EXPEDIÇÃO TREKKING NAVARINO 2019

28 de fevereiro de 2019

Relato do treinamento avançado em trekking realizado na Ilha Navarino, Terra do Fogo/Chile, em janeiro 2019
TEXTO: Guilherme Cavallari / FOTOS: Guilherme Cavallari, Rodolpho Ugolini Filho e Bernardo Schmidt

No livro My First Summer in the Sierra, o filósofo e ambientalista escocês John Muir (1838-1914), principal responsável pela criação dos parques nacionais norte-americanos, escreveu: “O caminho mais claro para se compreender o universo está num bosque preservado”. Páginas adiante, no mesmo livro, ele completou: “Entre dois pinheiros existe sempre uma portal para um novo estilo de vida”.

Eu assino em baixo.

Não foi à toa que incluí uma pequena biografia comentada desse grande pensador e humanista, muito à frente de seu tempo, no livro HIGHLANDS: POR BAIXO DO SAIOTE ESCOCÊS, onde narro a travessia solo em trekking de 450 km de extensão que fiz pelas Highlands da Escócia. Tenho Muir como bússola pessoal porque, como ele, também acredito no poder restaurador, purificador, simplificador e orientador da natureza. Para mim, também, “Todo mundo precisa de beleza tanto quanto pão, lugares para brincar e para orar, onde a natureza possa curar e fortalecer tanto o corpo quando a alma”.

O mundo pode ser grande ou pequeno, depende de nós. Por isso, não gosto de retornar repetidamente a lugares já visitados. Mesmo porque, sei que o Guilherme que esteve, por exemplo, na Ilha Navarino em 2008 não é o mesmo que voltou lá em 2013, ou esteve, uma terceira vez, agora em janeiro de 2018. Nós mudamos e nossa percepção do mundo muda conosco.

O circuito de trekking conhecido como DENTES DE NAVARINO, que mapeei e apresentei ao público brasileiro no livro GUIA DE TRILHAS TREKKING (VOL. 2), publicado em 2009, ficou gravado na minha memória como talvez o mais bonito e selvagem que fiz na vida. Voltar, dessa vez, com alunos do meu CURSO DE TREKKING para um treinamento avançado em expedição, seria uma garantia de nova experiência, apesar da repetição do roteiro. Mas, como sempre, consegui incluir uma pitada de ineditismo na proposta, pelo menos para mim: faríamos os cinco dias do circuito e adicionaríamos mais 4 dias de 

trekking até o Lago Windhond e talvez até a Baía Windhond — onde estive durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, detalhadamente relatada no meu livro TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e no premiado filme-documentário TRANSPATAGÔNIA.

Seriam 9 dias de trekking autossuficiente, com acampamentos selvagens, onde transportaríamos toda nossa alimentação e equipamento, nos orientaríamos por bússola e carta topográfica com o auxílio, se necessário, de aparelhos de GPS. Mediríamos nosso potencial físico e psicológico em meio à natureza preservada num canto isolado do planeta, com o compromisso de nunca perdermos o bom humor… Enfim, um projeto de aventura de verdade.

OS AVENTUREIROS

Guilherme, 56, fundador e diretor da KALAPALO EDITORA, autor de 18 livros sobre aventura, coautor de diversos filmes, instrutor de trekking e bikepacking, frequentador regular a Patagônia e da Terra do Fogo desde 2004, viciado sem cura em aventura como forma de autoconhecimento.

Sergio, 60, professor, ativista político, filósofo, presença regular nos cursos e expedições da KALAPALO EDITORA, figurinha carimbada duas vezes, frente e verso, e talvez o cara mais esquecido e desorganizado que conheço (sem nunca perder o bom humor), mas também um dos mais fortes, despojados, corajosos e despretensiosos. Ele emendou a EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO com essa de trekking.

Bernardo, 52, carioca, campeão de jiu-jitsu, funcionário público, formado em direito e administração de empresas, já tinha feito uma ou outra travessia em trekking mas nada tão longo ou selvagem. Disse que estava ansioso com a expectativa dessa expedição, mas seu jeito calmo de samurai não deixava transparecer. Um cara tranquilo que sabe se cuidar e traz alegria a qualquer grupo.

Rodolpho, 44, executivo de informática, dono de cervejaria, velejador campeão estadual, ciclista urbano convicto, já fez cursos e várias expedições comigo, inclusive a TRAVESSIA PARQUE PATAGÔNIA em janeiro de 2018. Um cara que combina bem a delicada equação de ser nerd e aventureiro outdoor ao mesmo tempo. Faz tempo ele ameaça chutar tudo pro alto e viver num veleiro… Estou só esperando.

