Um cenário confuso
A definição de aventura, segundo os dicionários, é: “empresa de desfecho incerto, que incorre em risco, em perigo”. Ou seja, aventura é começar algo sem saber como vai terminar. Quanto mais garantias e certezas, menos aventura.
Programar, organizar e executar viagens de aventura em estilo expedição, onde o coletivo, o minimalismo e a autossuficiência são os principais ingredientes, evolve lidar com uma infinidade de incertezas, riscos e perigos. Fazer isso durante uma pandemia só piora a situação. Além das questões básicas sobre clima, terreno, fauna, flora, habilidades e deficiências de cada integrante, qualidade e quantidade de equipamento, organizar a alimentação, disponibilidade de água, solucionar questões de logística pra chegar e sair da trilha, é preciso ainda levar em conta riscos de contágio, planos de ação em caso de doença e conhecer toda a burocracia exigida pra viagens em tempos de crise sanitária. Se fosse fácil não seria expedição, não seria aventura.
Pandemias não terminam. Elas se transformam em endemias. Gradualmente, a doença fica menos letal ou é controlada por vacinas e tratamentos médicos até ingressar na enorme lista de enfermidades com as quais convivemos sem maiores traumas. Foi assim com a peste bubônica, a tuberculose, a varíola e a AIDS, para citar alguns exemplos. Será assim com a covid-19 também. Em suas diferentes fases, pandemias demandam diferentes atitudes, seja de governos ou dos cidadãos. Com o avanço da vacinação no Brasil, que resultou na imediata e vertiginosa queda no número de internações hospitalares e de óbitos causados pela covid-19, apesar de toda desinformação dos negacionistas, viajar voltou a ser uma possibilidade em 2022. Somado a isso, o Chile foi extremamente rigoroso em seus protocolos anticovid. Lockdowns nacionais e regionais foram e ainda são a regra, a vacinação sempre foi prioridade, o controle de circulação das pessoas é impiedoso e as fronteiras internacionais ficaram fechadas por mais de um ano. Quando finalmente foram abertas, os estrangeiros que desejavam entrar no Chile foram obrigados a passar por uma longa série de medidas duras de controle. Para viajantes conscientes, o Chile é um destino responsável.
Depois de quase dois anos convivendo no Brasil com insegurança, desinformação, sabotagem às vacinas, politização das medidas sanitárias de proteção da população e uma enorme confusão institucionalizada entre o que são direitos e o que são deveres individuais, nós brasileiros bem informados pudemos enfim programar viagens com maior ou menor risco de contágio por covid. Fazer aventura na Patagônia chilena é bem mais seguro, por exemplo, do que viajar a Nova Iorque ou Miami pra fazer compras. As chances de contaminação pra quem caminha ou pedala em contato com a natureza, acampa selvagem na companhia de um pequeno grupo, sempre ao ar livre, são quase zero. Enfim, a luz no fim do túnel.
No final de julho de 2021, depois que tomamos as primeiras doses da vacina, Adriana e eu decidimos retomar os cursos, treinamentos e as tradicionais expedições didáticas de aventura que organizamos na Patagônia e na Terra do Fogo no verão austral. Construí uma latrina seca nos fundos de casa e reabrimos nossa escola de aventura — o REFÚGIO KALAPALO — como um camping. Os alunos do CURSO DE TREKKING e do CURSO DE BIKEPACKING ficaram hospedados em barracas durante os treinamentos. Reduzimos ainda em 50% o número de vagas, obrigamos o uso constante de máscaras e as aulas teóricas passaram a acontecer em local aberto e bem ventilado. Nosso PROTOCOLO ANTICOVID recebeu inúmeros elogios, tanto pela eficiência quanto pela postura e pelo bom humor.
Realizamos uma sequência de onze cursos em menos de cinco meses, do fim de julho ao começo de dezembro, numa verdadeira maratona outdoor digna de corridas de aventura. Normalmente, oferecemos esse mesmo número de eventos ao longo de um ano de trabalho. As turmas lotaram rapidamente e os alunos pareciam mais entusiasmados do que o normal. Sentimos que havia uma maior demanda por experiências reais de contato com a natureza, mais interesse por exemplos práticos de vida simples e uma busca visceral por qualidade de vida. Efeitos óbvios da pandemia.
Os alunos mais empolgados, melhor preparados e com maior disponibilidade de tempo e de dinheiro se candidataram para as duas expedições didáticas programadas para o verão de 2022. Decidi refazer, no sentido inverso ao realizado anteriormente, o roteiro RUTA DE LOS PIONEROS, que fiz pela primeira vez em janeiro de 2020, imediatamente antes do começo da pandemia no Brasil. Programei também uma ousada expedição de bikepacking, de Cochrane, pelo trecho sul da Carretera Austral chilena, até El Calafate, no pampa argentino.
Os candidatos aprovados foram rigorosamente avaliados. Alguns eram alunos dos nossos cursos, alguns já haviam realizado expedições conosco, outros tinham experiência, capacidade física, perfil psicológico e equipamento que permitiram sua inclusão no programa sem que eu os conhecesse pessoalmente. Muitos não foram aprovados. De todos os critérios de avaliação que uso, um dos mais importantes é o entendimento por parte do candidato de que não organizo passeios, não trabalho como guia ou como agência de turismo de aventura, ofereço desafios em contato com a natureza em estilo expedição. Autossuficiência, minimalismo e comprometimento com o esforço e não com o sucesso são os principais alicerces da empreitada. Por ser uma atividade de aventura, o fim é necessariamente incerto.
Um passo por vez
Os integrantes da expedição de trekking RUTA DE LOS PIONEROS 2022 ficou definida assim:
Iuri Veloso Oliveira Figueiredo, 27 anos, advogado, residente de Ouro Preto (MG), fez nosso CURSO DE TREKKING em julho de 2021.
Bernadette Maria Panek, 63 anos, professora universitária, residente de Curitiba (PR), praticante de montanhismo, já subiu o Kilimanjaro e montanhas nos Andes bolivianos.
Geovânnio de Souza Leite, 46 anos, empresário do ramo de transportes, residente de Pimenta Bueno (RO), já tinha feito trekking no Monte Roraima, Serra Fina, Itatiaia e o Caminho do Sol.
Roberto Machado Carneiro da Silva, 55 anos, veterinário, produtor de leite, residente em Macaé (RJ), fez nosso CURSO DE TREKKING em agosto de 2016 e participou da expedição RUTA DE LOS PIONEROS 2020.
Justino Pereira, 56 anos, jornalista, residente em Guarulhos (SP), fez nosso CURSO DE TREKKING em agosto de 2016 e participou da expedição PARQUE PATAGÔNIA em janeiro de 2018.
Eduardo Ramos Duarte, 69 anos, engenheiro civil, residente em Niterói (RJ), já havia feito montanhismo e travessias em trekking, incluindo Ponta da Juatinga, Pico do Itaguaré, Dentes de Navarino e Chapada Diamantina.
Na última hora um dos aprovados, Tarcísio Magevski Rodrigues, que já havia feito um treinamento de bikepacking de quatro dias conosco pela Serra da Mantiqueira, em 2019, abriu mão da última vaga por não ter conseguido agendar as férias nas datas da expedição. A vaga foi imediatamente tomada pelo próximo candidato aprovado na lista:
Claudecir Ricardo Biazoli, 36 anos, professor de física e pesquisador, residente em Valinhos (SP), praticante de corrida de aventura desde 2012, geralmente na categoria solo, com experiência em provas de 50 km, 100 km e 200 km. Lembro que quando o entrevistei, por vídeo-chamada, pensei: “porque esse cara quer participar de uma expedição comigo se ele poderia ir sozinho pra Patagônia?”
Uma troca que acabou sendo fundamental pra realização da travessia.
Enquanto isso, mudanças ocorriam no roteiro da expedição de bikepacking. As fronteiras terrestres chilenas foram abertas e rapidamente fechadas. Meus contatos no país foram categóricos:
— Esse verão as fronteiras terrestres não vão abrir!
A proposta, ousada, de pedalar de Cochrane até El Calafate teria que ser alterada por um roteiro totalmente chileno. Propus ao grupo, parcialmente definido, que pedalaríamos então pela Carretera Austral, de Cochrane a Villa O’Higgins, de onde tomaríamos um barco até Candelario Mansilla para tentarmos chegar o mais próximo possível, com nossas bikes, da geleira O’Higgins. Eu havia feito esse trecho, bastante selvagem, em trekking durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA. Eu sabia que essa rota não seria 100% possível em bikepacking e imaginava que parte dela poderia se transformar numa versão patagônia do meu documentário SERRA FINA, PERNA GROSSA. Minha teoria à esse respeito é: quanto maior o desafio, maior a recompensa. Mas essa história está contata em outro texto: PATAGÔNIA BIKEPACKING 2022.
