Bikepacking em tempos de pandemia
Existe uma sensação de transgressão, além das óbvias sensações de liberdade e de realização pessoal, quando pedalamos 400 km por terrenos rudes, de forma autossuficiente, num canto do mundo ainda considerado selvagem. Não cedemos às seduções do conforto. Não tomamos o atalho da preguiça. Não escolhemos o caminho mais fácil simplesmente por ele ser o mais disponível.
Todo ciclo-aventureiro é um revolucionário.
Essa narrativa é, de certa forma, a continuação do texto que conta minha história na expedição RUTA DE LOS PIONEROS 2022, também escrita por mim e publicada aqui no site da KALAPALO EDITORA. Apesar de independentes, os dois projetos aconteceram um depois do outro, com apenas um dia de intervalo. As emoções da primeira expedição foram levadas para a segunda. Impossível separar. Ou seja, comecei a expedição BIKEPACKING PATAGÔNIA 2022 fisicamente abatido e emocionalmente abalado. Recuperei força e autoconfiança pedalando com os companheiros desta jornada, que foram:
Fernando Nepomuceno Bicalho Santos, 35 anos, advogado, trabalha como escrevente em tabelião de notas, residente de Belo Horizonte (MG), mountain biker ativo, fez nosso CURSO DE BIKEPACKING em setembro de 2021.
Marcel Zanetti, 45 anos, empresário do ramo de informática, mountain biker ativo, residente em São Paulo (SP), fez nosso CURSO DE BIKEPACKING em outubro de 2021.
Marcelo Urdapilleta Rodrigues, 50 anos, engenheiro mecânico, residente em Joinville (SC), mountain biker ativo, fez nosso CURSO DE BIKEPACKING em novembro de 2021.
Alexander DeCapri, 27 anos, norte-americano, trabalhou no mercado de cafés especiais no Brasil, fala português fluentemente e agora está garimpando novos mercados. Mountain biker e campista ativo, ficou conhecendo meu trabalho na Serra da Canastra através de um amigo em comum. Alex era único do grupo que não havia feito nosso CURSO DE BIKEPACKING e o único que eu não conhecia pessoalmente.
A proposta inicial dessa aventura era pedalar da cidade de Cochrane, no trecho sul da Carretera Austral, na Patagônia chilena, até El Calafate, no pampa da Patagônia argentina. Chamei inicialmente o desafio de EXPEDIÇÃO PATAGÔNIA BINACIONAL, por razões óbvias. Mas a pandemia de covid-19 manteve as fronteiras terrestres fechadas no Chile durante o verão austral de 2022 e esse plano teve que ser alterado. Em substituição, optei por sugerir ao grupo um desafio todo em terras chilenas, ainda mais desafiador: pedalar de Cochrane até Villa O’Higgins pela Carretera Austral, passando por Caleta Tortel, fretar um barco que nos levasse até Candelario Mansilla e, uma vez lá, tentar chegar com nossas bikes o mais próximo possível da geleira O’Higgins.
Fiz esse roteiro em Candelario Mansilla em fevereiro de 2013, durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, a aventura solo e autossuficiente, em bicicleta, de seis meses de duração e 6.000 km de extensão, que gerou o livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e o premiado documentário TRANSPATAGÔNIA, que passou uma temporada no Netflix e agora está disponível no canal AVENTURA E CULTURA no Youtube. Mas fiz tudo em trekking. Teoricamente, acredito que talvez dois terços do percurso seria possível fazer de bicicleta. Havia, sem dúvida, o risco da empreitada se transformar numa versão patagônica do meu documentário SERRA FINA, PERNA GROSSA. Aquilo que vulgarmente é chamado de “roubada” ou “perrengue” na gíria da aventura. Pra mim, quanto maior o desafio, maior a recompensa.
Essas expedições didáticas que organizo regularmente desde 2002 têm por objetivo oferecer uma experiência prática de expedição autossuficiente, minimalista e de mínimo impacto ambiental por regiões de natureza ainda selvagem. Acredito no enorme potencial de autoconhecimento, de crescimento pessoal e de desenvolvimento social dessas atividades, que colocam o coletivo acima de interesses individuais, educam a valorizar pequenos confortos e pregam a vida simples. Acredito muito também na força restauradora da natureza. Em contato com o ambiente natural entramos em contato também com nossa natureza interior e temos mais chances de calma e equilíbrio, aquilo que vulgarmente chamamos de felicidade. Esses são temas recorrentes em todo meu trabalho.
Preparação final
Na noite anterior à viagem, Fernando recebeu uma mensagem parecida com a minha, negando a entrada dele no Chile na última hora. Eu ainda estava sob os efeitos da frustração por não ter conseguido fazer o trekking RUTA DE LOS PIONEROS com o grupo anterior. Fiquei ainda pior quando soube que mais um de nós tinha tropeçado na burocracia.
Adriana, minha companheira de vida e aventura, e Marcel marcaram uma vídeo-chamada com o Fernando e passaram horas tentando ajudá-lo. Tudo parecia perdido e ele ligou pra mim confirmando a má notícia. O voo dele partiria na manhã seguinte, já era noite, ele não embarcaria para o Chile. Sua intenção era simplesmente ficar no Brasil, não tentar voar mais tarde, como eu fiz. Pra ele não fazia sentido viajar se não pudesse participar da nossa expedição.
— Se você for liberado — aconselhei — venha de qualquer jeito. Eu te ajudo a pensar um roteiro pra você fazer sozinho. Não fique em casa deprimido. De qualquer maneira — completei — o pagamento que você fez pra mim será totalmente devolvido. Pelo menos esse prejuízo você não terá.
Na manhã seguinte havia um recado do Fernando no meu celular dizendo que na madrugada, na última tentativa de refazer o cadastro, o sistema chileno havia autorizado sua entrada no país. Um alívio! Pena que não tive a mesma sorte…
Parecia que a temporada inteira seria tensa.
