mais importante da Mongólia. Por ter sido educado na extinta Alemanha Oriental, ele adotou o alemão como idioma literário. Seus livros mais famosos são a trilogia autobiográfica que narra sua infância no começo dos anos 50 na Mongólia enquanto república soviética. O primeiro título da trilogia — THE BLUE SKY— eu já li recentemente e escrevi uma curta resenha aqui. Esse é o segundo título da série— THE GRAY EARTH — que conta seu primeiro ano na escola, sua alfabetização e o aprendizado do idioma mongol, já que o pequeno Galsan falava tuvan, a língua de sua minoria étnica. Numa linguagem poética e pueril, narrado a partir do ponto de vista de uma criança, acompanhamos nesse livro o espanto da descoberta da língua escrita, do relógio e de um calendário dividido em semanas, meses e anos. Um susto para uma criança nômade, acostumada a medir o tempo pelas estações do ano e as necessidades da vida no campo. Ler Tschinag é um delicioso mergulho na literatura do mais alto nível, produzida por um autor criativo e autêntico. Tschinag figura entre os grandes autores contemporâneos e é uma sorte poder ler seus livros como preparação para minha expedição pela Mongólia. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE GREAT ORIENTAL ADVENTURE[/highlight] Timothy Severin, ou Tim Severin, como ele assina outros livros, é membro da Royal Geographical Society e já ganhou a Golden Medal da instituição pela excelência de seu trabalho como explorador e escritor. THE ORIENTAL ADVENTURE trata dos vários momentos na história, segundo Severin, em que o “mistério do oriente” foi parcialmente revelado para nós, ocidentais. A narrativa aborda Marco Polo, tratado no primeiro capítulo, e vai até os arqueólogos do começo do século XX, Marc Aurel Stein e Sven Hedin — ambos famosos pelos seus achados sobre as civilizações ao longo da Rota da Seda. Havia muito pouco sobre a Mongólia especificamente no livro, mas adorei a leitura! A história de “descoberta do oriente” pelo ocidente, passando pelo trabalho dos jesuítas dos séculos XIV ao XVII, pela colonização francesa do sudeste asiático do seculo XIX, é no mínimo fascinante, além de muito instrutiva. Coincidentemente, Tim Severin está se tornando uma referência particular em minha pesquisa literária sobre a Mongólia. Quando crescer, quero ser igual ao Timothy Severin… 

[highlight color=”eg. yellow, black”]WHERE THE PAVEMENT ENDS[/highlight] Um dos melhores livros sobre cicloturismo que já li. Publicado pela renomada editora norte-americana The Mountaineers Books, nele a autora, Erika Warmbrunn, também norte-americana, narra sua experiência de pedalar do sul da Sibéria até Saigon, no sul da Tailândia, cruzando Mongólia e China. Sua bike é uma sucata e ela nunca tinha viajado de bicicleta antes na vida. Cerca de 80% do livro e da aventura se passam na Mongólia, razão pela qual escolhi ler a obra. WHERE THE PAVEMENT ENDS (“Onde Termina o Asfalto”, numa tradução livre) é um título muito apropriado. Publicado em 2001, a Mongólia tinha então poucos quilômetros de estradas asfaltadas. Uma realidade que mudou muito pouco até hoje. Erika passa muitos meses na Mongólia, ensinando inglês numa escola pública, morando sozinha num “ger” (tenta tradicional dos nômades) num vilarejo distante da capital e isolado, aprende mongol (ela já era fluente em russo e alemão, além do inglês) e mergulha de cabeça na cultura local. E isso faz do livro algo muito especial. Então quem estiver esperando uma viagem de bicicleta no texto vai se decepcionar, trata-se de uma viagem cultural e intimamente pessoal. Como autor de narrativas semelhantes, senti muita identificação com os propósitos da autora e do livro. Recomendo! 