Abri dois grupos no Whatsapp, um para cada expedição, e começamos a correr atrás da burocracia chilena que nos permitiria entrar no país. A quantidade de documentos pedidos era impressionante. Havia prazo para tudo. Primeiro, nossos documentos pessoais teriam que ser aprovados pelo governo do Chile, que também validaria as duas doses de vacinas tomadas, ambas com certificados internacionais. Sem vacina ninguém entra no Chile. Em seguida, tínhamos que contratar um seguro saúde para viagem com cobertura específica pra covid e fazer dois exames de PCR: um para sair do Brasil e outro na chegada ao Chile. O resultado do segundo exame poderia demorar até 48 horas para sair, prazo que teríamos que esperar, em quarentena, em nossos quartos de hotel em Santiago. Com o resultado negativo, receberíamos então o Pase Movilidad, que nos permitiria voar até a Patagônia. Esse pase também seria exigido em diversos estabelecimentos comerciais, em transportes públicos e pela polícia em controles aleatórios.
— Duvido que todos consigam participar dessas expedições — comentei com Adriana.
Eu tinha certeza que alguém testaria positivo depois das festas de Natal e Ano Novo, ou tropeçaria na burocracia, perderia algum prazo. Parecia impossível que tudo desse certo com tantas variantes e possibilidades de erro. Adriana, que de nós dois tem toda a paciência e toda a competência com a burocracia, assumiu a liderança nos grupos de WhatsApp pra ajudar quem precisasse. Ela trabalhou muito! Além de pesquisar e informar, ela montou tabelas e manuais ensinando passo a passo cada etapa do processo. Ao final, mesmo com tantos cuidados, minha previsão pessimista infelizmente se mostrou certa. Eu só não imaginava que a única vítima seria eu mesmo.

A Lei de Murphy
Segundo a Lei de Murphy, “qualquer coisa que pode dar errado, dará errado”. Não se trata de uma visão pessimista ou derrotista da vida, mas uma asserção baseada em estatística. Se a falha está estatisticamente prevista, ela ocorrerá mais cedo ou mais tarde. É só esperar.
Em 23 de novembro, cinco semanas antes da data da viagem, agendada para 1 de janeiro, recebi um e-mail oficial do órgão MeVacuno chileno dizendo que minha identidade e vacinas haviam sido corretamente apresentadas. A partir desse OK oficial, que todos receberam mais ou menos na mesma época, prosseguimos com a contratação do seguro viagem, confirmação de voos, reservas em hotéis e traslados terrestres. Havia um clima de tranquilidade entre nós.
Faltando 36 horas para meu voo, depois de mais de um mês do primeiro e-mail, recebi outro e-mail oficial, do mesmo órgão, dizendo que minha identidade e vacinas haviam sido recusadas. Era quinta-feira fim de tarde e meu voo partiria no sábado pela manhã. Tentei desesperadamente contato com o MeVacuno através de um número de telefone celular. Sem sucesso. O número gratuito 0800 só podia ser acessado por um telefone fixo, que não temos em casa por vivermos numa zona rural, inclusive sem sinal de telefonia celular. Fomos, Adriana e eu, cedo na manhã seguinte, sexta-feira, para Guarulhos, onde já havíamos reservado um quarto num hotel para chegar cedo ao aeroporto internacional de Cumbica no sábado.
Foi uma sexta-feira tensa. Do hotel ligamos uma dúzia de vezes para o MeVacuno e conseguimos falar com três atendentes e uma supervisora. Ninguém podia nos ajudar. Todos concordaram que o sistema havia falhado comigo, que não era justo, mas o sistema era inacessível, ainda mais numa sexta-feira véspera de Ano Novo.
— Com sorte, na terça-feira vocês vão conseguir resolver isso — concluiu a supervisora chilena, educada e irredutível. — Não há nada que eu possa fazer. Feliz Año!

Fui ao aeroporto dar a má notícia aos companheiros de aventura. Esperei na área de embarque até que Claudecir e Justino chegassem. Nós três iríamos no mesmo voo até Santiago.
Eu não conhecia o Claudecir e fiquei impressionado com sua atitude positiva.
— Eu vou fazer essa travessia nem que seja sozinho.
Junto com o discurso assertivo veio um conjunto de prints do mapa da trilha, em escala 1:50.000, com curvas de nível e já com a declinação magnética marcada e pronta para a navegação com bússola. No relógio GPS em seu pulso ele havia baixado também o tracklog da Ruta, o roteiro digitalizado. O cara estava pronto.
— Eu decorei seu relato dessa travessia! — informou ele.
Peguei o celular e gravei um áudio na página do grupo no WhatsApp. Expliquei que não conseguiria embarcar, que tentaria resolver o problema burocrático o quanto antes e que não pouparia esforços ou dinheiro pra tentar encontrar o grupo antes da data de início do trekking. Ao mesmo tempo, lancei um Plano B pra salvar a expedição: incentivei que eles se organizassem, com a minha ajuda, pra realizarem a caminhada por conta própria caso eu não chegasse a tempo.
— Vocês estão mais preparados do que imaginam. Estão treinados e bem equipados. O Claudecir é um navegador experiente e o Roberto já fez essa trilha comigo dois anos atrás. Acreditem na força do grupo!
Não era papo motivacional. Eu realmente acreditava que havia esse potencial no grupo. Somadas as habilidades individuais, se houvesse união e colaboração, a empreitada estava ao alcance do time. Obviamente, uma vozinha dentro de mim alertava para os riscos envolvidos, para a responsabilidade depositada em meus ombros, para o risco de acidentes e afins. Mas mesmo comigo na trilha acidentes podem acontecer e nem todo acidente permite resgate. Essas são realidades da aventura.
Foi tudo muito rápido. Abri minha bagagem e retirei tudo que achei que pudesse ser importante para o grupo: a panela de 2 litros, meu aparelho de GPS com vários tracklogs gravados da RUTA DE LOS PIONEROS, meu rastreador via satélite SPOT GEN-4, duas dúzias de pilhas, a corda de 30 metros que poderia ser útil no Paso la Picota, a bolsa com os temperos e apetrechos de cozinha, várias bolsas estanques grandes, um pilha de sacos plásticos zip-lock, a pazinha de jardinagem pra cavar latrinas, etc. Cada item de equipamento que saía da bagagem me deixava um pouco mais desnudo, mais vulnerável, mais exposto. Pensamentos relâmpagos iluminavam meu cérebro… “Se alguém se machucar ou morrer na trilha, sem mim, eu serei crucificado”… “Se a travessia for abortada antes de começar, toda a frustração e todo prejuízo vão cair no meu colo”… “Se o grupo conseguir realizar a travessia sem mim, minha presença poderá ser entendida como supérflua”… “Se eles conseguirem realizar isso por conta própria crescerão muito como aventureiros e como pessoas”.
Outros pensamentos, menos claros e menos estruturados, mais conceituais, tentavam criar contrapesos… “Meu trabalho é incentivar a inclusão da aventura na vida dos outros, pra isso escrevo livros e produzo filmes. Meu trabalho também é orientar e instruir, por isso ministro cursos e organizo essas expedições didáticas. Dificultar a iniciativa de alguém com o Claudecir, que está pronto pra fazer a travessia, criando obstáculos também que os demais tentem essa aventura com as habilidades que já possuem, é investir numa viagem egocêntrica e não coletiva, é colocar a mim mesmo num lugar de maior importância diante do grupo. Isso é o oposto da proposta do meu trabalho”… “Coloque o grupo em primeiro lugar”… “O GRUPO EM PRIMEIRO LUGAR!”
E o avião decolou sem mim.
Na confusão, a companhia aérea não deu baixa na minha passagem, apesar do meu pedido no guichê, e o atendente ainda indicou que eu deveria esperar até o avião pousar em Santiago para requerer a remarcação da passagem. Informação errada, atendimento errado. Ficou registrado “No Show”, que é quando o passageiro não se apresenta para o embarque, e perdi a passagem aérea, sem possibilidade de reembolso. A companhia aérea Sky nesse caso me roubou.
Uma semana de 30 dias
Passamos a semana seguinte refazendo insistentemente meus registros no MeVacuno. Chegamos a fazer três cadastros diferentes no sistema chileno, cada um com um usuário e uma senha diferentes, alterando apenas a posição de gravação dos documentos, escrevendo longos avisos anexados à fotos, tentando contatos telefônicos.
Minha análise do ocorrido, a razão por trás do cancelamento em cima da hora dos meus documentos pessoais e vacinas, foi que os chilenos viram uma incompatibilidade nos documentos apresentados. O número de registro nas vacinas no Brasil usa o CPF e não o RG ou o passaporte. No Chile só existe um documento pessoal oficial: RUT. No Brasil nós temos RG, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho, certificado de reservista, carteira de motorista, carteirinha do SUS e passaporte, pra citar apenas os mais conhecidos. Falha nossa. Mas um sistema de avaliação e validação de documentação de estrangeiros deveria levar em conta as peculiaridades de outros países. O MeVacuno parecia ser um sistema de controle criado para uso interno e nacional, mal adaptado para o uso de estrangeiros.