Giovani, 13, filho do Rodolpho, vulgo Gigio, estudante, ajudante voluntário em fábrica de cerveja, lutador de karatê, segundo o pai “dono de ossos de aço e músculos de borracha”, fez o trekking todo sem dar um tropeção ou uma escorregada. O moleque nunca tinha feito uma travessia de mais de dois dias na vida e se isso não é prova de vocação incontestável, não sei o que é.

ANTES DE CAMINHAR

Nos encontramos todos em Ushuaia, na Argentina, onde a conexão aérea com Buenos Aires é diária e eficiente. Fomos juntos comprar os mantimentos necessários para a travessia, tomando o devido cuidado de não pegar nada que fosse fresco de origem animal, porque o controle de aduana no Chile, na Ilha Navarino, pode ser impiedoso.

A travessia do Canal Beagle, de Ushuaia a Puerto Navarino, dura cerca de 40 minutos e custa a bagatela de U$ 120, apenas ida. A volta é o mesmo preço. Fiz contato com um velho amigo em Puerto Williams, Luiz Tiznado, dono da loja de artigos de aventura TURISMO SHILA, que conseguiu um baita desconto para nós: U$ 200 ida e volta por pessoa.

— E você é meu convidado, — ainda informou ele. — Suas passagens pago eu!
— Como assim, Luiz?
— Você não tem ideia do número de brasileiros que passaram a visitar Navarino depois que você publicou seu livro, — ele se justificou. — É a segunda nacionalidade mais presente na ilha todos os verões, atrás apenas dos próprios chilenos. Seu trabalho ajudou muito a todos nós aqui!
Sem jeito, agradeci repetidamente, saboreando um daqueles preciosos momentos em que temos certeza que colhemos o que plantamos.

A travessia do Beagle foi serena, com o mar parecendo uma piscina. Contei aos meus companheiros sobre as travessias anteriores que eu já havia feito, em barcos menores e não cabinados, que saltavam de onda para onda com a mesma violência de touros de rodeio. Fiz a conta mentalmente e lembrei que já havia cruzado o Canal Beagle seis outras vezes anteriormente.

A longa viagem de microônibus de Puerto Navarino, onde existe apenas o posto de aduana, até a capital e única vila da ilha, Puerto Williams, é sempre um misto entre interessante e tedioso. Existem poucas construções humanas no caminho, de 54 quilômetros de extensão, que os veículos percorrem lentamente em mais de uma hora. Quando a vegetação que comprime a estrada dos dois lados permitia, eu apontava para a margem oposta do Beagle, para a Argentina, e explicava o que havia do outro lado em detalhes. Sergio e eu havíamos acabado de pedalar toda aquela extensão da costa argentina durante a EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO. Quando passamos em frente à Punta Remolinos, conseguimos enxergar o velho vapor Sarmiento, encalhado em 1922 e ainda decorando o mar em frente a dois ponto brancos na praia: as casinhas abandonadas onde dormimos na histórica Estância Remolinos.

Na vila, Luiz Tiznado guardava ainda outra surpresa para nós. As reservas que ele havia feito numa pousada econômica, a meu pedido, distante 750 m do centro de Puerto Williams, haviam sido trocadas por duas noites numa casinha a apenas um quarteirão da praça central, com quatro dormitórios, dois banheiros, cozinha completa e sala de estar com uma grande salamandra de ferro queimando lenha sem parar. Tudo isso mais barato do que a pousada, que já era bem barata. E Luiz não permitiu que caminhássemos os 100 m até a casinha, fez questão que sua esposa nos levasse de carro!

Passamos a tarde completando o que faltava de nossa lista de mantimentos e tivemos tempo ainda de tomar uma cerveja no Yatch Club Micalvi, um velho navio aposentado e fundeado numa baía estreita, onde veleiros estacionam em volta e usam os banheiros, com chuveiro quente, do navio. A cabine de comando foi transformada, anos atrás, num bar com WiFi todo decorado com bandeiras e flâmulas de expedições a vela que passaram por ali, algumas a caminho da Antártica, outras em voltas ao mundo, de famílias que vivem em barcos, ou simplesmente de lobos do mar que ancoraram ali. Nem preciso dizer que os olhos do Rodolpho, o velejador do nosso grupo, brilhavam como se ele fosse uma criança na Disneylândia.

OS PRIMEIROS PASSOS

Nosso primeiro dia de trekking visava chegarmos a meio caminho do Lago Windhond, via o Valle Ukika, um caminho que eu havia feito durante e EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA com minha companheira de vida e de aventura, Adriana Braga, em janeiro de 2013. Mas, dessa vez, deu tudo errado.

Como a navegação desse primeiro trecho do projeto tinha sido extremamente fácil em 2013, não me preocupei tanto com ele na preparação dessa expedição. Teoricamente, era só seguir o rio que descia do Valle Ukika. Se deu certo antes, daria certo agora. Esse otimismo baixou minha guarda e não fiz o básico, que seria conversar com meu amigo Luiz Tiznado e obter informações atualizadas da trilha. Em vez disso, conversei com ele sobre todos os demais trechos do caminho pretendido, que eu tinha certeza seriam bem mais complicados.