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE BLUE SKY[/highlight] Numa matéria que li recentemente sobre literatura, não me lembro onde, havia uma mapa-múndi onde cada país era representado pela capa de seu livro mais importante, segundo a opinião dessa mesma matéria. A Mongólia era representada por esse livro do Galsan Tschinag, o primeiro de uma trilogia autobiográfica. Essa versão em inglês, THE BLUE SKY, é muito bem traduzida do alemão, idioma no qual o autor se expressa na literatura. Tschinag nasceu no norte da Mongólia de uma etnia criadora de ovelhas e de renas e praticante de xamanismo, mas foi educado na Alemanha Oriental, dentro do bloco comunista. Nesse livro, ele nos transporta para as estepes, para dentro dos “gers” (as tendas de feltro e couro peculiares aos nômades da Ásia Central), para dentro da mente de uma criança mongol nos anos de 1940 e começo dos 1950. Sem dúvida, uma grande obra de um escritor original. Já comecei a ler o segundo livro da trilogia de Tschinag, também em inglês, e estou deixando a cereja do bolo, o terceiro livro da trilogia, DER WEISSE BERG  (The White Mountain, ainda sem tradução para o inglês) para saborear lentamente (muito lentamente, com a ajuda de um dicionário) em alemão mesmo. E para quem ficou se perguntando que livro representava o Brasil na matéria: era DOM CASMURRO, do Machado de Assis. Boa escolha, embora eu talvez tivesse escolhido GRANDE SERTÃO: VEREDAS, do genial Guimarães Rosa. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]MONGOLIA: TRAVELS IN THE UNTAMED LAND[/highlight] Aproveitei um sábado chuvoso e passei 14 horas debaixo do cobertor lendo. Terminei esse livro, mais um sobre a Mongólia, como preparação para a EXPEDIÇÃO MONGÓLIA BIKEPACKING. Eu não conhecia esse autor, Jasper Becker, um inglês que viveu duas décadas na China como correspondente de grandes jornais. Hoje ele é considerado uma das maiores referências em política oriental. Fluente em chinês, alemão e francês, além do inglês, é claro, Becker é um ótimo escritor. Seu texto mistura bem o tom jornalístico e descritivo com opiniões e observações subjetivas embasadas em larga experiência, muita sensibilidade e extensa pesquisa. Esse livro narra diversas viagens feitas à Mongólia e à Rússia pesquisando sobre a história mongol e seus desdobramentos. Aprendi muito sobre cultura, religião, política e a personalidade do povo mongol com a obra. Um obra útil, de leitura divertida, que poderia ser apreciada por qualquer um, não necessariamente alguém obcecado pela Mongólia, como eu no momento… E para quem se pergunta onde consigo esses livros e como faço para escolhe-los e adquiri-los, a resposta é simples: Amazon USA. Não escolho, simplesmente compro praticamente tudo o que encontro e depois descubro se presta ou não… 

[highlight color=”eg. yellow, black”]SILK ROAD: A NEW HISTORY[/highlight] Um livro genial, acadêmico e ao mesmo tempo divertido, repleto de citações e notas, referências e sugestões literárias, que conta uma “nova história” da Rota da Seda, THE SILK ROAD em inglês. Analisando minuciosamente todos os mais importantes achados arqueológicos até 2012, a autora, professora de história na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, derruba o mito da Rota da Seda como uma pujante via comercial entre o Ocidente e o Oriente. Tudo indica que a Rota da Seda nunca teve grande importância comercial e nunca conectou, de fato, a Europa e a Ásia. O fluxo de gente e mercadorias na região sempre foi limitado e reduzido, circulando de uma cidade ou oásis até a próxima localidade. Mas é inegável, diz o livro, que o lento fluxo de ideias tenha sido determinante para o desenvolvimento e formatação das culturas ao longo da rota. A simples ideia, ou imagem, de ideias viajando nas caravanas de camelos do Deserto de Gobi já valeria a leitura. Esse é um livro muito interessante, bem escrito e recomendado a qualquer um que se interessa por história, geografia, arte, cultura e, em particular, essa parte do oriente. Esse livro eu recomendo! 