Em nenhum momento, no entanto, me posicionei contra o controle de entrada no Chile. Muito pelo contrário. A seriedade com que o país tratou a pandemia é louvável. É o inverso da irresponsabilidade e do pouco caso que Brasília sempre demonstrou. Invejo os protocolos chilenos. Fui o único, num grupo de doze pessoas, contanto os dois grupos, que teve problemas sérios com a burocracia. Acho importante não colocar o desconforto pessoal que vivi acima da justiça coletiva. Fui vítima de uma falha de sistema, não de uma ausência de políticas públicas claras de combate à pandemia. Era apenas a Lei de Murphy em ação.

Usando exatamente os mesmos documentos desde o princípio, uma semana mais tarde chegou um e-mail oficial dizendo que meu cadastro havia sido aprovado. Eu poderia ingressar no Chile. No mesmo dia Adriana e eu saímos de Gonçalves, viajamos quase quatro horas de carro até Guarulhos e chegamos em Cumbica à noite, depois do último voo pra Santiago. Comprei passagem para o primeiro voo, na manhã seguinte. Só havia lugar na classe executiva. O atraso de uma semana também me obrigou a remarcar os voos internos no Chile, que por terem tarifas econômicas, custaram quase o mesmo preço que passagens novas.
Ao desembarcar em Santiago fiz o PCR gratuito no aeroporto e fui para o hotel, onde deveria cumprir a quarentena até que o resultado do exame saísse. Todos meus companheiros de viagem receberam o resultado em menos de 12 horas. Pedi ajuda à recepcionista do hotel pra entender como funcionava o tal Pase Movilidad.
— O senhor deve clicar nesse botão aqui para ver o status do seu pase.
Apertei o maldito botão de hora em hora… Dez horas mais tarde e nada de validação… Doze horas e nada… Dezoito horas e nada… Vinte e quatro horas e nada… Trinta horas e nada!
Passei duas noites nesse hotel caro, perto do aeroporto, e uma terceira noite num hotel ainda mais caro porque eu só havia feito reserva para duas noites no primeiro hotel. Foi quando a Adriana resolveu investigar a demora na validação do Pase Movilidad e descobriu que a recepcionista do hotel havia errado na informação. Era outro botão que eu devia apertar pra saber o status do meu pase. Ele estava aprovado! Provavelmente havia muito tempo!
Esse atraso final inviabilizou minha chegada a tempo de participar da travessia com meu grupo.
Peguei o primeiro voo pra Balmaceda, o aeroporto mais próximo de Coyhaique, capital da província de Aysén, na Patagônia chilena. Cheguei numa quarta-feira e havia ônibus na manhã seguinte pra Cochrane, ponto de início da travessia. No entanto, só haveria transporte coletivo pra Villa O’Higgins, ponto de término da travessia, para o sábado. Minha intenção era entrar na trilha no sentido inverso ao grupo, pra interceptá-los em algum lugar do trajeto. Eles estavam programados pra terminar a caminhada na segunda-feira. Tentei passagem aérea pra Villa O’Higgins no único taxi aéreo que serve a região. Todas as passagens disponíveis estavam tomadas para os próximos três meses!
O desespero que eu sentia era cumulativo. Cada má notícia parecia acrescentar uma camada de lodo no meu espírito, já pesado e turvo.
No último contato que tive com meus companheiros pensei em sugerir que eles invertessem o sentido da travessia, que a fizessem de sul para norte, começando no Lago Christie, perto de Villa O’Higgins, e não em Calluqueo, perto de Cochrane. A logística de transfer que eu já havia organizado poderia fazer a alteração sem problemas. Isso facilitaria imensamente nosso encontro em algum lugar no meio, ou até antes, do roteiro de pouco mais de 100 km. Com essa mudança eu inclusive estaria com eles no Paso la Picota, ponto crítico da travessia. Também pensei em pedir que eles adiassem por um dia o começo da jornada. Mas encontrei o grupo animado, empolgado, preparado e com planos próprios pra aventura. Qualquer interferência minha à essa altura restringiria toda a iniciativa do grupo, que eu via como positiva. A ansiedade que eu sentia era um problema pessoal meu. “O GRUPO EM PRIMEIRO LUGAR!”, eu disse pra mim mesmo e fiquei quieto.
Fiquei três noites hospedado no trailer onde vive meu amigo Wilfredo Yaconis, o gaucho argentino que cuidou dos nossos traslados terrestres em 2020 e em 2022 também. Dormi no meu próprio saco de dormir, em cima do meu isolante térmico, numa prancha de madeira acima da máquina de lavar roupas. Wilfredo se prontificou a me dirigir até o Lago Christie no sábado de manhã. Antes disso ele estaria ocupado. Com sorte, talvez conseguíssemos fazer os 600 km num único dia, permitindo que eu entrasse na trilha no domingo de manhã. Também com sorte, eu talvez conseguisse fazer os dois últimos dias da travessia com meus companheiros. Melhor que nada.
O reencontro
A última balsa do dia que cruza o Fiorde Mitchel, de Puerto Yungay a Río Bravo, zarpava às 18h. Wilfredo pilotou a van como um piloto de rally, arriscando seu veículo e nossas vidas para que eu pudesse aplacar o desespero que me consumia. Fizemos a descida final até o atracadouro buzinando sem parar, assim quem sabe a balsa nos esperaria. Chegamos ao cais às 17h59.
Wilfredo dormiu na van e eu dormi na cabana de tábuas às margens do minúsculo porto do Lago Christie. A temperatura despencou e fez 4˚C de madrugada. Acendi a lareira e preparei um jantar de cuscuz e peixe pra nós. Às 8h eu estava de café tomado e com a mochila nas costas.
Cheguei pouco antes do meio dia num local de acampamento normalmente usado como pouso para o primeiro dia na RUTA DE LOS PIONEROS. Comi um sanduíche e segui viagem. Como meu aparelho de GPS estava com o grupo, naveguei por memória e usei o celular pra tirar dúvida. O aplicativo que eu usava não tinha boa resolução e a precisão mostrava cerca de 50 m de erro. Mesmo estando na trilha, o celular indicava que eu estava 50 m fora dela, ora para um lado, ora para outro. Era enervante e confuso. Num trecho de navegação mais delicada perdi a trilha, encontrei outra mais tênue e fiquei um par de horas andando em direções erradas. Cheguei à casa de Don Rubén Pradano perto das 18h. Por sorte o velho gaucho, que vive isolado há décadas, estava em casa. Perguntei se ele havia visto um grupo de brasileiros e ele respondeu que não. Fiquei aliviado. Eu estava com medo de haver me desencontrado dos meus companheiros enquanto estava fora da trilha.
Don Rubén fez pão caseiro frito — sopaipilla —, que ele amassou com seus grossos dedos curvos de artrite, as unhas pretas de sujeira. Comemos um pão cada um, ainda quente, com manteiga derretendo por cima. Tomamos chá preto e falamos um pouco sobre a vida na atual Patagônia, mais cheia de turistas, como eu, e de milionários latifundiários, do que de carneiros, cavalos e guanacos. Por volta das 20h, com o sol ainda forte no céu, levantei pra caminhar mais três horas, até um ponto de acampamento entre os lagos Christie e Alegre. Local onde calculei, acertadamente, que meus amigos passariam aquela noite. Uma forte dor no tendão externo posterior do joelho esquerdo impediu que eu colocasse o pé no chão. Tendinite por esforço.
— Caralho! Só me faltava essa!
Eu mal conseguia encostar o pé no chão. Pedi permissão a Don Rubén para acampar em sua propriedade, manquei até o interior de um cercado de madeira e armei a barraca ao lado da grande placa de captação de energia solar.
— Isso nunca funcionou — criticou o gaucho indicando a parafernália.
Nunca tomo remédios nessas situações, não gosto de mascarar a dor, que é a mensageira de um aviso importante do corpo. Passei várias horas massageando o local inflamado e pensando sobre o que faria caso a tendinite persistisse no dia seguinte. Don Rubén tem um rádio de ondas curtas e poderia chamar alguém em Villa O’Higgins, talvez o próprio Wilfredo, que poderia fretar um dos botes do pequeno porto no Lago Christie pra vir me resgatar. Esse inclusive era o único plano de salvamento possível nessa região da trilha. A ideia, obcessivamente buscada, de encontrar meus amigos em algum lugar da trilha, parecia escapar por entre meus dedos todas as vezes que eu tentava agarrá-la.