Passamos horas na região do Valle Ukika andando de lá pra cá por um labirinto de novas estradas sem conseguir engatar numa trilha que seguisse na direção desejada. Num determinado momento, nos vimos diante da decisão de “varar o mato” e chegar logo no topo do vale ou mudar de plano. Aquele era o primeiro dia da travessia e os motores ainda estavam frios. Rodolpho, que tinha ainda a responsabilidade de estar com o filho adolescente, havia me pedido, via Whatsapp, que “pegasse leve no começo” até o corpo se acostumasse com a pauleira que era esperada. Isso ficou na minha cabeça, junto com a decisão que eu tratava como mantra: a viagem seria divertida.

Diversão é uma palavra complicada pra mim. Confesso que tenho a tendência de levar as coisas um pouco a sério demais. Aventura é quase uma expressão religiosa pra mim, uma situação onde espero ter contato com meu melhor e meu pior, sendo que o melhor é algo que se aproxima do divino. Mas isso é outro assunto…

Entre rasgar o mato por horas sem certeza de sucesso, discuti com os parceiros e decidimos optar por uma alternativa menos traumática. Seguimos uma estradinha de terra íngreme, montanha acima, onde havíamos encontrado uma pichação que dizia “Cascada” — que é cascata em espanhol —, com uma seta indicando a direção. Eu lembrava de duas cascatas na região e qualquer uma delas seria boa pra gente, então tocamos pra cima. A estradinha virou trilha, sempre subindo, depois ficou sutil num trecho de bosque, mas entendi pela direção geral que estávamos indo não pra dentro do Valle Ukika, mas para o primeiro dia do circuito Dentes de Navarino. E não demorou muito, embora tenha demorado o suficiente, engatamos com a trilha oficial da travessia.

Faltando cerca de 2 ou 3 km para chegarmos ao acampamento na Laguna El Salto, Giovani abriu o bico. Cansou. A mochila dele estava, obviamente, mais leve que a do resto do grupo, afinal ele pesava apenas 48 kg e cada um deve carregar em torno de 25% a 30% de seu peso corporal, no máximo. Minha mochila, por exemplo, era a mais pesada do grupo com 22 kg, sendo que peso 86 Kg. Caminhei rápido na trilha estreita, cavada pelos passos de trilheiros anteriores na encosta empinada da montanha, larguei minha mochila na trilha assim que avistei o acampamento da Laguna El Salto e voltei para carregar um pouco a mochila do Gigio. Ele parecia melhor, Sergio brincava e fazia piadas para distrair o menino e Rodolpho tinha a cara de quem descobre que o carro foi roubado.

Levei a mochila do Gigio somente até chegar à minha própria mochila. Na sequência, teríamos que descer por um caminho incerto, sobre pedras soltas de tamanhos diversos, até a beira da linda lagoa onde acamparíamos aquela noite. Impossível descer aquilo com o mínimo de segurança levando duas mochilas! Mas Giovanni já estava plenamente recuperado. No final, caminhamos 18 km com 1.200 m acumulados de subida e 830 m acumulados de descida nesse primeiro dia, que se tivéssemos começado certo teriam sido apenas 11 km totais.

UM PASSO POR VEZ

Na manhã seguinte não havia nem sinal do cansaço que havia abatido o Giovanni, mas o pai ainda não parecia recuperado do susto. Fácil de entender. Aquela era a primeira travessia do garoto, que está numa idade onde tudo é extremo, amor ou ódio, tudo recheado de muito hormônio. Se a experiência de trekking não caísse bem com os sucos glandulares, o caldo azedaria. Obviamente, Rodolpho pesava as consequências. Daquele ponto, ele e filho poderiam abortar a viagem e voltar pra Puerto Williams sem problema. Se seguissem adiante essa porta se fecharia a cada passo adiante. Havia um grupo para pensar e levar em consideração e Rodolpho é um dos caras mais responsáveis que conheço. Outro ingrediente na sopa era o fato do pai ter praticado pouco ou quase nada de esporte no último ano, desde que fez comigo, um ano atrás, a Travessia do Parque Patagônia (relato com fotos no site sob o nome de AVENTURAS AUSTRAIS, dividido em 14 capítulos).