Fernando ficou ainda preso por mais de duas horas no aeroporto de Balmaceda, a 40 km de Coyhaique, cidade que usamos como ponto de chegada e de partida. As vans que fazem o traslado até a Coyhaique foram todas embora enquanto ele foi ao banheiro. Para não atrasar nossos planos, fizemos as compras de comida para o começo da expedição sem ele. Na tentativa de diminuir ao máximo o peso nas bicicletas, compramos mantimentos apenas para os primeiros três dias de pedal, pra aproximadamente 150 km. Reabasteceríamos em Caleta Tortel, uma vila de pescadores na entrada de um fiorde no oceano Pacífico, toda construída de madeira, com passarelas sobre palafitas como ruas.
Cardápios são limitados em expedições. Produtos frescos, como frutas, verduras e legumes, são complicados demais de encontrar e transportar. Prefiro, normalmente, cereais com leite em pó pela manhã, em geral granola; castanhas, frutas secas, sanduíches, queijo, salame, chocolate a afins durante o dia; e no jantar, algum carboidrato como polenta, cuscuz, Miojo ou algo do gênero, com uma lata de proteína animal, em geral atum, sardinha ou salmão, mais queijo ralado e chocolate de sobremesa. Não cozinho nada, apenas fervo água de manhã e à noite, para as duas únicas refeições quentes de cada dia. Combustível também é um peso a ser considerado. Pra completar, Alex era vegano, o que impunha ainda mais restrições à sua alimentação. Por viver nos EUA, ele trouxe de lá comida vegana liofilizada pra todos seus jantares e flexibilizou um pouco sua dieta pra incluir ovos e derivados de leite presentes, por exemplo, em pães e afins.
No dia seguinte, já com Fernando no time, passamos horas montando as bicicletas. Viajamos com elas o mais desmontadas possível. Retiramos o câmbio traseiro, que é a peça mais delicada e exposta, os pedais, o canote de selim com o selim junto, a suspensão ou o garfo, o guidão com a mesa. Tudo é amarrado ao quadro, tudo revestido com algum material resistente para não permitir atrito e danos ao equipamento. Tenho vários pedaços de um cobertor velho pra isso. A bicicleta fica do tamanho do quadro, com as rodas amarradas como pães num sanduíche pra completar o pacote. Se o roteiro começar e terminar no mesmo ponto, como nessa expedição, levo tudo dentro de uma mala-bike. Gosto muito do mala-bike da CURTLO. Em roteiros lineares, que começam em um ponto e terminam em outro, dispenso o mala-bike e embrulho a bike desmontada em material reciclável, como papelão. Na volta, arrumo mais papelão pra mesma função.
O começo
Fomos de van, pilotada por Wilfredo Yaconis, um gaucho argentino residente em Coyhaique que conhece a Patagônia como poucos, de Coyhaique até Cochrane. Fazia calor, havia muito pó, os buracos na estrada faziam o veículo chacoalhar como se estivéssemos num terremoto constante e o sol lembrava o Caribe. Nunca senti tanto calor na Patagônia!
Nosso caminho margeia o grande lago General Carrero, o terceiro maior corpo de água doce da América do Sul, azul-turquesa e brilhante como se fosse iluminado por baixo. Paramos para uma sessão de fotos logo depois da vila de Rio Tranquilo.
Desembarcamos em Cochrane, comemos algumas empanadas, nos despedimos de Wilfredo e decidimos começar a pedalar naquele dia mesmo. Incialmente, o plano era dormir uma noite em Cochrane, mas fazia mais sentido adiantarmos terreno e ganharmos quilometragem. Eu lembrava que haveria opções de onde acampar no caminho. Bastava encontrarmos um riacho, um lugar onde nos abastecermos de água, e pronto. Na Patagônia é possível acampar selvagem em qualquer lugar.
Pedalamos 26 km nesse primeiro dia, com 544 m subidos acumulados e 323 m descidos. Montamos nossas barracas ao lado de um córrego cristalino, atrás de um barranco que nos protegia do vento, escondidos da estrada por arbustos e algumas árvores. Lugar perfeito! Pudemos nos lavar no riacho e dormir limpos da poeira que colou em nossos corpos suados.
No dia seguinte, fizemos 57 km, com 581 m de subidas e 929 m de descidas acumuladas, até a ponte sobre o rio El Encuentro. Pontes são referências importantes na Carretera Austral. Não obrigo o grupo a pedalar junto, todos na mesma velocidade. Cada um vai no seu ritmo pessoal, parando para fazer fotos e filmes se quiser, acelerando se preferir. Marco reencontros a cada tanto, geralmente usando as muitas pontes no caminho como pontos de parada. Acho importante esse tipo de liberdade. A solidão é uma grande professora, especialmente em lugares de natureza exuberante.
O trecho sul da Carretera Austral é ainda o mais selvagem e menos visitado de todo o caminho pela Patagônia chilena. Villa O’Higgins, ponto final da estrada, é um beco sem saída pra veículos motorizados, só bicicletas e caminhantes conseguem seguir adiante, de barco pelo lago O’Higgins até Candelário Mansilla e a Argentina. Essa região guarda ainda um pouco de sua história e cultura colonizadora, com fazendas isoladas e grandes extensões de mata nativa. No horizonte não faltam picos nevados, geleiras ou montanhas esculpidas pela última era glacial, que cobriu tudo com centenas de metros de gelo. Mesmo sendo um visitante assíduo à esse extremo das Américas, não canso de olhar a paisagem.
Os primeiros dias de uma expedição são, talvez, os mais importantes. Neles ficam logo evidentes as eficiências e deficiências do aventureiro ou do grupo. Alguém que pedala mais devagar não é um problema, nem outro que pedala rápido demais, isso é ajustado com reencontros regulares. Falhas no equipamento, em geral, são solucionadas com a seleção criteriosa dos participantes e seus respectivos equipamentos. São as personalidades pessoais que determinam o humor, o sucesso ou o fracasso de uma expedição. Gostei muito, por exemplo, quando chegamos ao nosso segundo acampamento selvagem, no curral de uma fazenda em reforma, ao lado do rio El Encuentro, e Fernando e Alex saíram para explorar uma cachoeira do outro lado da estrada. Os dois demoram mais de uma hora para ir e voltar, entraram na mata fechada, subiram um pouco a montanha íngreme de onde descia a queda d’água e chegaram no grande poço. Eu não tive a disposição deles! O grupo tinha espírito aventureiro, bom sinal.
