PARQUE PATAGÔNIA 2026 (RELATO E FOTOS)

7 de fevereiro de 2026

TEXTO: Guilherme Cavallari
FOTOS: Eduardo “Babu” Duarte, Bernadette Panek, Fernando Marques, Luis D., Kleber Pirota, Rodolpho Ugolini Neto e Fabio Pogliani. 

 AVENTURA COM PROPÓSITO

Toda vez que organizo uma expedição de aventura para lugares naturais remotos e depois divulgo o roteiro, lembro do livro DO TRAVEL WRITERS GO TO HELL? (traduzido no Brasil como: AUTORES DE GUIAS DE VIAGEM VÃO PARA O INFERNO?). Na obra, Thomas Kohnstamm destrói o mito de liberdade sem fronteiras e infinito prazer da profissão de autor de guias de viagem. Contratado pela famosa editora Lonely Planet para atualizar o guia deles sobre o Brasil, ele é mal pago, acossado por prazos impossíveis, distâncias exorbitantes, logística insana e uma intuição ruidosa de que, no fundo, está prejudicando os lugares que mais gostou indicando-os como destino para a massa frenética de turistas insaciáveis. Gente provavelmente mais interessada em clicar e postar selfies do que qualquer outra coisa…

Concordo em muita coisa com Kohnstamm, mas tenho também várias ressalvas em relação ao livro… Assunto para outro artigo. Fico devendo uma resenha aqui no BLOG. 

É incontestável que a Indústria do Turismo é uma importante fonte de renda e de trabalho para milhões de pessoas no mundo. Companhias aéreas, agências de viagem, hotéis, restaurantes, lojas de suvenires, empresas de aluguel de veículos, guias, artesãos e uma série de prestadores de serviços dependem do fluxo de turistas para garantir sua subsistência e sua prosperidade. O problema está na palavra “indústria”, que pressupõe produção e consumo em escala, uma dinâmica de eficiência progressiva na produção e aumento constante no consumo que é sinônimo do próprio sistema capitalista. O resultado desse crescimento sem limites é sempre desastroso, já que vivemos num mundo de conhecidos recursos limitados. Exatamente o que pregava o escritor e ícone da contracultura estadunidense Edward Abbey (1927-1989), com a frase: “o crescimento pelo benefício do próprio crescimento é a ideologia da célula cancerígena”, publicada no livro DESERT SOLITAIRE. O crescimento infinito como patologia letal. Abbey foi uma influência decisiva na formação de organizações como Greenpeace, Sea Shephard e Earth First!. Quando aplicado diretamente ao ambiente natural, o conceito industrial no turismo é ainda mais pernicioso. Montanhas, parques nacionais, praias, florestas e rios sofrem pressões e descaracterizações que comprometem a própria ideia de natureza. No texto EVEREST: A ANTIMONTANHA, publicado aqui no BLOG, aprofundo e contextualizo essa discussão. Ser ambientalista e trabalhar no mercado do turismo de aventura é sempre um desafio impregnado de controvérsias. 

Sei do impacto ambiental que essas minhas iniciativas provocam. Tento amenizar esse impacto e apaziguar minha consciência limitando o número de participantes comigo, promovendo atitudes de respeito e alguma sustentabilidade (como não fazer fogueiras, trazer de volta todo o lixo produzido, enterrar as fezes) e, principalmente, não tornar o roteiro “fácil demais”. Minhas propostas de expedição são sempre autossuficientes e fisicamente exigentes. Todos os participantes têm que carregar seu próprio acampamento e dividir o peso e o volume de toda a comida consumida no trajeto. Não acredito que a acessibilidade ilimitada traga apenas benefícios…

Resumindo: quem quer moleza, facilidade e vida mansa, não tente participar de uma das minhas expedições!

UM ROTEIRO, DOIS ROTEIROS, NENHUM ROTEIRO

A primeira vez que fiz a travessia do Parque Patagônia não havia Parque Patagônia. Sequer havia trilhas. Foi na última semana de outubro de 2012, durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, viagem de seis meses de duração e 6.000 km de extensão, que fiz solo e de bicicleta, que depois gerou o livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e o premiado documentário TRANSPATAGÔNIA. A segunda vez que completei a travessia foi em janeiro de 2014, quando levei sete outros aventureiros para explorar uma parte do futuro Parque Patagônia que eu não conhecia: a cadeia de montanhas ao sul do vale Chacabuco conhecida como Cordón Chacabuco. Refiz a travessia uma terceira vez, em janeiro de 2018, quando novamente liderei um grupo de outros sete brasileiros. Em janeiro de 2026, com já três travessias no currículo, mais uma vez diante de outros sete companheiros do Brasil, eu já me sentia um veterano da região.