Com a cabeça em ebulição, lembrei que fazia muitos dias, talvez semanas, que eu não meditava. Sentar de pernas cruzadas na barraca poderia, inclusive, ser bom pra tendinite, pensei. Fiz uma almofada com a roupa extra, que também uso como travesseiro, encontrei o ponto exato onde minha cabeça não tocava o teto da barraca, cruzei as pernas, mantive a coluna ereta, relaxei as mãos sobrepostas, apoiadas nas coxas e no baixo abdome, fechei os olhos e concentrei a atenção na respiração. Eu não respirava, eu ofegava igual um cachorro. A simples observação da respiração fez com que eu passasse a ocupar melhor meus pulmões, que em pleno uso diminuíram automaticamente o tempo entre cada inspiração e expiração. Respirando com mais calma, pude ouvir meus pensamentos, que eram desconexos e elétricos, soltavam faíscas. Eram flashes de situações, de sensações, de momentos vividos recentemente, tudo de forma repetitiva e randômica. Meus pensamentos eram peixes excitados num aquário superlotado e cheio com água turva. Não havia a sensação de cardume, de sentido, de direção. Só confusão. Perceber esse estado mental foi calmante. A simples consciência traz clareza. Pude ouvir então os eventuais latidos dos cães distantes e os balidos das ovelhas que pastavam próximas. Ouvi o cacarejar de galinhas e o piar dos pássaros. Ouvi também a música que vinha do rádio de Don Rubén, até então inaudível. Velhos boleros mexicanos. Ouvi o vento chacoalhando suavemente as folhas das árvores e uma ou outra onda maior do lago, que quebrava nas pedras. Tudo parecia se encaixar, tudo parecia pertencer ao lugar e ao momento. Menos eu. Ou melhor, menos meu estado mental.
Passei cerca de um hora meditando sem forçar um silêncio mental impossível, apenas observando os pensamentos, sua origem e sua intenção, a mensagem que eles traziam. Minha mente estava ocupada com a frustração da ausência de controle. Um controle que nunca tive. Um controle que inclusive me esforço por negar nas expedições que realizo. Tudo é incerteza e possibilidades numa expedição, eu digo e repito em meus livros e aos meus alunos, mas quando sou arrebatado por essa incerteza reajo de forma visceral e inconsciente. Luto contra.
Adormeci massageando fortemente o tendão inflamado.
Na manhã seguinte não havia sinal da tendinite, apenas um pouco mais de sensibilidade na região massageada. Desmontei acampamento, fervi água no fogão à lenha de Don Rubén e fiz um mingau de aveia reforçado. Don Rubén fez questão de me acompanhar por um trecho da trilha, para que eu não me perdesse novamente. Quando nos despedimos, tive certeza que nos encontraríamos muito em breve. Em algum lugar, mais ou menos duas horas de caminhada mais tarde, ouvi vozes que falavam em português.
— Quando você fez essa trilha, Berna? — Era a voz do Claudecir conversando com a Bernadette, falando sobre o Peru ou a Bolívia.
Fiquei trás de um arbusto e esperei que eles se aproximassem pra imitar o som de um puma e pular na frente deles. Ninguém se assustou, mas a surpresa foi geral.
Apenas um convidado
A sensação que tive, desde o primeiro encontro com o grupo na trilha, foi a de ser apenas um convidado, um conhecido que eles encontraram no caminho. Não dava pra esperar outra sensação. Eles haviam caminhado juntos por nove dias, passado sustos e alegrias, vencido obstáculos e expandido limites pessoais usando apenas as habilidades que dispunham. Havia camaradagem, intimidade, cumplicidade — elementos que eu reconhecia de tantas outras expedições que já havia organizado. Mas agora eu olhava tudo de fora, era apenas um observador, não fazia parte do grupo.
Caminhamos até a casa de Don Rubén, que nos recebeu com as mesmas sopaipillas, agora frias, que o gaucho havia feito quando eu estava lá. Depois de uma longa pausa para o almoço, caminhamos até o barracão em ruínas onde eu havia parado para almoçar no dia anterior. Montamos acampamento.
Sentados na grama, ouvi com atenção as histórias da travessia. No primeiro dia a caminhada foi curta, cerca de 6 km, debaixo de chuva fina e frio. No terceiro dia, o grupo chegou ao Paso la Picota e ao maior desafio técnico do roteiro. Resumidamente, eles demoraram cinco horas e meia pra descer os trinta e poucos metros da erosão inclinada, de solo instável, que nós havíamos subido em 2020. Roberto desceu primeiro, por já ter feito o percurso antes, num ato de coragem que destoava muito de seu desempenho dois anos antes. Fiquei feliz em saber disso. Houve um claro crescimento em sua autoconfiança. Seu desejo de repetir a RUTA DE LOS PIONEROS foi uma surpresa pra mim, terminada a caminhada fiquei com a impressão que a experiência havia sido traumática pra ele.
— Foi muito mais duro do que eu esperava — foi seu comentário ao completarmos a rota dois anos antes.
Wilfredo, nosso amigo motorista, observador atento, havia comentado comigo que Roberto era outra pessoa ao descer da van.
— Tudo está diferente nele, a postura, o jeito de andar, o tom de voz. Ele está muito mais seguro.
Na descida do Paso la Picota, Claudecir ficou por último depois de ter ajudado todos a descer com a corda. Por usar tênis e não botas de trekking, as solas de seus calçados não forneceram a aderência necessária e ele se sentiu inseguro. A insegurança desencadeou o medo e o medo levou ao pânico. Ele chegou a ter certeza que cairia. Com a autoconfiança destroçada, em algum momento, ele teve certeza que não conseguiria subir ou descer, tinha certeza que ficaria ali, meio pendurado na erosão, indefinidamente. Numa decisão pouco sensata, ele encheu um saco estanque grande com toda sua roupa, saco de dormir, isolante térmico e afins, e atirou o saco do topo da Picota pra aliviar o peso da mochila. O equipamento bateu na parede da erosão, voou por cima da cabeça do grupo e caiu no rio de degelo, de correnteza forte, aos pés do barraco. Por muito pouco as águas não levaram tudo embora. Foi um momento tenso. Quando Claudecir finalmente chegou à base do declive, usando as botas emprestadas do Iuri, houve uma explosão de emoção. Muitos se abraçaram e choraram juntos.
— Mas depois da Picota a trilha virou um passeio — decretou Iuri, que por ser o mais jovem e o mais forte, carregou a mochila mais pesada por toda a travessia.
Todos foram unânimes ao declarar que o trekking só havia sido possível por conta da navegação do Claudecir. Algo que eu já esperava ouvir. Roberto ganhou elogios pela liderança em momentos críticos. Geovânnio foi declarado a alegria do grupo, Iuri a força, Eduardo, que todos chamavam de “Babu” era o exemplo de perseverança, inclusive por ser o mais velho. Justino assumiu responsabilidade pela cozinha por metade do caminho, passando o bastão então ao Geovânnio para a segunda metade e Bernadette, única mulher do grupo, ganhou a apelido de “Mateira” por ter varado a vegetação no peito num momento em que não havia trilha a seguir.
Por conhecer bem a dinâmica de expedições, consigo identificar com facilidade humores, tensões, sentimentos e o clima geral. Aquele era um grupo bem sucedido, risonho, unido e feliz. O desafio havia sido aceito e vencido, a travessia fora completada. Ao longo dos dias seguintes, que passamos juntos em Villa O’Higgins e depois em Coyhaique, de onde eles voaram de volta ao Brasil, pude conversar, mesmo que brevemente, com cada um dos aventureiros.
Minha cabeça ainda não estava boa. Eu ainda vivia a ansiedade da luta travada contra os obstáculos que me impediram de participar da travessia. Sentia frustração e tristeza por tanto trabalho pensando, programando e preparando a expedição, pra depois não poder fazer parte dela. O inegável sucesso do meu grupo ressoou de várias formas em mim. Por um lado, senti muito orgulho pelo feito realizado por eles, orgulho por eles e por mim também, por ter construído todo o cenário. Por outro lado, me senti inútil. Dispensável. Comecei inclusive a duvidar se teria forças pra realizar a expedição de bikepacking, que começaria em poucos dias. Eu me sentia abatido e vencido, velho e fraco.
O grupo de trekking estava satisfeito com o resultado final da empreitada. Ter feito a RUTA DE LOS PIONEROS sozinhos foi sem dúvida recompensador. Até mais recompensador do que fazer comigo puxando a fila. Queria ter tido a iniciativa de organizar uma reunião de avaliação, inclusive pra discutir as finanças da expedição, pra ter certeza de que todos estavam de acordo com nosso contrato inicial — que estabelece que nosso compromisso não é com o sucesso, seja ele qual for, mas com o esforço. Alguém poderia se sentir lesado por ter pagado um programa com a minha presença e ter vivido uma experiência distinta. Mas como avaliar uma situação que não estava clara nem para mim?
Sei que a minha presença teria mudado a dinâmica da expedição, o que não quer dizer que a expedição teria sido melhor ou pior. Normalmente, assumo as funções básicas de navegador, cozinheiro e líder geral, o que faz com que os demais participantes assumam posições mais confortáveis e menos ativas nos bastidores. Minha ausência obrigou o grupo, sem um líder formal ou uma hierarquia estabelecida, a se reorganizar de forma democrática e participativa. Algo que pode gerar atritos. A navegação ficou com a única pessoa capaz de realizar essa função: Claudecir, que não poderia assumiu a função hierárquica de líder de forma automática. Roberto assumiu uma liderança pontual, incentivando, motivando, despertando a todos às 6h da manhã todos os dias, mas sem a autoridade de um líder pré-determinado. A função do líder ficou pulverizada no grupo, sem a figura da autoridade — que é algo diferente de liderança. A autoridade aplica justiça, pacifica atritos, equilibra forças, mas também pode coibir iniciativas, calar vozes, inibir ações. Autoridade sem autoritarismo é a arte do verdadeiro líder.