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE BLOODY WHITE BARON[/highlight] Depois da Revolução Bolchevique de 1917, o Império Russo ruiu e os aristocratas se espalharam pelo mundo. O barão Robert Friederich Nickolaus von Ungern-Sternberg, que passou para a história como “O Barão Sanguinário”, decidiu lutar contra os comunistas na Sibéria e depois na Mongólia. Sua intenção era reestabelecer a monarquia russa com ele próprio ocupando uma posição de destaque logo abaixo do tzar. Mas seus planos logo mudaram e ele decidiu ser o novo imperador mongol. Ungern-Sternberg descobriu, em sonhos, ser a reencarnação de Gengis Khan, converteu-se ao budismo tibetano e passou a usar livremente o terror e a tortura como ferramentas de trabalho. Ele queimou vivos e em fogo baixo inimigos e camponeses acusados de ajudar os bolcheviques, arrancava seus olhos, orelhas e línguas enquanto procedia com interrogatórios. Nas batalhas, arrancava a roupa e lutava com o peito desnudo. O barão acabou entrando para o panteão budista tibetano como um deus-demônio implacável e impiedoso. Hoje ele é tema de tatuagens neo-nazistas em jovens russos xenófobos e homofóbicos. Um livro muito bem escrito, instrutivo e divertido, recomendado a qualquer um que goste de história, cultura ou esteja, como eu, fascinado pela Mongólia. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE SONGLINES[/highlight] Do mesmo autor de IN PATAGONIA, traduzido para o português como “Na Patagônia”, nesse livro o inglês Bruce Chatwin visita a Austrália e estuda a cultura dos aborígenes. THE SONGLINES trata da tradição mitológica que descreve a criação do mundo em músicas que, por sua vez, descrevem os caminhos que cruzam o país-continente usados pelos primeiros habitantes humanos. É como se cada trilha fosse uma sinfonia clássica e um mapa ao mesmo tempo. Chatwin queria, com esse livro, discorrer e tentar entender se a essência humana é nômade e não sedentária. Nomadismo é um dos meus principais interesses no momento e uma das razões da EXPEDIÇÃO MONGÓLIA BIKEPACKING. Apesar de outra geografia, outra cultura e outra mitologia, encontrei várias semelhanças entre os aborígenes e os pastores da Mongólia, todos nômades em sua origem cultural. A dureza da vida molda o caráter, a escassez de recursos parece afinar os sentidos e sintonizar também com o sutil, o etéreo, o simbólico. Não sou místico, não gosto do temo “ocultismo”, mas percebo nessas culturas mais conectadas à terra, ao céu, aos elementos da natureza, uma pureza de visão e um respeito que fazem muita falta às ditas sociedades avançadas. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]GENGHIS KHAN AND THE MAKING OF THE MODERN WORLD[/highlight] Impossível falar de Mongólia e não falar de Gengis Khan, o homem que conquistou o mundo no século XIII. Essa biografia do autor norte-americano Jack Weatheeford é aclamada como a melhor e mais completa já escrita sobre o imperador mongol. Enquanto me preparo para a EXPEDIÇÃO MONGÓLIA BIKEPACKING, estudo sobre a história e a cultura do país. Nesse livro descobri, por exemplo, que Gengis Khan praticamente inventou o livre comércio, o dinheiro em papel, a imunidade