Meus cúmplices nessa travessia foram: Eduardo “Babu” Duarte, 73 anos, engenheiro aposentado, carioca, com larga experiência em montanhismo e travessias em trekking, já havia participado comigo das expedições RUTA DE LOS PIONEROS, CABO FROWARD e DENTES DE NAVARINO. Bernadette Panek, 67 anos, professora universitária de artes, curitibana, também com bastante experiência em montanhismo e travessias em trekking, já havia feito comigo a expedição RUTA DE LOS PIONEIROS. Fernando Marques, 60 anos, engenheiro aposentado, teresopolitano, bastante ativo na escalada em rocha e trekking, já havia feito a expedição DENTES DE NAVARINO comigo. Luis D., 55 anos, engenheiro aposentado, paulista, viajante e aventureiro bastante experiente, primeira vez na trilha comigo. Kleber Pirota, 52 anos, físico e professor universitário, bastante ativo na escalada em rocha, no montanhismo e no trekking, que nunca tinha se aventurado comigo antes. Rodolpho Ugolini Neto, 49 anos, profissional na área da tecnologia, fez uma das primeiras turmas do meu CURSO DE TREKKING e participou das expedições PARQUE PATAGÔNIA e DENTES DE NAVARINO comigo. Fabio Pogliani, 48 anos, veterinário e professor universitário, caboclo do mato que sempre acompanhou de perto meu humilde trabalho, primeira vez numa roubada comigo.

A característica geral que mais se destacou nesse grupo foi a idade. Estou com 63 anos e nem era o mais velho. Nosso ritmo era mais lento do que o ritmo dos jovens que nos ultrapassaram na trilha, dos poucos caminhantes que cruzaram nosso caminho. Nossas mochilas eram as maiores e as mais pesadas porque fazíamos um roteiro mais longo. Idade, no caso, foi sinônimo de experiência e determinação. 

Como de costume, todos os candidatos foram interrogados, entrevistados e aprovados por mim antes de se inscrevem. Não tinha ninguém inexperiente ou fraco. Todos estavam bem equipados e cientes de que nosso compromisso seria unicamente com o esforço e nunca com o sucesso — seja lá o que isso for.

De cara, expliquei que tínhamos um roteiro estimado, mas que faríamos aquilo que o grupo se mostrasse capacitado e disposto a fazer. Tínhamos um, dois e até três possibilidades de rota a escolher. O que significa que não tínhamos que seguir obrigatoriamente roteiro algum. Minha intenção e desejo secretos eram que conseguíssemos caminhar o máximo possível por caminhos desconhecidos por mim.

UM MAPA DE SURPRESAS

Numa loja de artigos de aventura em Coyhaique, nosso ponto de encontro na Patagônia chilena para essa travessia, encontrei um mapa impresso contendo “as trilhas oficiais do Parque Patagônia”. Sou um ser analógico e prefiro sempre usar mapas impressos e uma bússola para a navegação. Seguir mapas digitais em telas tende a transformar travessias em videogame.

O tamanho reduzido da impressão deixou claro que o material não permitiria seu uso para a navegação propriamente dita. Nós poderíamos usar a carta topográfica como fonte de pesquisa na decisão de qual trilha, ou qual direção seguir. Nada mais que isso. Mas a maior surpresa escondida no mapa se mostraria apenas em campo…

O ARTIGO MAIS IMPORTANTE EM QUALQUER EXPEDIÇÃO

O artigo mais importante em qualquer expedição, na minha humilde opinião, é tempo. Não estou falando de clima, que tem importância relativa, para não dizer ínfima em qualquer expedição. Em trekking, com equipamento apropriado qualquer clima serve. Eu raramente olho a previsão do clima. Tenho que estar preparado para tudo o que a natureza jogar na minha direção. Tempo é a possibilidade de contornar problemas graves, como, por exemplo, extravio de bagagem em viagens aéreas. Tempo para esperar que um companheiro doente se recupere, como de fato aconteceu nessa aventura. Tempo para mudar o trajeto e visitar um ponto fora do mapa.

Quem tem tempo, tem liberdade.