Minha postura nessas situações e relaxar, fazer o meu trabalho e deixar o barco correr seu rumo. As coisas tendem a se ajeitar ao seu modo, essa é minha crença básica. Sou adepto da filosofia do “estar preparado”, assim o que vier será encarado sem desespero. Se Rodolpho e Gigio decidissem voltar para a vila, eu achava que poderia acompanhá-los até algum ponto seguro, de onde eles poderiam seguir sozinhos, ou até deixa-los voltar por conta própria. Confio muito no bom-senso do Rodolpho. O resto do grupo poderia me esperar parado, ou seguir até algum lugar também seguro e esperar minha volta. O essencial é que todos tivessem calma em suas decisões e levassem o resto do grupo em consideração. Mas nisso eu estava tranquilo, o grupo era formado por pessoas sensatas.

Essa travessia é uma espécie de continuação do CURSO DE TREKKING que ministro no REFÚGIO KALAPALO, e não é um passeio turístico. Os integrantes foram devidamente instruídos a esperarem o pior, orientados a adquirir o equipamento necessário, passaram por treinamento prático de montagem de mochila e de acampamento, sabem que a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso da empreitada está tanto comigo quanto com cada um deles. Eu só não tinha certeza, ainda, se a noção de “sucesso” e “fracasso” estava clara para todos… Não tínhamos que fazer X quilômetros ou chegar aos lugares Y ou Z. Tínhamos, sim, que fazer tudo com bom humor e em segurança, oferecendo nosso máximo individual para o bem coletivo. Só isso.

No segundo dia de trekking, poucos quilômetros depois do acampamento na Laguna El Salto e depois de uma subida bem íngreme, abandonamos o circuito Dentes de Navarino e começamos a caminhar no sentido sul, em direção ao Lago Windhond e à Baía Windhond, que víamos do alto das montanhas. Massas de água estendidas aos nossos pés com a silhueta do arquipélago do Cabo Horn no horizonte. Uma vista que poucas pessoas no mundo têm o privilégio de enxergar.

Esse trecho era novo para mim. Do ponto onde deixamos o circuito até engatarmos com a trilha que sai do Valle Ukika e chega ao Rio Windhond, a trilha que não conseguimos encontrar no dia anterior, eu só conhecia o caminho por descrições de outros aventureiros. Nem tracklog eu tinha no GPS. Mas a direção era bastante óbvia: deveríamos descer até umas lagoinhas logo abaixo do circuito Dentes de Navarino; depois subir o Monte Bettinelli, cuja massa arredondada e livre de vegetação nós víamos diante de nós; depois descer pelo meio de um bosque do outro lado da montanha até encontrar o Rio Windhond. Teoricamente fácil. Mas eu sabia, por experiência própria, que o tal bosque do lado oculto do monte era um labirinto de trilhas engolidas pela vegetação. Eu e Adriana havíamos perdido a trilha quando descemos até a Baía Windhond, durante a EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA, e cruzamos quilômetros pela mata, pulando árvores caídas, escorregando em raízes e contornando diques de castores nesse bosque. Um inferno!

Um jovem casal de trilheiros chilenos passou rápido por nós e pararam atrás de uma pedra para comer algo, protegidos do vento que vinha das montanhas. Troquei duas palavras com eles e vi que o garoto tinha um celular e seguia um tracklog. Eles iriam até o Lago Windhond. Relaxei. Bastaria seguir as pegadas deixadas por eles para encontrarmos nosso caminho sem problemas. O que parecia difícil, de repente ficou bem mais fácil. Oportunidades que não se devem perder na aventura.

Descemos a cadeia de montanhas e chegamos a um bosque vizinho a um dique de castor, com um lago retangular e de aparência artificial. Havia uma barraca armada numa zona de arbustos e pequenas áreas planas. Havíamos caminhado apenas 7,5 km e perguntei ao grupo o que eles gostariam de fazer. Eu achava que era cedo demais para parar e armar acampamento, mas se continuássemos teríamos um dia de pelo menos 12 km pela frente, com muita subida e descida, e de dificuldade incerta. Se continuássemos, manteríamos a proposta inicial de cronograma e roteiro e dormiríamos aquela noite no Refúgio Charles, uma cabana de tábuas de madeira à beira do Lago Windhond, onde havia um velho fogão a lenha à nossa disposição. De lá, seguiríamos até a Baía Windhnod numa sequência de mais três dias longos e duros, até retornarmos ao circuito Dentes de Navarino. Se parássemos ali, aos pés do Monte Bettinelli, perderíamos um dia no cronograma e teríamos que sacrificar a ida até a Baía Windhond por falta de tempo. Deixei claro a todos que não se tratava de uma questão de sucesso ou fracasso, que essas noções eram simplistas demais. Tínhamos que fazer a escolha a partir do nosso potencial enquanto grupo e não enquanto indivíduos.

— Eu estou bem cansado, — explicou Rodolpho. — Não sei se dou conta de tudo isso. Meu voto é pararmos aqui.

Nem precisei ouvir os demais integrantes do grupo. Se um de nós estava cansado demais, era uma questão de segurança e não de capricho. Teríamos que parar. Rodolpho manteve seu voto e todos concordaram em acampar. Sem estresse.