Se eu estivesse a bordo, o grupo provavelmente teria caminhado mais e mais rápido, teria completado mais quilômetros diários, porque essa é uma característica pessoal minha. Aumentariam as chances de alguém se sentir muito cansado, como aconteceu com Roberto na travessia anterior da Ruta. Javier Cencig, que também fez a travessia em 2020 conosco, deixou um relato pessoal interessante de sua experiência no texto LA PICOTA – NARRATIVA DE AVENTURA. Mesma trilha, outra visão. O grupo de 2022 se permitiu caminhar apenas 6 ou 7 km em alguns dias, não exploraram a região do Lago Mogote, como era a proposta inicial, aumentaram o número de dias da travessia e carregaram mais peso em comida por isso. Experiências que com certeza geraram aprendizado prático.
O último susto
Em Villa O’Higgins comemoramos o fim da expedição, brindamos o sucesso do grupo com muita cerveja, comemos juntos. Havia muito o que celebrar. Em determinado momento, Babu começou a se sentir mal, foi diversas vezes ao banheiro e relatou que estava com dificuldade em urinar. À noite, ele se levantou várias vezes para ir ao banheiro. Na manhã seguinte informou que havia piorado.
Villa O’Higgins tem cerca de 600 habitantes e uma enfermaria básica, é o ponto final da Carretera Austral e um beco sem saída. De lá, não existem mais estradas que sigam adiante, o único caminho é voltar a Cochrane, cidadezinha de cerca de 3.000 habitantes, que fica a 230 km de distância, por terra, com uma balsa no trajeto. Passamos mais um dia em Villa O’Higgins, estávamos programados para voltar a Coyhaique, a 560 km de distância, na manhã seguinte — uma viagem de cerca de 10 horas de duração, se nada der errado.
Em algum momento desse último dia livre Babu informou que não urinava mais, sua bexiga estava totalmente obstruída. Segundo ele, era uma inflamação na próstata, geralmente relacionada à ingestão de bebidas alcoólicas. Imediatamente, ele começou a tomar os medicamentos que trazia pra essas crises. Foi uma noite infernal pra ele.
Despertamos muito cedo na manhã seguinte, antes do sol nascer. Babu estava com dores fortes e a bexiga cheia. Conseguimos pegar a primeira balsa do dia, às 9h da manhã. Cada buraco na estrada causava uma contração de dor na face de Babu. Chegamos a Cochrane, onde há um hospital novo com cara de primeiro mundo, na hora do almoço. Acompanhei Babu à ala de atendimento de emergência e um enfermeiro nos atendeu. Depois de respondidas as perguntas iniciais, o cara informou:
— O médico vai te ver e deve pedir que passemos uma sonda pra esvaziar sua bexiga. Mas esse tipo de problema tem que ser investigado e geralmente tem que operar.
Fiquei puto! Quase desanquei o sujeito com uma descompostura. Enfermeiro não dá diagnóstico! Muito menos prognóstico! Não tem porque criar expectativas de cirurgia se ninguém sabe a razão da obstrução! Fiquei calado pra não atrapalhar o atendimento, nem criar um clima desconfortável para Babu. Ele precisava ser preservado.
Uma sonda foi passada e foram retirados 1,3 litros de urina da bexiga. A dor que Babu devia estar sentindo era incalculável. O tempo todo eu pensava: “se essa crise tivesse acontecido no meio da Ruta nenhum resgate chegaria à tempo”. Um pensamento sombrio, mas realista.
Meditando sobre o assunto
Analisando friamente, a RUTA DE LOS PIONEROS não é um roteiro difícil de trekking. Excetuando o Paso la Picota, que é desafiador, arriscado e assusta, o resto do caminho é composto por trilhas de cavalos ainda em uso. O isolamento, no entanto, é abismal. Está cada vez mais difícil encontrar na Patagônia rotas ainda selvagens, pouco visitadas e vivas com a história de sua origem. Acredito que não vai demorar muito para que La Ruta seja “descoberta” por agências de turismo de aventura. Quando isso acontecer vão instalar cabos fixos no Paso la Picota e toda a adrenalina desaparecerá. Essa travessia tem tudo para se transformar, eventualmente, em mais um roteiro clássico de trekking, comparável a TORRES DEL PAINE ou EL CHALTÉN, lugares hoje lotados de turistas, que tive o privilégio de conhecer em outros tempos e que mapeei e publiquei no GUIA DE TRILHAS TREKKING VOL. 1 (Kalapalo Editora, 2008). Vejo esse desenvolvimento acontecer atualmente, por exemplo, com DENTES DE NAVARINO, roteiro de trekking que fiz quando nem havia trilhas no circuito e publiquei no GUIA DE TRILHAS TREKKING VOL. 2 (Kalapalo Editora, 2009). Sinto que cada novo roteiro que descubro e divulgo, como parte do meu trabalho, ajudo a popularizar e a matar a sensação de isolamento que tanto busco. Um dilema para o qual não vejo solução.
A RUTA DE LOS PIONEROS 2022 foi dura pra mim, talvez tenha sido a expedição mais dura da minha vida. Estou acostumado a liderar projetos bem-sucedidos, mesmo quando fracassados. Mudanças de roteiro por conta de situações climáticas, por conta de incapacidade física, acidentes ou até por desistência opcional não me assustam. Como parte do time, dou meu máximo. Se não chegamos onde queríamos chegar, durmo tranquilo por ter me esforçado. É duro pra mim observar a ação sem fazer parte dela. Isso talvez seja uma expressão narcísica do meu ego, mas é também uma demonstração de espírito de equipe. Pouco importa ganhar ou perder se jogo sério. Em expedições futuras eu talvez repense meu papel no grupo, talvez delegue mais funções e tome posições mais recuadas, de observador. Sei que sem minha iniciativa de escolher e pesquisar previamente o roteiro, incentivar e aglutinar os interessados, orientar individualmente cada participante, organizar a logística, criar o ambiente e ditar as regras, fundamentais para o bom convívio e eventual sucesso, provavelmente nenhum dos aventureiros teria vivido uma experiência semelhante. Simplesmente não existem programas como esse, tão selvagens e exigentes, disponíveis no mercado. Agências de turismo de aventura têm medo, ou talvez mais bom senso do que eu. Sei dos riscos que corro. Um acidente, fatal ou não, me deixaria exposto à carnificina do juízo alheio. Não faltam algozes de plantão. O que chamo de “aventura de verdade” envolve desconforto físico e emocional, além de riscos. Esse desconforto e a exposição aos riscos formam um território rico de descobertas sobre nós mesmos, sobre nossas habilidades e nossas deficiências, um terreno cheio de oportunidades de crescimento pessoal e desenvolvimento social. A RUTA DE LOS PIONEROS 2022 me levou aos limites do meu desconforto emocional. Só espero que o aprendizado tenha sido proporcional.
Listo duas grandes perdas pessoais nessa expedição: ter perdido a oportunidade de conviver e conhecer meus companheiros de aventura; ter perdido a oportunidade de pescar no Lago Alegre. Eu tinha certeza que dessa vez eu conseguiria pegar uma truta!
Referências
Essas expedições didáticas são inspiradas nas minhas aventuras solo, como a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, a EXPEDIÇÃO CAPE WRATH e a EXPEDIÇÃO TRANSMONGÓLIA. A maioria, se não todos os participantes dessas expedições didáticas, leu meus livros e assistiu aos meus documentários, que serviram de inspiração e motivação para sua participação. Meus livros de literatura de aventura são: TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS (Kalapalo Editora, 2015), HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS (Kalapalo Editora, 2017) e TRANSMONGÓLIA: GENGIS KHAN NA GARRAFA DE VODCA (Kalapalo Editora, 2020). Meus filmes-documentários de expedições internacionais são: TRANSPATAGÔNIA e HIGHLANDS, os documentários sobre aventuras tupiniquins são: NA TRILHA DO JOANA e SERRA FINA, PERNA GROSSA. Todos meus filmes foram dirigidos pelo talentoso e premiado Cauê Steinberg e estão disponíveis no canal AVENTURA E CULTURA, no youtube. Todos meus livros estão disponíveis no site da KALAPALO EDITORA, onde também estão informações sobre meus cursos, treinamentos e expedições didáticas.
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Roberto:[/highlight]
A primeira coisa que pensei quando soube que o Guilherme não conseguiria chegar a tempo para nossa expedição foi: “Guilherme não vem? Mesmo tendo feito a Ruta dois anos antes, não me sinto seguro para refazê-la sem ele.”
Eu ainda não conhecia todos, mas após nosso primeiro almoço, onde contamos um pouco das nossas experiências e das expectativas em relação a expedição, acabei topando também. Acreditei que com as diferentes experiências de cada um, a coisa daria certo. Guilherme afirmou que acreditava na capacidade do grupo e nos orientou nos últimos preparativos, como a compra de alimentos e os ajustes das mochilas. O grupo estava unido, com um clima amigável e divertido, a tensão de ir sem o Guilherme foi diminuindo.