Passamos dois dias inteiros em Coyhaique comprando os mantimentos necessários para dez dias de trekking autossuficiente. Polenta, purê de batatas, latas de atum, latas de cavala (jurel em espanhol), salames, Miojo, granola, leite em pó, café solúvel, frutas secas, castanhas, chocolate, pedaços de queijos e três sanduíches de queijo com salame, para os três primeiros dias, compunham o cardápio. Não levamos nem um grão de arroz do Brasil. Reembalamos todos os alimentos em sacos plásticos para evitar vazamentos nas mochilas. Dividimos tudo em partes iguais para que cada um carregasse um oitavo do estoque. 

Fiz uma apresentação ao grupo exibindo, item a item, tudo o que eu levaria na mochila. Deixei claro a importância do minimalismo e de evitar redundâncias. Meus companheiros abandonaram vários itens.

Cheguei a Coyhaique dois dias antes de todos. Bernadette chegou um dia antes de mim. Juntos, ela e eu, fizemos a correria de organizar a logística da viagem em veículos da expedição. Compramos passagens de ônibus para todos até a cidadezinha de Puerto Ingeniero Ibañez, de onde zarpa a balsa que conecta à cidade de Chile Chico.  Compramos os tickets da balsa também. Compramos as passagens de ônibus de Cochrane, onde terminaríamos a travessia, de volta a Coyhaique. No verão, alta temporada na Patagônia, esses detalhes podem estragar qualquer planejamento. Já tínhamos deixado agendada a van que nos levaria de Chile Chico até o Setor Jeinimeni do Parque Patagônia, de onde começaríamos a caminhada.

DOIS SUSTOS ANTES DE VESTIR A MOCHILA

A caminho do parque, na van, descobri que não tínhamos comprado os ingressos para entrar no Parque Patagônia e senti o sangue gelar nas veias. Imaginei que perderíamos o dia voltando a Chile Chico para resolver o problema. Por sorte, a tecnologia que invade e controla nossas vidas nesse caso veio para nos salvar: havia Wi-Fi via satélite na portaria do parque e pudemos comprar os ingressos online sem suar as camisetas.

O segundo susto, de menor consequência cardíaca, foi descobrir que havia esquecido o cabo e o carregador do celular no hotel em Chile Chico. Meu aparelho permaneceria desligado a travessia toda. Sem estresse. Todos meus companheiros levavam celulares (nenhum com cabo compatível com o meu) e powerbanks suficiente para competir com uma pequena usina hidroelétrica. Esse tipo de detox digital forçado é sempre bem-vindo. Um dia ainda vou organizar uma expedição totalmente livre de celulares… Meu medo é alguém surtar.

Na portaria, o guarda-parque de plantão nos alertou para a possibilidade de rios cheios no caminho, por conta de chuvas fortes nos dias anteriores. Nenhum susto no caso. Acho até que sorri quando ouvi a informação. Sobre a chance de encontrarmos pumas no caminho, ele afirmou apenas “que havia pumas”. Nenhuma novidade… 

PRIMEIRA MUDANÇA DE ROTEIRO

Ainda em Coyhaique, decidimos pular o primeiro acampamento, no Setor Jeinimeni, às margens do Lago Verde, logo depois da Laguna Esmeralda, para seguir direto pelo Paso La Gloria e chegar ao bosque no Valle Hermoso. No lugar de caminhar apenas 8 km, caminharíamos 17 km nesse primeiro dia e ganharíamos um dia na programação. Sábia decisão que mais tarde nos deu o tempo necessário para esperar a recuperação de um companheiro doente. Tempo é o que faz a diferença, não duvide.

Nossas decisões eram amplamente discutidas por todos, ou quase todos. Votávamos as alternativas. Quem ficasse alheio, por distração ou desinteresse, era logo alertado por alguém do grupo (muitas vezes eu mesmo) para a importância de participar e contribuir.

A gradual construção de consenso cria também maior senso de responsabilidade, eliminando os papéis hierárquicos de guia e cliente, que abomino. Eu não sou guia, sou apenas o participante mais experiente no grupo, pronto para oferecer conhecimento e ser convencido por opções melhores, quando apresentadas com sólidos argumentos. Num espaço amplamente democrático, todos podem contribuir, ensinar e aprender. Habilidades e deficiências individuais ficam evidentes e podem ser aproveitadas ou contornadas. Expedições nesse formato oferecem ótimos modelos sociais de como grupos podem funcionar com maior eficiência, com mais colaboração e menos competição interna. O inverso de ambientes corporativos tradicionais, baseados em metas, lucros, sobrevivência e acúmulo individual de méritos.

Se, por um lado, as mochilas estavam mais pesadas no primeiro dia, por outro lado, o tanque de combustível de cada um também estava mais cheio de entusiasmo. O ânimo ajudou a carregar a carga extra.