Obviamente, houve alguma frustração já que havia a expectativa de chegarmos até a Baía Windhond, onde o montanhista e aventureiro italiano Giuliano Giongo havia naufragado, já quase morto, com seu bote inflável numa travessia maluca que ele descreveu no excelente livro TEKENIKA: SETENTA DIAS SOZINHO EM UMA CANOA NO MAR DO CABO HORN. Eu havia sugerido a todos os participantes que lessem esse livro antes da nossa expedição para entrarem no clima. É importante, pelo menos para mim, essa pesquisa histórica e cultural sobre fatos que aconteceram no lugar a ser visitado. A experiência de outras pessoas humaniza o local. Embora não fôssemos pisar onde Giongo havia pisado, ele já fazia parte da nosso travessia, independentemente de onde ela nos levasse. 

Em compensação, aquele foi o acampamento mais bonito que fizemos em toda a travessia! A vista para as montanhas que compõem os Dentes de Navarino era espetacular! Castores apareceram no fim da tarde para pegar galhos nas margens, cujas folhas são seu jantar, e nos ofereceram um show à parte. Então, se alguém havia pensado que havíamos fracassado ou perdido algo, o cenário deixou claro que só havíamos ganhado.

TUDO O QUE SOBE, DESCE

Gigio subiu a montanha fungando no meu cangote. Se eu parasse pra recuperar o fôlego, ele pisava no meu calcanhar. Se eu deixasse ele seguir sozinho, ele teria montado uma barraquinha de churros no topo pra esperar o resto do grupo. Se alguém tinha receio de que ele não aguentaria a empreitada, essa dúvida tinha virado mingau. O último da fila era o Rodolpho, que subia sem pressa mas também sem atraso, num passo constante e firme. Sergio não caminha rápido por conta de uma antiga lesão no joelho, mas segundo sua própria autodefinição, é “um burro velho que não se cansa”. Eu assino em baixo. Bernardo sentia talvez a falta de mais treinamento aeróbio, já que seu esporte favorito, o jiu-jitsu, é anaeróbio, muscular e de explosão pura. Ele não subia rápido, mas vinha com a calma de um samurai que sabe que vai chegar onde quiser. Meus companheiros me deixavam tranquilo.

No topo do Monte Bettinelli (868 m) o vento era uma navalha na carne. A montanha era uma pilha gigante de pedras de todos os tamanhos. A vista do topo era de tirar o pouco do fôlego que a subida constante e o vento deixavam em nossos pulmões. Ao norte, as montanhas afiadas e carcomidas dos Dentes de Navarino. Ao sul, bosques sem falhas envolvendo o grande Lago Windhond até a Baía Windhond, semicircular e de aparência deserta, com o mar chegando até as montanhas do arquipélago do Cabo de Horn. A leste, o profundo Valle Ukika, que não conheceríamos em toda sua extensão, verde e cerrado, encaixotado entre as paredes do Bettinelli e a montanha vizinha. A oeste, um cenário selvagem que se estendia, verde e pontilhado de lagoas sem nome, até a muralha formada pelos Montes Codrington — um lado da ilha muito raramente visitado por qualquer pessoa. Terra de ninguém. Destino certo para uma aventura exigente e incerta… E meu coração bateu mais rápido imaginando coisas.

Mas a grande surpresa ficou para a descida, estreita, íngreme e instável, acompanhando uma aresta rochosa da montanha. A trilha, bem pisada, seguia por pedriscos contornando o relevo da montanha até chegar ao Lago Bettinelli, de cor esmeralda e alimentado por degelo. A barraca do casal de chilenos do dia anterior estava armada nesse platô vizinho ao lago. Eu sabia que eles iriam acampar em algum lugar para fazer um bate-e-volta até o Lago Windhond. Aquele era um cenário lunar.

Na sequência entramos no bosque, que era meu grande temor silencioso. Mas outra surpresa nos esperava: uma trilha bem marcada e fácil de seguir. Mas a facilidade na navegação não garantiu facilidade de caminhar. Assim que começamos a descer até o Rio Windhond a trilha ficou escorregadia, enlameada e com algumas árvores caídas bloqueando nossa passagem. Nada complicado, apenas um pouco traiçoeiro com mochilas pesadas nas costas. O bosque tinha aparência virgem e pouco acolhedora, mas era inegavelmente belo.

Um enorme dique de castores bloqueava totalmente o Rio Windhond no ponto onde a trilha batia no rio. Parecia a Usina Hidrelétrica de Belo Monte na Terra do Fogo! O “Belo Monstro” da Ilha Navarino! Imaginei se os castores não eram contratados da Oderbrecht ou de alguma outra megaconstrutora. Aquilo não era um bom sinal.

