CARNAVAL BIKEPACKING 2019

10 de março de 2019

Relato e fotos do treino de bikepacking realizado na Serra da Mantiqueira em março de 2019.
TEXTO: Guilherme Cavallari / FOTOS: James Vaccari e Fernando Zanelato

Já é uma tradição no REFÚGIO KALAPALO — nossa escola de aventura em Gonçalves (MG), na Serra da Mantiqueira —, passarmos o carnaval pedalando e acampando selvagem pelas montanhas aqui da região. Desde 2014, conseguimos passar os quatro dias de folia sem ouvir axé ruim, sem abraçar bêbado chato e com as bocas livres de confete. Em compensação, nunca falta subida íngreme, descida escorregadia, muita lama, um tanto de chuva e uma sequência de acampamentos improvisados e divertidos. Nos nossos carnavais a gente não veste fantasia, a gente vive fantasias. 

Esse ano, 2019, éramos quatro aventureiros: Guilherme, Fernando, James e Gisele. Fernando e James já haviam feito nosso CURSO DE BIKEPACKING e buscavam mais experiência. Gisele veio do mountain bike competitivo, nunca tinha acampado selvagem antes, queria um desafio na bicicleta e acho que encontrou…

O roteiro escolhido foi o clássico Gonçalves (MG) – São Francisco Xavier (SP) – Monte Verde (MG) – Gonçalves (MG), publicado em duas versões diferentes nos meus livros GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA e GUIA DE TRILHAS ENCICLOPÉDIA VOL. 2. Mas, como sempre, estaríamos abertos para mudanças de percurso por conta de situações diversas.

CHOVE CHUVA, CHOVE SEM PARAR

Antes da partida, tivemos uma baixa. Ricardo, que pedalou comigo na Patagônia em janeiro de 2018, história relatada na série de textos AVENTURAS AUSTRAIS, saiu de Brasília de carro mas não conseguiu chegar até o refúgio. Teve problemas mecânicos e ficou no caminho.

A previsão climática não era animadora, mas já faz anos que não acompanho mais essas previsões. O clima no Brasil é ameno demais para causar preocupação de verdade. Se eu morasse no Canadá ou na Rússia, para citar apenas dois exemplos, seria diferente, mas aqui o pior que pode acontecer é chover forte, fazer muito sol ou um friozinho temperado que não congela ninguém. Nada que um conjunto básico de roupas técnicas para aventura e um pouco de disposição não resolva fácil.

No primeiro dia saímos de casa, no REFÚGIO KALAPALO, às 10h da manhã já sob chuva fina e constante. Tínhamos a opção de começar pedalando por trilhas mais técnicas com subidas íngremes, dessas que não dá pra pedalar nem sem chuva, mas optamos por começar leve pra aquecer os motores. Uma sequência de estradinhas de terra com raro movimento de veículos motorizados foi nos levando por bairros rurais — Campestre, Terra Fria, Juncal — até a divisa entre Gonçalves e São Francisco Xavier, divisa também entre os estados de Minas Gerais e São Paulo.

Pedalar com jaquetas impermeáveis no verão, mesmo debaixo de chuva, faz a gente suar e ficar tão molhado como se não usasse jaqueta alguma. Esse, aliás, é um erro clássico de quem começa na aventura: achar que jaquetas impermeáveis e respiráveis vão nos deixar completamente secos na chuva. Isso não existe! Mesmo os tecidos mais inteligentes, como Gore-Tex e afins, vão impedir apenas que o suor se acumule em poças internas dentro da roupa, como acontece por exemplo com jaquetas de nylon. A função real de anoraks e parkas é evitar a hipotermia, que acontece muito facilmente quando estamos molhados e expostos ao vento.

Chegamos ao topo da Serra de Santa Bárbara, que despenca até São Francisco Xavier, perto das 17h e prontos para o primeiro acampamento selvagem. Eu já havia acampado duas vezes num reflorestamento de pinos nesse topo de montanha, mas sabia que com tanta chuva o terreno estaria encharcado e enlameado. Nada confortável. Como aconteceu outras vezes, fui até uma casa vizinha a esse reflorestamento pra pedir água, que precisaríamos para cozinhar o jantar, para o café da manhã e para reabastecer nossos sistemas de hidratação para o dia seguinte. Sugeri ao grupo que descêssemos a serra até encontrar algum lugar mais seco para a noite. Todos aceitaram a ideia. 