diplomática, a liberdade religiosa e o imposto único. Elementos que até hoje estão na pauta de países e continentes, alguns até como objetivos difíceis de serem alcançados. Em contraste com a imagem civilizatória do Gengis Khan histórico, o imperador revisitado e reconstruído, existe a imagem do selvagem bárbaro que assolou o leste da Europa. Na Idade Média, os mongols invasores eram associados diretamente com demônios que escaparam do inferno, estupradores e assassinos impiedosos que não respeitavam absolutamente nada. Esse livro nos oferece outra perspectiva, inclusive do ponto de vista de uma cultura nômade isolada e autorreferente, onde prédios e cidades tinham muito pouco valor. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]DRAGON HUNTER: ROY CHAPMAN ANDREWS AND THE CENTRAL ASIATIC EXPEDITION[/highlight] Estudando para a EXPEDIÇÃO MONGÓLIA BIKEPACKING, terminei ontem de ler essa biografia do explorador norte-americano Roy Chapman Andrews. Aqui no Brasil, o britânico Percival Fawcett ficou erroneamente conhecido como “O Verdadeiro Indiana Jones”, embora o criador do personagem no cinema, George Lucas, nunca tenha divulgado quem foi sua verdadeira inspiração. Mas nos Estados Unidos o consenso geral é que Andrews oferece o melhor modelo para o “Caçador da Arca Perdida”… Roy Chapman Andrews ficou famoso nos anos de 1920 por explorar o deserto de Gobi na China e na Mongólia e descobrir exemplares de ovos de dinossauro. Ele enfrentou tempestades de areia, frio e calor intensos, bandidos, golpes de estado, guerra civil e uma invasão de serpentes em um de seus acampamentos, entre outros perigos e perrengues. Minha intenção na expedição é percorrer parte do percurso explorado por Andrews e visitar The Flamming Hills, As Montanhas Flamejantes, uma formação geológica no Gobi que recebe os raios do sol e parece em chamas, onde Andrews encontrou pela primeira vez os famosos ovos de dinossauro. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]MISSION MONGOLIA: TWO MEN, ONE VAN, NO TURNING BACK[/highlight] Dois cinquentões ingleses, jornalistas precocemente aposentados pela recessão mundial de 2008, abandonaram seus empregos na BBC de Londres e resolveram viver uma grande aventura. Sedentários, bebedores contumazes de cerveja, frequentadores assíduos de pubs, eles decidem viajar até a Mongólia e participar de uma ação de caridade promovida por uma ONG em benefício de crianças de rua da capital mongol, Ulaanbaatar. David e Geoff compram um 4×4, uma perua Nissan Frontier de dez anos de idade, consertam o que estava errado e dirigem quase 13.000 km, cruzando Bélgica, Alemanha, Polônia, Ucrânia, Rússia e Cazaquistão até chegar à Mongólia, que eles cruzam também, até a capital, onde o 4×4 é doado à ONG que reverte o veículo em dinheiro para seus fundos filantrópicos. O livro é uma espécie de diário de viagem, bem escrito, morno na primeira metade, envolvente e divertido na metade final, repleto de referências à cultura pop inglesa. Tem sempre alguém no caminho que se parece com alguém famoso na Inglaterra, um comediante, um político, um artista de TV. A dupla leva barracas para acampar, mas acabam preferindo dormir sentados no carro por acharem “mais confortável”; descrevem os quartos de hotéis e seus respectivos banheiros em detalhes pitorescos, como se descrevessem a arquitetura de uma capital visitada; comem batatas fritas quase que o tempo todo, com medo de provar a culinária local. