CARNAVAL BIKEPACKING 2022

5 de março de 2022

A ARTE DE EMPURRAR A BIKE… 

Sou da velha escola do mountain bike onde empurrar a bicicleta era sinônimo de fraqueza. Ciclista bom é ciclista forte, dizia a regra. Quem é forte não empurra. Mas calma! Já deixei esse ensinamento pra trás… 

Todas as melhores experiências que vivi em bikepacking, pedalando e acampando selvagem em contato com a natureza, tiveram longos momentos de empurra-bike. Descobri, com a maturidade, que a vida não é uma competição. Ser forte ou ser fraco é uma comparação inútil. Sempre haverá alguém mais forte ou alguém mais fraco que nós. Com o tempo, se tivermos sorte, ficaremos velhos e perderemos muito de nossas forças. Assim é natureza, como já dizia o Buddha e meu avô argentino. Conseguir empurrar a bike será então uma vitória. Além disso, montanha e trilha não estão nem aí para o nosso desempenho físico. 

Empurrar a bike é melhor do que não pedalar. Empurrar a bike é o reconhecimento dos nossos limites. Empurrar a bike é aceitar nosso tempo e nosso espaço no mundo. Eu já empurrei bike na Serra Fina, como mostrei no documentário SERRA FINA, PERNA GROSSA, e sigo empurrando a bike pela Serra da Mantiqueira, onde vivo, como mostram agora essas fotos. Já empurrei a bike na Patagônia, nas Highlands da Escócia e na Mongólia, como narro em meus respectivos livros: TRANSPATAGÔNIA: PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS e TRANSMONGÓLIA: GENGIS KHAN NA GARRAFA DE VODCA. Quero empurrar a bike na travessia solo que vou fazer em breve, cruzando Equador, Peru e Bolívia em estilo bikepacking. Quero empurrar a bike num monte de lugares ainda! O mais importante, penso, é sair de casa com a bicicleta sabendo que estou preparado pra pedalar ou empurrar. Venha o que vier! Fica apenas a dica técnica: empurre sempre do lado esquerdo da bike, com a magrela do seu lado direito, pra não se machucar na corrente! 

Como faço todos os anos desde 2015, quando saí de São Paulo para viver nas montanhas, organizei mais um treinamento de bikepacking aqui no quintal de casa: quatro dias de mountain bike e três noites de acampamentos selvagens, tudo de forma autossuficiente, minimalista, independente e um pouco improvisada. Nunca sei, por exemplo, onde exatamente vou acampar cada noite. O roteiro é uma proposta geral, que vai depender do rendimento e da disposição do grupo. Eu simplesmente adoro não saber onde vou dormir a próxima noite! Acho fantástico não saber que caminho tomar e aceitar as variantes que aparecem no caminho! 

Em 2022, quando a pandemia de Covid-19 parecia menos descontrolada (doce ilusão no Brasil bolsonarista), reuni quatro companheiros: Fernando Zanelato, 54 anos, empresário, residente de São Paulo, que já fez nosso CURSO DE BIKEPACKING e pelo menos outros três treinamentos do tipo. Jefferson Costa, 33 anos, fotógrafo, também residente em São Paulo. Eduardo Augusto Lacerda Andrade, 33 anos, economista, também de São Paulo. Paulo Fernando da Silva Souza, 49 anos, servidor público federal, residente de Brasília. Fora o Fernando, os demais nunca tinham me conhecido pessoalmente. Todos passaram por uma rígida seleção e foram aprovados para a mini-expedição. 

Partimos do REFÚGIO KALAPALO, nossa escola de aventura e abrigo de montanha em Gonçalves, MG (funcionando como camping durante a pandemia, com um rígido PROTOCOLO ANTICOVID), em direção à Pedra de São Domingos. Essa grande formação rochosa, de 2.050 m de altitude, infelizmente ocupada por antenas de televisão e de telefonia celular, é um marco geográfico aqui no Sul de Minas. Minha casa fica a 1.585 m acima do nível do mar, então tudo aqui é relativamente alto, tornando qualquer deslocamento em bicicleta uma luta constante contra o relevo. A distância de casa até a Pedra de São Domingos não assustava muito, mas o acúmulo de metros subidos é desconcertante. Entre as várias opções de caminho, optei por seguir primeiro para o bairro do Juncal, no município de Sapucaí Mirim, SP. Não quis assustar os companheiros logo no primeiro dia. 