Carregados com 3 litros de água cada um, agradecemos aos moradores da casinha pela generosidade e começamos a descer o morro. Embiquei a bike pra baixo e, como sempre faço, testei os freios para desencargo da consciência. Nada! Eu quero dizer: absolutamente nada! Os manetes estavam moles como se eu apertasse um alicate contra um chumaço de algodão! Antes da primeira curva na descida, havia uma capelinha de alvenaria à minhas direita com um pedaço de grama em subida na lateral. Joguei a bike sem freio pra cima da grama e consegui parar a bicicleta com os pés, sem cair e sem maiores problemas. Apenas o susto devidamente controlado. 

Empurrei a bike de volta ao topo e encontrei o dono da casinha onde havíamos pegado água nos esperando. Nuvens pretas de tempestade e trovões ameaçadores nos esperavam no fundo do vale, para onde nos dirigíamos, e o homem estava preocupado conosco.

— Vocês não querem acampar no nosso quintal? Podem até usar o banheiro…

E ele não precisou convidar duas vezes.

A HOSPITALIDADE É SEMPRE BEM-VINDA

Nesses treinamentos e nas expedições que organizo com os alunos mais avançados nos meus cursos, geralmente na Patagônia e na Terra do Fogo, como aconteceu recentemente com a EXPEDIÇÃO BIKEPACKING TERRA DO FOGO 2019 e a EXPEDIÇÃO TREKKING NAVARINO 2019, tento informar e orientar os alunos a serem flexíveis sem nunca perderem a autossuficiência. Um equilíbrio delicado. Isso quer dizer que partimos sempre prontos para enfrentar todos os desafios e dificuldades sem precisar da ajuda de ninguém. Carregamos nossa comida, água, abrigo, equipamento, a roupa apropriada e as ferramentas necessárias para resolver eventuais panes mecânicas nas bikes. Temos que dominar as técnicas de navegação, de mecânica de emergência, de primeiros socorros e de acampamento selvagem de mínimo impacto ambiental, mas não precisamos fechar os olhos para oportunidades que apareçam. Aceitar a hospitalidade alheia, além e facilitar nossa vida e preservar nosso equipamento e recursos, também é uma chance de travar contato com o povo local, ouvir histórias e aprender com os outros. 

Usamos a varanda da família para cozinhar nosso jantar de polenta com queijo gorgonzola e damascos secos, chique no úrtimo, e para montar as barracas antes de colocá-las no gramado e na chuva. Gisele aproveitou e tomou banho quente e também usou o banheiro da casa. Foi uma primeira noite menos selvagem do que o esperado, mas nem por isso com menos aventura. 

Na manhã seguinte, partimos, montanha abaixo, até São Francisco Xavier. Não ficamos muito tempo na vila e logo começamos a subir a longa serra em direção a Joanópolis e Monte Verde. No TREINO DE BIKEPACKING do feriado de finados nós não conseguimos chegar até Monte Verde e voltamos do topo dessa serra. Nesse treinamento de carnaval teríamos quatro dias de pedal, tempo suficiente para tentar fazer o percurso completo. Nesse dia tivemos sorte com a chuva, que apareceu fraca e intermitente em apenas alguns pontos do caminho.

Em conversas com peregrinos que encontramos na trilha, alguns a cavalo, outros de bike, tirei dúvidas em relação ao roteiro e descobri que havia um atalho até Monte Verde que nos pouparia cerca de 40 km. Ou seja, em apenas 160 km totais nós poderíamos fazer a volta que havíamos planejado fazer em 200 km de pedal. Uma notícia positiva porque a lama nas estradas fazia nosso esforço muito maior do que o imaginado. Mais uma vez, era uma aula de flexibilidade que a expedição nos ensinava.

Barro grudento, chuva fina esporádica, subidas íngremes e descidas escorregadias nos levaram até o Bairro do Abel, no município de Joanópolis. James tinha uma relação de marchas muito pesada, com poucas opções de marchas leves, que o obrigavam a empurrar a bicicleta em quase toda subida mais forte. Sobre essa assunto, escrevi um texto explicativo interessante, chamado BIKEPACKING: A MARCHA DA VOVOZINHA. Eu olhava o esforço que ele fazia e me perguntava se teria a mesma força de vontade no lugar dele. Gisele pedala forte, mas nunca tinha carregado tanto peso de bagagem na bicicleta e também empurrava nas subidas empinadas. Fernando investiu num cassete com marchas maiores, investiu também em equipamento leve e compacto, então conseguia pedalar mais que os outros. 