Wilfredo passou um pouco do seu grande conhecimento da Patagônia, contando diversas históras enquanto nos levava até o início da trilha. Iniciamos a trilha com todos bem animados e solidários e esse foi o clima de todos os dias. O revezamento das funções ocorria naturalmente, todos tiveram seu momento de capitão, navegador, cozinheiro, fotógrafo, professor, contador de histórias, piadista, ajudante, sherpa e até sapateiro. Alguns se destacavam mais, como Claudecir que estava bem preparado e nos mostrou sua fundamental experiência como navegador.
No geral, os dias foram tranquilos, com as dificuldades já esperadas, como as grandes mudanças de clima num mesmo dia. A trilha é absurdamente linda, parávamos muito para fotografar um glaciar, um rio, um lago ou, às vezes, só pra admirar e tentar guardar na memória. Com o passar dos dias, o corpo e a mente vão se adaptado às dificuldades da trilha, a mochila não incomoda mais, atravessar um riacho e caminhar horas com a botina molhada também não, a vida fica mais simples e objetiva.
O momento mais difícil, foi no terceiro dia, na descida do paso la picota, tenso e emocionante. Serviu para unir o grupo ainda mais. Com o esforço acumulado dos dias, as dores e lesões foram surgindo em alguns membros da expedição, minha canelite surgiu, mas durou só uns dois dias, graças aos medicamentos cedidos por Bernadette e Geovânnio.
O esforço que Guilherme fez para iniciar a trilha, no sentido contrário, e nos encontrar de surpresa no penúltimo dia, foi outro momento de emoção e acho que acalmou o coração do grupo. Certamente teria sido mais fácil se Guilherme estivesse junto, mas foi um grande aprendizado para todos.
Algumas pessoas me perguntavam porque repetir a mesma trilha, respondia que iríamos refazer no sentido contrário e eu não era o mesmo de dois anos antes. Fazer a trilha em onze dias, ao invés dos nove da outra vez, possibilitou relaxar no final do dia e curtir mais os acampamentos, mas o maior peso da mochila, por conta da maior quantidade de comida necessária, me fez repensar se não seria melhor fazer em sete dias e andar mais leve. Realmente não foi a mesma trilha, fomos sem o Guilherme, um grupo diferente, dificuldades e alegrias diferentes. Serviu para me dar mais confiança e vontade de fazer outras.
Fazer a trilha sem o Guilherme não estava nos planos de ninguém, mas acabou sendo uma experiência proveitosa e tivemos muito aprendizado, mas nos privou de adquirir um pouco da seus conhecimentos através de seus relatos. Quando caminho com ele, me esforço para ficar por perto para aprender mais. Dois dias depois do fim da trilha, quando descansávamos no Hostal El Mosco, em Villa O’Higgins, já estávamos “salivando” sobre um mapa com Guilherme mostrando seus planos das expedições de 2023.
Obrigado Guilherme, obrigado Bernadette, obrigado Claudecir, obrigado Eduardo, obrigado Geovânnio, obrigado Iuri, obrigado Justino e obrigado Wilfredo.
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Bernadette:[/highlight]
“Já imaginou explorar lugares remotos na Patagônia…”. Quando li esta frase num post no Instagram de Guilherme Cavallari, minha ansiedade chegou naquele grau que já conheço, e o alerta de ‘preciso fazer essa trilha’ acionou de uma forma instantânea. Em seguida li todas as informações sobre a rota e no mesmo dia entrei em contato com Guilherme, minhas expectativas estavam a mil por hora, torcendo por uma vaga e o aceite para participar da expedição. Depois da entrevista realizada por Cavallari e o preenchimento de um relatório sobre minhas experiências anteriores de aventura – deu certo!
Então iniciei o preparo físico mais intenso e direcionado em especial para carregar peso, essa foi minha preocupação maior a princípio, pois nunca havia feito um trekking autossuficiente longo. Comecei a trilha com uma mochila de 16 quilos, deu tudo certo, resisti firme e forte graças ao treinamento técnico de Willian Binder, professor muito querido que acompanha meu desempenho físico a alguns anos. No final tudo correu perfeito, inclusive com os perrengues que fazem parte da aventura – sem perrengue/sem aventura!
Iniciamos o trekking autossuficiente de 11 dias, na Patagônia Sul, no dia 7 de janeiro de 2022, fizemos um pouco mais de 100km. Para tanto chegamos no Chile, no dia 1º de janeiro. Éramos 7 integrantes, deveríamos ser 8, porém devido às exigências solicitadas pelo governo do Chile, o sistema bloqueou justo a documentação de Guilherme Cavallari, líder do grupo. Ele caiu justo naquela situação na qual hoje vivemos quando somos atendidos por máquinas e cada vez menos nos permitem falar com humanos.
No momento em que nos encontramos em Santiago, a princípio, na falta do líder, não sabíamos se prosseguiríamos com a expedição. Mas entre os passeios pela cidade incluindo visitas a lojas de produtos esportivos de aventura e algumas cervejas, fomos nos conhecendo e nos integrando decididos a realizar a travessia sem o condutor da expedição.
Com a seleção criteriosa de Guilherme tivemos a sorte de um dos integrantes conhecer muito bem a navegação por trilhas – o Claudecir, ser humano de uma generosidade e atenção com o grupo que impressionou a todos nós. Também estava Roberto que havia realizado a travessia 2 anos antes, tendo Cavallari como líder do grupo. Foram figuras imprescindíveis para o acontecimento da travessia.
A Ruta de los Pioneros é um trekking pesado indicado apenas para experientes, não é uma trilha totalmente marcada, ou seja, muitas vezes tínhamos que “descobrir” qual direção tomar, além de ser raramente frequentada. O que tranquilizava um pouco é que tínhamos os rios como referência nos primeiros dias, e nos últimos dias nossa referência eram o Lago Alegre e o Lago Christie. Muitas vezes éramos obrigados a cruzar os rios, repletos de pedras em todos os seus tamanhos, fazendo uma escolha criteriosa do melhor local para cruzar. Os rios nessa região da Patagônia são o resultado do degelo, então dependendo do clima e do horário do dia, mais sol ou mais nuvens, mais água ou menos água desferem morro abaixo.
No primeiro dia do trekking fomos obrigados a fazer acampamento selvagem justamente pela quantidade de água no rio que deveríamos atravessar naquele fim de tarde chuvoso. Mas a situação mais delicada foi, no terceiro dia, no famoso e assustador Paso La Picota. Levamos 5 longas horas para baixar uma encosta areenta e pedregosa, esse local nem sempre foi assim, a inclinação tornou-se uma parede austera causada pela fácil erosão devido à geologia do local, aquele material das morainas glaciares, a carga sedimentar que escorrega morro abaixo junto com o degelo. Enquanto descíamos tentando nos agarrar à parede como lagartixas, pedras rolavam ao nosso lado, ou mesmo se soltavam de nossas mãos ou pés na tentativa de nos apoiarmos em alguns pontos “fixos”, o que certamente colaborava em alguns escorregões repentinos, desfiladeiro abaixo. Para aumentar um pouco mais a adrenalina, tínhamos o rio justo no final de nossos pés, onde as pedras faziam aquele barulhinho caindo em suas águas correntes.
Enfim todos abaixo, sãos e salvos, cada um a sua maneira superou o desafio imposto pela natureza geográfica. O próximo passo seria atravessar as águas do rio sob um céu plenamente azul, daqueles que torcemos ter todos os dias em nossas caminhadas e trilhas. Mas naquele dia em especial o azul pleno significava mais água morro abaixo. Enfim depois de muita tensão, Iuri e Roberto experimentavam dentro das águas velozes do rio pedregoso, em que local deveríamos cruzar, lembro muito bem da cara do Iuri direcionada ao Roberto em dois momentos seguidos, fazendo sinal com a cabeça, – ‘por aqui não dá’ – a correnteza era intensa, estávamos fatigados após a travessia de La Picota. Enfim cruzamos. A outra opção que tínhamos era abortar a expedição, mas para isso teríamos que voltar a La Picota, a decisão unânime certamente foi enfrentar as águas intensas do degelo.
Sob elevada tensão fazendo um grande trenzinho, ou seja, um agarrado no outro, os mais fortes Iuri no início e Roberto no final, caso alguém escorregasse teria como apoiar-se nos outros. Esse é um modo seguro de combater as águas conforme recebemos instruções anteriores de Guilherme Cavallari. Foi nesse dia que o grupo reforçou os laços de uma verdadeira equipe, sem líder, cada um ajudou o restante a passar pelos momentos mais críticos da travessia.