Quem leu meu livro TRANSPATAGÔNIA, PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS deve lembrar dos dados históricos… Os castores foram introduzidos na Terra do Fogo em 1946, importados do Canadá para iniciar um mercado de peles no extremo sul das Américas. Os primeiros casais foram libertados na região do Lago Yehuin, onde Sergio e eu havíamos estado na EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO. Mas a ideia foi um fracasso total. Sem o rigor do inverno do hemisfério norte, o pelo dos castores foguinos não ficou bom o suficiente para ser comercializado. Somado a isso, vestir pele de animais caiu de moda devido ao surgimento de fibras sintéticas eficientes e às denúncias de ambientalistas. Pra piorar, não existem predadores para o castor na Terra do Fogo, onde sequer existem pumas. Livres de caçadores e de predadores, os bichos proliferaram e causam uma verdadeira devastação ambiental, inundando vales inteiros, sufocando rios, destroçando bosques.

Acompanhamos o Rio Windhond por um tempo — que tinha menos da metade do volume de água que eu lembrava, por culpa dos castores —, até um vasto pântano que devíamos atravessar. Minha memória era de um par de horas caminhando com água nos tornozelos e eu já havia alertado o grupo. O terreno desse pântano é esponjoso, coberto de uma vegetação muito baixa que absorve e conserva água o ano todo. Mas, para minha total surpresa, estava tudo seco! Imagino que tenha sido culpa de uma sequência de invernos com pouca neve e verões com muito sol. Talvez resultado do aquecimento global, não sei. Para nós, no entanto, foi uma alegria! Caminhamos por terreno firme e mantivemos os pés secos até a entrada do bosque onde ficava o Refúgio Charles.

Um grupo de quatro jovens chilenos, que haviam cruzado nosso caminho logo no primeiro dia, estava acampado em torno do refúgio. Eles mantinham uma fogueira do lado de fora e praticamente não usavam o interior da cabana. Sergio e eu decidimos dormir dentro, já acostumados que estávamos em pernoitar em galpões depois de nosso rolê de bike. O resto do grupo armou barraca em volta da casinha. Os chilenos estavam ocupados tentando pescar com as varas deixadas por outros visitantes no refúgio, mas não haviam tido sorte ainda. A fogueira, pronta para assar peixes, era excesso de otimismo.

Uma vez acomodados, taquei fogo no velho fogão a lenha e o ambiente rústico logo ficou agradável e acolhedor. Muito pouco havia mudado desde minha visita, no réveillon de 2013. Apenas o rio estava extremamente baixo de água e havia mais árvores tombadas no bosque em torno da velha cabana. Por conta da grande escassez de água, quando visitei a beira do Lago Windhond fiquei surpreso ao ver a praia se estendendo por dezenas de metros mais longe.

ENTRE TÁBUAS E MONTANHAS

Decidimos descansar e curtir o lugar por um dia. Não teríamos tempo hábil para chegar até a Baía Windhond e, se não parássemos, diminuiríamos um dia de trekking seguindo imediatamente para o circuito Dentes de Navarino. Aproveitei a ocasião para tentar pescar. Sergio foi explorar a margem esquerda do Lago Windhond sozinho, numa caminhada de 4 ou 5 horas de duração e voltou encantado com a região. Passei talvez duas horas com meu kit de fly fishing sem sentir uma mordida sequer. Absolutamente nada! O resto do tempo mantivemos o fogão a lenha ativo, que batizei de “a televisão do Refúgio Charles”, de tanto que o fogo nos hipnotizava. Reli o livro de visitantes, ondei eu havia deixado um longo relato, com mapa desenhado, da nossa ida até a Baía Windhond seis anos antes. Reli também o curto texto que Adriana havia deixado no livro. Uma viagem no tempo.

No dia seguinte, refizemos o caminho até o acampamento aos pés do Monte Bettinelli. Engraçado como a mesma caminhada pareceu mais fácil no caminho de volta, quando retraçamos nossas própria pegadas. O desconhecido tem um impacto importante em viagens de aventura, modificando nossa percepção da realidade. Era inegável também a maior desenvoltura de meus companheiros, mais seguros ao caminhar, ao escolher o local de acampamento e ao armar as barracas. Rodolpho estreava uma barraca high-tech de uma material sofisticado chamado Dyneema, que antigamente era chamado de Cuben Fiber. Eu estava de olho nessa nova tecnologia há tempos e aproveitei para observar tudo de perto… Muito leve, sem varetas, a barraca dele usava os bastões de caminhada como suporte. Com apenas 800 g completa, com sobreteto e quarto para duas pessoas com mosquiteiro e duas portas, ela era muito rápida de montar e desmontar. O material, no entanto, exigia maior cuidado no transporte, por não poder ser amassado ou socado na mochila. O volume, quando desmontada, não me pareceu tão compacto assim e o preço, quase proibitivo! Enfim, algo muito interessante e bem-vindo, mas que não se encaixa bem com minhas expectativas no momento. Vou ficar, por enquanto, com as barracas de nylon ultrasil mesmo.