Decidimos acampar na igreja do Bairro do Abel, que estava em reforma. Fui até o vizinho mais próximo pedir permissão, para não criar atrito com a comunidade. Acabei descobrindo que a reforma, tanto da igreja quanto da escolinha rural ao lado do templo, estava sendo financiada pela sobrinha do senhor que me atendeu, uma advogada de São José dos Campos (SP), que havia comprado as terras da família, que era pioneira na região, e estava restaurando o patrimônio histórico e arquitetônico local com recursos pessoais. Uma iniciativa que me fez pensar que nem tudo está perdido no mundo! 

Ocupamos uma área de cozinha no fundos, onde pudemos cozinhar nosso Miojo com azeitonas e o gorgonzola que sobrou do jantar anterior. Improvisei um varal para secar nossas roupas molhadas de suor e chuva e montamos as barracas debaixo de outro telhado. Entramos na igreja e encontramos um banheiro com privada e pia, tudo funcionando. Confortos que não estavam nos planos, mas que foram muito bem-vindos. 

Fazia muito calor, então armei a barraca apenas com o mosquiteiro, sem o sobreteto impermeável. Burrada! Duas horas depois, quando eu já estava embalado no sono, veio um vendaval e uma tempestade de verão e acordei debaixo de um esguicho d’água! Ainda bem que eu estava usando o quilt (um tipo de saco de dormir sem capuz e zíper) EB-II da marca australiana SEA TO SUMMIT, que tem as plumas protegidas por uma substância hidrorrepelente. As plumas são impermeáveis e não encharcam. Não fosse isso minha vida teria se complicado. Num salto, saí da barraca e arrastei tudo pra trás de um muro baixo, pra dentro da área da pia da cozinha, onde consegui voltar a dormir rindo da minha própria estupidez, ou do excesso de otimismo.

UMA SEQUÊNCIA DE SURPRESAS

No dia seguinte, vencemos um longo trecho em subida, por dentro de bosques e áreas de reflorestamento, tudo com muita lama, até o asfalto que liga Camanducaia (MG) a Monte Verde (MG). Paramos num ponto de ônibus coberto para comer nosso lanche de trilha. Parou um ônibus e dele desceu um senhor idoso com um guarda-chuva, que parou pra conversar conosco.

O Sr. Horácio, de 84 anos de idade, nos informou que dali do ponto caminharia duas horas, por estrada de terra, até sua casa na roça. Ele era viúvo, morava sozinho e estava voltando do posto médico, onde fez uma consulta e pegou alguns remédios. Falante e de olhos brilhantes, ele contou que trabalhou no campo a vida toda, criou porcos que ele vendia em distritos vizinhos, tocando varas de quase 100 animais por trilhas de cavalos e no meio do mato por dias. Ele conhecia e já havia cavalgado, antes de haver estradas, toda a extensão do caminho que havíamos feito e que ainda faríamos em bicicleta. Ouvir suas histórias colocou em perspectiva a dinâmica da ocupação humana naquele trecho montanhoso da Mantiqueira. Não fazia tanto tempo assim o principal meio de transporte era o cavalo e a carroça. A única profissão era a de pequeno produtor agrícola, de lenhador ou de pequeno criador de animais. Não existia turismo e aquelas terras todas eram habitadas por gente local. Hoje, vastas extensões de terra estão tomadas por reflorestamentos, verdadeiros desertos verdes onde só cresce um tipo de árvore, exótica e introduzida, e onde não vive mais ninguém. Casas de férias, sítios e chalés de turistas empregam os poucos descendentes dos antigos proprietários de terra como caseiros, jardineiros e faxineiras. A população rural praticamente desapareceu. A economia ficou concentrada nas mãos de grandes produtoras de madeira, como a Companhia Melhoramentos, a Klabin e a Votorantin, empreendimentos imobiliários que constroem condomínios e um ou outro hotel. Por todo lado, em nossa curta aventura, vimos igrejas e pequenas escolas rurais abandonadas. Estradas de terra em condições razoáveis de uso permitiam, hoje, o trânsito de veículos motorizados de pequeno porte. Havia uma ilusão de progresso e prosperidade, visível no trânsito de carros, mas a verdade era que a Mantiqueira estava economicamente mais pobre para a população, menos produtiva em termos de diversidade e praticamente esvaziada de sua cultura tradicional. O Sr. Horácio, com toda sua energia e vivacidade aos 84 anos de idade, era um último suspiro de um tempo infelizmente já extinto. 