 

UM SUSTO DEPOIS DE VESTIR A MOCHILA

Na parada para lanche que fizemos no local onde havíamos planejado e depois cancelado o primeiro acampamento — no Setor Jeinimeni, às margens do Lago Verde, logo depois da Laguna Esmeralda —, sofri um acidente. O acidente mais grave de toda a expedição.

Há meses, eu vinha lidando com uma lesão no ombro direito, uma ruptura grande num dos tendões que compõem o manguito rotador. Fui para essa expedição com medo de piorar a lesão, embora estivesse sob tratamentos e fazendo fisioterapia, que me deram segurança.

Na hora de retomar a caminhada, quis poupar meu ombro não erguendo a mochila, em cima de um balcão alto. Tentei guardar a jaqueta impermeável na parte de cima da mochila sem tirá-la do balcão. Subi num banquinho, cortado de um pedaço de tronco, pisando com o pé esquerdo nele. O piso, irregular, de terra e pedras soltas, não suportou meu peso e o banquinho virou. Caí com tudo de ombro no chão, exatamente o ombro lesionado, batendo violentamente a cabeça no solo. Imediatamente senti dor na cervical.

O susto foi grande e meus companheiros ficaram bem alarmados. Após alguns minutos deitado, levantei-me devagar, fiquei de pé, avaliei a tontura que senti, vesti a mochila e seguimos caminho. Por muitos dias, meu pescoço ficou duro e dolorido. Um arranhão profundo no calcanhar esquerdo, que ardia em contato com a água dos rios, rodeado de hematoma, também não me deixou esquecer do acidente. 

Em trilhas na Patagônia profunda qualquer acidente pode se transformar numa epopeia de resgate e socorro. O episódio serviu de alerta para todos, especialmente para mim. 

A GELEIRA QUE NÃO VIMOS

O segundo dia foi de exploração do Valle Hermoso sem mochilas, que ficaram nas barracas, no acampamento no bosque onde passamos duas noites. A proposta era percorrer cerca de 15 km, ida e volta, até o fundo do Valle Hermoso, para visitarmos a geleira que dava origem ao rio no fim do vale. Fizemos menos de 9 km totais.

Fazia bastante calor, nunca vi dias tão quentes nessa região da Patagônia. O sol pleno castigava a pele. Caminhamos esse dia por pedras no leito meio seco do largo rio. Cruzamos as águas inúmeras vezes. Para facilitar, fomos de Crocs ou semelhantes nos pés, para evitar ter que tirar as botas a cada cruzada de rio.

No final, retornamos exatamente do ponto em que deveríamos sair do Valle Hermoso para entrar no Valle Avilés, que nos levaria ao Valle Chacabuco e a continuação de nossa travessia. Não vimos a geleira, mas mapeamos o trajeto que seria o início do nosso terceiro dia na jornada.

Uma das características mais marcantes dessa travessia é a variedade de cenários e de biomas que se apresentam. Essa primeira parte, da entrada no Setor Jeinimeni até a chegada no Valle Chacabuco, tem “clima alpino”. Montanhas empinadas com vegetação densa nas bases e topos rochosos, às vezes gelados. Leitos largos de rios de degelo em vales profundos. Pedra em cima de pedra e vida dura para os pés de todo ser vivente. Fico sempre esperando ver cabras nas encostas dos morros, mas no máximo vimos condores nos céus.

NO AVILLÉS JÁ TIVE MEDO DE PUMAS

Costumo ter flashbacks quando refaço travessias. É como voltar no tempo e reviver sensações, emoções, visões. No longo trecho dentro do bosque denso no Valle Avilés, que conecta o Valle Hermoso ao Valle Chacabuco, lembrei o que vivi em outubro de 2012, quando fiz essa travessia sozinho, com muita neve no chão. Foi minha primeira travessia solo em trekking exploratório, longo, autossuficiente, que demorei cinco dias para completar. Eu queria muito ver um puma na EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA e quando entrei no bosque do Valle Avilés havia pegadas frescas do predador impressas na neve e no barro. Caminhei horas batendo meus bastões, assobiando, cantando, fazendo barulhos aleatórios que alertassem e afastassem os felinos. Eu queria muito ver um puma, mas não precisava ser naqueles dias… 

Nossa passagem pelo vale foi menos dramática. Num trecho de muitas árvores caídas perdemos a trilha e gastamos tempo ziguezagueando em busca do melhor caminho. Deixo o grupo se dividir para que cada um caminhe no seu ritmo, marcando pontos de reencontro e reagrupamento. Isso promove maior atenção e a noção de que a navegação é responsabilidade de todos. Não existe ritmo rápido ou ritmo lento, cada um tem seu ritmo e esse deve ser respeitado.