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]BONES OF THE MASTER: JOURNEY TO SECRET MONGOLIA[/highlight] O autor desse livro tem um vizinho estranho, um monge budista ansião e misterioso. Com tempo, os dois se tornam amigos e o monge revela seu segredo mais profundo: fugiu da China durante a Revolução Cultural, foi para os Estados Unidos, mas precisa voltar ao seu país de origem para encontrar os ossos de seu mestre, um eremita que vivia numa caverna isolada da Mongólia Interior, ao norte da China, para construir um templo, uma estupa, para reverenciar seu professor. O autor, meio sem saber onde estava se metendo, decide acompanhar o amigo. Esse é o resumo do roteiro desse interessante livro. Do ponto de vista geográfico, não tem muito a ver com meu propósito de cruzar a Mongólia de bicicleta, já que a narrativa acontece toda na China. Do ponto de vista histórico, no entanto, joga luz na perseguição religiosa que o budismo sofreu tanto na Mongólia quanto na China. Na Mongólia ele aconteceu em meados da década de 1930 com os expurgos stalinistas, onde milhares de monges e noviços foram assassinados ou incorporados à força no exército soviético. Na China aconteceu bem mais tarde, durante a década de 1960, durante a chacina conhecida como Revolução Cultural de Mao Tse Tung. De qualquer forma, é um belo livro, com um enredo que mais parece de ficção de tão intrincado e inesperado. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE SECRET HISTORY OF THE MONGOL QUEENS[/highlight] Mais um livro lido como preparação para a Expedição BIKEPACKING MONGÓLIA. O autor, o norte-americano Jack Weatherford, escreveu também o best-seller GENGHIS KHAN AND THE MAKING OF THE MODERN WORLD, já lido e comentado aqui. Nessa obra, a história das rainhas mongóis explica a história da própria Mongólia. Depois de conquistar o mundo no século XIII, Gengis Khan instituiu suas filhas como monarcas administradoras, enquanto seus filhos expandiam o Império. O plano estratégico deu certo no que dizia respeito à eficiência das filhas, mas o Império foi dividido por culpa da total incompetência dos filhos. Lutas internas por poder terminaram por dissolver não apenas a unidade do Império mas, também, o legado de igualdade entre homens e mulheres que o visionário Gengis Khan introduzi. Uma a uma, todas as filhas, netas e noras de Gengis Khan foram depostas, traídas, violentadas e finalmente assassinadas pela estupidez masculina. Mas a história feminina foi finalmente ressuscitada pela rainha Manduhai, a Sábia, que restituiu a harmonia e o poder mongol nas estepes da Ásia Central no século XVI. Um livro muito bem escrito, muito bem pesquisado, inspirador e instrutivo.

[highlight color=”eg. yellow, black”]A TOUR IN MONGOLIA[/highlight] A inglesa Beatrix Bulstrode se aventurou pela Mongólia em 1913, justamente quando começou o processo de libertação do país da colonização chinesa, finalmente alcançada em 1921, com a ajuda do Exército Vermelho russo. Beatrix Bulstrode viajou sozinha pela China por 18 meses antes de decidir explorar a Mongólia. Armada de dois revólveres, uma máquina fotográfica e muita coragem, ela acabou sendo coagida a aceitar a companhia de um senhor, também inglês, com quem ela mais tarde se casou. Os dois viajaram da fronteira russa, perto do Lago Baikal, até a fronteira chinesa em direção a Beijing — o mesmo traçado da atual linha férrea internacional. Nessa viagem, eles tiveram contato próximo com a população, sua cultura e seus costumes. Beatrix escreve de forma leve e envolvente, é muito atenta e perspicaz. Seu olhar tem todo o preconceito de sua época, de sua classe social, de seu sexo e da atitudetípica dos colonialistas britânicos de então. O livro é uma narrativa clássica de viagem pela Mongólia que, com certeza, será mencionado e citado na minha obra.  