Fizemos 13 km do acampamento aos pés do Monte Bettinelli até o Refúgio Charles e os mesmos 13 km no caminho inverso. Nem muito, nem pouco, levando em consideração que o terreno era acidentado e as trilhas exigentes em diversos pontos. Mas como os dias eram longos, com nascer do sol às 4h30 e pôr do sol às 23h, tínhamos sempre muito tempo de luz natural para fazermos tudo sem pressa. Normalmente, uso meu tempo livre para escrever o diário da viagem, mas nessas expedições que lidero grupos prefiro apenas descansar. A rotina é intensa, sou o despertador da galera de manhã, quando brado a plenos pulmões “bom dia!” ou qualquer coisa do gênero. Em seguida, depois de me vestir e guardar o saco de dormir e o isolante térmico, começo a preparar o café da manhã para todos, que consiste basicamente em ferver água. Em geral, consigo desmontar todo meu acampamento antes do resto do povo ficar pronto. Quase sempre sou o primeiro a ficar a colocar a mochila nas costas, só esperando o último se aprontar para começar o dia. Quando terminamos a caminhada diária, monto rápido minha barraca e já começo a preparar o jantar.

A rotina dos dias, resumida em dormir, comer, caminhar e repetir tudo de novo, libera espaço mental para um tipo de relaxamento impossível na cidade grande. O corpo se cansa e a mente descansa. Depois de alguns dias assim, algumas pessoas entendem o quanto o cotidiano em centros urbanos é estressante. O corpo não consegue gastar toda a energia que tem e a mente é usada até a exaustão, dia após dia, sem intervalos. Numa viagem de aventura, em estilo expedição, quando somos autossuficientes e independentes, sem guias, carregadores ou babás, o espaço mental antes ocupado com ansiedade, frustração, preocupação e desejos vazios acaba preenchido com a beleza da paisagem. Então, se existe algum segredo de sucesso nessas empreitadas, basta escolher bem o destino da aventura e deixar a natureza fazer o seu papel.

No dia seguinte, engatamos com o circuito Dentes de Navarino e seguimos até a Laguna Escondida. Esse trecho, na minha memória de dez anos antes, era um martírio para os pés. Quilômetros sem trilha, sem marcação alguma, onde caminhávamos por pedras soltas de todos os tamanhos, sempre tentando não torcer o tornozelo ou o joelho. Tudo diferente agora. Havia uma trilha a seguir, um caminho onde milhares de visitantes amassaram o terreno, pulverizaram pedriscos, deixaram totens de pedras empilhadas e faziam nossa vida mais simples. Uma surpresa que eu aproveitava mas não conseguia classificar como “melhor”. A ausência de trilhas, para mim, era uma qualidade do circuito Dentes de Navarino que acrescentava à experiência de aventura. Mas era inegável que eu caminhava mais relaxado, apreciava mais a paisagem e estava me divertindo de outra forma. Também povoava meus pensamentos a responsabilidade que me cabia nessa transformação no circuito. Eu havia apresentado esse roteiro ao público brasileiro e, até aquele momento, nós já havíamos encontrado oito brasileiros na vila e na trilha. E ainda encontraríamos mais seis antes do fim.

O acampamento da Laguna Escondida terminou sendo o pior de todo o circuito. O local era lindo, às margens de um lago cristalino e gelado, aos pés do Monte Gabriel, num anfiteatro de pedra e água. Mas o terreno pedregoso não permitia o uso adequado de estacas, o que deixava nossas barracas menos firmes e mais expostas ao forte vento que acelerava entre os picos à nossa volta. Um vento de lufada sem direção definida. Um terror! Como chegamos cedo ao acampamento, depois de caminhar apenas 5,5 km, passei um par de horas construindo um muro de pedras empilhadas para proteger minha barraca do vendaval. Ergui uma paliçada digna da muralha da China! Mas como o vento mudava todo hora de lado, minha parede terminava pouco útil.

O COMEÇO DO FIM

O trecho seguinte transcorreu sem grandes dificuldades. O ponto alto, em termos de beleza natural, foi rodear a Laguna Hermosa, com as margens repletas de galhos secos de árvores corroídas por castores. Em seguida, chegamos à grande Laguna Martillo, onde acamparíamos aquela noite. Um pico pontiagudo, batizado de Cerro Clem, decorava o cenário. Os morros vizinhos eram chamados de Montes Lindemayer. Clem Lindenmayer, homenageado ainda em vida com seu nome nas montanhas, foi o criador do circuito Dentes de Navarino. Ele fez a travessia exploratória e publicou o relato, com fotos e mapas, na primeira edição do histórico livro TREKKNG IN THE PATAGONIAN ANDES, da editora Lonely Planet, em 1992. Australiano, Clem foi também coautor do Guia da China, também da Lonely Planet. Ele falava inglês, alemão, espanhol e mandarim e morreu fazendo trekking na China em julho de 2007.