CASA DE PIEDRA

Ao final do vale Avilés, quando o corte no relevo termina no vale Chacabuco, existe um acampamento muito bem estruturado chamado Casa de Piedra. O vale Chacabuco era uma gigantesca fazenda criadora de ovelhas nos tempos do lendário Lucas Bridges (1874–1949), autor do excelente livro EL ÚLTIMO CONFÍN DE LA TIERRA (THE UTMOST PLACE ON EART, em inglês). Entre 1908 e 2004, a Estancia Valle Chacabuco, fundada por Bridges, teve cerca de 25.000 ovelhas e 4.000 vacas, numa área de cerca de 100.000 hectares. Densos bosques foram incendiados para dar lugar a pastos, que degradaram o solo com o excesso do pastoreio. A fauna endêmica foi quase extinta. Em 2004, o conservacionista estadunidense Douglas Tompkins (1943-2015), fundador da marca The North Face, comprou o latifúndio com a intenção de doar as terras ao governo do Chile para a criação de um parque nacional, unindo a Estancia Valle Chacabuco com as reservas nacionais de Jeinimeni e Tamango. O Parque Nacional Patagônia foi estabelecido em 2018 nesses moldes.

Chegar à Casa de Piedra, com acesso a chuveiro quente (na verdade morno ou pouco frio), cozinhas e quiosques protegidos do vento, ampla área de acampamento gramado e vizinho à estrada de terra que conecta Chile e Argentina, marca o fim da primeira parte da travessia do Parque Patagônia. A partir desse ponto apresentam-se diversas opções de roteiro.

Na Casa de Piedra perdemos um dos membros da expedição. Fabio sentia fortes dores no joelho esquerdo e informou que preferia desistir da travessia para se poupar e para não expor os companheiros a possíveis contratempos. Uma atitude corajosa e responsável. Éramos oito…

Optamos por tentar o trajeto mais longo e audacioso até Cochrane, por uma variante do roteiro que eu havia feito e desbravado em 2014 com outro grupo, subindo o Cordón Chacabuco e entrando no Setor Tamango do parque pelo seu extremo nordeste. O mapa impresso que eu havia comprado em Coyhaique apresentava o percurso que eu havia desenhado em 2014, publicado pelo meu amigo Hendrik Fendel no Wikiloc, como sendo “a trilha oficial” do parque. Já os tracklogs mais recentes, disponíveis nos aplicativos de navegação, apresentavam outra trilha como sendo “oficial”. Decidimos seguir as trilhas mais modernas, que também eram mais fáceis, com subidas mais curtas e menos íngremes.

NA ECONOMIA DIGITAL NADA SE CRIA, TUDO SE COPIA

Para meu espanto, confirmamos aquilo que eu custava em acreditar: os editores do tal mapa impresso haviam simplesmente copiado o tracklog publicado pelo Hendrik Fendel no Wikilock, por caminhos sem qualquer marcação, sem quaisquer vestígios em campo, rasgando mato e cruzando áreas selvagens, que desbravamos em 2014 a partir dos estudos que fiz das cartas topográficas chilenas. Eles sequer se deram ao trabalho de verificar em campo se aquilo era factível! A tal “trilha oficial” publicada em papel deveria ter minha assinatura autoral e uma nota de rodapé dizendo: “não recomendável para turistas inexperientes”. Eu mesmo optei por não repetir o trajeto dessa vez.

O trajeto que seguimos se mantinha por trilhas bem pisadas e de fácil identificação, tornando a navegação um simples exercício de atenção e lógica, mantendo a direção certa rumo a Cochrane.

Da Casa de Piedra passamos por toda a extensão da margem sul do Lago Gutierrez e seguimos para oeste. Decidimos fazer um acampamento improvisado no meio da trilha, apenas 2,5 km depois do lago, num platô, para dividir a longa e extenuante escalada do Cordón Chacabuco em duas partes. Nos vimos diante do problema logístico de falta de água. Luis e Kleber, entre os mais fortes do grupo, se voluntariaram a refazer a distância até o Gutierrez para trazer água para todos. Sem essa colaboração teríamos que retroceder todos e perder os muitos metros ganhos em subida.