Caleta Tortel
Apesar de já ter visitado Caleta Tortel algumas vezes, eu nunca havia chegado até lá de bicicleta. Essa foi a primeira vez! Isso é essencial pra mim nessas expedições didáticas. Tem que haver algo inédito, alguma novidade também para mim, assim a sensação de exploração fica genuína para todo o grupo.
O calor, a secura do ar, o pó da estrada e o excesso de veículos aproveitando o verão na Patagônia fizeram do trajeto até Caleta Tortel uma maratona. O sol fritava e a poeira colava em nossas peles suadas como farinha em peixe à milanesa. Num raro momento de sossego, sozinho na estrada, vi um objeto marrom movendo-se lentamente 50 metros na minha frente. Poderia ser uma vaca, mas quando me aproximei mais vi que era um huemul (Hippocamelus bisulcus), um veado sul-andino em risco de extinção que está presente, ao lado do condor, no brasão oficial chileno. O bicho era um macho jovem, tímido e curioso ao mesmo tempo, que provavelmente não me reconheceu como ser humano por conta da bicicleta. Cheguei muito perto, a cerca de 5 metros, sem que ele se assustasse.
Em Caleta Tortel fizemos uma longa pausa de almoço num restaurante com vista para a baía. Eu nunca tinha visto a vila de 700 habitantes com sol. Em todas minhas visitas anteriores estava chovendo ou nublado.
— Aqui chove 300 dias por ano — explicou a dona do restaurante ao ouvir meu comentário.
Eu acredito.
O sol ardia incansável. Sugeri ao grupo que esperássemos a temperatura baixar antes de deixarmos Tortel. Todos toparam. O problema é que o sol no verão patagônico se levanta às 4h e se põe às 11h. Esperamos até às 17h antes de encarar o caminho de volta à Carretera Austral. Como não sabíamos onde acamparíamos aquela noite, deixamos a questão em aberto, pedalando cada um na sua e nos reencontrando a cada ponte no caminho.
Tentamos armar as barracas ao lado da ponte sobre um dos muitos afluentes do rio Baker, carregamos as bikes por cima de uma cerca improvisada de galhos e troncos empilhados, mas a quantidade de mosquitos era desconfortável demais. Apesar de cansados, meus companheiros estavam inquietos, insatisfeitos com o local de camping, eu via um pouco de desespero nos olhos de todos.
— Vamos pedalar um pouco mais e procurar um lugar melhor? — sugeri e todos concordaram sem piscar.
Acabamos montando acampamento, no lusco-fusco, na frente de uma cabana de madeira quase no entroncamento com a Carretera Austral, onde havia uma horta e um ruidoso riacho de águas cristalinas. Nenhum mosquito. Uma placa indicava: “Mujeres Rurales” e havia uma pequeno caminhão branco estacionado. Não havia ninguém pra pedir permissão, devia ser algum tipo de cooperativa agrícola. Todos ergueram suas barracas, menos eu, que estiquei o isolante térmico e abri o saco de dormir em cima da carroceria vazia do caminhãozinho. Fiz um bivaque sob o céu repleto de estrelas depois de me lavar no rio. Difícil encontrar uma noite melhor de descanso. Esse foi o dia mais longo de toda nossa travessia, com 68 km, 428 m subidos acumulados e 464 m descidos.
Villa O’Higgins
A Carretera Austral chegou a Villa O’Higgins no ano 2000. Antes disso a vila era acessível apenas por trilhas mal conservadas ou de barco, pelo lago O’Higgins. O isolamento ainda faz parte do vilarejo de 600 habitantes. A cidade mais próxima, Cochrane, está a 220 km de distância por uma estrada de terra, com uma balsa de 40 minutos de travessia no caminho.
Da cooperativa Mujeres Rurales pedalamos rápido até essa balsa, que cruza o longo fiorde Mitchel. Foi uma corrida contra o relógio! Se perdêssemos a balsa do meio-dia pensávamos que só haveria outra às 16h. Pedalei no meu limite físico e técnico. Nas subidas sentia o coração bater na boca. Nas descidas sentia a bike tentar escapar de baixo de mim a cada curva. Faltando menos de 2 km para o atracadouro, em Puerto Yungay, um enorme trator com um braço mecânico roçava o mato na beira da estrada. Um funcionário em serviço bloqueava o trânsito vestido em colete amarelo. Ignorei seu aviso de parar e segui adiante. O motorista do trator desligou a cortadeira e gesticulou enraivecido com minha impaciência.
— Perdón! La balsa! — gritei enquanto passava por ele.
Fiz a descida final bem mais rápido do que o Wilfredo havia feito com a van dias atrás, o que já era bem rápido. Cheguei quando a balsa se aproximava para atracar, vinte minutos antes do horário do zarpe. Alex, Marcel e Fernando chegaram entre dez e quinze minutos depois de mim. Marcelo chegou faltando apenas quatro minutos pra balsa partir. Comemoramos a corrida como se fosse uma final Olímpica.
Vencido o braço de mar, desembarcamos em Puerto Río Bravo prontos para mais uma etapa. O trecho adiante seria fisicamente exigente. Subiríamos a serra escarpada que segue paralela ao rio Bravo, de cerca de 400 m de desnível vertical em menos de 20 km. Era um caminho bonito, paralelo ao cânion fundo, coberto de vegetação, escavado pelo rio. A novidade, que eu já havia notado quando passei por ali de van, era que havia lindos abrigos de troncos, equipados com mesas e bancos de piquenique. Casinhas rústicas e bem arejadas em locais de vista privilegiada, perfeitos pra ciclistas cansados. Dava até pra dormir nesses abrigos!