Não entramos em Monte Verde, o que significaria pedalar mais 6 km pra chegar à vila e os mesmos 6 km para pegar a saída em direção a Gonçalves, nosso destino final. Fizemos, no entanto, uma parada estratégica num restaurante alemão na beira da estrada para comer Apfelstrudel e tomar café espresso

Enfrentamos muita lama em alguns trechos, onde era impossível pedalar. O barro grudava nos pneus, preenchia os elos da corrente, fazia a bicicleta dobrar de peso. James já nem tentava pedalar nas subidas. Gisele também empurrava a bike pesada de bagagem em toda subida mais íngreme. Fernando conseguia pedalar no limite de suas forças. 

Faltando cerca de 30 km para chegar em casa, ainda no município de Sapucaí Mirim, a corrente do Fernando quebrou. Ele tentou consertar sozinho enquanto nós esperávamos uns 400 m adiante, perto de algumas casas, mas não conseguiu resolver o problema. Eu já pensava na possibilidade de pedir para acampar no jardim de alguma residência, já que não conseguiríamos completar a quilometram naquele dia e nem era esse o plano. Mandei recado com o motorista de um carro, que ia na direção de onde o Fernando estava, pedindo que que ele empurrasse a bike até nós, já que era tudo descida. Fiquei sabendo do problema do Fernando por outro motorista, de uma moto, que Fernando incumbiu de me avisar. Esse método de correio, passando e recebendo mensagens através de motoristas solícitos, é o que eu chamo de “correio gasolina” e funciona muito bem. Comunicação independente de sinal de celular. Minutos depois o Fernando apareceu, empurrando a bike e com a corrente partida na mão.

Enquanto resolvíamos a pane mecânica, uma picape 4×4 preta passou e parou ao nosso lado. “Guilherme?”, perguntou o motorista. Era um dentista de São Paulo, Adriano, que tinha um sítio logo atrás das casas na beira da estrada. Ele e a esposa estavam inscritos na próxima turma do meu CURSO DE TREKKING. Nós não nos conhecíamos pessoalmente, mas ele havia lido no meu site que eu estaria pedalando na região e chegou a oferecer, via Whats, o quintal de sua cada para que acampássemos em sua propriedade. “A oferta ainda está de pé?”, perguntei. “Claro!”. E acabamos montando nossas barracas à beira de um lago de peixes vizinho à sua casa de férias.

RETA FINAL

Dormimos embalados por uma sinfonia de sapos e rãs que coaxavam animados e afinados. Não abusamos da hospitalidade do casal Adriano e Fernanda, que queriam até cozinhar um jantar para nós, mas usamos a cozinha deles para preparar nossa polenta com atum. Tomamos café da manhã nessa cozinha também, mas fizemos questão de comer nossa própria granola. Queríamos diminuir o peso das bikes para a reta final. 

Perto do bairro do Juncal, a corrente do Fernando quebrou ainda mais uma vez, resultado do excesso de lama e, provavelmente, da má qualidade de um óleo de corrente sul-africano que ele estava usando. O produto talvez funcione bem para o clima seco e empoeirado da África do Sul, mas não respondia às necessidades do verão chuvoso da Mantiqueira. 

Chegamos relativamente cedo ao REFÚGIO KALAPALO, antes das 16h. Meus companheiros estavam bem cansados, mas visivelmente satisfeitos com a experiência. Pedalamos 160 km totais e acumulamos 4.000 m verticais de subidas e o mesmo tanto de descidas. Aproveitamos oportunidades de algum conforto nos acampamentos, mas efetivamente viajamos autossuficientes e dormimos em nossas respectivas barracas por três noites consecutivas. Como treinamento de bikepacking, que era a proposta da expedição, a experiência com certeza atendeu às expectativas de todos, inclusive as minhas. 

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