UMA TRAVESSIA, TRÊS BIOMAS

Como mencionei anteriormente, no Setor Jeinimeni passamos por um “cenário alpino”. No vale Chacabuco percorremos uma área de característica mais seca, sob influência dos pampas argentinos, já que o vale está alinhado no sentido Leste-Oeste. Vencido o Cordón Chacabuco, entramos numa zona de bosques úmidos, influenciados pelo grande Lago Cochrane, no Chile, denominado como Lago Puyerredón na Argentina. Três biomas bem distintos numa mesma travessia.

Essa união de biomas, de diferentes faunas e floras formando um quadro diverso e completo, foi inclusive uma das principais razões que levaram Douglas Tompkins a escolher o Valle Chacabuco como projeto de conservação. Discípulo do filósofo e montanhista norueguês Arne Naess (1912-2009), criador do conceito de Ecologia Profunda (Deep Ecology em inglês), Tompkins acreditava nos princípios do biocentrismo, em oposição ao antropocentrismo. O meio ambiente deve ser conservado por possuir valor intrínseco próprio e não apenas como reserva natural, como se fosse uma espécie de poupança ecológica. Diferentes biomas são interdependentes entre si, assim como toda forma de vida é interdependente das demais. O ser humano é apenas um dos inúmeros fios na complexa teia que compõe a vida. Havendo interesse no tema, recomendo o ótimo livro DEEP ECOLOGY: LIVING AS IF NATURE MATTERED, de Bill Devall e George Sessions. Mais uma resenha de livro já lido que fico devendo aqui no BLOG. 

SENDERO SIETE LAGUNAS

A Trilha das Sete Lagoas — Sendero Siete Lagunas em espanhol — foi uma novidade para mim. Não lembrava de ter ouvido falar dela antes. O destino eram as Lagunas Altas, uma série de lagos pequenos nos topos das montanhas vizinhas à sede do Parque Nacional Patagônia, ao sul. Mais ou menos o mesmo destino que escolhi e completei em 2014, que decidimos repetir agora, em 2026.

Seguimos por caminhos novos para mim, orientando-nos por trilhas bem pisadas, unindo as lagoas Gutierrez, Guagua, Vizcacha, Adelita e outras menores, até chegar à estrada principal no vale Chacabuco e à sede administrativa do parque.

Acampamos num labirinto de arbustos ásperos e retorcidos às margens da lagoa Guagua, incapazes de chegar até a água sem nos perdermos na densa vegetação. Acampamos também ao lado da lagoa Adelita, protegidos do sol numa pequena clareira debaixo de árvores, onde fomos visitados por três pequenas corujas muito curiosas. Esses dois dias foram mais curtos porque Fernando apresentou sintomas de virose, com dor de garganta, perda de voz, fraqueza, ânsia de vômito, inapetência e febre baixa. Dividimos o peso de toda a alimentação que ele carregava e fizemos meia jornada por dois dias. Tínhamos o tempo necessário para esperar que ele se recuperasse, sem prejudicar nossa programação.

HOTEL EXPLORA

Chegar à sede do parque e comer asado de cordeiro no restaurante tinha sido um tema recorrente na travessia. Trekking autossuficiente não engorda. Muito pelo contrário. Racionar comida é imperativo, primeiro, por conta do peso e do volume a serem carregados nas mochilas; segundo, porque faz parte do aprendizado de minimalismo.

Se usarmos expedições como laboratórios de “Bem-Viver” — baseado nos conceitos de Sumak Kawsay (na língua quíchua) e Suma Qamaña (na língua aimará), ensinados pelos povos andinos do Equador, Peru e Bolívia — fica fácil ver a conexão entre viver frugal e viver em harmonia e equilíbrio com os demais seres vivos. Quem tiver interesse em conhecer mais sobre o tema, recomendo o excelente livro O  BEM VIVER: UMA OPORTUNIDADE PARA IMAGINAR OUTRO MUNDOS, do economista e político equatoriano Alberto Acosta, que resenhei aqui no BLOG. Tudo a ver com a Ecologia Profunda proposta por Arne Naess. Não existe obesidade fora do antropocentrismo, não existe fartura vizinha à miséria na natureza, somente a espécie humana promove sistematicamente a carência alheia como método de enriquecimento próprio. Comer o suficiente para se manter saudável é diferente de comer até se saciar. Acumulamos quilos no corpo pelo mesmo impulso que nos faz acumular dinheiro, títulos, patrimônio ou desespero e dívidas.