Acho que nosso sucesso na balsa nos deixou energizados. Subimos a serra sem parar, cada um no seu ritmo, só fizemos um intervalo, para reagrupamento, no último abrigo antes do topo. Depois da serra, o terreno fica plano, em leve declive, até chegar a Villa O’Higgins, 99 km depois de Puerto Río Bravo. Faltando pouco mais de 30 km para a vila, parei para esperar os companheiros na frente de uma casa nova, perto da margem do rio Bravo, com uma enorme bandeira do Chile num mastro e todas as luzes da varanda acessas.
Cheguei a cochilar à sombra de uma árvore, deitado na grama, enquanto esperava. Quando todos chegaram conversamos sobre onde passar a noite e decidi pedir informações na casa. Eu sabia que o rio estava bem próximo e um acampamento à beira d’água é sempre um prazer. A possibilidade de banho é sempre tentadora em expedições como essa.
O cara que me atendeu trabalhava como capataz para Andrónico Luksic, o homem mais rico do Chile, dono do Banco do Chile, da maior cervejaria do país, de minas de cobre e mais um monte de negócios. Luksic, ou Don Andrónico, como ele é conhecido na região de Villa O’Higgins, é dono de mais de 45 mil hectares de terra na área. Sua propriedade não para de crescer com doações suspeitas de terras fiscais, entregues pelo governo federal de seu amigo, o também bilionário e ex-presidente da república, Sebastián Piñera. Coincidentemente, Wilfredo havia feito um trabalho para Luksic, a serviço de um arquiteto, mapeando todas as construções em seu latifúndio.
— Don Andrónico tem mais de quarenta construções, entre casas e galpões — contou Wilfredo enquanto estive hospedado em seu trailer, em Coyhaique. — Ele tem mais de 100 km de trilhas pra quadriciclos impecavelmente mantidas por sua enorme equipe de trabalhadores.
Uma das últimas controvérsias envolvendo o magnata no extremo sul foi o aparecimento, mal explicado, de um “moai” da Ilha de Páscoa, uma estátua do dorso de um gigante de nariz afilado que só existe nessa ilha chilena. Luksic, através de sua assessoria de imprensa, afirmou trata-se de uma réplica.
— A estátua é estranha — explicou Wilfredo — quando batemos nela com alguma coisa ela soa como se fosse oca, vazia por dentro.
Essa impressão de ser oca foi relatada pelos primeiros descobridores da Ilha de Páscoa, desde 1722. A hipótese de cada estátua ser um mausoléu, um tipo de caixão de defunto com algum morto importante dentro, foi debatida por séculos. A retirada de tesouros arqueológicos é crime no Chile.
Jorge e Natália, o casal de argentinos residentes na luxuosa cabana de Luksic a caminho de Villa O’Higgins, acabou nos convidando a acampar na propriedade, ao lado de um barracão usado para abrigar os peões. Jorge estava sedento de companhia, queria prosear. Sua generosidade parecia não ter limites. Ele e a esposa pegaram todas nossas roupas sujas e jogaram na máquina de lavar roupas, fritaram ovos caseiros para nosso jantar, assaram pães para nosso café da manhã, permitiram que nos banhássemos no rio Bravo, recarregaram nossos celulares e powerbanks com sua aparente infinita eletricidade.
— Eu tenho um telefone satelital — informou o caseiro — e os créditos de minutos mensais vão expirar sem uso. Podem ligar para suas famílias se quiserem! Fiquem à vontade!
A Patagônia é um verdadeiro ímã de bilionários. Alguns, como Luksic, são chilenos, mas a maioria é de estrangeiros. Nomes como a família italiana Benetton, o estadunidense dono do canal CNN Ted Turner e o filantropo, fundador da marca The North Face, Douglas Tompkins, são os mais famosos. Aristocratas contemporâneos que adquiriram latifúndios numa região historicamente famosa por vastas propriedades particulares. Tompkins doou tudo o que comprou pra criação de parques nacionais. Luksic aparenta ter intensões preservacionistas também, mas seus herdeiros talvez não tenham. Penso que a Patagônia carrega o estigma, desde a Guerra Fria, quando o medo de uma conflagração atômica era palpável, de ser um dos únicos lugares do planeta que sobreviveria à hecatombe nuclear. A Patagônia é um sinônimo de seguro absoluto de vida. Um planeta reserva para os mais abastados.
Pedalamos 40 km nesse dia, com 648 m subidos e 345 m descidos. Dormimos como príncipes, hóspedes de um dos homens mais ricos do mundo.
Mais dois dias, de respectivamente 49 km e 31 km, com 1.331 m subidos e 1.153 m descidos no total, nos levaram até Villa O’Higgins. No segundo dia pegamos a única chuva a nos afligir. Começou como chuvisco, desses que parece não molhar. Achei que dava pra ficar sem jaqueta e calça de chuva, mas terminei ensopado. Quando cheguei numa área chamada El Parrillal, tremendo de frio, onde eu sabia que havia casas, parei pra esperar meus companheiros e um senhor que passava de carro parou.
— Essa cabana de tábuas na beira da estrada é um abrigo público — informou ele. — Vá se abrigar lá. Pegue lenha e faça fogo.
Eu devia estar com cara de quem morreria de hipotermia a qualquer instante.
Decoramos a velha cabana com varais com nossas roupas molhadas e ainda cheirando a alfazema, graças à gentileza de Jorge e Natália. Fiz fogo e me arrependi. O barraco encheu de fumaça. Havia uma latrina atrás da casa que atenderia às nossas necessidades fisiológicas, um teto pra nos abrigar da chuva, paredes com grandes frestas que seguravam a maior parte do vento e bancos de madeira onde sentar pra comer e, no meu caso, também para dormir.
Saber aproveitar dos confortos que aparecem no caminho é uma técnica importante em expedições. Ser autossuficiente não implica em passar mal ou negar gentilezas. O segredo é não esperar conforto algum e saber apreciá-lo quando ele aparece.
Mudança de planos, de novo!
Villa O’Higgins parece cenário de filme de faroeste. Só falta as bolas de mato seco rolando com o vento. E o vento soprava forte. Forte demais!
A capitania dos portos, administrada pelos Carabineros de Chile, que mantém uma base em Bahia Bahamondez, de onde partem os barcos até Candelario Mansilla, determinou a imediata interrupção da navegação. O vento ultrapassava a velocidade máxima dos protocolos de segurança. Nossa ida até Candelario estava seriamente ameaçada.