Não pedalamos muito nessa primeira jornada. Foram apenas 32 km, mas subimos cerca de 1.200 m acumulados e descemos mais ou menos a mesma coisa. No bairro do Mato, ainda em Sapucaí Mirim, paramos para pedir informação a um morador local e Fernando desapareceu! Mais tarde descobrimos que ele saiu de cena pra fazer xixi, sem avisar, no momento exato em que decidimos seguir viagem. Perguntei ao grupo onde estava o companheiro e fui informado que ele “tinha saído na frente”. Nos perdemos dele. Sem cobertura de telefonia celular não havia como saber onde Fernando estava. Já era tarde para tentarmos escalar os 2.050 m da Pedra de São Domingos e a ideia que tive foi tentar encontrar um lugar pra acampar na região da fazenda Monte Azul, onde fica o acesso 4×4 à Pedra. Esse primeiro acampamento foi estranho, com um companheiro a menos. Um funcionário da fazenda permitiu que usássemos um barracão na beira da estrada. Era um bar fora de uso marcado pela lama das fortes chuvas do verão. Com teto, piso de cimento liso, paredes rústicas, sem energia elétrica, banheiro sem água e um riacho limpo ao lado, ficamos hospedados como aristocratas. Nem precisamos armar nossas barracas. 

O segundo dia foi de escalada. Não sabíamos onde o Fernando estava. A subida da Pedra de São Domingos para bicicletas com mais de 15 kg de carga, pesando às vezes um total de 30 kg, significa empurrar a bike boa parte do caminho. Essa foi, inclusive, a inspiração para a abertura dessa narrativa. Subi olhando meus pés, cansados demais para erguer a cabeça. Fazia calor e suávamos em bicas. Quando chegamos a um camping, o único no local, já altos na montanha, lá estava Fernando à nossa espera. Ele havia progredido no roteiro planejado, certo de que nós o acharíamos mais cedo ou mais tarde. Na verdade, ele previu exatamente o horário da nossa chegada: 11h30 da manhã. Comemoramos a reunião com um almoço no local. Depois do descanso, seguimos subindo até as antenas, pra depois descer (despencar, poderia ser o termo mais certo) pela trilha que chega até a fazendo Monte Azul, onde havíamos passado a noite anterior. 

Essa trilha foi, talvez, o ponto alto do roteiro. Começamos nos perdendo um pouco porque o caminho é confuso. Rasgamos mato por quase uma hora, empurrando a bike pra cima e pra baixo. Picadas de vacas permitiam algum progresso, mas logo nos guiavam à mata fechada. Quando finalmente acertamos o caminho, foi só descida! Sou fã desse tipo de pedal de exploração, sem medo de enfrentar obstáculos naturais. Nesses momentos tudo é testado: nosso equipamento, nossa disposição, nosso condicionamento físico, nosso humor. Meus companheiros passaram no teste com louvor. Não ouvi um suspiro sequer de desaprovação ou censura. Esse é o espírito! Chegamos, horas mais tarde, a São Mateus de Minas, distrito de Camanducaia, MG, onde paramos para comer sanduíches num quiosque e perguntar onde poderíamos acampar. Tati, a dona do quiosque, ligou para um primo que administrava a Fazenda Velha, propriedade que empresta o nome ao bairro onde ela está localizada. Recebemos autorização pra acampar na Cachoeira do Alemão, a 7 km de São Mateus. Esse foi um dia de  34 km e mais de 1.100 m subidos acumulados. 

Choveu bastante enquanto montávamos o acampamento. A cachoeira estava gorda, barrenta e muito barulhenta. Não foi um acampamento confortável, estava úmido, não havia bons lugares pra montar as cinco barracas e eu nem consegui me banhar na cachoeira. Mas bikepacking é assim: “um dia chanceler, um dia sem comer”, como diz a música do Gilberto Gil. 