[highlight color=”eg. yellow, black”]A DREAM OF LHASA[/highlight] Quando o maior explorador russo de todos os tempos, Nikolay Przhevalsky (1839-1888), morreu, provavelmente de febre tifóide, em sua quinta expedição na Ásia Central, o escritor russo Anton Tchekhov escreveu: “Um Przhevalsky vale mais do que uma dúzia de politécnicos a uma centena de livros”. O livro THE DREAM OF LHASA é a primeira biografia de Przhevalsky escrita em inglês. Nele, o autor britânico Donald Rayfield faz um profundo estudo da vida do famoso explorador. Livre da pressão em torno ao culto da personalidade de Przhevalsky na Rússia, Rayfield consegue apresentar ao leitor não apenas o explorador mas também o ser humano. Figura controversa, caçador contumaz que chegou a abater 743 patos selvagens num mês acampado ao lado de um lago na China; misógino, ele demitia membros de suas expedições quando descobria que eram casados; imperialista, ele não escondia seu desprezo por orientais e o desejo que o Império Russo dominasse toda a Ásia; Przhevalsky redesenhou a geopolítica asiática com suas expedições, descobertas e livros. O Império Britânico temia seu nome e sua influência no Tibete a ponto de invadir o país do Dalai Lama para expulsar os invasores russos, que de fato nunca existiram. As descobertas científicas de Przhevalsky nos campos da geografia, botânica e zoologia foram tantas que até hoje os estudos de espécies novas trazidas por ele não terminaram. Na Mongólia, visitei um parque nacional e vi de perto o cavalo-de-przewalski, o único cavalo realmente selvagem que restou no planeta. Um personagem que, com certeza, estará presente em meu livro sobre a Mongólia. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]DID MARCO POLO GO TO CHINA?[/highlight] Marco Polo será, com certeza, um personagem e um tema importante no meu livro sobre a Mongólia. Não poderia deixar de ser. Muito do que a Europa medieval do século XIV sabia sobre o Extremo Oriente foi lido no livro do “outro mercador de Veneza”, não aquele de Shakespeare. Descobri que Marco Polo é tema de uma infinidade de livros e estudos acadêmicos. Gente que se dedica a estudar as muitas versões do texto de Polo. Esse livro, que acabei de ler, debate de forma extensiva a possibilidade real de Marco Polo não ter chegado até a China em suas viagens, sendo seu livro uma obra de ficção e uma coletânea de informações pré-existentes de outros viajantes, a maioria persas. Muito bem pesquisado e escrito, DID MARCO POLO GO TO CHINA?, da britânica Frances Wood, explica as razões por trás das dúvidas sobre a veracidade das explorações do mais famoso viajante de todos os tempos. Não vou dar spoiler! Tudo será explicado no meu livro. Mas fica a pulga pra colocar atrás da orelha… Talvez Marco Polo, que tem até estátua na área central da capital da Mongólia, Ulaanbaatar, pode ter sido um grande contador de “causos”, um personagem mais na linha do Pantaleão, do Chico Anísio, do que “o maior viajante de todos os tempos”. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE SECRET HISTORY OF THE MONGOLS (POPULAR EDITION)[/highlight] THE SECRET HISTORY OF THE MONGOLS foi a herança literária deixada pelos descendentes diretos e próximos de Genghis Khan narrando a história do maior conquistador da humanidade da história. Essa é a mais antiga obra literária na língua mongol que se tem notícia. Praticamente tudo o que se sabe sobre Genghis Khan, seus antepassados, sua origem, seu nascimento, sua infância e juventude, sua vida até se tornar imperador, tem como fonte esse texto. O autor, anônimo, escreveu a história sob encomenda da família real em alguma data depois de 1227, ano da morte de Genghis Khan. Ou seja, eu não poderia pensar em escrever qualquer coisa sobre a Mongólia sem citar o pai de todos os mongóis e sem citar esse material. As versões mais antigas que ainda sobrevivem do texto são transcrições da língua mongol escritas em caracteres chineses e datadas do final do século XIV, depois compiladas pela Dinastia Ming (1368 a 1644). A primeira transcrição para o mongol moderno foi feita apenas em 1917. A primeira tradução para uma língua ocidental, que determinou a “descoberta” do texto no Ocidente, foi feita pelo pesquisador Palladiy Kafarov, em russo, em 1866. O