Passamos dois dias esperando melhoras nas condições climáticas, que não aconteceram. Sugeri, como Plano B, pedalarmos até o lago Christie, uma das extremidades da Ruta de los Pioneros e palco da minha mais recente desventura, narrada no texto RUTA DE LOS PIONEROS 2022. Graças a uma dica do Martin, o funcionário tcheco gente boa do hostel El Mosco, onde estávamos hospedados, descobri que havia uma trilha de aproximadamente 9 km que saía dos fundos da vila e conectava com a estrada até o lago Christie. Um caminho novo para mim. Bingo!
Essa trilha, usada pelos mountain bikers de Villa O’Higgins, foi uma baita surpresa. Quase toda em singletrack, serpenteando bosques sombreados e cruzando riachos cristalinos, ela nos levou morro acima e morro abaixo até próximo ao coração da propriedade de Don Andrónico, Las Margaritas, onde ele tem sua mansão — e o moai. Para mim foi diversão pura, para o Marcelo, que nunca tinha pedalado em terreno assim, foi duro. Todo o tempo eu pensava que o terreno era perfeito pra acidentes e questionava a decisão de pedalar por uma trilha tão técnica numa expedição. Ralei as canelas, bati o dedão da mão esquerda numa pedra depois de uma queda, bati forte o aro da roda dianteira numa pedra semienterrada. Enfim, coisas do mountain bike. Por sorte, ninguém se machucou e nenhuma bike foi danificada.
Pouco depois desse singletrack invadimos as terras de Luksic pra montar acampamento num trecho da sua malha de mais de 100 km de trilhas para quadriciclos. Tive a impressão que meus companheiros não aprovaram a decisão, cada um talvez por um motivo diferente. Alex, por ser estadunidense, demonstrou preocupação com a invasão de propriedade privada. No país dele isso justificaria resposta armada do proprietário. Os demais não gostaram talvez do local de acampamento, espremido entre a vegetação, com alguns pernilongos e um riacho minúsculo vizinho. Mas o verdadeiro motivo para o descontentamento geral era outro, que entendi mais tarde. Como já era tarde e estávamos cansados, permanecemos ali. O singletrack tinha exigido muito de nós. Pedalamos apenas 27 km nesse dia, com 423 m subidos e 357 m descidos, mas estávamos moídos.
A noite seguinte, passamos bivacados no abrigo de tábuas do porto em lago Christie, depois de 43 km de pedal, com 840 m subidos e 663 m descidos. Alex e Marcel preferiram montar as barracas na margem do lago. Tem gente que preza mais a privacidade do que a praticidade de não precisar montar e desmontar acampamento. Eu entendo e respeito isso. Dizem as más línguas que eles fugiram do quarto coletivo por conta do meu ronco, mas isso é intriga da oposição! Nunca me ouvi roncar! Mas a privacidade também pode ajudar a preservar o sono, o que o tempo em expedição também resolve. Depois de algumas noites mal dormidas, o corpo se acostuma e passamos a dormir como pedras… Em expedições aprendemos a identificar nossas necessidades, nossos gostos e nossas manias. O aventureiro cresce na medida em que consegue ser menos escravo de seus desejos, mais flexível com a situação que aparece, menos ansioso e menos exigente. Mais importante ainda, pra mim, é alimentar a autossuficiência. Quanto melhor cada um cuidar de si mesmo, mais tempo e energia sobram pra cuidar dos demais. Esse deve ser o objetivo.
Voltamos do lago Christie a Villa O’Higgins em dois dias, com um acampamento num bosque à margem do rio Bagual. Montamos as barracas entre árvores grandes e muita lenha cortada. Essa propriedade, que Luksic ainda não conseguiu comprar, está incrustada no latifúndio do bilionário. Depois de instalados, o dono das terras apareceu pra derrubar uma árvore. Ele dirigia um carro todo enferrujado, sem portas, com a carroceria cortada para virar uma picape. Não dava nem pra dizer que marca ou modelo era o veículo. Fui me apresentar ao gaucho e pedir permissão, tardia, pra usar suas terras.
— Apenas não façam fogueira — foi seu único comentário. Algo que ouço regularmente nessas ocasiões.
— Por supuesto, sin fogatas! — sempre respondo.
Perguntei quem eram seus vizinhos, só pra ver a reação do camponês humilde.
— Gente de plata — respondeu ele, roçando indicador e polegar no gesto típico.
— Quien?
— Luksic.
— Ah, mucha plata!
Ele sorriu, como quem diz: “você nem imagina”.
Nesse primeiro dia de retorno pedalamos 39 km, com 622 m subidos e 722 m descidos. No segundo, mais curto, fizemos apenas 15 km, com 121 m de subidas e 280 m de descidas. A razão desse dia tão curto foi pra economizarmos o dinheiro das pernoites em Villa O’Higgins, além de esticar por mais uma noite os prazeres de acampamentos e banhos de rio. Completamos, assim, dez dias de bikepacking, com 397 km totais pedalados, 5.538 m acumulados de subidas e 5.236 m acumulados de descidas. Mas tínhamos ainda um dia livre nas mãos…
Ciclistas também caminham
A primeira vez que fui à Patagônia foi em 2002. De lá pra cá, nesses vinte anos, fui quase todos os anos ao extremo sul das Américas. Durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, quando passei seis meses pedalando e caminhando sozinho por toda a extensão norte-sul e sul-norte da Patagônia e da Terra do Fogo, no Chile e na Argentina, tentei conectar numa única travessia tudo o que eu mais gostava e visitar tudo o que eu queria conhecer. Obviamente, não vi tudo, não fiz tudo.
Tenho muitas “pendências” na região. Em Villa O’Higgins, por exemplo, nunca tinha visitado a geleira El Mosco, que empresta o nome ao hostel onde sempre me hospedo, desde 2009, quando estive na vila pela primeira vez. Finalmente havia chegado a hora de riscar essa pendência.