O terceiro dia nos levou até Monte Verde, MG, também distrito de Camanducaia. Na verdade não entramos na vila, paramos alguns quilômetros antes no Rasselbock, um restaurante de comida alemã e boas cervejas onde sempre bato cartão. Chegamos quarenta minutos antes da cozinha abrir e pudemos pegar uma boa mesa ao ar livre, debaixo de dois guarda-sóis. Estávamos sujos e fedidos demais pra ficar em ambiente interno. Nesses treinamentos pra expedições só levamos uma roupa de pedalar, que no terceiro dia já está imprestável. Uma das técnicas que utilizamos é o minimalismo, fundamental pra conseguirmos cobrir distâncias sem nos exaurirmos com o excesso de bagagem. Depois da longa e apetitosa parada para o almoço, que durou cerca de três horas, seguimos rumo a Gonçalves. Esse é o “caminho da roça” pra mim. Já fiz esse percurso inúmeras vezes, tanto de bike, quanto a pé ou de carro. Esse trecho, inclusive, está mapeado e publicado no GUIA DE TRILHAS CICLOMANTIQUEIRA, o livro que lancei em 2008 e que ainda nos orienta e inspira para travessias ciclísticas pela Serra da Mantiqueira. Chegamos perto de Bom Jardim de Minas, município mineiro, onde acampamos no sítio de um amigo e aluno do nosso CURSO DE TREKKING, Adriano Marques Serrato, dentista de São Paulo que se mudou com a esposa, Fernanda, para as montanhas. Pedalamos um total de 41 km com 840 m de subidas acumuladas. Um dia que pudemos considerar fácil. 

 

Foi difícil acordar cedo no último dia. Adriano fez um churrasco pra nós, tomamos cervejas, conversamos sobre a vida e fomos dormir tarde. A generosidade e a hospitalidade têm seu preço. Essa foi a terceira vez, o terceiro carnaval, que acampamos no sítio do Adriano e da Fernanda. Isso já está virando uma tradição, além de um grande prazer. Pedalamos de volta ao bairro do Juncal, pertinho de casa, onde paramos novamente na padaria local. A sensação que tive foi a de que havíamos estado ali poucas horas antes, não quatro dias atrás. Os quilômetros e as experiências vividas pareciam comprimidas e arquivadas em algum lugar pouco acessível, um depósito de coisas complexas demais para serem corretamente descritas. Expedições, em geral, causam essa sensação. Vivemos uma rotina de esforço e desconforto repleta de incertezas, mas também completa de realização e satisfação. Temos muito pouco, tão pouco que cabe tudo dentro de uma mochila ou em cima de uma bicicleta, mas nada parece faltar. Ficamos surpresos com uma noite perfeita de sono, uma refeição simples que nos sacia, a resposta eficiente de nossos corpos. Somos constantemente lembrados que somos livres, saudáveis e conseguimos fazer bem mais do que supúnhamos. Coisas que o dia a dia no mundo urbano nos faz esquecer. 

Pedalamos 33 km nesse quarto e último dia, com 1.100 m subidos acumulados. Voltamos para o REFÚGIO KALAPALO pela subida íngreme depois do restaurante Ao Pé da Pedra, já em Gonçalves. “A cereja do bolo”, como definiu o Fernando, já acostumado com meu hábito de escolher sempre o caminho mais duro. Foi difícil até empurrar a bike montanha acima. 

O resumo numérico do treinamento ficou assim: mais de 140 km percorridos, com mais de 4.200 m subidos acumulados e o mesmo tanto de descida, já que começamos e terminamos no mesmo lugar. Apenas um pneu furado, uma mão de luva perdida, um companheiro extraviado e depois reencontrado. O Paulo caiu várias vezes na trilha porque está aprendendo as técnicas do mountain bike. O Eduardo passou um pouco de fome até se habituar um pouco com a dieta restrita de expedições. O Jeff ficou pilhado em pedalar na Patagônia e rendeu superbem na Mantiqueira. O Fernando esqueceu a toalha de banho na minha casa, ele sempre esquece alguma coisa, e segue sonhando com  a Patagônia também. Eu descobri caminhos novos perto de casa, ganhei novos amigos e treinei para minha próxima grande travessia. Enfim, acho que todos saímos mais experientes, mais confiantes e mais felizes da experiência. 

Agradeço ao Jeff Costa (@jeffcostaphoto2) pelas ótimas imagens que ilustram essa narrativa. Não é fácil pedalar, acampar, empurrar a bike e não perder o foco. 

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