Para nossa surpresa, o restaurante público de outrora havia se transformado em restaurante exclusivo para hóspedes do Hotel Explora, atual concessionária das instalações do Parque Nacional Patagônia. A diária individual mais econômica em 2026 era de US$ 2.210, cerca de R$ 11.500 ou mais de 7 salários-mínimos. Nos contentamos em tomar cerveja na varanda, sob os olhares críticos dos funcionários, horrorizados com as condições de higiene das nossas roupas…

Acampamos no excelente e não menos luxuoso (guardadas as devidas proporções) camping Los West Winds. O chuveiro estava um tiquinho acima do frio e estávamos na boca para a trilha final que nos levaria, montanha acima, até perto do cume do Cerro Tamanguito (1.485 m) e a cidade de Cochrane, montanha abaixo.

PASSOS FINAIS

Os dois últimos dias foram os mais exigentes fisicamente. Chuviscou, pela primeira vez na trilha, na manhã que partimos do camping. Depois o céu abriu e o sol castigou, como sempre. Vencido o Cerro Tamanguito, acampamos uma noite ao lado da Laguna Cangrejo, onde havia mesas de piquenique e latrinas masculina e feminina.

No último dia de caminhada, chegamos ao mirante mais espetacular da viagem, com vista para as montanhas nevadas que bordeiam o Campo de Gelo Patagônico Norte, a cidade de Cochrane, o vasto vale do rio Baker e o mar de montanhas e morros que encrespam o cenário austral. Algo de tirar o fôlego.

Na portaria do Setor Tamango conheci (ou reconheci) o guarda-parque Charlie, que havia vivido por dez anos em Villa O’Higgins, um dos meus lugares favoritos na Patagônia. Seu rosto me pareceu familiar, acho até que já o havia conhecido antes. Conversamos entusiasmados sobre aventura e ele me mostrou, na tela do computador, um roteiro de trekking que eu nunca tinha ouvido falar, que conecta Villa O’Higgins a Candelario Mansilla por terra. Quatro dias por trilhas de cavalos até a casa de um ermitão às margens do Lago O’Higgins. Ele falou de outras possibilidades de aventura na região e ainda forneceu todos os contatos necessários para organizar uma próxima expedição. Era como encontrar o pote de ouro ao fim do arco-íris.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não faço aventura sem propósito. Tampouco considero visitar lugares novos como um propósito satisfatório em si. Faço aventura para explorar, antes de tudo, a mim mesmo, meus potenciais, minhas habilidades e deficiências. Expedições são excelentes laboratórios de análise daquilo que funciona versus aquilo que só está fazendo peso na mochila ou na vida. Isso vale tanto para equipamento quanto para ideias, ideais, valores e visões de mundo. Considero a natureza preservada um santuário, local sagrado, meu templo. Comungar esse espaço e esse tempo com pessoas que sentem como eu é um privilégio cada vez mais raro, especialmente no mundo sempre mais digitalizado, mais virtual, mais fake.

Do mesmo modo que uma pessoa nunca toma banho no mesmo rio porque tanto a pessoa quanto o rio mudam, nenhuma trilha é igual, mesmo quando repetimos o roteiro. A travessia do Parque Patagônia sempre me surpreende. Dessa vez, passei um calor que não imaginei possível na região. Dormi quase todas as noites fora do saco de dormir. Lembro de acampamentos em que passei horas deitado só de cueca na barraca, esperando o sol se por. Tomei banhos de protetor solar.

Antes de deixar a sede do Parque Patagônia, visitei novamente o túmulo de Douglas Tompkins no cemitério local. Como fiz quando o conheci pessoalmente, em 2014, pouco antes de ele morrer e quando pude apertar sua mão, agradeci mais uma vez. Tive o privilégio de poder apresentar Tompkins ao público brasileiro no livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS, antes que seus parques lhe dessem a merecida fama. No livro, escrevi que ele enfrentava o problema da devastação ambiental com a arma mais eficiente possível: ele usava o capital contra o capital. Ele usou o poder da grana para vencer o poder da grana. Isso é revolucionário.

O mundo precisa urgentemente de mais sonhadores, mais visionários, mais ambientalistas ricos dispostos a investir tudo no anticapitalismo, na Ecologia Profunda, no Bem Viver, na riqueza coletiva — que é a única riqueza real. Tompkins adotou a frase do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), publicada no livro O IDIOTA, como lema de seu trabalho de conservação ambiental: “A Beleza Salvará o Mundo”. Uma escolha sensível e filosófica, baseada no poder do indelével, do indizível, do inexplicável. Não somos apenas seres materiais… Quem faz a travessia do Parque Patagônia não duvida dessa afirmação. Todas as vezes que percorro essas trilhas me sinto um pouco mais salvo… 