Novamente, Martin foi fundamental. Ele havia feito esse longo trekking uma vez e lembrava de cada detalhe. A caminhada começou bem cedo de manhã, antes mesmo da portaria do parque municipal abrir. Escrevemos nossos nomes no livro de visitantes, abertos na varanda da recepção, e começamos a subir a montanha em direção ao mirante. Subida íngreme, premiada com uma bela vista de toda a vila, da foz do Rio Mayer e da extremidade do canal do lago O’Higgins. As montanhas ao fundo eram verdes e nevadas ao mesmo tempo.
Trilhas bem marcadas, bem sinalizadas, mas nem sempre bem conservadas, nos levaram por cerca de duas horas e meia até um velho refúgio no fundo do bosque, passando antes por um terraço natural alto, com vista espetacular. A cabana de tábuas tinha estilo, era bonita, mas estava gasta, podre e coberta de musgos. Conseguimos abrir a porta trancada e fiquei feliz por não precisar dormir lá dentro.
Mais trilhas, inclusive com árvores servindo de pontes sobre riachos fundos em erosões naturais, nos levaram às margens do rio El Mosco, que nasce da geleira homônima. Esse próximo trecho da caminhada seguiu por cerca de uma hora pelos pedregulhos do rio, sem precisar cruzá-lo. Por ser um rio de degelo, seu desenho pode variar muito de um ano para outro, dependendo das condições climáticas. Vimos um bosque inteiro alagado e afogado pelas águas, com troncos e galhos secos como se fossem o resultado de alguma hecatombe. A vegetação das margens era densa, fechada, quase tropical. Os bosques úmidos da Patagônia podem ser intransponíveis.
Depois de uma curva do rio pude entender o final da caminhada. A geleira era visível no topo da montanha e havia um morro alto e incrivelmente verde, de vegetação cerrada, que cobria a visão total do gelo. Calculei que subiríamos esse morro íngreme. Wilfredo estava conosco e comentei com ele:
— Se tivermos que subir aquilo não será fácil…
— Nada fácil — retrucou o gaucho entre dentes.
Realmente, o caminho, esporadicamente marcado por tinta vermelha em plaquinhas nas árvores, nos levou diretamente ao pé desse morro. Daí em diante foi mais escalaminhada do que trekking. Fernando e eu fomos na frente. Quando encontrávamos uma dessas plaquinhas de sinalização, um de nós ficava junto dela e o outro se deslocava na direção que achava correta até enxergar a próxima marca. Assim mantínhamos a referência da origem no emaranhado de vegetação, que nem sempre permitia que nos deslocássemos em linha reta. Era lento, mas funcionava. O terreno ficou cada vez mais íngreme. Muitas vezes tivemos que nos agarrar a raízes, arbustos, troncos de árvores ou pedras pra conseguir subir mais um metro. Espinhos, solo instável, pedras soltas e degraus altos formavam alguns dos obstáculos. O cume parecia não chegar nunca. Ficamos mais de duas horas, quase três, nessa escalada verde.
Uma vez no topo ficamos cara a cara com a geleira El Mosco. Ela não é das maiores, aliás, imagino que não deva durar muito, já que a quantidade de gelo diminui rapidamente devido ao aquecimento global. Demoramos mais de cinco horas para chegar ali naquele platô isolado, cansados, suados e contentes. Fizemos uma pausa pra comer e acho que todos cochilamos quinze minutos, exaustos. Hora de descer pelo menos caminho.
Quando chegamos novamente no rio El Mosco, Fernando resolveu tomar banho. A água vinha direto da geleira e o cara se banhou como se estivesse no Rio de Janeiro! Naquele momento entendi que ele havia se banhado em todos os rios e lagos do caminho, sem exceção!
— Un loco! — Foi tudo o que Wilfredo conseguiu dizer.
Passamos doze horas em ação, com apenas uma hora de descanso. Quando retornamos à vila a portaria do parque estava novamente fechada, fim do expediente. Entramos e saímos sem ver ninguém. Uma das minhas pendências patagônicas estava ticada, mas a lista segue enorme…
Balanço geral
A frustração do meu fracasso pessoal na RUTA DE LOS PIONEROS foi totalmente apagada pelo sucesso, também pessoal, nessa expedição de bikepacking. Friso o “pessoal” porque nessas expedições didáticas que organizo sou também um participante antes de instrutor. Divido o trabalho e as despesas com todos, sofro os desconfortos e festejo as conquistas. Faço questão de discutir democraticamente todas as decisões com o grupo e acato o voto da maioria — com exceção, é claro, em situações de julgo emergenciais, quando tenho que decidir rápido pelo bem-estar do grupo.
Senti que a experiência atingiu plenamente o objetivo de oferecer uma vivência prática da realidade de uma expedição de bikepacking. Viajamos de forma autossuficiente, acampamos ou bivacamos onde dava, nos deslocamos respeitando a força e a disposição do grupo, mudamos itinerário e até modo de deslocamento — ciclistas também caminham — quando a realidade assim exigiu. Todo o tempo permanecemos unidos como grupo.
Quando tivemos que desistir da exploração de Candelario Mansilla, por conta do vento e do fechamento do porto em Bahia Bahamondez, senti que houve uma queda forte no ânimo geral. Aliás, essa foi a principal razão subjetiva por trás do mal-estar coletivo no acampamento clandestino nas terras de Don Andrónico. Não havia nada de errado com o local, mas estávamos frustrados. Entender como frustrações, que são constantes em aventura, afetam nossa capacidade de julgamento, nosso humor e a interação com os companheiros é parte fundamental da dinâmica de expedições. Expectativas não realizadas geram frustrações, isso é normal. Cabe a cada um de nós não cair na armadilha do abatimento. Toda empreitada pode ter um final bem sucedido ou mal sucedido, mas o sucesso, de verdade, está em valorizar a empreitada e não seu resultado.
Parabéns aos companheiros pelo esforço, sempre acompanhado de sorrisos. Esse é o espírito!
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Marcelo:[/highlight]
Guilherme nos pediu para contribuirmos com o texto que ele escreveu sobre a expedição PATAGÔNIA BIKEPACKING 2022.