O quarto dia foi o mais extenso, dia que fiquei sem celular, ou melhor, sem câmara fotográfica. O dia mais lindo e mais longo da expedição, fizemos 18 km. De uma paisagem memorável, desde o glaciar que nos serviu de panorama para a porta de nossas barracas, iniciamos o dia caminhando entre lagos, rios, montanhas, neve, pedras de diferentes tonalidades, frio, vento, mata fechada, céu azul, céu nublado, ameaça de chuva, travessias de rios, pés molhados, cansaço físico e a alma repleta de emoções e alegrias de tantas diferenças na magnitude da natureza num único dia. Lembro muito bem de dois “túneis” pelos quais passamos, o primeiro lembrava aqueles pontos suscetíveis a emboscadas de cowboy americano, duas paredes laterais de pedras negras que brilhavam intensamente com a luz do sol, paredões que certamente foram levantados devido a algum longínquo terremoto. O segundo era bem mais assustador, parecia um antigo leito de águas de degelo, um corredor em depressão, na lembrança que guardo bem mais baixo que as margens laterais das quais havia uma infinidade de árvores caídas cruzando-se em nosso caminho.
Árvores caídas era uma circunstância frequente quando cruzávamos as florestas. Quase sempre a situação complicava um pouco devido a muitas árvores caídas umas sobre as outras, impedindo nosso caminho. Numa das vezes nos demoramos mais de uma hora para encontrar um local de passagem para poder prosseguir. Nesses desvios nem sempre encontrávamos de imediato a direção correta, justamente devido a rios e paredes verticais impedindo a continuidade. É muito comum nessas florestas a imensidade de árvores tombadas umas sobre as outras, árvores que ao parecer não tem vida longa.
Foram 11 dias de muita adrenalina no sangue, muito companheirismo e muito aprendizado. Babu com mais tempo de vida nos passava naturalmente ensinamentos filosóficos, Justino o mais inquieto do grupo nos propunha conversações frequentes, Geovânnio contava piadas sobre nossos próprios perrengues e nos fazia rir o tempo todo, Iuri o mais jovem e mais forte do grupo sempre disposto a colaborar e ajudar, Roberto nos colocava os horários e mantinha o grupo unido sempre observando como estávamos física e emocionalmente, Claudecir sempre nos mostrando o mapa com empolgação, em especial quando identificava uma determinada curva no rio ou formas nas montanhas. Por sorte encontramos o Guilherme na trilha, após todo o tsunami pelo qual passou, e as mirabolâncias que projetou para nos encontrar nem que fosse no final. Ele precisou fazer o trajeto ao revés para deparar com o grupo que ele mesmo formou, no penúltimo dia da travessia, sem GPS, pois o havia deixado com o Claudecir ainda no aeroporto de Guarulhos. Foi uma festa de abraços e sorrisos, uma alegria imensa aflorou em todo o grupo. Ficamos revigorados para finalizar o trajeto ainda com maior satisfação.
Finalizando esse pequeno relato, de uma grande travessia, afirmo aqui mais uma vez: ter participado de um trekking autossuficiente foi um grande desafio, do qual saí mais forte e com o desejo de quero mais. Deixo aqui um breve testemunho de uma experiência de emoções e de beleza natural incomparável. Para mim o caminhar é uma necessidade intrínseca, é uma força que me impulsiona e me impregna de energias. Estar em movimento em lugares distantes me passa a sensação espacial de amplitude, de conexão direta com a natureza, percepção de verdadeira liberdade. Obrigada Universo!
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Eduardo “Babu”:[/highlight]
Preparativos e Santiago
Meu interesse por trilhas de longa distância teve início no ano de 2007, quando Marilene (minha companheira) e eu começamos a fazer trilhas – subindo ou não montanhas. Por isso, quando meu amigo Fernando Marques me enviou o link sobre a Ruta de los Pioneros, que direcionava para a página do Guilherme, não pensei duas vezes: fiz contato e, assim que recebi a resposta, li o descritivo da Ruta de 2020, preenchi a ficha de inscrição e enviei, mesmo estando no longínquo mês de fevereiro de 2021. Longínquo porque em tempos de pandemia tudo é incerto – ainda mais vivendo em um país governado (???) por um negacionista, para ser brando.
Mas, assim como Ariano Suassuna, também me considero um realista esperançoso. Por isso, apesar de opiniões contrárias de pessoas próximas, de que eu iria jogar dinheiro fora pela possibilidade da passagem aérea ser cancelada em cima da hora etc. etc. etc., iniciei a preparação físico-psicológica tanto para a Ruta, como para atravessar o loooongo tempo que ainda tinha pela frente, já que a pandemia parece fazer o tempo passar mais devagar.
Apesar desta aparente lentidão na passagem do tempo, vamos dar um salto até 1º de janeiro de 2022, quando conheci os dois primeiros companheiros de aventura: Roberto e Yuri. Lembro que estávamos na sala de embarque do Galeão, quando chegou o áudio do Guilherme incentivando que fôssemos sem ele, caso não conseguisse resolver a situação em que se encontrava. Lembro, também, de dizer aos dois que, se isso acontecesse, eu não tinha a intenção de desistir da Ruta.
Chegando em Santiago, passamos pelo controle sanitário no aeroporto e realizamos o exame PCR. Em seguida, fomos para os respectivos hotéis e ficamos confinados em nossos quartos até que o resultado do exame saísse. Aproximadamente 12 horas depois, os resultados saíram – todos negativos! – e cada um de nós recebeu o seu Pase Movilidad.
Como, ao comprarmos as passagens para Santiago, as restrições em vigor no Chile incluíam uma quarentena de 48 horas, programamos o voo para Balmaceda (aeroporto mais próximo de Coyhaique) para o dia 4. Estes dois dias passados em Santiago foram bons porque o grupo pôde se conhecer melhor.
Coyhaique
Em Coyhaique já tínhamos certeza de que o grupo se autoguiaria, ainda mais depois que o Claudecir apresentou o detalhamento do roteiro. Coisa de profissional! O astral era o melhor possível. Não percebi/ouvi de ninguém expressões faciais/comentários colocando em dúvida se estávamos fazendo o certo ao decidir ir sem o Guilherme. Ao contrário, todos agiam como se há anos viéssemos participando de aventuras juntos e essa seria mais uma. Nem parecia que estávamos juntos pela primeira vez, para uma expedição que nunca havíamos feito antes e em região que ninguém conhecia – com exceção do Roberto que havia feito a Ruta em 2020 no sentido contrário.
É importante comentar que, com exceção da mochila da Bernadete, que estava pesando cerca de 16/17 kg, e a do Yuri que devia estar com cerca de 25 kg, os demais iriam começar carregando 22/23 kg em média.
A Ruta
Para mim, a Ruta não foi um passeio no parque. E nem esperava isso, considerando o que eu havia lido na página do Guilherme sobre a versão 2020 desta trilha, feita em sentido inverso.
Passamos alguns sufocos, como descer La Picota e ter que atravessar o rio que nos esperava logo após a descida. O nível da água estava tranquilo ao começarmos a descida, mas, cerca de 5 horas depois (mais ou menos o tempo que levamos para que todos descessem), chegava pouco acima dos joelhos, graças ao lindo dia de sol que tivemos e que aumentou o degelo…
Houve dias longos e/ou com muitos sobe-desce que não teriam sido cansativos se as mochilas não estivessem pesadas, que foi o preço a pagar pela decisão de fazer a travessia em 11 dias. Sinceramente, não me arrependo, pois o ritmo mais lento permitiu apreciar muito mais a região que, como em todas as outras áreas da Patagônia onde estive, é fantástica.
Também houve alguns momentos em que a trilha sumia, mas a sintonia do grupo era tão grande que rapidamente nos dividíamos para encontrarmos o caminho.
Apesar das dificuldades, foi uma das melhores expedições que fiz até hoje, não só por não termos encontrado quase ninguém (apenas no 8º ou 9º dia cruzamos com um grupo de jovens que fazia o trajeto no sentido contrário ao nosso) como, também, por termos abandonado a zona de conforto com a ausência do Guilherme. Isso trouxe um ganho de experiência e um aprendizado que não teríamos caso ele estivesse presente. Além disso, não encaro como uma perda o fato de não termos tido, nessa expedição, a oportunidade de aprender mais com a experiência do Guilherme, e sim como um adiamento, pois teremos novas oportunidades de participar de outras expedições com ele.
O Grupo
Já participei de expedições com grupos diversos em lugares como Índia, Nepal, Aconcágua, Patagonia, entre outros, com um ou mais guias e em situações que raramente os integrantes deixavam as respectivas zonas de conforto. E, apesar de ter presenciado em quase todas conflitos motivados por preconceitos, egoísmos ou disputas de ego, isso não me desanimou ou impediu de continuar a participar de expedições onde conheço poucos dos integrantes ou nenhum deles. Para mim, o aprendizado de vida que se tem nestas situações e o que se aprende com as experiências dos outros compensam algumas situações desagradáveis que possam ocorrer. A única coisa que avalio previamente é se há no grupo alguém conhecidamente desagregador e que torne impossível uma convivência harmônica entre os integrantes. Agora, se são pessoas que não se conhecem, porque se “pré-ocupar” com a possibilidade de haver problemas de relacionamento?