ROTEIRO / RESUMO NUMÉRICO DA TRAVESSIA

DIA 1: Entrada Setor Jeinimeni – Acampamento Valle Hermoso
              19 de janeiro de 2026 // 17,18 km // 454 m subidos // 377 m descidos

DIA 2: Acampamento Valle Hermoso – Acampamento Valle Hermoso
              20 de janeiro de 2026 //7,81 km // 69 m subidos // 69 m descidos

DIA 3: Acampamento Valle Hermoso – Acampamento Valle Avilés
              21 de janeiro de 2026 //17,99 km // 331 m subidos // 403 m descidos

DIA 4: Acampamento Valle Avilés – Camping Casa de Piedra
              22 de janeiro de 2026 //15,08 km // 464 m subidos // 706 m descidos

DIA 5: Camping Casa de Piedra – Acampamento improvisado
              23 de janeiro de 2026 //10,09 km // 493 m subidos // 284 m descidos

DIA 6: Acampamento improvisado – Acampamento Laguna Guagua
              24 de janeiro de 2026 //12,07 km // 662 m subidos // 613 m descidos

DIA 7: Acampamento Laguna Guagua – Acampamento Laguna Adelita
              25 de janeiro de 2026 //7,06 km // 396 m subidos // 444 m descidos

DIA 8: Acampamento Laguna Adelita – Camping Los West Winds
              26 de janeiro de 2026 //18,35 km // 388 m subidos // 623 m descidos

DIA 9: Camping Los West Winds – Acampamento Laguna Cangrejo
              27 de janeiro de 2026 //13,88 km // 1.023 m subidos // 420 m descidos

DIA 10: Acampamento Laguna Cangrejo – Cochrane
                28 de janeiro de 2026 //12,89 km // 80 m subidos // 915 m descidos

TOTAL: 10 dias de trekking // 132,35 km // 4.360 m subidos // 4.854 m descidos 

COMENTÁRIO DO KLEBER PIROTA:

“Sempre muito interessantes, seus textos combinam relato direto e referências variadas, oferecendo liberdade a quem deseja se aprofundar nos temas tratados. Isso parece ser uma unanimidade entre seus leitores. Neste momento, como participante desta expedição, deixo meu testemunho sobre a transparência e a fidelidade com que Guilherme escreve: sem enfeites exagerados, sem batalhas superestimadas ou obstáculos incômodos convenientemente ignorados.
No que diz respeito a expedições desse tipo, quase sempre me perguntam que preparação física específica é necessária. Costumo lembrar de uma preparação raramente considerada: a psicológica. É preciso estar pronto para passar dias desconectado do mundo cotidiano — sem internet, sem telefone, sem sequer saber ao certo que dia da semana é. Nas primeiras vezes em que vivi essa experiência, uma espécie de paranoia se instalava. Imaginava que algo muito importante poderia estar acontecendo — talvez com algum familiar — e eu não teria como saber por dias. Até em relação ao trabalho surgiam inquietações: estariam sentindo minha falta, mesmo eu estando de férias? Teria chegado algum e-mail urgente, daqueles que “precisam” ser respondidos em 24 horas?

Quando finalmente voltava ao ar, a conclusão era sempre a mesma: nada havia acontecido com ninguém, meu trabalho não sentira minha ausência, e nada realmente importante ocorrera a ponto de exigir minha presença, minha resposta ou minha assinatura.
Com o tempo, fui me acostumando a situações assim. Ainda assim, confesso que permanece um fundinho de preocupação — talvez menos um medo concreto e mais o resíduo de um mundo que insiste em nos manter sempre disponíveis. É justamente por isso que percebo necessitar de ainda mais expedições como essa: para aprofundar o contato comigo mesmo, para silenciar ruídos externos e reconhecer inquietações internas que só emergem quando o mundo cotidiano se afasta.
Paradoxalmente, esse afastamento é o que melhor me prepara para o retorno. Ao voltar, o contato com o cotidiano se torna mais claro, mais consciente e, de certo modo, mais humano. Desconectar-me por alguns dias não me afasta do mundo; ao contrário, ensina-me a reencontrá-lo com mais presença, menos urgência e uma atenção renovada ao que realmente importa.”

Uma resposta para “PARQUE PATAGÔNIA 2026 (RELATO E FOTOS)”

  1. Ricardo Bueno disse:

    Ótimo relato dessa viagem fantástica. Fazer uma expedição dessa, experimentando esse nível de contato com a natureza é o mais próximo que podemos chegar do “sagrado “ . Parabéns ao grupo!

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