Escrever algo para alguém que ganha a vida fazendo isso e faz isso muito bem sem dúvida é um desafio, mas desafio é o que melhor descreve o que passei para realizar a expedição. Porque não acrescentar mais este a lista?
Participar de uma viagem de bike pela Patagônia foi um sonho que começou em 2016 quando resolvi trocar um celular velho por uma bicicleta. Naquela época minhas intenções eram muito modestas e eu só queria dar umas voltinhas de bike, mas como quem pedala sabe muito bem, depois que você começa a pedalar é difícil “largar o vício”.
No final daquele ano comprei uma revista que trazia uma reportagem sobre locais para pedalar no Chile e pela primeira vez ouvi falar no aventureiro profissional Guilherme Cavallari e na sua experiência relatada no livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Imediatamente li seu livro e fiquei sonhando com a chance de um dia realizar uma viagem como esta.
O tempo passou, mas o desejo não e em meados de 2021 o Instagram me sugeriu o Guilherme para seguir. E para minha surpresa e alegria fiquei sabendo de suas expedições didáticas.
Era minha chance!
Pedi autorização de quem manda (minha esposa) e me inscrevi.
Foram 6 meses de grandes emoções. O processo de organização é mais complicado do que a expedição em si. Aceitação da família foi difícil, pois nunca havia ficado 3 semanas longe. Minha filha de 9 anos ao ouvir que eu passaria 3 semanas fora calculou quantas horas seriam: “504 horas papai é muito tempo, eu vou ficar com saudades… Você não vai!” Foi categórica com os olhinhos cheios de lágrimas. Além disso, tinha a questão dos custos, tempo, burocracias, preparação física e mental.
Quando estas dificuldades pesavam eu relia o roteiro planejado pelo Guilherme para a expedição: aventura, região isolada, autossuficiente, acampamento selvagem, aprender técnicas, expandir limites físicos, natureza,… Não precisava mais nada, a adrenalina subia e eu tinha certeza que valeria cada sacrifício!
E assim foi! Espetacular!
Nos primeiros dias o desafio foi mais psicológico do que físico. Pedalo com regularidade e as distâncias e altimetrias acumuladas não eram novidade para mim, mas eu nunca havia feito isso com a bike pesando mais de 25 kg devido a todo equipamento e comida que carregávamos. Isso me fazia questionar se estava à altura do desafio.
Quando a mente se acalmou o desafio físico chegou. Calor nos primeiros dias e um princípio de desidratação, montanha e contrarrelógio para não perder o ferry, mais montanha desta vez com chuva e frio e, como não poderia faltar, o famoso vento patagônico. O singletrack de bike foi particularmente duro, em 9 km acho que carreguei mais a bike do que ela me carregou. E, para coroar tudo isso, o treking até ao mirante El Mosco foi extenuante. Ou seja, pacote completo!
Mas tudo isso era esperado e não decepcionou. Quem gosta de pedalar vê isso com bons olhos. Ou como diria o companheiro na aventura Marcel: “é mountain bike, caralho!!!”
E o que falar da parceria?! Não poderia ser melhor! Dois paulistas (Guilherme e Marcel), um mineiro (Fernando), um americano (Alex, Gringuito para os íntimos) e um gaúcho (eu). Cada um com sua história distinta, profissões e idades diferentes, mas unidos por uma mesma paixão. Paixão por passar trabalho, sofrer em cima da bike, sair da rotina e se aventurar. Minha filha definiu bem esse grupo: “papai só quer saber de pedalar com os esquisitos!” Ela estava imitando a minha esposa que havia dito que eu ia pedalar com pessoas estranhas, que eu não conhecia. Então estranho virou esquisito e nos definiu melhor na minha opinião! Nossa escolha de férias e diversão certamente é esquisita para a maioria das pessoas, mas para nós não poderia ser melhor. Obrigado pela parceria e companheirismo seus “esquisitos”. Foi um privilégio dividir estes momentos com vocês.
E, por fim, mas não menos importante, a Patagonia! O lugar de beleza natural mais incrível que tive a oportunidade de conhecer, com suas montanhas nevadas, vales e rios das mais variadas cores. Um destino obrigatório para quem gosta de natureza.
Ficam os aprendizados que nos enriquecem, saudades de toda a experiência e a vontade de ir novamente.
Agradecimentos a todos que me acompanharam e apoiaram, em especial à minha família e amigos.
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Alex:[/highlight]
Fica difícil contribuir mais um texto para adicionar aqui sobre a viagem, pois o Guilherme contou muito bem a nossa aventura e também o Marcelo. Também tenho a sensação que as minhas palavras “won’t do the adventure justice” como escreve em inglés… mesmo assim, vou tentar.
Viajar para a Patagônia era um sonho meu desde 15 anos de idade. Foi o primeiro lugar fora dos EUA que eu tinha sonho de visitar. Mais que 10 anos depois, realizei esse sonho em um jeito ainda melhor que imaginava, tudo graças o Guilherme e esse grupo de pessoas. Mais que 2 anos atrás, fiquei sabendo do mundo de “bikepacking” e comecei ler e estudar e sonhar sobre uma viagem de bicicleta pelo mundo, levando tudo que precisaria comigo. Fique sabendo do trabalho do Guilherme por um dono de uma pousada no interior de Minas que virou amigo. Ele passou o contato do Guilherme para mim e entrei em contato depois de ver todas as expedições que ele ofereceu e continua oferecendo.
Pensei que a minha chance de fazer uma viagem assim chegou. Pois isso era no comecou da pandemia em 2020 e Guilherme me contou que provavelmente não ia acontecer aquele ano. Eu nem tive uma bicicleta nesse tempo, mas falei para ele que pode contar comigo que quando abrir a fronteira, faço tudo que preciso para ficar pronto.
Como Marcelo mencionou em cima, acho também a parte mais difícil da viagem foi de organizar todo o equipamento e entender como que a gente vai levar tudo. A minha namorada também achou estranho que eu ia fazer uma viagem assim com pessoas que eu nunca conhecia. Eu pensei o oposto… se essas pessoas querem fazer uma viagem assim na natureza, em um lugar isolado com muita aventura, acho que vou virar bem amigos com todos!