Em situações nas quais um grupo é formado por ordem de inscrição e por pessoas que nunca se viram na vida, eu diria que a possibilidade de haver conflitos não é pequena. Entretanto, se existe uma seleção baseada na experiência, sensibilidade e nos critérios do organizador e guia da expedição, a probabilidade de acontecerem problemas é bem reduzida. Mas, o que dizer se esse organizador e guia ficar impossibilitado de se juntar ao grupo aos 45 minutos do segundo tempo?
Como escrevi anteriormente, eu não tinha a intenção de desistir, por alguns motivos. Primeiro, confiei na avaliação do Guilherme sobre a capacidade de todos do grupo, como ele deixou claro nas reuniões online que fizemos nos dias que passamos em Coyhaique: Bernadette, a mateira, com um currículo de alta montanha respeitável; Claudecir, um navegador com 10 anos de experiência em corrida de aventura; Giovânnio, que com sua tranquilidade e bom humor ajudava a desfazer as preocupações do grupo; Justino, o sapateiro de trilha, que encarou com tranquilidade e criatividade as dificuldades que encontrou para manter “Tancredo” (suas botas) operacional até ser substituído por “Sarney” (par de botas encontrado em um dos acampamentos); Roberto, o Capitão, que já havia feito o trajeto no sentido contrário e assumia com frequência a liderança em algumas situações; e Yuri, o mais jovem e mais forte do grupo, porém com atitudes de um veterano.
Então tínhamos a seguinte situação: sete pessoas que não se conheciam, com idades entre 27 e 69 anos, precisariam conviver durante onze dias em um ambiente no qual nunca haviam estado, com exceção do Roberto, e sem o idealizador e organizador da coisa toda.
E aconteceu o que o Guilherme previu. O grupo passou a agir como um time, em um ambiente harmônico, de amizade, de cuidado, no sentido de se preocupar com o bem-estar do outro, e contribuindo com as respectivas experiências de vida e de trilha que cada um trazia.
Da minha parte, mesmo sendo o mais velho do grupo, nem por isso o mais experiente, posso dizer que foi uma experiência incrível, que me permitiu aprender muito com todos e querer rever este grupo em outras expedições.
Finalizando, queria agradecer a todos pelo carinho e cuidado que tiveram no sufoco que passei pós-Ruta.
Em tempo: Babu significa avozinho em suaíle. Quando Marilene (minha companheira) e eu estivemos na Tanzânia para subir o Kilimanjaro, era assim que a equipe de carregadoras e carregadores tanzanianos carinhosamente me cumprimentava e que acabou se tornando meu apelido entre os brasileiros do grupo e de outros que participei, porque sempre havia alguém que já me conhecia por esse apelido.
[highlight color=”eg. yellow, black”]Com a palavra, Iuri:[/highlight]
Me aventurar pela patagônia é algo que estava na minha mente a muitos anos. Em um dia entediante, rolando pelo catalogo de um conhecido serviço de streaming, me de parei, por acaso com um documentário chamado “Transpatagônia”, no qual um camarada chamado Guilherme Cavallari se aventurava de bicicleta por seis meses pelo sul da Argentina e do Chile.
Desse momento em diante passei a acompanhar o trabalho do Guilherme e todos os anos, ao ver anunciada uma expedição didática, me perguntava se esse seria o ano que eu conseguiria ir. No início de 2021, depois de um ano de pandemia, vários meses preso em um apartamento, sedento por viver algo real, diferente e que me fizesse sentir vivo, vi o anuncio da expedição “Ruta de los Pioneros” e bati o martelo: “Nessa eu vou independente do que acontecer, não vou medir esforços”.
Assim foi, passei o ano me preparando, coletando os equipamentos necessários, fui a Gonçalves fazer o CURSO DE TREKKING, apliquei os conhecimentos em algumas trilhas e acampamentos nos meses subsequentes e, quando menos percebi, estava em um avião com destino ao Chile. A imaginação de todos esses anos pensando em como seria me aventurar por aquelas bandas estava virando realidade bem rápido.
Como nada nunca sai 100% como o planejado, nesse caso nem 20% saiu, o líder e mentor da expedição se viu impedido de embarcar, eu e os outros 6 membros do grupo, que a essa hora eram ilustres desconhecidos, mas muito em breve pareceriam parte da minha família, nos vimos perdidos quanto ao que fazer.
Já estava lá mesmo, pensei “ Vou aproveitar as férias no Chile, passear, conhecer lugares diferentes e depois em outra oportunidade volto pra fazer aventuras”. Esse pensamento parecia compartilhado por alguns colegas. Ao longo dos dias que passamos juntos, conversamos sobre a vida, tomamos cerveja, nos conhecemos melhor e decidimos, graças a presença do Claudecir, um genial navegador, que iriamos fazer a trilha assim mesmo.
Meus pais estavam muito preocupados com a empreitada mesmo com a presença do Guilherme e eu temia a reação deles quando eu contasse que iriamos fazer a trilha por conta própria, então aguardei a noite anterior a partida, na última oportunidade, para fazer uma longa vídeo chamada com eles do hostel. Expliquei que estávamos confiantes, reforcei as qualidades de cada um do grupo, os acalmei como pude, arrumei minhas coisas e fui dormir.
No dia da partida, as 5 horas da manha em ponto, um celular despertou no quarto. Imediatamente começou o barulho de movimentação, todos levantando e arrumando suas coisas em silencio, ninguém disse uma palavra, um ronco ainda se ouvia no quarto. Entramos na van de Wilfredo, que chegou adiantado, e rumamos para o inicio da trilha. Quando estávamos nos aproximando, em uma estada remota de cascalho, em um dia cinza com uma leve garoa, lembro de ouvir Geovânnio murmurar: “Minha mãe já dizia que quem procura acha”, e havíamos achado.
No primeiro dia andamos pouco, embaixo de uma leve garoa, os 23kg da mochila incomodavam os ombros, a paisagem era diferente de qualquer coisa que eu havia visto, cruzamos riachos, atravessamos pastos úmidos e avistávamos no horizonte montanhas com os topos nevados, como que saídas de um filme. La pela quinta travessia de rio, a correnteza estava muito forte e decidimos acampar ali mesmo, sem chegar ao destino do dia, e tentar cruzar o rio no dia seguinte. Acampamos aos pés de um lindo glaciar, tudo até então parecia surreal.
O momento mais marcante da travessia, sem dúvidas, foi o Passo La Picota, um desbarrancamento de 30 metros de altura de terra e pedras soltas, era um dia lindo de sol e céu azul, passei a maior parte dele sentado no alto do passo tentando auxiliar a decida dos companheiros com uma corda, que servia para dar algum apoio de equilíbrio e principalmente psicológico, não daria segurança em caso de uma queda séria.
Olhando todos descerem parecia fácil e achei que, mesmo sem corda e sendo o mais pesado, eu desceria com tranquilidade. Não poderia estar mais errado. Na primeira pedra solta que pisei e assisti rolar barranco abaixo e cair no rio caudaloso ao fundo do vale, toda minha ideia de descida tranquila foi pro espaço. Colei meu corpo o mais próximo possível da parede e fui me arrastando como um lagarto, as vezes me agarrado a terra quase que na unha. Tentava pisar onde vi que o barranco sustentou o peso dos demais, mas o meu não era sustentado e o que parecia firme, em um instante virava pó. Cheguei ao final ofegante, com alguns rasgos na calça e na jaqueta, mas aliviado.
Vencida a descida do Paso, os perrengues do dia não se encerraram. Tivemos que usar todo nosso trabalho de equipe para ajudar o Claudecir, que havia ficado por último lá no alto. Em um lapso de julgamento, acabamos deixando um saco estanque cair no rio com saco de dormir, jaqueta de pluma e outros itens e, por um milagre, ele se prendeu a uma pedra. Roberto em um de seus momentos de herói (que não foram poucos) entrou na correnteza e conseguiu resgatá-lo. Depois subiu até quase o topo do passo, em demonstração de extrema coragem, para devolver a corta ao Claudecir, a partir disso, consegui amarrar minhas botas para que ele içasse e as usasse para descer o Paso. Cruzamos o rio de trenzinho e subimos até a Terraza La Picota, onde fomos recompensados com um lindo acampamento em meio as montanhas.
Nos 11 dias de trilha, já me sentia em casa em meio a natureza, e em família em meio aos meus colegas. Cruzamos linda paisagens, jantamos e tomamos chá juntos, nos ajudamos mutuamente e demos muita risada. Tudo isso coroado pelo aparecimento inesperado de Guilherme no décimo dia de trilha, pegando todos de surpresa.
Foi um momento de grande tristeza avistar a estrada do alto de uma colina. Sinal da civilização e de que essa jornada de dias, mas que sentia como meses, estava chegando ao fim, mas a perspectiva de comer “lomo vetado” e beber “Austral Calafate” alegrava a todos.
Sem duvidas a Ruta foi a aventura de uma vida, algo a ser lembrado e, pelo conjunto da obra, principalmente pelos amigos que me acompanharam, foi muito melhor que a encomenda.
































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