Não faltava bons lugares para acampar em torno da Laguna Martillo e acabamos montando nossas barracas próximas umas das outras, numa área plana e seca. Mas bastava olhar os arbustos em torno para vermos fezes humanas, pedaços de papel higiênico e montículos de lenços umedecidos. Resquícios da passagem de turistas mal educados. Ao lado da minha barraca, escondido numa moita, encontrei uma grande folha de plástico transparente, provavelmente usado para forrar o piso de alguma barraca. Levei o plástico de volta comigo até Puerto Williams.

Seguimos trilhas razoavelmente bem pisadas no dia seguinte, entre bosques e lamaçais, com muito sobe e desce, até a subida final que nos levou até o Paso Virginia. Essa sela no topo da montanha chata era nossa passagem de volta ao Canal Beagle e ao fim da nossa travessia. Uma vez no topo da montanha, caminhamos cerca de um quilômetro por uma zona estéril e rochosa que lembrava os filmes de ficção científica passados em Marte. Em seguida, veio o trecho mais cheio de adrenalina do circuito: uma descida de 200 metros verticais em apenas 400 m de extensão, por pedriscos soltos na encosta da montanha, que nos levaria à Laguna de las Guanacas e último acampamento da expedição.

Havia turistas chilenos na descida, um pouco assustados e lentos, que eu, Bernardo e Gigio ultrapassamos a toda velocidade morro abaixo, esquiando no terreno instável. Era mais perigoso descer devagar do que rápido com controle.

Montamos acampamento perto de outra castoreira, cujo proprietário também apareceu para nadar no fim do dia. Esse foi o acampamento mais frio da aventura. Tivemos neve, gelo em cima das barracas e geada. Tudo junto. De manhã, enquanto tomávamos o café, nevou tanto que ficava difícil enxergar as montanhas que nos rodeavam.

No último dia de trekking, descemos por uma fazenda de gado até a estrada de terra que conecta Puerto Navarino a Puerto Williams, a mesmo que havíamos feito de microônibus ao chegarmos à ilha. Quando chegamos à estrada, paramos para comer nossos lanches e esperar uma carona. Pareceu combinado, acabamos de comer, Gigio e Rodolpho resolveram sair caminhando, e passou um carro. Um chileno simpático nos levou — eu, Sergio e Bernardo — até a vila e nos deixou na praça central. Minutos depois Gigio e Rodolpho também chegaram, vindos com outra carona.

Fim da expedição.

CONSIDERAÇÃO FINAIS

A primeira coisa que me vem à cabeça ao tentar avaliar o resultado, ou os resultados, dessa empreitada é esperança. Tenho esperança que Gigio tenha gostado da experiência e queira seguir no caminho da aventura, que graças à iniciativa do pai, Rodolpho, pude ajudar a apresentar ao garoto.

Eu mesmo comecei na aventura com 13 anos, mesma idade do Gigio, por iniciativa de um pequeno grupo de jovens como eu. Naquela época, em 1976 ou 1977, a gente pegava um ônibus, descia de São Paulo até o litoral, por exemplo, se metia no mato, acampava e voltava pra casa sem que nossos pais sequer soubessem por onde a gente tinha andado. Outros tempos.

Fico feliz que a semente tenha sido plantada, independente do resultado. Fico feliz que gente como Rodolpho, Bernardo e Sergio confiem em mim o suficiente para dedicar suas férias num projeto como esse, com tantas chances de dar tudo errado. Porque, com certeza, havia chance do sobra de dar tudo errado. E nem eram poucas.

Riscos de acidentes são uma realidade, sem dúvida. Mas riscos de desentendimento, de frustração, de atrito quando cinco pessoas passam nove dias de convívio intenso, todo mundo fora das respectivas zonas de conforto, são muito maiores! E não tivemos um problema. Mérito do grupo! 

Para mim, essas aventuras são como o portal entre dois pinheiros, ou entre duas árvores quaisquer, a que se referiu John Muir no livro My First Summer in the Sierra. Não se trata de mágica, de algo sobrenatural, esotérico ou místico. É simplesmente a oportunidade que se abre para nós de entrarmos em contato com aquela nossa parte que se mantém sempre conectada a todas as demais formas de vida, seja orgânica ou inorgânica, visível ou invisível, compreensível ou não. Algo que vai além da nossa consciência. Muitos portais se abrem em nosso caminho, tantos quanto o número de árvores que avistamos ao longo da vida, o segredo é estarmos atentos a eles. 

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