No mesmo tempo de cada pessoa no grupo ser bem diferente, compartilhamos uma coisa bem importante: valorizamos aventura em todo sentido da palavra.
Sou muito grato pela experiência que o Guilherme organizou, compartilhando seu conhecimento da Patâgonia e de viajar de bicicleta… e também sou muito grato pelas cuatro amizades novas que eu tenho. Uma parceria bacana mesmo. Todo dia cheio de risadas. Boa memórias para contar no futuro. Sempre vou levar essa experiência como uma das melhores da minha vida. Obrigado todos por aceitar esse “gringuito” no seu grupo. “É nois!”
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Fernando:[/highlight]
Conheci a Patagônia no outono de 2019. Tanto do lado Argentino, turistando em El Calafate e percorrendo trilhas em El Chalten, quanto do lado Chileno, de Torres del Paine a Punta Arenas. Foi amor à primeira vista. Quando voltávamos, comentei com a minha esposa Daniela: “Esse lugar não dá para vir uma vez só não. Vou voltar.” A Patagonia é um dos lugares mais lindos do planeta terra. Confim do universo, que só estando lá para sentir a energia natural daquele lugar.
Ao chegar em BH, fui pesquisar literatura sobre a Patagônia e achei o TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS. Como adoro literatura de aventura, não pensei duas vezes em comprar. À medida que ia lendo o livro, não acreditava o tanto que encaixava exatamente nas minhas expectativas: muita história, filosofia, técnicas de viagem, equipamentos e descrições realistas das paisagens. Levava o livro para todos os lugares.
Quando terminei de ler, tive um mix de sentimentos. Fiquei extremamente feliz e doido para fazer algo semelhante, mas ao mesmo tempo, frustrado por não ter perspectivas de fazê-lo.
Foi aí que, ao pesquisar mais o REFÚGIO KALAPALO e tudo que é oferecido, vi que o Guilherme ofertava cursos variados e organizava expedições. Quando encontrei uma expedição de bike pela Patagônia, em tempo suficiente que eu poderia planejar, meu foco passou a ser somente esse: Vou pedalar pela Patagônia.
Comecei a fazer alguns Bikepackings pelas Minas Gerais, sempre me preparando pelas dicas e informações disponibilizadas no site do REFÚGIO KALAPALO. Lá você encontra listas de equipamentos completos para Bikepacking, além de vários textos sobre as viagens já realizadas pelo Guilherme. Me inscrevi no CURSO DE BIKEPACKING ofertado por ele em setembro de 2021. Então, pude conhecer o Guilherme pessoalmente e aprender muito sobre o universo Bikepacking. Foi excelente. No final do curso expressei minha vontade de fazer a expedição e o Guilherme, muito gentilmente, disse que eu precisava de poucos ajustes, mas que sim, estaria apto a realizar a expedição.
Eu tinha vários medos: se ia faltar alguma coisa, se eu daria conta, se eu ia atrasar o grupo, se ia passar fome, se a bike ia ficar muito pesada, se sentiria muito frio. Medos proporcionados pela vida cotidiana em que qualquer coisa que nos tira da zona de conforto, gera preocupação. O compromisso com o sucesso que a vida cotidiana nos leva, acaba refletindo em tudo e gera uma angústia. Porém, aprendi com o Guilherme que o compromisso tem que ser com a aventura. A aventura na natureza não tem receita de sucesso, não é um pacote de viagem “CVC”, é um caminho em aberto, que é traçado todo dia, por inúmeras variáveis.
E assim embarquei nessa aventura engrandecedora relatada nesse ótimo texto do Guilherme. Foi uma sucessão de acontecimentos, e todos no fio da navalha, o que gerou em mim uma gama de sentimentos únicos, que até hoje me pego dizendo: Que loucura! A preparação psicológica, física e de equipamentos, até os trâmites migratórios burocráticos, as diversidades do clima, as mudanças de rota, os horários das balsas, a diferença cultural, as pessoas que encontramos no caminho, tudo isso me proporcionou enorme aprendizado que vou levar por toda a vida.
Agradeço muito ao Guilherme pelo apoio e consultoria prévia a viagem, seja no auxílio na compra dos equipamentos e nas diversas dúvidas existentes, seja durante a expedição: compartilhando os ensinamentos com paciência. Agradeço também a Adriana, esposa do Guilherme, que nos ajudou a desembolar a burocracia sistêmica chilena.
Sobre os companheiros de aventura, como eu havia dito: “Camarada que topa fazer um “trem” desse, não tem erro não. É gente fina”. Valeu demais Marcel (Paulista), Marcelo (Gaúcho) e Alex (Gringuito). Acho que não poderia ter melhores companheiros.
Se eu faria tudo de novo? Não vejo a hora…




























































Fantástico tudo isso! Parabéns a todos vocês pela coragem. E em especial ao meu amigo Marcelo, que se manteve firme e organizado para realizar este sonho de vida.
Sou amigo do Fernando, tb cicloturista há anos e acabei de ler o relato. Sensacional, muito bem escrito e completo. Inspirador saber sua atitude de deixar cada um no seu ritmo. Tb já aprendi mt na marra a “pedalar bem” o psicológico tb, de segurar a onda nos perrengues. E legal saber q até os profis passam perrengues e precisam mudar a rota! heheh. Pedalar só com gente madura e treinada deve ser outra coisa. Q glória q nada grave aconteceu e Nandin resolveu a burrocracia a tempo!
E aí, Flip, vamos pra lá no próximo verão?
Gostaria de questionar alguns detalhes sobre a bike:
1 – Qual a medida de pneu sugerida para este tipo de viagem, 2,25; 2,5?
2 – Como vi que vocês foram de MTB 29″, o que é melhor para a viagem, garfo com ou sem suspensão?
3 – Entre a MTB e a Gravel, ainda a MTB é melhor para um bom bikepacking?