livro THE SECRET HISTORY OF THE MONGOLS (POPULAR EDITION) é uma modernização do original, magistralmente ilustrado pelo artista Battsengel R., que teve o apoio de historiadores, arqueólogos e outros pesquisadores. Os desenhos são pinturas, provavelmente a óleo, com enorme realismo e qualidade técnica. O texto em inglês contém diversos erros gramaticais que não interferem no com entendimento. A história de Genghis Khan torna-se acessível e aprazível graças a esse trabalho. Minha intenção é tentar ler também o texto original, que tenho numa edição bilíngue, em mongol e inglês. Mas o texto está disponível na íntegra na internet em diversas línguas e gratuito. Mas ter lido essa versão mais artística, ter assistido a alguns bons filmes sobre o assunto e pesquisado em textos enciclopédicos já garantem que possuo material suficiente para tentar escrever uma curta biografia do primeiro imperador mongol em meu livro sobre a Mongólia. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]GENGHIS KHAN’S GREATEST GENERAL: SUBOTAI THE VALIANT[/highlight] O povo mongol na época de Genghis Khan (1162-1227) era um povo guerreiro. A guerra era a profissão de todo homem de 13 a 60 anos de idade capaz de cavalgar e atirar com arco e flecha. Toda a sociedade mongol era construída sobre esse alicerce de luta, conquista e domínio constante. Genghis Khan canalizou esse dinâmica social para a conquista do mundo unificando a nação, assim mongol deixou de matar mongol e a força da união dominou o mundo. Numa sociedade baseada e meritocracia no campo de batalha, os líderes do invencível exército mongol eram pastores, caçadores e membros da plebe, não da aristocracia. Nem os filhos de Genghis Khan chegaram tão longe quanto seus generais mais confiáveis e competentes. Dentre eles, o destaque absoluto vai para Subotai, o Valente. Conquistador de 32 nações e vencedor de 65 batalhas, Subotai expandiu o Império Mongol até o norte da Alemanha, a costa do Mar Bático, o atual Iraque e as portas de Viena. Nesse pequeno livro, muito bem escrito e pesquisado, o professor universitário e especialista na história da guerra, Richard A. Gabriel, traça o perfil biográfico de Subotai (1175-1248) a partir de suas façanhas militares. .Mestre na arte de planejamento e executor infalível, ele estava séculos à frente de qualquer general de sua época. As campanhas desenhadas por ele tinham requintes que só foram repetidos na Segunda Guerra Mundial. Falar sobre o Império Mongol e não citar as conquistas militares seria um sacrilégio e no meu livro pretendo dedicar algum espaço para explicar melhor esse perfil psicológico do povo mongol. Leitura altamente recomendável. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]VOYAGER FROM XANADU[/highlight] Rabban Sauma (1220-1294) foi um monge cristão nestoriano, nascido perto da atual Beijing, famoso por ter sido o primeiro diplomata do Império Mongol a visitar a Europa. Contemporâneo de Marco Polo, Sauma viveu muitos anos como monge recluso e ganhou fama de homem santo. Um de seus discípulos, muitos anos mais jovem, acabou o convencendo a realizar uma peregrinação para conhecer Jerusalém. Com a permissão oficial de Kublai Khan, Sauma e seu aluno cruzaram a Ásia Central até chegar perto de Bagdá, uma das sedes do Ilcanato, uma das facções do Império Mongol. Sauma acabou permanecendo décadas na região onde hoje está o Iraque e foi escolhido pelo líder político local para uma importante missão: convencer os reis europeus a unirem forças com os mongóis para expulsar os muçulmanos da Terra Santa. De 1287 a 1288 Sauma cruzou a Europa e se encontrou com o Papa, o rei da França e o rei da Inglaterra na primeira missão diplomática oficial do gênero da história. A aliança entre europeus e mongóis nunca se consolidou, mas a especulação sobre o que teria acontecido caso essa união houvesse ocorrido fascina estudiosos até hoje. O autor desse livro, o professor Morris Rossabi, é uma das maiores autoridades em história da China e da Mongólia, ele também é autor da melhor biografia já escrita sobre Kublai Khan. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE MONGOLS[/highlight] Talvez o melhor resumo já publicado sobre a história do povo mongol, de sua origem obscura nas estepes da Ásia Central, passando pela vida e pelas conquistas de Genghis Khan, até a formação da República Popular da Mongólia na década de 1920, na Era Soviética. O autor é especialista em estudos orientais medievais com ênfase na Pérsia, onde houve, por mais de um século, um pedaço do Império Mongol. Literatura de leitura fácil e acessível, com inúmeras referências bibliográficas bem encaixadas, esse livro também possibilita vasto estudo posterior aos interessados em se aprofundar no tema. Para quem quer apenas entender a história dos mongóis, o livro basta como única leitura. Bem organizado, os capítulos são divididos em assuntos abrangentes e ao mesmo tempo precisos e detalhados. Após a morte de Genghis Khan (1162-1227) o Império Mongol foi dividido em quatro partes, entregues aos quatro filhos homens do Grande Khan. Nesse livro, o professor Morgan analisa o desenvolvimento e término de cada uma desses quatro impérios menores separadamente, de forma muito clara e objetiva. Uma abordagem que não encontrei em nenhum outro livro. Ótima leitura para um começo de pesquisa. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE STORY OF THE MONGOLS WHOM WE CALL THE TARTARS[/highlight] Todo mundo conhece, já leu ou ouviu falar, o livro de Marco Polo sobre o Império Mongol. Porém, 26 anos antes de Polo sair em viagem para o extremo oriente, o religioso, arcebispo católico, diplomata e explorador Giovanni DiPlano Carpini, também grafado como Giovanni da Piano del Carpini ou ainda John of Plano Carpini, visitou o Império Mongol e deixou o mais antigo testemunho escrito por um ocidental sobre os mongóis. Carpini foi enviado pelo Papa Inocêncio IV para catequizar os bárbaros, analisar seu poder bélico e tentar laços de amizade numa possível futura tentativa de eliminar os muçulmanos, em especial no resgate cristão de Jerusalém. Carpini viajou por dois anos e chegou perto de Karakorum, então capital do Império Mongol. Como o filho de Genghis Khan, Ögodei, que havia sucedido ao Grande Khan, havia morrido há pouco, Carpini foi testemunha da coroação do filho mais velho de Ögodei, Güyük, como herdeiro do Império. O arcebispo de origem italiana, provavelmente de Umbria, foi o primeiro ocidental a descrever o caminho até a Mongólia, partindo da capital ucraniana de Kiev. Como sua missão era basicamente de espião, ele descreveu em detalhes o funcionamento do exército mongol, muito mais do que seus costumes e hábitos. Por ser um viajante medieval, assim como Marco Polo e outros, Carpini descreve raças de seres humanos com cabeças de cachorro e outros de apenas uma perna e com um braço saindo do meio do peito, conforme relatos que ele ouviu de terceiros como sendo verdadeiros. Um livro bem rico e interessante, muito anotado e comentado nessa edição histórica. 

[highlight color=”eg. yellow, black”]THE MISSION OF FRIAR WILLIAM OF RUBRUCK[/highlight] Essa é talvez a melhor descrição medieval do Império Mongol existente. Considerado por muitos estudiosos como um livro superior em qualidade às narrativas de Marco Polo, o relato deixado pelo frei William of Rubruck, também grafado como Willem van Ruysbroeck, Guillaume de Rubrouck ou ainda Willielmus de Rubruquis, é realmente entusiasmante. Rubruck viajou por dois anos da Europa até Karakorum, capital do Império Mongol, durante os anos de 1253 e 1255, ou seja, 21 anos antes da partida de Polo de Veneza em direção ao oriente. Rubruck não era um emissário oficial, era um missionário voluntário, em busca de catequizar os bárbaros, mas levava cartas de recomendação do Rei da França, Luís IX, mais tarde canonizado como São Luís, o que abriu muitas portas em seu caminho. A descrição de Rubruck da capital mongol é, de longe, a mais precisa e detalhada. Observador talentoso, bom escritor e narrador perspicaz, Rubruck leva o leitor a uma viagem pela Eurásia medieval como se fosse um filme. Rubruck inspirou a viagem e o decorrente livro, já resenhado aqui por mim, IN THE EMPIRE OF GENGHIS KHAN, do irlandês Stanley Stewart, que seguiu os passos do frade até o coração do Império Mongol. Segundo Stanley, Polo não merecia toda a fama que recebeu e acabou ofuscando um viajante e escritor de mais talento: William de Rubruck. 

 

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